A ALEMANHA, O SEU PAPEL NOS DESEQUILÍBRIOS DA ECONOMIA REAL. O OUTRO LADO DA CRISE DE QUE NÃO SE FALA. UMA ANÁLISE ASSENTE NA DIVISÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO [1] – Uma coleção de artigos de Onubre Einz. VII – A enorme força comercial da Alemanha e os seus mecanismos (parte 1).

mapa_alemanha

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

força e mecanismos

VII – A enorme força comercial da Alemanha e os seus mecanismos (parte 1), por Onubre Einz.

 

 

 

 

Publicado por criseusa.blog.lemonde.fr, em 23 de junho de 2013

Reedição revista dos artigos publicados em A Viagem dos Argonautas em 17 de abril de 2015 17 de abril de 2015 (https://aviagemdosargonautas.net/2015/04/17/a-alemanha-o-seu-papel-nos-desequilibrios-da-economia-real-o-outro-lado-da-crise-de-que-nao-se-fala-uma-analise-assente-na-divisao-internacional-do-trabalho1-vii-a-enorme-forca-de-me/) e em 18 de abril de 2015 ( https://aviagemdosargonautas.net/2015/04/18/a-alemanha-o-seu-papel-nos-desequilibrios-da-economia-real-o-outro-lado-da-crise-de-que-nao-se-fala-uma-analise-assente-na-divisao-internacional-do-trabalho1-vii-a-en/)

Formulámos a ideia de que a Alemanha beneficiou de condições de produção vantajosas de riqueza. Iremos agora analisar como é que as economias de Leste, sujeitas à subordinação da produção de riqueza alemã, contribuem para lhe oferecer vantagens competitivas consideráveis em termos de custos. Também examinamos as razões pela qual a Alemanha alcançou um resultado notável de trocas com os países da Europa Ocidental.

Em suma, examinamos aqui como é que o Made by Germany se vem somar às vantagens da Made In Germany. O Made In Germany tem pontos fortes conhecidos: qualidade dos produtos, tecido industrial forte e robusto, financiamento bancário ad hoc, co-gestão entre o pessoal de direcção e os sindicatos etc.

made by Germany tem a brilhante vantagem de bem sublinhar este efeito, estas vantagens.

Para escrever este texto, escolhemos dois grupos de países: um grupo de países de Leste que reúne a Polónia, a República Checa e a Hungria e um grupo de países do Sul da Europa, que reúne a França, Espanha, a Itália. O primeiro grupo reúne as economias integradas (e alguns diriam alienadas) com os interesses económicos alemães. Estas economias são utilizadas para fornecer os elementos que são depois montados na Alemanha.

O segundo grupo sofre o impacto brutal dos efeitos da divisão regional implementada nas fronteiras da Alemanha, uma vez que é com estes últimos países que a Alemanha realiza os seus excedentes comerciais recordes.

Mas não é a exaustividade dados aquilo que aqui nos interessa. É mais importante ilustrarmos a nossa ideia sobre o elevado grau de adaptação do modelo de crescimento americano que foi alcançado pela Alemanha e os benefícios daí resultantes para a Alemanha. Neste sentido, este trabalho é apenas um modelo para entendermos através de que mecanismos a Alemanha realiza o seu crescimento sobre as costas do conjunto dos países da Europa com o qual alcança verdadeiras proezas comerciais.

Este texto completa, pois, as análises de dumping salarial estabelecido sob Schröder e moderado depois por Merkel. É uma análise mais precisa do que fizemos para aflorar as vantagens das trocas com os países do Leste. Para simplificar a análise, apresentamos a Alemanha como uma base de montagem para melhor sublinhar a lógica económica subjacente para a divisão regional de trabalho criada depois da queda do muro de Berlim. Chegou agora a altura de tornar mais precisa essa análise, fazendo algumas observações adicionais sobre as produções alemãs deslocalizadas.

Desde os tempos de Schröder, que o elevado grau de adaptação feito pela Alemanha ao modelo da economia dos EUA permite copiar certos traços do capitalismo americano sem desenvolver todas as suas características. Ora, dois traços do capitalismo americano foram bem desenvolvidos na Alemanha desde a década de 2000: a) por um lado um alargamento das desigualdades para benefício das famílias no topo da pirâmide social, penalizando principalmente as famílias dos decis 1-5, e poupando as famílias dos decis 6-9; b) por outro lado dá-se uma queda dos investimentos produtivos alemães que se traduzem num enfraquecimento industrial do país.

Vamos mostrar, em forma de conclusão, que a divisão regional do trabalho e as trocas comerciais da Alemanha são partes integrantes dessa adaptação da economia alemã ao modelo americano.

A – O grupo dos países do Leste (Hungria, Polónia, República Checa)

A análise dos esforços produtivos é feita ligando as componentes dos investimentos brutos ao PIB. É a maneira mais conveniente para comparar a acumulação de capital na Alemanha e nos países do Leste.

Os equipamentos (F) são compostos por duas variáveis: máquinas e equipamentos de transporte (F) e máquinas e elementos metálicos (E). O capital produtivo propriamente dito consiste em máquinas e elementos metálicos. É necessário acrescentar os imóveis do sector produtivo (C).

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A análise dos esforços de equipamento mostra duas coisas:

1º Os esforços da Alemanha estão próximos dos esforços da média europeia (UE-27) de que se distinguem ligeiramente somente desde 2005.

2º Entre os três países de Leste, a Hungria e a República Checa têm feito consideráveis esforços de investimento em equipamento.

É talvez a grande surpresa deste gráfico: a Alemanha depois de 2000 não fez muito melhor que a Polónia, que é a economia menos integrada na divisão regional do trabalho implementado pela Alemanha.

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A análise do núcleo central de qualquer sistema produtivo, as máquinas e elementos metálicos, confirma as análises anteriores. A República Checa e a Hungria fizeram esforços de investimento significativamente maiores do que aqueles que fez a Alemanha, que aparece perto da média europeia. Por ordem crescente de esforço, ela encontra-se ultrapassada pela Polónia, a Hungria e a República Checa.

O fosso entre a Alemanha e os países que estão na sua esfera de influência económica é, pois, flagrante. Esta diferença é tanto mais marcada quanto a Alemanha desde 2000 tem investido em máquinas e bens de equipamentos em detrimento de bens imobiliários residenciais.

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Esta escolha desfavorável ao imobiliário empresarial é particularmente sensível neste terceiro gráfico. O imobiliário das empresas alemães está abaixo da média europeia e dos investimentos da Polónia, Hungria e da República Checa.

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A única área onde a Alemanha ocupa o mesmo nível que os seus vizinhos da Europa Oriental e da UE-27 é a dos meios de transporte. Mas os esforços que a Alemanha realizou são ultrapassados pelos que foram feitos pela pequena República Checa.

O primeiro conjunto de gráficos acima mostram que a Alemanha não é em nada uma super-potência cujo investimento produtivo seja excecional. A comparação do seu esforço de investimento produtivo com o dos seus vizinhos leva-nos a defender a tese seguinte: a Alemanha pôde negligenciar um investimento produtivo intenso graças ao esforço produtivo feito pelos seus vizinhos europeus orientais de que ela se aproveitou, colocando-se numa posição de montagem final. É isto que explica que as taxas de investimento da Alemanha possam ser tão baixas ou pelo menos longe do peso do seu comércio na Europa e no mundo.

Há que extrair um certo número de conclusões: as performances comerciais alemãs teriam sido muito menores se a Alemanha tivesse que contar somente com o Made In Germany. Ao dumping de salários mais baixos, deve-se adicionar um dumping do investimento que não foi a Alemanha que suportou. A competitividade da Alemanha resultou da moderação salarial e das vantagens resultantes de um esforço produtivo mais importante feito por estes países subcontratados.

A análise dos gráficos 1,2,3,4 mostra também que as taxas de acumulação alemãs são demasiado fracas para explicar o peso crescente da Alemanha no comércio mundial. Insistimos já num texto anterior sobre o facto de que a Alemanha registou resultados comerciais modestos na Ásia e na América Latina, e estes resultados teriam sido ainda mais medíocres se a Alemanha não tivesse beneficiado dos esforços produtivos dos países que lhe estão subordinados economicamente. Os resultados da Alemanha na Europa e fora da Europa são, por conseguinte, inseparáveis de esforços produtivos não-alemães que a Alemanha soube pôr a funcionar para seu próprio proveito. Retornaremos a este ponto quando examinarmos a maneira como funciona uma economia alemã customizada ao modelo americano.

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A análise do crescimento das produtividades horárias é extremamente interessante. A progressão da produtividade horária da Alemanha alinha-se sobre a média europeia desde 2000. Os dados não estão disponíveis para os anos anteriores. O que é interessante em contrapartida é verificar que os investimentos muito importantes feitos nos nossos três países do Leste provocaram um crescimento da produtividade horária que alcançou o nível de progressão da produtividade do trabalho durante o período de 1993-2005. Desde esta data, a Hungria tem tido um comportamento igual ao da Alemanha, e a Polónia e a República Checa fazem melhor que ela.

Se nos lembrarmos que o crescimento da produtividade horária é constituído pelo aumento do valor das mercadorias produzidas por hora de trabalho, chega-se ao centro da análise deste trabalho. Os investimentos nacionalmente intensivos na Polónia, na República Checa e na Hungria tiveram como efeito aumentar o valor produzido nestes três países. Este valor não foi pago inteiramente pela Alemanha que teve um esforço produtivo nacionalmente mais fraco. Este fenómeno explica-se pelas razões seguintes: o valor produzido sob a égide de By Germany aproveitou-se por um lado dos efeitos normais da subcontratação numa cadeia de produção de mercadorias e de valor. É o elemento final da cadeia, quem monta e conclui o produto final, que determina o preço pago aos subcontratantes. O pagamento das peças montadas in situgermânico é tanto mais vantajoso quanto o pagador dispõe de uma divisa forte, o Euro.

O não-pagamento do valor dos produtos pelo país que conclui o processo de produção, que assegura a montagem final, traduz-se por uma realidade muito simples: por uma diferença de esforço de investimento e dos salários existentes entre estes países e a Alemanha assim como pelos elementos de produção que não são pagos aos preços alemães enquanto que o produto montado é vendido a um preço compatível com os preços de concorrência do Made in Germany. O mesmo é dizer, todos os benefícios são para a Alemanha. Constitui tudo benefício para a Alemanha.

Podemos completar a análise do Made in By quando uma produção é feita inteiramente fora da Alemanha por conta de uma empresa alemã: se este produto é um produto realizado fora da Alemanha, é, no final, a gestão dos lucros pelas sociedades alemãs que permite beneficiar dos esforços de investimentos do país de produção e das diferenças de salário com a Alemanha. Que os capitais sejam alemães muda pouco nesta repartição de lucros.

A lógica do Made by Germany permite assim à Alemanha adicionar a uma competitividade produto indiscutível, uma competitividade preço notável e que a moderação salarial alemã acentua. A força da Alemanha é ter conseguido não suportar a carga de investimentos produtivos que em parte delega nos outros países, tirando sempre proveito de uma divisão regional do trabalho que ela própria organiza produtiva e monetariamente para seu próprio proveito.

(continua)

Texto original em http://criseusa.blog.lemonde.fr/2013/06/23/iv-lirresistible-puissance-commerciale-de-lallemagne-et-ses-ressorts/

 

 

 

 

 

 

 

 

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