Dos conhecimentos básicos em finança à opacidade e complexidade do mundo financeirizado – Uma exposição e uma análise crítica. Parte I – O básico na finança de hoje – 7. Transações Financeiras de Alta Frequência (1ª parte), por Daniel Guinier e Stéphane Daniel

Jan Brueghel the Younger Satire on Tulip Mania c 1640

Jan Brueghel, the Younger Satire on Tulip Mania, c. 1640

Seleção, tradução e montagem de Júlio Marques Mota

Parte I – O básico na finança de hoje

 THF 0

7. Transações Financeiras de Alta Frequência (1ª parte), por Daniel Guinier e Stéphane Daniel.

 

 

Aldous Huxley bem presente nas grandes bolsas à escala mundial ou talvez nem ele fosse capaz de imaginar o que aí se passa.

Um trabalho feito exclusivamente por montagem de diversos textos, mas sobretudo dos trabalhos de Daniel Guinier (Perito em cibercriminalidade e crimes financeiros junto do Tribunal Penal Internacional La Haye) “Les transactions financières à haute fréquence : THF – Problématique et sécurité”, e de DANIEL Stéphane, “Trading Haute Fréquence et Manipulation de Cours”, apresentado na Universidade de Panthéon-Assas.

Textos fonte publicados, respetivamente, por Observatoire-FIC.com em 07/03/2014 e por Magistère de Juriste d’Affaires – Université Panthéon, Assas-Paris 2012.

 

Introdução[nt.1]

A negociação THF [Transactions à Haute Fréquence] consiste em transmitir a muito alta velocidade as ordens sobre os mercados financeiros, sem intervenção humana ao nível operacional. São programas que varrem permanentemente as listas de ordens para confrontar a oferta com a procura e determinar a cotação de equilíbrio do título. Quando uma oportunidade é detetada, o programa THF permite posicionar-se nesta mesma lista de ordens, intercalando-se entre as ordens dos outros intervenientes do mercado para beneficiar da tendência dos preços que se desenha. O número de transações das praças bolsistas é, de facto, maximizado para antecipar os micro movimentos de mercado. O objetivo visado é obter lucros substanciais gerando lucros bastante fracos em cada operação mas multiplicando as transações em muito grande número [1].

A montante, os instrumentos informáticos são programados com base em algoritmos matemáticos. A jusante, agem como verdadeiras “caixas negras”, concebidas para passar automaticamente milhares de ordens por segundo sobre os mercados bolsistas: compra e venda dos títulos, modificação ou anulação das ordens precedentes, em função das micro flutuações, com a capacidade de não reter senão as ordens interessantes [2]. Os operadores são abandonados em favor dos matemáticos que realizam algoritmos e dos informáticos que os traduzem sob a forma de programas apoiados por redes informáticas. 

Desde há uma dezena de anos, os mercados financeiros tornaram-se cada vez mais automatizados. Os desenvolvimentos da potência dos computadores, das tecnologias da informação e da comunicação bem como a programação informática ofereceram novos instrumentos para a tomada de decisão de investimento e a execução das transações. Doravante, os operadores humanos são substituídos por computadores equipados de algoritmos altamente sofisticados, capazes de efetuar negociações a velocidades fenomenais. A fragmentação dos lugares de execução, a redução dos custos de negociação e a diminuição constante dos passos de cotação constituíram um terreno fértil para o desenvolvimento da negociação de elevada frequência (THF). Hoje, quase 60% das transações nos Estados Unidos e 40% de transações na Europa são o resultado deste novo mecanismo de negociação e o crescimento do sector parece ser extremamente sustentado.

A partir daqui pode-se afirmar, e sem margem de erro, que já não os homens mas os robôs que negoceiam os instrumentos financeiros nos mercados.

 

Infraestrutura tecnológica dos programas THF 

Informática e redes para reduzir o tempo

Os programas THF requerem uma infraestrutura tecnológica sofisticada de reduzido tempo de latência [nt.2]ou lag, que desempenha um papel chave para a rapidez das transmissões de ordens, quase em tempo real. Essa infraestrutura é constituída por super-computadores e servidores potentes instalados o mais perto possível das principais praças bolsistas, com meios de ligação por fibra ótica, a fim de aumentar a rapidez de envio das instruções ao mercado. De acordo com escalas cada vez mais exigentes, o trading de baixa frequência contentar-se-á com uma latência da ordem de aproximadamente 100 milissegundos, a corretagem de 10 milissegundos, e o acesso direto ao mercado (DMA) do milissegundo, enquanto o THF será sensível a frações de milissegundos, ou mesmo a cerca de microssegundos para a arbitragem.

