Dos conhecimentos básicos em finança à opacidade e complexidade do mundo financeirizado – Uma exposição e uma análise crítica – 1. O capitalismo da modernidade, da falsidade, da manipulação. Parte B: A financeirização feliz dos banqueiros da City e de Gordon Brown (excertos de discursos de Gordon Brown – texto 4). Por Júlio Marques Mota

Jan Brueghel the Younger Satire on Tulip Mania c 1640

Jan Brueghel, the Younger Satire on Tulip Mania, c. 1640

Por Júlio Marques Mota

1. O capitalismo da modernidade, da falsidade, da manipulação

financeirização feliz deus Dinheiro

Parte B: A financeirização feliz dos banqueiros da City e de Gordon Brown (excertos de discursos de Gordon Brown – texto 4)

 

 

 

4. Discurso de Gordon Brown na Mansion House -21 de junho de 2006 (ver original aqui)

“(…)

Os serviços financeiros representam agora 7 por cento da nossa economia. Os Serviços financeiros e os serviços empresariais que lhe estão associados representam agora 10%. Isto significa uma participação da City na nossa economia maior do que o que existe em qualquer outra grande economia, contribuindo para a balança de pagamentos com 19 mil milhões de libras esterlinas de exportações líquidas, um sucesso ainda mais notável porque, enquanto Nova York e Tóquio dependem de negócios na sua grande maioria internos, o ranking internacional de Londres é baseado num grande e crescente mercado global.

Londres é agora o local preferido para 20 por cento de todos os empréstimos transfronteiriços: 30 por cento do volume de negócios cambiais de todo o mundo, 40 por cento das operações de derivados negociados nos mercados de balcão, (mercados OTC), 70 por cento do mercado secundário global de títulos.

Londres é o local de escolha preferido para cada vez mais negócios internacionais como nunca se verificou antes, é o principal centro bancário mundial com mais bancos estrangeiros do que em qualquer outra cidade, com escritórios para cerca de 200 firmas estrangeiros de  advogados  – incluindo ser sede para seis dos dez maiores escritórios do mundo, e desde o ano passado há novas listas não só da China, da India e da Rússia, mas também dos próprios EUA, que se querem instalar em Londres.

(…)

E o objetivo de Londres é ser o líder do mercado mundial para as empresas mais pequenas cotadas em bolsa.

As pessoas falam da China como a futura fábrica do mundo, falam da Índia como o futuro escritório do mundo – Eu acredito que Londres, tal como Nova York, é já o mercado de capitais do mundo.

E não acredito que isto tenha acontecido por acidente [mas sim por opção].

A mensagem que o sucesso de Londres envia a toda a economia britânica é que teremos sucesso se, tal como a City em Londres, pensarmos globalmente. Mais ainda, avançaremos se não nos fecharmos, antes pelo contrário, se ficarmos abertos à concorrência e às novas ideias. Progrediremos se investirmos e alimentarmos a formação de competências para o futuro, progrediremos se avançarmos com uma regulação ligeira, num ambiente concorrencial em termos de tributação e de flexibilidade. Cresceremos ainda mesmo mais se isso for baseado num mercado interno forte assente na estabilidade.

E avançaremos seja isso feito na base da criação de produtos e serviços de alto valor acrescentado, na base das nossas indústrias criativas, em produtos farmacêuticos, eletrónicos digitais, em exportações dos serviços de educação em grande crescimento: pessoalmente, acredito que, tal como os presentes o fizeram nos serviços financeiros, pudemos demonstrar que tal como a industrialização do século XIX foi feita para a Grã-Bretanha, no século XXI a globalização também será feita para a Grã-Bretanha.

(…)

E temos que reconhecer que se o ritmo da globalização se acelerou desde que aqui estivemos, há um ano atrás, da mesma forma que a ascensão da Ásia e a escala e âmbito da globalização se intensificaram, o mesmo aconteceu com a reação contra esse processo.

As pessoas falam hoje menos da globalização e dos seus benefícios, falam mais da globalização e dos seus descontentes.[1]

Com quase um milhão de empregos industriais que se perdeu a favor da Ásia no espaço de um ano, resultantes da perda de empregos nos Estados Unidos, Europa e Japão, um quarto de milhão de postos de serviços que foram deslocalizados, e os preços do petróleo e das matérias-primas, as commodities, a aumentarem devido à procura asiática, e com a inflação a dar sinais de crescimento, assistimos como resposta ao retorno do protecionismo não apenas na Ásia e na América Latina, mas na Europa e na América também.

Basta pensar como, nos últimos meses, vimos o mercado único europeu a ser minado – com, por exemplo, a pressão em França para bloquear aquisições de serviços públicos italianos, na Itália para questionar as aquisições bancárias neerlandesas, na Espanha para bloquear ofertas de energia alemãs, na Polónia para resistir às fusões dos serviços financeiros italianos.

E este mês na Europa estamos a ver apelos à aplicação de novas tarifas contra os sapatos asiáticos, jeans e móveis.

Em vez de se esforçarem por terem uma maior e maior participação no crescente mercado global, muitos países estão-se a preparar para proteger um mercado nacional menor.

E, claro, na América, assistimos a crescentes pressões protecionistas, nomeadamente com o bloqueio do acordo dos portos de Dubai. E vimos as negociações comerciais mundiais paralisadas.

Assim, enquanto a globalização está a fazer baixar os preços dos bens básicos desde a roupa à eletrónica, colocando o que eram bens de luxo ao alcance das mãos dos agregados familiares comuns, infelizmente mesmo os vencedores da globalização – as famílias a usufruírem de baixos preços ao consumidor, de baixas taxas de juros provocadas pela baixa inflação e de crescentes padrões de vida – muitas vezes só pensam em si mesmos como perdedores da globalização, os beneficiários da globalização muitas vezes vêem-se frequentemente como sendo vítimas da globalização.

E não são apenas as nações que perdem, são as empresas globais que mais perdem – a dimensão do mercado global diminuído por restrições nos fluxos transfronteiriços de investimentos e nas aquisições e fusões e por barreiras à concorrência e ao comércio em geral.

(…)

De facto, em todos os pontos críticos da nossa história, nós, o povo britânico, optámos por ver o canal da Mancha não como um fosso, mas como uma via de saída para o resto do mundo, por outras palavras, sermos globais em vez de insulares, estarmos virados para o exterior e sermos internacionalistas em vez de paroquiais e protecionistas.

E, como a cidade de Londres já está a demonstrar, para a nossa geração, é tempo para nós, uma vez mais, de proclamar como as economias industriais avançadas em plena reestruturação e mudança globais, e também os países em desenvolvimento, beneficiarão, todos eles, por serem economias abertas e não fechadas, e é tempo igualmente de explicar as novas políticas que teremos de seguir para alcançar estes resultados benéficos.

É claro que é muito fácil, mas uma tentação fundamentalmente errada, que os partidos políticos se apeguem ao passado ou evitem as escolhas difíceis de longo prazo com que se confrontam.

Mas, na minha opinião, nenhuma economia industrial avançada que enfrenta a concorrência global pode proteger as suas antigas indústrias ou serviços, nem tão pouco negligenciar os grandes desafios sérios e de longo prazo que decorrem desta nova fase da globalização:

O desafio de resistir a todas as formas de protecionismo e em vez disso, quebrar as barreiras para uma economia global de comércio aberto. O desafio de mudar a Europa da sua prática de tempos antigos de se comportar como um bloco comercial – olhando para dentro e não se reformando – para a Europa global, virada não para dentro mas para fora, competitiva, reformando-se e com uma dimensão social moderna. O desafio com o aumento da procura mundial de petróleo, de conseguir garantir um abastecimento de energia seguro compatível com um ambiente sustentável.

(…)

Mas juntos podemos fazer muito mais. Se a Europa e a América, as duas maiores áreas de comércio do mundo, concordaram em destruir as barreiras tarifárias e não tarifárias, incluindo a cooperação regulatória entre os nossos dois continentes, o PIB europeu poderia aumentar em 3% e um milhão de empregos seriam criados. Neste sentido, espero que todos os presentes nos apoiarão no avanço do diálogo comercial transatlântico no sentido de promover uma cooperação UE-NAFTA mais forte e na construção de uma área comercial aberta transatlântica.

(…)

Foi para reconhecer o risco, recompensar o esforço e encorajar a inovação que reduzimos a taxa de longo prazo do imposto sobre os ganhos de capital [mais valias] para os ativos das empresas de 40 por cento para 10 por cento e cortámos 3 por cento e 4 por cento a taxa do imposto sobre as empresas de pequeno e médio porte. E continuarei a olhar não apenas para a competitividade do nosso sistema tributário, mas também solicitei à HMRC [Her Majesty Revenue and Customs] que assegure que a administração do sistema tributário – na sua consistência, na sua abertura e na sua capacidade de resposta – se baseie numa maior e sistemática consulta com os serviços da City e através de um melhor diálogo.

(…)

A maior parte da Grã-Bretanha mostrará que irá enfrentar e dominar os desafios de longo prazo levantados pela globalização, mostrando que Londres e a Grã-Bretanha formarão, atrairão e conservarão no seu espaço os melhores talentos e os melhores especialistas.

Com a crescente concorrência da China e da Índia, não apenas nas indústrias de baixa tecnologia e pouco qualificadas, mas também na alta tecnologia e na alta formação técnica, ter a força de trabalho mais instruída, melhor qualificada e de melhores qualificações técnicas do mundo não é para a Grã-Bretanha uma opção numa economia global, mas é sim uma necessidade.

(…)

Então, Senhor Presidente da City, nesta noite, a minha promessa é a de promover uma Grã-Bretanha que resista ao protecionismo e que seja a mais global e mais virada para o exterior das nações.

Uma Grã-Bretanha que, em vez de se abrigar contra a concorrência global, defenda a política de concorrência mais aberta do mundo.

(…)

A cidade de Londres está a mostrar-nos que a Grã-Bretanha pode ter sucesso numa economia global aberta, uma globalização progressiva, que a Grã-Bretanha é feita para a globalização e que a globalização é feita para a Grã-Bretanha.

(…)”

 

Nota

[1] Referência ao livro de Joseph Stiglitz “Globalization and its Discontents” publicado em 2002.

 

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