Dos conhecimentos básicos em finança à opacidade e complexidade do mundo financeirizado: uma exposição e uma análise crítica – 1. O capitalismo da modernidade, da falsidade, da manipulação. Parte A: a política do trabalho e da mentira de Gordon Brown, uma mistificação emblemática, por Júlio Marques Mota

Jan Brueghel the Younger Satire on Tulip Mania c 1640

1. O capitalismo da modernidade, da falsidade, da manipulação.

 

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Parte A: a política de trabalho e da mentira de Gordon Brown, uma mistificação emblemática

por Júlio Marques Mota

 

Talvez não nos lembremos da carga ideológica dos discursos dos políticos de então, a expressarem, praticamente todos eles, uma enorme submissão dos Estados soberanos à alta Finança, capturando-se mesmo a democracia no altar da submissão ao grande capital. Os textos de Gordon Brown são de tal forma elucidativos do pensamento político neoliberal que vale a pena colocar aqui três pequeníssimos excertos das suas conferências para os homens da City:

1.“As pessoas falam da China como a futura fábrica do mundo, falam da Índia como o futuro escritório do mundo – Eu acredito que Londres, tal como Nova York, é já o mercado de capitais do mundo.

      Não acredito que isto tenha acontecido por acidente”

2.“A mensagem que o sucesso de Londres envia a toda a economia britânica é que teremos sucesso se, tal como a City em Londres, pensarmos globalmente. Mais ainda, avançaremos se não nos fecharmos, mas pelo contrário, se ficarmos abertos à concorrência e às novas ideias. Progrediremos se investirmos e alimentarmos a formação de competências para o futuro, avançaremos se avançarmos com uma regulação mínima, com um ambiente concorrencial em termos de tributação e de flexibilidade.”

3.“Nós reduzimos substancialmente os impostos sobre os rendimentos do capital. Mesmo com outras prioridades para financiar -, pelo menos, o Serviço Nacional de Saúde, o NHS – reduzimos o imposto sobre os ganhos de capital de 40% para 10% sobre os ativos de longo prazo das empresas e, orçamento após orçamento, queremos fazer mais, muito mais mesmo, para incentivar os tomadores de risco, aqueles que têm ambição, aqueles que querem transformar as suas ideias em realidades e aproveitar ao máximo os seus talentos.”

São tantas as frases emblemáticas que poderíamos escolher para exemplificar a adoração dos neoliberais pelo deus dinheiro e o consequente desprezo por quem trabalha, que o nosso embaraço está precisamente na escolha. Ficamo-nos por estas três citações. Sublinho apenas um detalhe, bem importante, que atesta a falta de seriedade deste político inglês, de resto igual à de muitos outros que por aí campeiam a estragar as nossas vidas. Belos discursos, elegantemente escritos, eficazes na sua mistificação, recriando o seu real a um nível imaginário tal que nada tem a ver com a realidade tal como ela é.

Foi com Gordon Brown que se deu um ato de magia na política inglesa, em que, com a economia em fraco crescimento, se atingiu a mais baixa taxa de desemprego de que houve memória na Inglaterra. Disso se orgulhou ele nos Comuns. E como foi esse milagre? Simples, muito simples, e que foi descoberto por um professor de Sheffield, uma cidade martirizada pelo desemprego. Quando os desempregados de longa duração ultrapassavam o ano de subsídio de desemprego, eram “abatidos na lista dos desempregados”, e passavam a estar inscritos na lista de inativos e a receber por subsídio de doença. A taxa de desemprego necessariamente descia. Estar-se-ia então em conformidade com o optimismo de Brown mas este não tinha nada a ver com a realidade real, para lembrar Woziack, mas sim com a realidade fabricada por ele e por toda a máquina que alimenta e sustenta o sistema!

 

Em Maio de 2008, num texto sobre a desindustrialização na Inglaterra e no quadro de uma iniciativa que decorria na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, escreviam os promotores desta iniciativa cultural:

III.2.1. O governo de Blair visto pelo capitalismo financeiro

Nos anos 70, com a sua economia cheia de problemas, a Grã-Bretanha era habitualmente descrita como o país doente da Europa. Metaforicamente, isto deixou de ser verdade – a Grã-Bretanha passou a ser a economia mais saudável da Europa. Contudo, isto é agora literalmente verdade, a Grã-Bretanha tem mais pessoas doentes do que qualquer outro grande país. Sem dúvida, a Grã-Bretanha tem assim tanta gente doente, que está a alertar alguns observadores e de tal modo que estes estão dispostos a rever se a sua economia é tão saudável quanto é geralmente descrita. O primeiro-ministro britânico Tony Blair e o chanceler Gordon Brown vangloriam-se de que a Grã-Bretanha tem uma das taxas de desemprego mais baixas no mundo. “Quando o Partido Trabalhista chegou ao poder em 1997, o desemprego no Reino Unido estava perto de atingir os 2 milhões”, de acordo com excertos do discurso da campanha de Brown comunicados pelo Partido Trabalhista na última semana. “Agora é menor do que um milhão, o valor mais baixo de sempre desde há 29 anos.’’

Os dados parecem certamente confirmar esta declaração. A taxa de desemprego, expressa pelos desempregados que solicitam subsídio de desemprego, era apenas de 2,9% em abril, a taxa mais baixa, como Brown indica, desde há quase três décadas. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) tem uma maneira ligeiramente menos lisonjeira de calcular o desemprego, mostrando que a taxa britânica é 4,7% no primeiro trimestre. E não há certamente escassez de gente para trabalhar. O emprego total aumentou 195.000 para 28,4 milhões, recorde no primeiro trimestre relativamente aos três últimos meses de 2003, de acordo com as estatísticas do governo britânico.

Contudo, este resultado parece ser mais linguístico do que económico: o desemprego foi redefinido em vez de ter sido reduzido. Qualquer um que acompanhe as estatísticas terá observado que a taxa de desemprego desceu, que os casos de invalidez aumentaram. Isto foi confirmado num recente trabalho realizado por Christina Beatty e por Stephen Fothergill do Center for Regional Economic and Social Research da Sheffield Hallam. Nele, diz-se que a Grã-Bretanha tem agora mais de 2,5 milhões de adultos em idade ativa não-empregados que solicitam subsídio de doença – um total que “questiona a percepção que se tem atualmente do mercado britânico de trabalho’’ e sublinha “o enorme desemprego escondido”.

Como os autores dizem expressamente, o número dos que reivindicam o chamado subsídio de doença na Grã-Bretanha é “verdadeiramente espantoso”. Em 1981, havia 570.000 pessoas que recebiam o subsídio por um período superior a seis meses. Em 2003, o número de pessoas nesta situação tinha subido para 2,13 milhões. Adicionalmente, havia 300.000 beneficiários do Severe Disablement Allowance e 200.000 que solicitaram o subsídio de incapacidade temporária de curto prazo, diz o referido trabalho”[1].

(continua)

Nota

[1]  Veja: Júlio Mota, Luis Peres e Margarida Antunes, CICLO INTEGRADO DE Cinema, DEBATES E COLÓQUIOS NA FEUC-DOC TAGV/FEUC. Integração Mundial, Desintegração Nacional: a crise nos mercados de trabalho: Cidades, trabalhadores e Profissões. Editado por Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, 2008.

 

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