THF parte 1 1

Para melhorar a rapidez de comunicação entre as praças financeiras, um projeto, de um custo total considerado em vários milhares de milhões de dólares, consiste em ligar a Inglaterra ao Japão por três cabos de fibra ótica. O objetivo essencial deste projeto é reduzir o tempo das ordens de Bolsa de aproximadamente 25 a 30%, ou seja, um ganho de 60 milissegundos sobre os 230 milissegundos necessários a um pacote de dados emitido em Tóquio para atingir Londres.

Para além do limite insuperável ligado à velocidade da luz, que exigiria um microssegundo para percorrer 300 metros, os comutadores mais eficientes permitem a execução de uma ordem em dez microssegundos, enquanto uma rede interna Ethernet necessitaria de cinquenta microssegundos [3]. Este fenómeno de latência [4] merece ser abordado tendo em conta a existência e os efeitos de outros fatores limitativos significativos. Nas redes, ao contrário da largura de banda, a latência depende do contexto. O impacto das diversas fontes de latência pode então variar consideravelmente através de ambientes técnicos diferentes. Assim, a corrida poderia conduzir a custos inapropriados, devido a erros de medidas ou de simulações subestimadas, desde a conceção até à sua aplicação concreta.

THF parte 1 2

 

Existem ainda poucas junções diretas por fibra ótica. Nas redes, os pacotes atravessam múltiplas ligações e dispositivos entre os servidores de emissão e os de receção. De acordo com o modelo de interconexão OSI [modelo de referência de interconexão de sistemas abertos], as comunicações passam por um conjunto de camadas. Cada uma tem um papel preciso: conversão, encaminhamento, fragmentação, verificação, etc., e dialogam com as camadas adjacentes, para fornecer serviços à camada superior e utilizar os serviços da camada inferior. Elas resultam de equipamentos distintos: repetidores, concentradores (hubs), comutadores (switchs), routers, portas de entrada ou passagem, etc.

Estes elementos ligados entre si têm uma latência cumulativa, à qual se acrescentam atrasos de emissão e outros ligados a listas de espera variáveis. A este respeito, se a latência de um comutador pode variar entre um microssegundo até mais de 100 microssegundos, há outros elementos ligados à segurança – corta-fogos, sistemas de prevenção do aparecimento de intrusos, dispositivos de supervisão, etc. – que apresentam às vezes latências cada uma delas superior a dezenas de milissegundos. A latência global resulta da soma dos prazos ligados à conversão do emissor e do recetor, à propagação [5] a nível de cada relação, e ao conjunto dos elementos repartidos ao longo do caminho tomado.

Durante a transmissão, quando o tráfego é importante, vêm-se juntar fenómenos de congestão que geram filas de espera e flutuações de sinal (jitters) [6] com curtas variações bruscas (microbursts) durante menos de um milissegundo que saturam a rede durante este período. Isto vem aumentar a latência com outros fatores indeterminados resultantes dos modelos estocásticos e da sua aplicação. Também, a supervisão em tempo real e o acompanhamento contínuo da contribuição relativa dos elementos e segmentos da rede à latência global são indispensáveis para detetar as aberrações e os disfuncionamentos e as eventuais manipulações hostis ao tráfego ou ataques maldosos, para aí se remediarem rapidamente.

Algorítmica para definir e aplicar as estratégias

O THF está associado a algoritmos de três tipos. O primeiro visa a estratégia e analisa o caderno de ordens existente para alimentar em informações os outros módulos. O segundo trata as ordens de colocação de compra ou de venda em função das cotações [7]. Assenta numa estratégia de tomadas de posições de muito curta duração, designada scalping, recorrendo à análise das micro anomalias das cotações para ganhar uma pequena mas frutuosa mais-valia, porque praticada em grande escala. O terceiro tipo organiza o caderno de ordens no bom sentido, tendo em conta uma tendência à alta ou à baixa da bolsa [8] e o melhor encaminhamento. Assim, uma caderneta de ordens altista vai acentuar o fenómeno comprando antes dos operadores reais, e revendendo a um preço mais elevado que estes últimos, e reciprocamente se a tendência for baixista. É necessário notar que se os volumes forem elevados [9], o conjunto de títulos acumulados permanece bastante reduzido [10].

