Dos conhecimentos básicos em finança à opacidade e complexidade do mundo financeirizado – Uma exposição e uma análise crítica – 1. O capitalismo da modernidade, da falsidade, da manipulação. Parte B: A financeirização feliz dos banqueiros da City e de Gordon Brown (excertos de discursos de Gordon Brown – texto 2). Por Júlio Marques Mota

Jan Brueghel the Younger Satire on Tulip Mania c 1640

Jan Brueghel the Younger Satire on Tulip Mania c 1640

Por Júlio Marques Mota

1. O capitalismo da modernidade, da falsidade, da manipulação

financeirização feliz deus Dinheiro

Parte B: A financeirização feliz dos banqueiros da City e de Gordon Brown (excertos de discursos de Gordon Brown – texto 2)

 

 

2. Discurso de Gordon Brown na Mansion House – 16 de junho de 2004 (ver original aqui)

“Ao agradecer o vosso convite, deixe-me começar por lhe agradecer Lord Mayor [de Londres] pelo seu trabalho e da sua equipa não apenas aqui na City de Londres mas também por todo o mundo promovendo a City e a Grã-Bretanha. E desejo desde já prestar o meu tributo a todas as empresas e instituições presentes aqui hoje.

Deixe-me agradecer-lhe primeiramente pela magnitude da contribuição que a City assume na economia britânica – de £50 mil milhões de rendimento, de 4 por cento do PNB e o crescimento de 1 milhão de postos de trabalho. (…)

(…) Quando no ano passado, quando fazíamos a nossa avaliação sobre o euro, efetuámos uma análise detalhada e em profundidade da economia britânica e pudemos então concluir que devido à vossa ação, ao vosso trabalho, aqui na City estávamos preparados para mudarmos e para nos adaptarmos, para inovarmos e investirmos no futuro, de modo a podermos encarar as mudanças tecnológicas tais como as transações na bolsa em alta frequência não como uma ameaça mas como uma oportunidade, e para ganharmos – a partir do mundo inteiro – as competências que os serviços financeiros precisam. As vantagens e os ativos consideráveis e históricos de Londres – a nossa estabilidade, o nosso alcance global, a nossa reputação em termos de honestidade profissional, a nossa vontade e capacidade de sermos flexíveis – aperfeiçoaram-se tal forma em face da nova era global que, mesmo face à preeminente economia americana e à integrada zona euro, Londres tem hoje um número maior de sucursais de bancos estrangeiros e de filiais de bancos estrangeiro do que qualquer outra cidade no mundo, a maior quota de empréstimos bancários além fronteiras, através da bolsa de Londres o maior centro comercial de títulos estrangeiros do mundo, e o maior e mais importante mercado cambial do mundo.

E é uma demonstração visível da posição alcançada por Londres e da sua dimensão global – e agora, nos últimos anos, as relações modernas que estão a ser forjadas são não apenas com os EUA, o Japão e a zona euro mas também com a China, Índia, África do Sul e outros países por todo o mundo – pois segundo me dizem estão esta noite aqui representados mais países do que alguma vez estiveram em 120 anos de história do banquete do Lord Mayor. (…)

A vossa presença aqui, esta noite, demonstra que a cidade de Londres – e a nossa indústria de serviços financeiros – aprendeu mais rápida, mais intensivamente e com maior sucesso do que outros qual é o verdadeiro significado da globalização:

  • que a City foi bem sucedida não por proteger a sua parte de um pequeno mercado nacional protegido, mas sim por se ter esforçado em conseguir ter uma maior e cada vez maior taxa de participação no crescente mercado global;
  • e que a estabilidade, a adaptabilidade, a inovação e a abertura a novas ideias e às novas oportunidades no comércio global – excelentes ativos e vantagens britânicas – são hoje mais importantes do que nunca.

E o que a City alcançou para o setor de serviços financeiros, nós, como país, aspiramos agora a alcançá-lo para toda a economia britânica.

E este é o meu tema para esta noite. Que as nações que terão sucesso nesta economia global em rápida mudança e ferozmente competitiva serão as que:

  • em primeiro lugar, sejam capazes de garantir a estabilidade a longo prazo;
  • em segundo lugar, sejam capazes de incentivar um ambiente competitivo e a cultura empresarial mais ampla e profunda;
  • em terceiro lugar, sejam capazes de se empenharem em investir no que oferece vantagem comparativa à medida que a mudança económica e tecnológica global reestruturam onde e no que nós produzimos – nível mundial de inovação, tecnologia, educação, formação de competências e, como o Presidente da City afirmou, em infra-estruturas igualmente;
  • e quarto, tenham a força para tomarem decisões difíceis a longo prazo a favor da livre troca e do internacionalismo cosmopolita.

E acredito que, se tivermos a força para tomar as decisões certas para o longo prazo, a Grã-Bretanha estará melhor colocada do que quase qualquer outro país industrial que lhe seja comparável, para ser uma das grandes histórias de sucesso desta nova era global.

Porquê? Porque acredito que, se construirmos na base das qualidades e dos valores que nos tornaram excelentes no passado – o espírito empresarial britânico, a criatividade britânica, a abertura britânica ao mundo, a adaptabilidade britânica a novas ideias e o nosso forte sentido britânico de relações cívicas honestas e justas – e se em torno destas grandes qualidades duradouras podermos desenvolver finalidades partilhadas na nossa economia acerca do nosso destino futuro como país, então prevejo uma nova era de sucesso económico para uma Grã-Bretanha global.

Relembrando agora que Sir Winston Churchill – que todos nós recordamos particularmente neste mês, o sexagésimo aniversário do dia D – falou com enorme sentido de precisão e profundidade sobre as qualidades necessárias a um político: “A capacidade para prever o que está para acontecer amanhã, na próxima semana, no próximo mês e no próximo ano. E ter a capacidade para explicar mais tarde porque é que assim não aconteceu.” Mas numa outra frase notável advertiu os seus contemporâneos para aquilo que eles nunca devem ser, em palavras suas: “determinados a serem indecisos, inflexíveis e rígidos em face da necessidade de mudança, sólidos face à necessidade de fluidez e poderosos na sua impotência”.

E é mesmo a necessidade de resolução, de solidez, de um compromisso inabalável com os valores britânicos para enfrentar os desafios da economia global e a força para tomar decisões a longo prazo, que é o fundamental da minha mensagem esta noite.

Estabilidade

(…)

E quando entrámos no governo em 1997, teria sido mais fácil não ter tomado as decisões que tomámos para elevar as taxas de juros. Eu teria evitado dificuldades no meu próprio partido se tivesse ignorado o caso da independência do Banco da Inglaterra. Teria sido muito mais confortável politicamente não ter congelado a despesa pública ou não ter introduzido novas e duras regras fiscais. Mas acredito que o teste da nossa capacidade de governar é saber se temos ou não a força para tomar as decisões corretas e necessárias de longo prazo para o nosso país.

(…)

Com os mercados financeiros à espera que as taxas de juros aumentem em todo o mundo à medida que a economia mundial vai crescendo e aguarda com expetativa o crescimento do comércio internacional, continuaremos a apoiar as nossas autoridades monetárias nas escolhas difíceis que têm de fazer e não relaxar a consolidação da nossa disciplina orçamental.

E estaremos atentos aos riscos globais que são: as incertezas geopolíticas, os desequilíbrios na balança corrente, as pressões orçamentais a longo prazo devidas ao envelhecimento e, especificamente, em face de rês desafios: preços do petróleo, preços das casas e necessidade de disciplina orçamental contínua.

(…)

Empresas

O sucesso britânico na era global depende de nós, não apenas para construir um consenso em torno da importância da estabilidade a longo prazo, mas construindo objetivos partilhados semelhantes sobre a importância da flexibilidade e das qualidades históricas das empresas britânicas, agora mais relevantes do que nunca para o sucesso na era global.

Sabemos todos sobre o aumento da importância da China:

  • Nos últimos anos, contribuiu mais para o crescimento da economia mundial do que todos os países do G7 juntos;
  • Consumindo, por exemplo, metade do cimento mundial, mais de um quarto do aço no mundo e cerca de um terço do minério de ferro do mundo;
  • O maior mercado de telemóveis no mundo e um dos mercados de automóveis com crescimento mais rápido também, com mais vendas da Volkswagen na China do que na própria Alemanha.

Todos sabemos sobre a ascensão da Ásia: cuja economia, sem o Japão, cresceu duas vezes a taxa de crescimento verificada na América e sete vezes a taxa de crescimento da zona euro; e aqueles para quem 5 milhões de empregos europeus e americanos poderão ser deslocalizados nos próximos quinze anos.

E todos temos conhecimento do aumento dos países em desenvolvimento: a grande maioria deles há vinte anos atrás exportava basicamente produtos primários, mas que agora exportam dois terços dos seus produtos em bens manufacturados e dentro de vinte anos, os países em desenvolvimento talvez representem 50 por cento de todas as exportações de produtos manufacturados no mundo.

E acho que agora podemos dizer com alguma certeza que os países industrializados avançados que funcionarão bem serão aqueles que sejam capazes de combinar as aptidões dos seus povos em design, ciência, tecnologia, finanças, marketing e gestão – a força de fabricação moderna – com as vantagens de produção disponíveis nas economias emergentes.

(…)

E é somente desde há muito pouco tempo que estamos a ver uma nova Grã-Bretanha a crescer no seu lugar. A nossa tarefa – e aqui reconheço o trabalho de meus predecessores – é completar essa ruptura em face do corporativismo estéril e autodestrutivo que pertence ao passado – daí a decisão do último orçamento de acabar com os subsídios industriais permanentes nos sectores do aço, carvão e construção naval – e desenvolver uma cultura empreendedora bem mais ampla, onde as oportunidades empresariais são genuinamente abertas a todos.

(…) …nós reduzimos substancialmente os impostos sobre os rendimentos do capital. Mesmo com outras prioridades para financiar -, pelo menos, o NHS – reduzimos o imposto sobre os ganhos de capital de 40% para 10% sobre os ativos de longo prazo das empresas e orçamento após orçamento, queremos fazer mais, muito mais  mesmo para incentivar os tomadores de risco, aqueles que têm ambição, aqueles que querem transformar as suas ideias em realidade e aproveitar ao máximo os seus talentos.

(…)

Sobre os impostos: tendo reduzido o imposto sobre as sociedades de 33 % para 30 por cento e o imposto sobre as pequenas empresas de 23 por cento para 19 por cento, prometo que continuaremos a olhar juntamente convosco para o regime de tributação sobre as atividades produtivas para que possamos fazer e manter o Reino Unido como o lugar mais competitivo para os negócios internacionais.

(…)

E na regulamentação: anunciei medidas – tanto para a City como bem para além dela – para enfrentar as burocracias desnecessárias e evitar os desperdícios provocadas por essa mesma burocracia:

  • Todas as regras da FSA [Financial Services Authority] serão sujeitas a um escrutínio rigoroso pelas nossas autoridades de concorrência;
  • o Instituto para o Comércio Equitativo agora irá especificamente analisar o impacto da estrutura reguladora do sector financeiro sobre a concorrência;
  • e porque 40 por cento da nova regulamentação – e cerca de três quartos da nova regulamentação sobre o sector financeiro – vêm da Europa, posso então dizer-vos que depois de termos ganho a batalha por uma Diretiva da Poupança contra a harmonização da tributação, a Grã-Bretanha, tendo largamente consultado a City, já insistiu em estabelecer melhorias na Diretiva 2003/71/CE do Parlamento Europeu e do Conselho, de 4 de Novembro de 2003, relativa ao prospeto a publicar em caso de oferta pública de valores mobiliários ou da sua admissão à negociação, assim como fez a mesma coisa sobre a Diretiva 2013/50/UE do Parlamento Europeu e do Conselho, de 22 de Outubro de 2013 , que altera a Diretiva 2004/109/CE do Parlamento Europeu e do Conselho relativa à harmonização dos requisitos de transparência no que se refere às informações respeitantes aos emitentes cujos valores mobiliários estão admitidos à negociação num mercado regulamentado, e igualmente sobre a Diretiva 2014/57/UE do Parlamento Europeu e do Conselho de 16 de Abril de 2014 relativa às sanções penais aplicáveis ao abuso de informação privilegiada e à manipulação de mercado (abuso de mercado). De igual modo continuamos a defender melhorias na Diretiva (UE) 2016/2341 do Parlamento Europeu e do Conselho, relativa às atividades e à supervisão das instituições de realização de planos de pensões profissionais (IRPPP) assim como na Diretiva Sobre o Investimento, e continuaremos igualmente a resistir contra as rígidas barreiras que têm sido adicionadas à Diretiva do Parlamento Europeu e do Conselho, relativa ao trabalho temporário.

(…)

A Grã-Bretanha global

(…)

Mas a globalização significou que não são apenas as empresas europeias, mas são sobretudo as empresas globais que cresceram, não as principais marcas europeias mas sim as marcas globais, não simplesmente os fluxos de capital europeus, mas sobretudo os fluxos de capital globais – e porque é a globalização que está a impulsionar as  nossas economias, a nova Europa alargada a 25 deve olhar para fora não para dentro, deve pensar globalmente, deve ser reformadora, deve ser flexível e crescer para enfrentar o desafio da concorrência a nível global. E é a Europa global, não o bloco comercial Europa que deve ser o caminho a seguir e é uma Europa flexível e reformadora que pensa globalmente que deve agora rejeitar as antigas e fatalmente erradas premissas de harmonização fiscal e do federalismo.

Em primeiro lugar, enfrentando a concorrência a nível mundial, esta nova Europa global não tem outra alternativa senão abraçar a flexibilidade e a liberalização nos mercados de produtos e de capitais: a abertura dos mercados de eletricidade, dos serviços públicos, das telecomunicações e dos serviços financeiros deve prosseguir com a máxima velocidade possível; nós precisamos de uma nova política de concorrência que garanta que o mercado único oferece preços mais baixos e maior produtividade que o mercado único dos EUA; e devemos abolir as ajudas estatais que são um desperdício de auxílios estatais e, em vez disso, promover à escala europeia quer uma indústria de capital de risco quer Iniciativas da Finança Privada em todo o continente.

Em segundo lugar, com mais de 18 milhões de europeus sem trabalho, uma Europa globalmente orientada deve combinar uma nova flexibilidade do mercado de trabalho com políticas que equipem as pessoas com as competências necessárias para o trabalho. E em terceiro lugar, a Europa deve pensar globalmente e porque metade da produção mundial é gerada na Europa e na América, deve ser forjado um novo relacionamento com os EUA – vendo a América sobretudo como um parceiro não como um concorrente, não como um rival. Não é apenas no interesse da Grã-Bretanha, mas no interesse da Europa como um todo, que a UE e os EUA façam um maior esforço maior para enfrentar os obstáculos a uma relação comercial e de investimento totalmente aberta, para fortalecer os acordos conjuntos de modo a enfrentar questões de concorrência, dialogar sobre a abordagem da regulamentação dos serviços financeiros. E, juntos, fazerem funcionar o multilateralismo para os países em desenvolvimento.

(…)

(…) E com uma Grã-Bretanha que já não está a olhar mais para trás, mas com uma Grã-Bretanha fiel à sua tradição de empenhamento global, podemos encontrar uma nova confiança como nação – a nossa visão internacionalista leva-nos unicamente a posicionarmo-nos de modo a fazer parte e a liderarmos numa  Europa que está ela própria comprometida com o resto do mundo.

Uma Grã-Bretanha forte numa Europa forte – forte para ter sucesso.

(…)”

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