(Por Jean-Claude Milner, in site fabriquedesens.net, 20/07/2017)

(Transcrição par Taos Aït Si Slimane, da lição inaugural, de 20 de Julho, de Jean-Claude Milner dos XXIVºs encontros de Petrarca.
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Então, o dinheiro ia para os lugares que eram, se assim posso dizer, os museus do capitalismo. Os super lucros lançados pelos novos atores do capitalismo mundial, o que é que se estava a fazer com eles? Claro, podemos fazer grandes obras, grandes trabalhos, podemos fazer despesas de prestígio, mas estes superlucros foram tão importantes, mesmo depois de se construir as barragens mais extraordinárias do mundo – penso na China, com as consequências que isso tem sobre a vida dos camponeses chineses, que se tornou um inferno – a China ainda possui superlucros. E pode-se ter exemplos comparáveis quanto à Rússia, que pode construir estações de metro com esmeraldas incrustadas nos cais, continuará a ter superlucros. Quando se tem superlucros, de duas coisas uma, ou se deixa estar o dinheiro parado (dinheiro dormente) ou não se deixa ficar o dinheiro parado. Se não se deixa o dinheiro parado, então é porque se faz alguma coisa com ele. Mas uma vez feitas as grandes obras, o que é que nos resta para fazer? Maravilhosos produtos financeiros em Wall Street ou na City. Assim, os superlucros geram novos excedentes, esses novos superlucros obedecem à mesma regra, alguns irão ser gastos em despesas de prestígio puro, mais ainda restará uma parte dele que vai ser reinvestida nos mesmos sítios e assim sucessivamente, pelo que se tem uma máquina, a máquina do capitalismo financeiro a funcionar, e que funciona, nos ditos lugares, nas cidades museus do capitalismo mundial. Entre Nova York, Londres, Paris e Frankfurt, digamos o antigo continente, o lago do Atlântico Norte tornar-se-á o mare nostrum da riqueza e, contrariamente ao que Sertorius disse, Roma está sempre em Roma. A riqueza é tudo o que eu sou, acrescentará o financeiro.
Nesse momento, uma ilusão é quase inevitável, o que me parece característico do que eu chamaria de “idade da bolsa no capitalismo mundial”, e tenho dificuldade a dizer da sociedade moderna. O que é uma aplicação financeira? De uma forma mais ampla e a mais geral possível, é um deslocação de dinheiro. É uma aplicação, mas uma aplicação é uma deslocação de dinheiro. Se o produto é beneficiário, gerador de superlucros, não se pode deixar de pensar que é a deslocação por si-mesma , a passagem por si-mesma de uma mão para outra, e às vezes de um lugar para outro, que está a gerar não só os lucros, mas também os superlucros. A partir dessa ilusão, derivamos uma outra, perfeitamente lógica, se assim posso dizer, uma vez que é a conclusão lógica de uma ilusão, e esta é então também ilusória, como ilusória é também a sua própria premissa, e esta ilusão diz-nos que uma vez que o deslocação cria por si próprio valor, basta portanto multiplicar as deslocações para que o próprio valor seja multiplicado.
Os produtos financeiros estão-se a tornar cada vez mais complexos. Quanto maior é o caminho a fazer entre a primeira mão que coloca dinheiro e a última mão que o recolhe , em princípio os superlucros , além do efeito de alavanca, como eles dizem, quanto mais este caminho aumenta maior é o efeito multiplicador. Por outras palavras, está construído um labirinto. O labirinto não contém uma máquina para produzir ouro, é o próprio labirinto que, pelos seus desvios, produz o ouro.
Todos vocês sabem que as matemáticas, as matemáticas para os especuladores têm servido exatamente para isso. O encaminhamento matemático, em vez de ser, como disse Descartes, bastante simples e fácil, tornou-se complexo e difícil porque cada elemento de complexidade e dificuldade revela o aparecimento de um elemento de superlucros. Eu diria que este dispositivo explodiu, diante dos nossos olhos. Por algum tempo apenas? É possível. Para sempre? Eu duvido disso. A questão que ele resolveu, durante um período, na minha opinião, não deixou de ser levantada. Não é verdade que as nações herdeiras do capitalismo veem sem nenhuma preocupação os novos atores a aparecerem. Não, não é verdade. Basta lembrarmo-nos de reuniões como o G8 ou o G20, para ver que esta é uma questão que ainda está na agenda. Como é que se vai fazer para que os novos jogadores se imponham no jogo? Alguns deveres, talvez deveres para com os direitos humanos, deveres para com o clima, deveres de vários tipos. Tudo isso é o quê? Deixem-me ser claro, ficaria surpreendido, pela minha parte, de que as grandes nações herdeiras do século XIX tenham uma preocupação absolutamente sincera para com o clima. Penso que eles se preocupam com isso, pois isso pode causar algum obstáculo ao desenvolvimento dos recém-chegados à cena mundial. Recordemo-nos das preocupações de que se podem sempre ter deveres morais quando o apetite estiver satisfeito. Lembremo-nos de que o álcool é perigoso quando se fica bêbado. Mas este não é o meu problema. Eu não faço previsões
É possível que o capitalismo global nunca mais volte a ser o que era, e isto é muito bem possível. No entanto, acredito que, da crise, surgiram várias consequências. Primeiramente, se nos interrogamos sobre as causas da crise, começamos a conhecer quais os detalhes, mas, de um determinado ponto de vista, eu diria que sei antecipadamente a forma que terá a resposta. A resposta será, a crise ocorreu porque foram combinados uma série de fatores cuja combinação era altamente improvável. Por outras palavras, os especialistas poderão dizer que estávamos certos em nada prever. E aqueles que a previram dirão que estavam certos em antecipa-la, mas também para se surpreenderem porque a combinação era altamente improvável. Isso é muito importante porque é um elemento de raciocínio na conjuntura atual, o raciocínio com o qual temos de lidar, e isto, a todos níveis da sociedade, é um raciocínio probabilístico. Um perito é alguém que é capaz de construir uma escala de probabilidades e a partir daí dizer: isto, esta configuração, tem uma probabilidade de 0,1%, você tem o direito de ignorá-la. E geralmente, o tomador de decisão segue o conselho. E geralmente quando ele segue o conselho, a consequência é catastrófica. Porquê? Bem, precisamente porque estamos numa situação de sociedade ilimitada, num mercado mundial ilimitado, com um sistema capitalista ilimitado na sua essência. Quando a série é ilimitada, quando o entrelaçamento de séries ilimitadas se torna ilimitado, a diferença entre 99% de probabilidade e 1% de probabilidade tende para zero. O mais improvável é tão provável de ocorrer como o altamente provável. E penso que o primeiro dever dos sujeitos políticos, sejam políticos no sentido estrito do termo, ou simplesmente sujeitos políticos, no sentido de que todos nós podemos decidir envolvermo-nos na decisão política, deveriam dar-se conta que devemos ter cuidado com a medição estatística, não por motivos abstratos, mas por causa da natureza material da ilimitação em que estamos mergulhados.
A continuação deste texto, a terceira parte da lição, será publicada amanhã, 08/10/2017, 22h
