Dos conhecimentos básicos em finança à opacidade e complexidade do mundo financeirizado: uma exposição e uma análise crítica – 1. O capitalismo da modernidade, da falsidade, da manipulação. Parte A: a política do trabalho e da mentira de Gordon Brown, uma mistificação emblemática (continuação), por Júlio Marques Mota

Jan Brueghel the Younger Satire on Tulip Mania c 1640

1. O capitalismo da modernidade, da falsidade, da manipulação.

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Parte A: a política de trabalho e da mentira de Gordon Brown, uma mistificação emblemática (continuação)

por Júlio Marques Mota

 

(continuação)

O outro lado do discurso de Brown quanto à taxa de desemprego

Em 2007, ainda bem perto da data dos discursos eufóricos de Gordon Brown aqui reproduzidos, embora em versão parcial, publica-se um relatório de Steve Fothergill, Christina Beatty, Tony Gore e Ryan Powell sobre o desemprego no Reino Unido, relatório este comentado e sintetizado pelo Yorkshire Post onde se afirma:

Steve Fothergill: Revelação – o milhão ‘oculto’ de desempregados

O governo divulgará esta manhã o último lote de números sobre o desemprego. Espera-se que mostrem que o número de pessoas sem trabalho e requerendo benefícios ainda está abaixo de um milhão.

Para aqueles com memória longa, os três milhões de desempregados da década de 1980 e início da década de 1990 parecerão já uma era distante.

Mas o Partido Trabalhista resolveu realmente o problema do desemprego? Ou terá um grande número de desempregados simplesmente escondidos da vista, excluídos dos números oficiais?

A verdade é que o mercado de trabalho é muito mais forte do que há 10 anos atrás, mas o desemprego é ainda muito mais extenso do que os números oficiais nos querem fazer crer.

Num relatório divulgado hoje, a minha equipa de investigação na Sheffield Hallam University produziu novos dados sobre o nível ‘real’ de desemprego. Os nossos números contam uma história diferente.

Estimamos que, na Grã-Bretanha como um todo, existem 2,6 milhões de desempregados. É não obstante uma redução de 600.000 (…) mas bastante menor que a diminuição de 900.000 dos dados oficiais.

A diferença com os números oficiais é explicada pelo grande número de pessoas desempregadas que foram desviadas para outros benefícios ou que ficaram completamente fora do sistema de benefícios. Em particular, estima-se que um milhão dos 2,7 milhões a receber benefícios por incapacidade no trabalho deviam ser realmente considerados como “desempregados ocultos”. (…)

O desemprego oculto não é nada de novo. Ele desenvolveu-se em grande escala durante os anos Conservadores, quando os números de incapacitados começaram a subir. Desde 1997, o crescimento económico sustentado sob o partido Trabalhista deitou abaixo, ou seja, reduziu drasticamente o número dos requerentes de subsídio por andarem à procura de emprego, mas quase não tocou no total em benefícios por incapacidade.(…)

South Yorkshire é uma das áreas que liderou o caminho [das maiores reduções de desemprego], já que começou a recuperar dos encerramentos da exploração de carvão e aço. Rural North Yorkshire, em contraste, nunca teve desemprego na mesma escala, e aqui as reduções foram menores.

Mais genericamente, os nossos números confirmam que grandes áreas do sul de Inglaterra fora de Londres estão com pleno emprego – ou perto dele.

No entanto, não há justificação para a complacência. Como chanceler, Gordon Brown presidiu ao crescimento económico que está na base do atual mercado de trabalho e, sob seu controle, não houve retorno ao desemprego em massa dos anos Conservadores.

Mas, como primeiro-ministro, ele tem de reconhecer que ainda há um longo caminho a percorrer para que se verifique o pleno emprego em muitas partes do Norte, da Escócia e do País de Gales. Estimamos que a taxa real de desemprego em Hull ainda é de 11,4 por cento, em Bradford de 8,7 por cento, em Doncaster de 9,5 por cento, e em Scarborough de 8,9 por cento.

Diminuir o número de desempregados exige ainda uma combinação de três coisas. Primeiro, o crescimento da economia nacional precisa de ser sustentado. Isso pode ser mais fácil dizer do que fazer se a bolha dos preços das casas explodir e levar a que os gastos dos consumidores baixem na sequência disso.

Em segundo lugar, exige novos esforços para re-treinar e re-motivar o grande número de desempregados que se ficaram abandonados no sistema de benefícios de incapacidade para o trabalho.

Há dez anos, provavelmente era razoável que muitos desses homens e mulheres perdessem a esperança de voltarem a encontrar trabalho. Mas a economia mudou muito e as perspetivas de reemprego melhoraram. É animador, portanto, que o governo esteja a lançar a sua iniciativa “Caminhos para o trabalho”, fornecendo ajuda direcionada para este grupo.

Em terceiro lugar, reduzir o total de desempregados exige que sejam criados empregos nos lugares certos. Simplesmente deixar a economia de Londres continuar na frente não ajuda muito os desempregados no norte, que na maior parte não podem dar-se ao luxo de se mudarem para o sul, mesmo que encontrassem um emprego.

A boa política regional à moda antiga é aqui a chave. Gordon Brown tem de garantir que o suporte financeiro e as infra-estruturas básicas – locais, instalações e ligações de transporte – existem para desenvolver novos empregos nos lugares que mais precisam deles.

Aquilo de que não precisamos é de sermos assaltados pelos assessores de imagem (spin doctors) sobre a fiabilidade dos nossos números.

Deixem-me gentilmente lembrar-lhes que em abril de 1997, quando a equipa de Sheffield produziu as primeiras estimativas do nível real de desemprego e quando Gordon Brown ainda era Chanceler sombra, o seu gabinete pediu-nos que distribuíssemos nosso relatório a todos os candidatos trabalhistas às eleições gerais seguintes.

Claramente, em 1997, Gordon Brown pensou que estávamos a fazer algo certo.

O professor Steve Fothergill é um dos autores do relatório, The Real Level of Unemployment 2007, publicado hoje pela Sheffield Hallam University” (ver aqui o relatório).

1 O capitalismo da modernidade, da falsidade um exemplo Parte A 1

(…) Estimamos que um pouco mais de 1 milhão de desempregados estão escondidos nos benefícios por incapacidade. Os nossos números mostram que 560.000 são homens e 450.000 são mulheres. São números enormes, e no total este grupo ultrapassa em número os requerentes de desemprego. Todavia, estes desempregados ocultos representam atualmente menos de 40% do total dos requerentes de incapacidade. De facto, estimamos que, mesmo num contexto de pleno emprego, 1,7 milhões do total de 2,7 milhões de requerentes de incapacidade manter-se-iam nessa situação. Vale a pena assinalar que a nossa estimativa de 1 milhão de desempregados ocultos nos benefícios por incapacidade coincide exatamente com o objetivo do próprio governo de redução do número de requerentes de incapacidade para 2016. (…)” (ver aqui).

Os dados acima parecem vir dar razão à afirmação de um membro do Parlamento britânico, Sir Iain Gilmour, que terá afirmado: ‘now we have succeeded in lowering the unemployment figures perhaps we can make a start on reducing unemployment”, ou seja, ‘agora que conseguimos baixar os números do desemprego talvez possamos começar a reduzir o desemprego’.

Com ironia no blog Economics Help, um blog de que muito gosto, escrevia-se na altura:

“É Gordon Brown o melhor chanceler de sempre? Ou é mais um exemplo de um homem cheio de sorte por ter herdado uma situação económica prometedora? Ou é como algumas pessoas sugerem, uma oportunidade desperdiçada, acumulando problemas económicos para o futuro?” (ver aqui).

Por seu lado, em 21 de abril de 2010 escrevia o Daily Telegraph sobre desemprego, num artigo intitulado “Unemployment hits 2.5 million as Gordon Brown admits economy ‘not strong enough'”:

“(…) Como o número de pessoas classificadas como economicamente inativas atingiu níveis recorde, Brown disse: “Temos que manter o dinheiro na economia este ano. A retoma da economia tem que ser sustentada”. (…)

(…) O desemprego de longa duração, que representa o número de pessoas desempregadas por um período de tempo superior a um ano, aumentou em 89.000 para 726.000, o maior alto valor desde que o Partido Trabalhista assumiu o poder em 1997. (…)

(…) A inatividade económica, incluindo estudantes, pessoas que cuidam de um familiar doente ou aqueles que abandonaram a procura de trabalho, aumentou de 110 mil no último trimestre atingindo o total 8,16 milhões, o pior resultado desde que os registos começaram a ser feitos, ou seja, desde 1971.

Mais de uma em cada cinco pessoas em idade ativa estão classificadas como economicamente inativas, revelaram os dados atuais do Office for National Statistics. (…)

(…) A taxa de emprego do Reino Unido é agora de 7,2 por cento, a mais baixa desde 1996, seguindo a queda no último trimestre de 59.000 empregos a tempo completo e de 30.000 a tempo parcial. (…)

(…) Havia 30,75 milhões de empregos no Reino Unido em Dezembro, uma descida de 119.000 no último trimestre e mais de meio milhão no ano transacto. (…)

(…) O número de pessoas requerentes de subsídios não salariais como, por exemplo, benefício por incapacidade de trabalho ou subsídio por andar à procura de trabalho, aumentou de 675 mil desde agosto de 2008, atingindo um recorde de 5,08 milhões em agosto passado (agosto de 2009).” (ver aqui).

Um outro quadro de Fothergill, Beatty e Gore editado em 2012 permite-nos a comparação com os dados de 2007, mostrando-nos o evoluir da situação do emprego na Grã-Bretanha entre 2007 e 2012:

1 O capitalismo da modernidade, da falsidade um exemplo Parte A 2

“Em abril de 2012, o indicador dos requerentes de desemprego estava em 1,55 milhões. Cerca de 1,05 milhões, ou seja dois terços do total, eram homens. Ao mesmo tempo o indicador de desemprego mais abrangente obtido do inquérito sobre a força de trabalho (que no quadro acima corresponde à soma de Claimant count e de Additional LFS unemployed) estava acima de 2,5 milhões, dos quais 1,45 milhões eram homens.
Em contrapartida, estimamos que o nível real de desempregados era de mais de 3,4 milhões – mais do dobro dos requerentes de desemprego e superior em mais de um terço ao indicador abrangente obtido pelo inquérito sobre a força de trabalho. O número de 3,4 milhões de desemprego real representa uma taxa de desemprego, em proporção da população em idade de trabalhar, de 8,8 por cento.
A contagem de desemprego adicional do inquérito (ALFS) sobre a força de trabalho é de pouco menos de 1 milhão. Embora isto constitua uma grande adicional aos requerentes de desemprego, é importante recordar que a inclusão destes homens e mulheres nas listas dos desempregados é totalmente incontroversa. Oficialmente, os números do inquérito sobre a força de trabalho são o indicador preferencial do governo. Cerca de seis em cada dez dos desempregados adicionais (ALFS) são mulheres.
Estimamos que, além disso, 900.000 desempregados estão ocultos nos beneficiários por incapacidade. Os nossos dados indicam que 430.000 são homens e 470.000 são mulheres. São números gigantescos: no total representam mais de um quarto do total de desempregados. Contudo, estes desempregados ocultos nos benefícios por incapacidade representam 35% do total de 2,55 milhões de requerentes de incapacidade em idade de trabalhar em toda a Grã-Bretanha. De facto, estimamos que, mesmo num contexto de pleno emprego, 1,65 milhões de homens e mulheres permaneceriam no grupo de requerentes de benefícios por incapacidade.” (ver aqui pág. 12).

(continua)

 

 

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