Lição inaugural do XXIV Encontro de Petrarca – Milner contra os jornalistas do jornal Le Monde – Parte IV

(Por Jean-Claude Milner, in site fabriquedesens.net, 20/07/2017)

milner

(Transcrição par Taos Aït Si Slimane, da lição inaugural, de 20 de Julho, de Jean-Claude Milner dos XXIVºs encontros de Petrarca.

A oralidade é mantida voluntariamente para todas as transcrições deste site. Os pontos de interrogação, entre parênteses, indicam uma certa dúvida sobre a grafia de uma palavra ou de grupo de palavras.)


Emmanuel Laurentin: uma pergunta ou uma reflexão daquelas de que eu não sei se ela se classificaria de neo-democrata , Christiane Taubira.

Christiane Taubira: Bem, visto assim, isto é muito desconcertante. Eu entendo, entendi ao longo da conferência, o que Jean Birnbaum chamou anteriormente do poder da intimidação do pensamento e do discurso de Jean-Claude Milner, mesmo se nos disponibilizamos, de forma salutar, na minha opinião, para uma impertinência para com Milner, eu digo impertinência, não falo de insolência. Então, é com grande circunspeção que proponho algumas reações que não são reflexões enquanto tais, mas sim reações. A primeira é que eu também penso que as condenações morais não permitirão culpabilizar ou reformar o capitalismo financeiro. No entanto, acho que precisamos de reinvestir no campo da ética porque acredito que é neste campo que podemos redefinir uma série de conceitos essenciais, tais como: o Estado, o papel e o lugar do Estado, o papel, a relevância ou fim das nações, as questões relacionadas com a espiritualidade com ou sem Deus, porque são questões saídas de impulsões extremamente profundas, muito pesadas, nas nossas sociedades e que não podemos ignorar, e ainda as questões ligadas à solidariedade. Eu acredito que é realmente sobre o terreno da ética que podemos começar a fazer a distinção entre construções históricas e antropológicas. Por outras palavras, entender que existem sociedades, se há uma crise hoje, é porque existe um tipo de relações sociais, que existem sociedades que foram construídas sobre crenças, fundamentos, regras e hoje, e é isto que  implodiu na crise financeira, considerando precisamente uma tendência que se viu aparecer, desde há pouco mais de um século praticamente, havendo, no entanto, autores que falam dessa ameaça de capitalismo financeiro, mesmo que ela seja  apenas embrionária. É um tipo de sociedade que está em crise, que está em dificuldade. Muitas vezes, há uma confusão entre o que é construção histórica e o que eu chamo de referência antropológica. Por isto, quero eu dizer que, muitas vezes, consideramos como um tipo universal de relações sociais, uma organização social, um corpus de regras quando de facto se trata de  construções. E é no campo da ética, na minha opinião, quando redesenhamos os ideais, os seus conteúdos e os seus conceitos, que podemos de novo datar as organizações económicas e as organizações sociais e, consequentemente,  fazer uma distinção entre o que pode ser  vivido ou está em vias de ser vivido, digamos os últimos momentos, ou os sobressaltos que serão redentores ou salvadores para eles, ou dar lugar a questionamentos profundos, a um outro tipo de organização da sociedade. A segunda reação que eu teria tem a ver com a necessidade de qualificar a questão do mercado mundial. Uma vez que o senhor Milner nos diz que o mercado se tornou global, eu creio ter compreendido que este já antes se tinha assim tornado. Durante as conquistas coloniais, o mundo inteiro estava em contato e havia um mercado mundial. Tratava-se essencialmente de um mercado de produção, mas este mercado de produção teve uma influência considerável sobre as economias europeias em particular. O mundo estava organizado, estava organizado em impérios coloniais, por isso havia contactos entre continentes, entre diferentes partes do mundo, mas era essencialmente um mercado de produção que, como eu disse, teve um impacto indiscutível sobre as economias ocidentais e europeias em particular, mas também sobre as economias de outras partes do mundo, até ao ponto de mudar mesmo a natureza da economia do capitalismo que se expandia e até mesmo movendo o centro nervoso deste capitalismo na Europa, mais centrado no Mediterrâneo e que se deslocou para o Atlântico. Portanto, este mercado mundial, já