O número de ordens passadas poderia exceder várias dezenas de milhares por segundo, dado que é constatado que o tempo mínimo entre duas ordens consecutivas de um mesmo operador é de apenas alguns microssegundos, enquanto a mais curta duração de vida de uma ordem, anulada antes de execução, é de cerca de dezenas de microssegundos. Com efeito, para evitar assinalar as suas intenções e com o objetivo de descobrir a que preço os outros investidores estão dispostos a comprar ou vender um título, os operadores dividem as suas ordens em lotes de várias centenas a preços definidos e diferentes. Após a obtenção da resposta, as ordens destas séries são anuladas, para a compra ou para a venda dos títulos pouco antes dos outros investidores atuarem, para os revender ou comprar em número, segundo o caso, cerca de alguns milissegundos depois, com um ligeiro lucro por cada um.

(continua)

“Les transactions financières à haute fréquence : THF – Problématique et sécurité”, por Daniel Guinier, texto disponível em : https://www.observatoire-fic.com/les-transactions-financieres-a-haute-frequence-thf-problematique-et-securite-par-daniel-guinier-expert-en-cybercriminalite-et-crimes-financiers-pres-la-cour-penale-internationale-de-la-haye/

e

“Trading Haute Frequence et Manipulation de Cours” por Stéphane Daniel, texto apresentado sob a direção de François Barrière -Maître de conférences à l’Université Panthéon-Assas, Avocat, Sullivan and Cromwell L.L.P. Ano universitário 2011-2012, texto disponível em http://mja-assas.fr/wp-content/uploads/Trading-haute-fr%C3%A9quence-et-manipulation-de-cours_St%C3%A9phane-DANIEL_2012.pdf

 

Notas do tradutor 

[1] N.T. Ao leitor que saiba francês sugiro a visualização de um programa difundido pela televisão francesa, intitulado :  Cash investigation – La finance folle: l’attaque des robots traders / intégrale

 

[2] N.T. Latência: tempo gasto por um sinal desde a sua emissão à sua receção.

NOTAS referentes ao texto de Daniel Guinier:

[1] O THF joga sobre a quantidade e os volumes, e a arbitragem faz-se sobre as anomalias de algumas micro-diferenças de cotações (exemplo ganhos de 0,01% mas sobre milhões de ordens).

[2] Ao nível mundial, em certas estratégias, 1% apenas das ordens serão executados, contra 1 a 5% em França, as outras são anuladas, algumas cerca de 25 microssegundos depois. Em média, 60% de entre elas são anuladas no segundo que se segue à primeira ordem, sendo anuladas por uma ordem inversa. Além do mais, para um mesmo membro, o prazo mínimo entre duas mensagens consecutivas é de 7 microssegundos.

[3] Exemplo: Comutador InfiniBand e rede local (LAN) postos a funcionar por Juniper.

[4] A latência representa aqui o tempo escoado desde a emissão de uma ordem através de uma rede de comutação de pacotes, até ao seu tratamento. Isto comporta os prazos impostos ao longo de todo o percurso nas redes, às quais se acrescentam os tempos requeridos para a conversão e o tratamento a nível dos postos e servidores emissores e receptores.

[5] Prazos de conversão em função do desempenho da interface (exemplo Ethernet, T1), de tratamento a nível dos equipamentos da rede (exemplo comutadores, routers), propagação do sinal até ao destino (exemplo cabo, fibra ótica), transformação e transporte de pacotes (exemplo camadas OSI 2 e 3), e filas de espera

 [6] Este tipo de flutuação, chamado de jitter pode ser devida a uma mudança na fase ou uma dispersão temporal. Ela é capaz de levar a erros na saída durante a recuperação de dados

[7] A execução de uma ordem implica frequentemente a sua divisão em 500 a 1.000 ordens, tendo como objetivo obter o melhor preço para cada uma delas, multiplicando assim artificialmente o seu número.

[8] Para uma estratégia designada “swing trading”, o THF pode pontualmente inverter a tendência, que permite em especial agir sobre as posições dos outros operadores e provocar a retirada.

[9] O que faz aumentar artificialmente a volatilidade de uma ação e o valor das opções detidas pelos operadores.

[10] Por este meio é criado um grande volume de mercado, enquanto de facto os operadores reais trocaram poucos títulos.

 

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: