A ALEMANHA, O SEU PAPEL NOS DESEQUILÍBRIOS DA ECONOMIA REAL. O OUTRO LADO DA CRISE DE QUE NÃO SE FALA. UMA ANÁLISE ASSENTE NA DIVISÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO [1] – Uma coleção de artigos de Onubre Einz. IX – A desigualdade de rendimentos, a sub-acumulação do capital e a crise atual dos capitalismos históricos (parte 2).

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Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

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IX – A desigualdade de rendimentos, a sub-acumulação do capital e a crise atual dos capitalismos históricos (parte 2), por Onubre Einz

 

Publicado por Criseusa.blog.lemonde.fr., 4 de Julho de 2013

Reedição revista dos artigos publicados em A Viagem dos Argonautas em 26 de abril de 2015 (https://aviagemdosargonautas.net/2015/04/26/a-alemanha-o-seu-papel-nos-desequilibrios-da-economia-real-o-outro-lado-da-crise-de-que-nao-se-fala-uma-analise-assente-na-divisao-internacional-do-trabalho1-ix-a-des/), em 27 de abril de 2015 (https://aviagemdosargonautas.net/2015/04/27/a-alemanha-o-seu-papel-nos-desequilibrios-da-economia-real-o-outro-lado-da-crise-de-que-nao-se-fala-uma-analise-assente-na-divisao-internacional-do-trabalho1-ix-a-des-2/) e em 28 de abril de 2015 (https://aviagemdosargonautas.net/2015/04/28/a-alemanha-o-seu-papel-nos-desequilibrios-da-economia-real-o-outro-lado-da-crise-de-que-nao-se-fala-uma-analise-assente-na-divisao-internacional-do-trabalho1-ix-a-des-3/)

(conclusão)

2° Países aos quais a tese anterior se aplica menos ou não se aplica de modo nenhum.

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Sem dúvida, o caso alemão oferece o exemplo típico de um país que foi o menos atingido pelos efeitos da onda liberal sobre o investimento e o rendimento. Nota-se bem uma correlação entre o aumento da parte dos rendimentos das pessoas ricas e muito ricas e a queda do investimento. Mas é uma correlação não muito intensa que implica uma erosão muito baixa da parte do investimento.

Ainda aqui, o aumento da parte dos rendimentos da década de 1980 é sensível, mas a baixa tendencial da taxa de investimento é muito mole. O desfasamento criado com a evolução dos rendimentos das pessoas ricas e muito ricas e as restantes famílias nos tempos de Schröder‑Merkel parece pouco insensível sobre a taxa de investimento. É preciso lembrar que os rendimentos dos decis 1-5, ou seja de 50 % das famílias alemãs, foram os que tiveram uma partilha de rendimentos menos favorável, e, sendo assim, é então lógico que o gráfico não permita correlacionar a parte dos rendimentos das famílias dos 10% de rendimentos de topo com a erosão da taxa de acumulação produtiva. Pode-se também pensar que a evolução da partilha do rendimento – muito favorável para as famílias deste decil no momento do segundo mandato de Schröder, evolução menos favorável sob Merkel – poderia mostrar-se diferente se tivéssemos utilizado os dados da OCDE. Mas quaisquer que sejam os dados, eles não permitiriam colocar em evidência a nossa tese porque a taxa de investimento caiu muito pouco na Alemanha.

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A Espanha é entre os grandes países um caso original. A partir do final da década de 1980, houve uma tendência a reduzir a parte das famílias do último decil no rendimento ao mesmo tempo que a Espanha passa a ter uma tendência descendente na sua taxa de acumulação produtiva. O que é um caso único: a baixa na taxa de investimento determinando a taxa de rendimento no PIB é acompanhada em plena vaga neoliberal de uma evolução na distribuição do rendimento espanhol desfavorável às famílias ricas e abastadas.

B – Reflexões de conjunto.

O exame dos dados permite retirar várias lições.

1ª Pequena série de reflexões : Uma tese globalmente válida – Responsabilidade das famílias do top 10 ou dos rendimentos das famílias ricas ou abastadas.

A crise do capitalismo histórico que atribuimos a uma drenagem excessiva de riqueza por parte das famílias dos 10% de rendimentos mais elevados aplica-se claramente à maioria dos países capitalistas históricos. As elites económicas têm nesses países a responsabilidade pela crise. A falta de investimento prejudicou os seus respetivos países, o stock de capital social é muito baixo, a dívida pública e privada foi dissimulada durante muito tempo e arrastou o crescimento à alta. A depressão atua como um revelador das insuficiências do tecido produtivo dos países dominantes da área Atlântica e do Japão com a exceção da Alemanha que desempenhou astuciosamente o seu papel.

Esta revelação dolorosa tem em primeiro lugar a assinatura das famílias ricas e abastadas que, pelo seu padrão de vida, fizeram uma diferenciação de rendimentos mais ou menos marcada relativamente ao resto da população. Esta diferenciação varia inversamente com a parte do rendimento capturada pelos decil mais elevado (90-100) ou pelos percentis mais elevados da escala de rendimentos. A responsabilidade da crise concentra-se à medida que se isola do resto do último decil, a sua fração mais privilegiada (os 1% deste decil, ou seja o último percentil) e sua fração dirigente (as famílias do grupo dos que compõem os 10 % de rendimentos mais elevados deste percentil, ou seja 1/1000 das famílias de rendimentos mais elevados).

2ª Pequena série de reflexões: Privilegiado – Partilha do rendimento – Desagregação das famílias do grupo dos 1 % de topo

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De facto, se olharmos para quais são os países onde o grupo dos privilegiados – identificado como as famílias do 1% de topo no rendimento – é o mais forte, encontramos sem nenhuma surpresa os países anglo-saxónicos, com os Estados Unidos à cabeça. É ainda nestes países financeirizados e industrialmente muito enfraquecidos que o crescimento dos rendimentos dos privilegiados é o mais forte. Países como o Japão, a Itália, a Espanha ou França ainda são países onde os privilegiados têm dificuldades em impor os seus interesses. A Alemanha está numa situação intermédia, mas tende a dissociar-se dos grupos de classe privilegiada fraca para aos poucos se estar a juntar ao grupo de países de privilegiados muito fortes.

Em toda a parte, há uma tendência para a afirmação dos privilégios nos últimos 30 anos. Este grupo é interessante porque constitui o elemento que terá levado mais longe a distância do seu modo de vida relativamente ao resto da população. Rendimento, residência, relacionamentos, hobies, consumo de serviços privados… distinguem-no cada vez mais do resto da população. É a riqueza que recria a hierarquia social em que a distinção dos modos de vida por discriminação dos rendimentos é o marcador mais poderoso.

Este grupo professa um enorme amor pela economia de mercado, prega o anti-totalitarismo, crítica a intervenção do Estado e a tributação excessiva, é o grande defensor da abertura dos mercados e da globalização feliz, defendendo a livre iniciativa e os empresários.

 

3ª Pequena série de reflexões: Hiperburguesia – Responsabilidade geral do top 1/1000 ou 0,1 do percentil de topo

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O último grupo forma o núcleo duro da globalização da qual os seus membros se têm beneficiado largamente. Aquilo que dissemos das famílias do 1% de topo poderia ser repetido identicamente tanta é a semelhança das evoluções no interior deste grupo. A entrada neste grupo situa-se em mais de 1 milhão de dólares de rendimento com uma ponta de 2,5 milhões de dólares nos EUA.

Este é o grupo da híper-separação, é principalmente entre este grupo que se situam os titulares das alavancas económicas que permitem que a globalização prossiga. Este grupo reúne os altos quadros do setor financeiro e das grandes empresas industriais, comerciais ou de serviços, os ideólogos do sistema e os meios de comunicação formadores da opinião pública assim como os empresários privados.

É este grupo que está na origem das escolhas económicas que levaram ao sub-investimento crónico dos sistemas produtivos dos capitalismos históricos. A progressão da parte do rendimento para este grupo é, deste ponto de vista, exemplar, ela mostra uma progressão muito forte dos países cujas elites dirigentes escolheram jogar ao máximo a carta da desindustrialização, da forte evolução do sector dos serviços, dos desequilíbrios nas contas nacionais e do endividamento privado: a Grã-Bretanha e os Estados Unidos. O fenómeno é menos claro noutros países; e a erosão dos investimentos produtivos continua a ser imputável a este grupo dirigente e aos lucros que obtêm as famílias do top 10 da escala dos rendimentos.

Conclusão

A análise aqui feita permitiu corroborar uma tese extrapolando as reflexões feitas no caso americano para outros países. A demonstração é evidente, sem ser perfeita devido aos problemas das fontes estatísticas fragmentadas. A tese aqui defendida não é, pois, certa, ela é muito provável. A depressão atual e a ausência de uma solução para a crise são o resultado do profundo desinteresse que as elites têm em que os seus benefícios possam ser postos em causa. Seria possível sair da crise pela inflação: a inflação não desvaloriza ela as dívidas públicas e privadas? Mas isto seria de uma assentada pôr em causa o valor dos patrimónios financeiros, os interesses que esses patrimónios servem; a distribuição de rendimento entre os salários da maioria da população e o capital seria questionada, os rendimentos diretos obtidos pela propriedade de empresas e os dividendos seriam inevitavelmente afetados. Esta opção está, portanto, barrada.

Seria ainda possível reindustrializar os países tendo em conta o conjunto de todos os fatores que entravam a existência de uma concorrência ‘livre e não falseada’ entre os países. Esta reindustrialização poderia fazer-se por detrás de barreiras justificadas por razões sólidas: falta de respeito pelos direitos do trabalho, ausência de sindicatos, dumping económico, não-conformidade com o ambiente…

Mas isto seria estar a optar pelo par proteccionismo–reindustrialização, o mesmo é dizer que seria pôr em causa um modelo que tornou suportável o baixo crescimento dos rendimentos da maioria da população através da importação de enorme quantidade de mercadorias que entram no consumo e nos equipamentos domésticos. Seria ter de alocar uma parcela maior da riqueza nacional para os investimentos produtivos e, necessariamente, para a reorganização das estruturas de repartição do rendimento entre os habitantes dos países da Europa, América do Norte, do Japão. Esta solução, banida do consenso ideológico, é interdita no debate público.

A análise dos dados dos diferentes gráficos levou-nos a alargar a nossa perspetiva. Os dados destes gráficos sugerem que são os capitalismos anglo-saxónicos que são ainda os dominantes. O modelo dominante de partilha do rendimento entre os habitantes desses países e a arbitragem entre rendimento e investimento ainda parece estar globalmente sob influência anglo-saxónica.

Neste sentido, os outros capitalismos históricos parecem incapazes, ao longo da crise, de desafiar um modelo em direção ao qual eles próprios estão a caminhar a passos mais ou menos largos. É provável que um dos desafios da crise atual seja não o de salvar o modelo anglo-saxónico, mas o de aprofundar as aplicações possíveis. A constatação de um alargamento das desigualdades durante a crise, sugere que essa ideia poderá ser correta. É assim que se pode interpretar a política de rigor na Europa, com os países anglo-saxónicos a não terem já muito mais margem de manobra para progredirem em matéria de desigualdade de repartição do rendimento e de arbitragem entre investimento e rendimento, daí as outras aplicações possíveis.

 

Onubre Einz, Inégalité de revenus, sous-accumulation du capital et crise actuelle des capitalismes historiques, texto original em http://criseusa.blog.lemonde.fr/2013/07/04/inegalite-de-revenus-sous-accumulation-du-capital-et-crise-actuelle-des-capitalismes-historiques/

[1] O título dado à coleção é da responsabilidade do tradutor.

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