o conhecemos, mas é verdade que o mercado mundial não está apenas na produção, invadiu o consumo, mas invadiu também outros campos. Albert Jacquard disse, nós não temos mais aquilo a que  chamamos algures. Não temos mais algures . uma  vez que o último canto do mundo é já conhecido. Já não temos geograficamente um algures mas também já não temos um algures simbólico pois que o mercado, a mercadoria, invadiu o que para nós era sagrado, isto é, os órgãos, como recorda o senhor Milner, fluidos, o ser vivo que , de uma maneira geral, era sagrado para nós, é agora invadido pelo mercado. Portanto, não temos mais nenhum tipo de algures geográfico, também já não temos um algures simbólico, nós devemos, então, reinstalarmo-nos onde estamos neste mundo que nos é comum e nos perguntarmos que regras podemos impor a nós mesmos. Quando eu disse ainda há pouco, já havia o mercado mundial com as conquistas coloniais, mas isso tinha a ver apenas com o Norte e o Sul, com retorno depois no quadro de um mercado triangular. Quanto a mim, lembro-me de ter lido muito belos romances que revelaram que a aristocracia russa falava francês nos séculos XVIII e XIX. Marco Polo já tinha alcançado o à China quando chegou a Cambaluc. O mundo realmente já estava em contato e havia esta primeira globalização. Por outro lado, não acho que haja ênfase suficiente sobre a mundialização, que é o outro tipo de relacionamento que pode ser estabelecido porque o mundo está em contato. Esta mundialização, viu-se uma ilustração que me parece muito interessante, antes da primeira reunião da OMC em Seattle, onde se assistiu à primeira manifestação convocada pela Internet. Cidadãos de todo o mundo  reuniram‑se  em Seattle, Estados Unidos,  e organizaram‑se a partir da Internet. Uma última palavra, e vou concluir. O legislador que eu sou não poderia ficar indiferente à análise que foi dada sobre a elaboração das regras e o “qualquer um” que faz ” não importa o quê “, pois para mim, “ o qualquer um” é exatamente o oposto da democracia. Para permanecer no quadro de uma definição simples, que foi dada pelo filósofo Alain, a democracia é o reino do direito, e isto não é o “qualquer um” que faz “não importa o quê”. Então, a questão não é, na minha opinião, tanto o facto de que “qualquer um” faz “não importa o quê ”  é sim de não se tirar uma consequência para um postulado, isto é, se hoje “qualquer um” faz “não importa o quê”, em particular que qualquer banqueiro decide uma qualquer tarifa para os serviços bancários sobre a qual a autoridade pública não tenha legislado é porque a política renunciou, recuou, renunciou a um certo número de campos que deveria regular, é porque já não temos uma conceção clara do Estado, uma conceção do poder público e da sua responsabilidade de que hoje somos confrontados com uma sociedade dividida e fragmentada. E isso é extremamente perigoso, na minha opinião, porque significa voltar a uma ideia muito simples e que data de Lacordaire: “Entre os fracos e os fortes, é a liberdade que oprime e a lei que protege.

Emmanuel Laurentin: Obrigado, Christiane Taubira. Eu reparei que citou Alain e em que pelo movimento de cabeça de Alain Gérard Slamka nisso teve o seu apoio,  que a encontra, a si, neste mesmo terreno. Sobre que ponto quer o senhor Milner reagir? Sobre a questão da ética? Sobre o mercado mundial que existia antes deste mercado mundial? Ou sobre a questão da política?

Jean-Claude Milner: reencontro-me muito, particularmente na última parte do discurso da senhora deputada Taubira, mas acrescento apenas que não sou contra o facto de que se apresente como hermética a questão de quem determina as regras. Eu não tomo isso como uma objeção e não me vou opor, não é minha própria tendência e não é algo que eu considero externo ao que me proponho.

Quanto ao mercado, sim, completamente de acordo com os exemplos apresentados. A senhora deu mesmo os pontos de diferença que fazem que o que aconteceu nos últimos anos, com a China e na  India, é de uma natureza totalmente diferente, transforma completamente o mecanismo do mercado mundial de hoje, em relação ao mercado mundial como poderia ter sido concebido no século XIX.


A quinta parte deste debate será publicada amanhã, 17/10/2017, 22h


Fonte aqui

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: