A ALEMANHA, O SEU PAPEL NOS DESEQUILÍBRIOS DA ECONOMIA REAL. O OUTRO LADO DA CRISE DE QUE NÃO SE FALA. UMA ANÁLISE ASSENTE NA DIVISÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO [1] – Uma coleção de artigos de Onubre Einz. VII – A enorme força comercial da Alemanha e os seus mecanismos (parte 2).

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Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

força e mecanismos

VII – A enorme força comercial da Alemanha e os seus mecanismos (parte 2), por Onubre Einz.

 

 

 

 

Publicado por criseusa.blog.lemonde.fr, em 23 de junho de 2013

Reedição revista dos artigos publicados em A Viagem dos Argonautas em 19 de abril de 2015 (https://aviagemdosargonautas.net/2015/04/19/a-alemanha-o-seu-papel-nos-desequilibrios-da-economia-real-o-outro-lado-da-crise-de-que-nao-se-fala-uma-analise-assente-na-divisao-internacional-do-trabalho1-vii-a-en-2/) e em 20 de abril de 2015 (https://aviagemdosargonautas.net/2015/04/20/a-alemanha-o-seu-papel-nos-desequilibrios-da-economia-real-o-outro-lado-da-crise-de-que-nao-se-fala-uma-analise-assente-na-divisao-internacional-do-trabalho1-vii-a-en-3/).

(conclusão)

B – Grupo dos países do Sul – França incluída.

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O gráfico das taxas de investimento em equipamentos mostra que a Alemanha fez esforços mais sensíveis do que a Espanha e do que a França, cujo nível de investimento é muito baixo. Permanece, no entanto, muito afastada do nível de investimento da Itália.

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A análise do centro do investimento produtivo mostra novamente que a Espanha e a França não fizeram um investimento nacional muito intensivo em bens de produção. É mais uma fez a Itália que aparece como relevante.

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O investimento em transportes não permite tirar conclusões nítidas. Estas despesas não são, aliás, as mais importantes no esforço produtivo de um país.

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O investimento em bens imobiliários das empresas trazem-nos mesmo a água ao nosso moinho: preocupada em reduzir ao mínimo os investimentos em edifícios destinados às empresas para reduzir o seu investimento nacional, a Alemanha tem investido claramente menos neste tipo de acumulação de capital do que a UE, a França ou a Itália. Simplesmente, deve notar-se que o nível muito elevado de investimentos espanhóis é explicado pela especulação imobiliária, que também atingiu a construção de imobiliário destinado às empresas.

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A comparação do progresso da produtividade reflete os esforços de investimento. O crescimento da produtividade do trabalho é muito regular na Alemanha, devido à importância do investimento produtivo em máquinas e bens de capital. Em comparação, a produtividade do trabalho em Espanha e na Itália parece ter sido nada brilhante, enquanto a progressão da produtividade do trabalho em França indica uma situação de descontinuidade depois de 2005.

Sendo a produtividade do trabalho uma das medidas da eficácia do investimento produtivo, é inegável que a Alemanha tinha uma vantagem competitiva em relação à França, Itália e Espanha, que com a Alemanha têm défices comerciais.

E, contudo, a comparação de investimento produtivo alemão com a UE mostra muito bem que este investimento produtivo nos equipamentos ou mais estritamente ainda em máquinas não pode, por si só, explicar os resultados do comércio alemão.

A primeira parte deste trabalho sugere que, mais do que ao argumento da qualidade dos produtos, se veio adicionar um argumento preço, aumentando significativamente a competitividade dos produtos alemães – já muito forte. Este argumento de preço é explicado pela divisão do trabalho vantajosa que a Alemanha tem praticado para lá das suas fronteiras e pela sua própria moderação salarial.

Os resultados alemães teriam sido bem menores se a Alemanha não tivesse conseguido fazer atuar um máximo de fatores vantajosos para si mesma. Estes bons resultados refletiriam a diferença de esforços dos investimento e das suas vantagens – já significativas – do Made in Germany.

Maximizando os seus pontos fortes, a Alemanha colocou-se numa posição de concorrente irresistível. Nós não podemos criticá-la por ter acumulado vantagens, mas no quadro de uma União Europeia abandonada ao jogo da concorrência livre e não falseada, criou desequilíbrios numa concorrência económica onde os seus concorrentes e parceiros não fizeram funcionar nem a carta da deflação salarial, nem o rigor orçamental e não dispunham de uma vantajosa divisão do trabalho. É, bem assim, que as vantagens alemãs se tornaram irresistíveis.

Em conclusão, este argumento de preço dos produtos deve ser recolocado na análise mais ampla de um capitalismo alemão customizado e a adaptar o modelo americano. De facto, este processo da Alemanha é inseparável de um aumento da desigualdade de rendimento na parte mais baixa da escala de rendimentos tendo como pano de fundo a queda da taxa de investimento produtivo na Alemanha.

Conclusão

Este pequeno texto permite retomar e esclarecer alguns pontos que já mencionamos anteriormente em artigos dedicados à Alemanha. É suficiente para expor as vantagens que a Alemanha retira da formação de preços pelo cruzamento do Made by Germany com os pontos fortes de Made In Germany. Indo ao essencial e apresentando as coisas o mais simples possível partimos desta realidade simples: o PIB compõe-se por bens de consumo e bens de investimento que se complementam um ao outro – um não pode existir sem o outro – e se opõem: mais importante é o investimento mais o rendimento é baixo e vice-versa.

O interesse do Made by Germany é primeiramente o de poupar a Alemanha a um investimento que deveria ser muito mais forte, investimento este que é parcialmente assumido pelos países que lhe ficam a Leste. O rendimento a partilhar entre os alemães é pois assim aumentado. A diferença de preços entre os elementos de sub-contratação e os elementos montados representam uma segunda vantagem. O valor presente no elemento importado é realizado (vendido) no mercado alemão ou destinado á exportação pela venda do produto montado. A perda de importância relativa do Made in Germany a favor do Made by Germany inclui a elisão da diferença dos esforços produtivos, dos salários e do valor da moeda. Daqui resulta, novamente, um maior rendimento alemão pela acumulação sub-reptícia de valor produzido fora da Alemanha. Esta análise aplica-se igualmente aos produtos feitos fora da Alemanha, em nome de empresas alemãs.

Este valor de que a Alemanha se apropria tem como efeito aumentar o rendimento que pode ser transferido para o topo da pirâmide social. E como a competitividade dos produtos alemães e a quantidade de riqueza transferida para o topo dessa pirâmide devem ser máximas, apenas resta agora fazer com que se reduzam quer os salários quer os subsídios sociais de uma parcela de 50% da população para pôr a funcionar uma máquina da conquista dos mercados, limitando ao mínimo a acumulação de capital na Alemanha, sem com isso prejudicar a sua própria competitividade, que se aproveita dos investimentos feitos pelos seus vizinhos a leste. Países como a França, a Itália e a Espanha são eles próprios comercialmente laminados por não disporem das vantagens da Alemanha e por terem continuado na mesma linha de ação. A fraqueza de investimento francês é, deste ponto de vista, uma admissão de cegueira coletiva e representa igualmente a falência das elites políticas e económicas da França.

É assim que o valor que se acumula na Alemanha extravasa sob a forma de aplicações financeiras no exterior – muito maiores do que o investimento directo alemão (o IDE) e volta ao país sob a forma do saldo positivo em juros, lucros e dividendos. A Alemanha pode assim dar-se ao luxo de aumentar desmedidamente os seus rendimentos por financeirizar a sua economia por procuração e evitar assim as derivas próprias de uma economia financeirizada.

Nesta perspetiva, a base produtiva alemã não é mais do que uma plataforma industrial – em vias de atenuação relativa – que está a servir para dinamizar a formação dos altos rendimentos; a organização desta dinamização é de tal modo eficaz e tão bem concebida que a Alemanha ainda se pode dar ao luxo de aumentar o rendimento de seus assalariados para reduzir os efeitos de uma crise paga muito mais duramente pelos outros países da Europa, e aos quais ela impõe sem complacência a austeridade hoje.

A fórmula alemã é astuciosa, não sendo porém certo que seja inteligente, ela tem de facto um defeito: o capital produtivo acumulado na Alemanha tem-se reduzido relativamente ao peso comercial do país na Europa e no mundo; a indústria não representa mais do que 20% do PIB, o emprego industrial manteve-se o mesmo apesar da reunificação; a formação do valor na Alemanha é cada vez menos alemã. É, na nossa opinião, o início de um declínio industrial de que são testemunho as taxas de acumulação produtiva alemãs orientadas à baixa.

Por outro lado, os resultados alcançados pela Alemanha mascaram o facto de que a taxa de acumulação de capital na Europa e nos EUA estão em declínio. A Alemanha pode muito bem ter sucesso na Europa e na América do Norte, tem dificuldade em tê-lo na Ásia e na América Latina: apesar do seu reforço com os países que integra na sua economia, a Alemanha já não pesa relativamente tanto.

Esta dificuldade em conquistar o mundo explica-se por uma razão muito simples; a acumulação e o stock de capital acumulado explode na Ásia e em muito menor grau na América Latina. Esta explosão tende a marginalizar o peso económico real dos países do Espaço Atlântico que estão e estarão sempre mais envolvidos num processo de declínio irreversível se o crescimento liberal continuar sujeito aos interesses de elites restritas, gananciosas e cegas. A concentração de rendimento e de riqueza nas suas mãos requer, de facto, uma queda nas taxas de investimento de que só um forte aumento seria capaz de evitar um declínio de outra maneira inevitável, com tudo o resto igual.

A Alemanha, portanto, consegue obter e aproveitar-se de boas oportunidades sem se dar conta de que embarcou numa nave que se cruza sobre armadilhas fatais. O seu crescimento atual salda-se por uma desaceleração geral na Europa, que está já a começar a estrangular lentamente a economia alemã. Não depende ela dos mercados europeus e globais, mercados estes que a recessão na Europa está a afetar? Claro que sim. Por isso, deve-se efetivamente colocar o problema que está no cerne da crise Europeia: a diferença entre as competitividades e as regras da concorrência para irmos ao fundo das coisas. O concerto europeu [a cacofonia organizada em concerto, diria eu] prefere colocar em evidência os défices orçamentais e a austeridade, com o risco de fazer mergulhar todo o continente na depressão. O G8 adormece os países com a promessa de um futuro brilhante através da criação de um grande mercado do Atlântico Norte: um desastre total se a região é atingida pelo declínio.

É preciso reconhecer que esta substituição de problemática é muito conveniente: colocar o problema das regras da concorrência, é literalmente puxar o fio e esvaziar o saco de questões que afetam a Europa e a globalização liberal. As classes dirigentes alemães somente desempenham o seu papel na adaptação e reprodução do modelo anglo-saxónico do crescimento económico, e a eleição da Alemanha como modelo pela elite francesa explica que a questão da hegemonia económica alemã não se deve ou não se pode sequer colocar. As elites francesas gostariam de fazer em França o que as elites alemãs foram capazes de fazer na Alemanha há já dez anos, elas sonham também com uma adaptação e reprodução do modelo americano com as cores da França. Para o Estado e os assalariados, a isto chama-se a austeridade, a disciplina orçamental e as regressões políticas, económicas e sociais sem fim…

 

Texto original em http://criseusa.blog.lemonde.fr/2013/06/23/iv-lirresistible-puissance-commerciale-de-lallemagne-et-ses-ressorts/

[1] Título principal da responsabilidade do tradutor.

 

 

 

 

 

 

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