Sobre o mercado de trabalho atual: do século XXI ao século XIX, um retorno a Marx. 1 – A centralidade do trabalho vivo – Parte V

Se o debate teórico sobre o trabalho vivo permanece, com tanta vivacidade e de forma tão decidida,  é porque, em filigrana, contém uma oposição de métodos cujo impacto epistemológico é importante e que diz respeito à questão do trabalho assim como ao conjunto das ciências sociais como um todo.

A centralidade do trabalho vivo – Parte V

.As implicações metodológicas do trabalho vivo. Que crítica ao trabalho ?

(Por Jean-Marie Harribey, Setembro de 2017)

Se o debate teórico sobre o trabalho vivo permanece, com tanta vivacidade e de forma tão decidida,  é porque, em filigrana, contém uma oposição de métodos cujo impacto epistemológico é importante e que diz respeito à questão do trabalho assim como ao conjunto das ciências sociais como um todo.

Que crítica ao trabalho ?

É a chamada corrente dita “crítica do valor “, cujos representantes mais conhecidos são Robert Kurz [48] e Anselm Jappe [ 49], seguidos de Moishe Postone, [50] que deu as machadadas mais incisivas, senão mesmo decisivas à visão antropológica do trabalho, levando até ao limite o método de “crítica à economia política” e não, como afirma  Postone, a da “economia política crítica”. De acordo com esta corrente, todas as categorias de mercadoria, de valor e de mão-de-obra são próprias apenas do capitalismo. Pensar o contrário é fetichismo, o que explica em grande parte o motivo pelo qual o movimento operário fracassou na tentativa de partilhar os “frutos do trabalho”: atacar a distribuição e não as relações sociais. Daqui resulta que, de acordo com esses autores, a saída do capitalismo só pode ser alcançada através da abolição do trabalho como mediador social central. Na mesma linha que Gorz, a corrente “crítica do valor” pensa que o trabalho não pode servir de base para a emancipação social. Por conseguinte, será necessário, como Marcuse já disse, abolir o trabalho.

O que é que se pode pensar dessa análise com tons tão corrosivos ? Embora muitos autores, incluindo muitos cognitivistas, considerem que o conceito de valor é obsoleto devido ao uso generalizado de tecnociências e conhecimento na produção, a corrente ” crítica do valor” inscreve-se em conflito contra esta afirmação. Se a medida do valor diminui com o aumento da produtividade do trabalho vivo, não é uma negação do conceito e da lei do valor, mas sim uma confirmação. [51] Por outro lado, pode ser que isto seja o sintoma de uma crise estrutural do capitalismo, já que este sistema procura apenas um aumento no valor apropriável.

Postone pretende construir uma nova ortodoxia do marxismo, já que todos os marxistas se enganaram antes dele. No entanto, os textos de Marx, ao deixar a porta aberta a diferentes interpretações plausíveis, mostram que ele sempre manteve o duplo caráter do trabalho: trabalho concreto / trabalho abstrato, processo de trabalho em geral / processo de trabalho capitalista, isto é, uma dupla perspetiva, a antropológica e a sócio histórica. Assim, de acordo com Marx, a abolição do capitalismo não significaria a do trabalho: “Após a abolição do modo de produção capitalista, o caráter social da produção sendo mantido, a determinação do valor prevalecerá no sentido de que será mais essencial do que nunca para regular o tempo de trabalho e a distribuição do trabalho social entre os vários grupos de produção e, finalmente, para fazer a contabilidade de tudo isto. [52] No entanto, em Grundrisse, Marx apresenta algumas matizes : “Este exemplo de trabalho mostra de forma impressionante que mesmo as categorias mais abstratas, se bem que válidas – precisamente por causa de sua abstração – para todas as épocas são, no entanto, sob a forma determinada desta própria abstração, o produto das relações históricas, e têm a sua plena validade apenas para essas relações e dentro delas. “[53]

Por outras palavras, uma coisa é dizer, como Postone que de acordo com Marx, a forma-mercadoria e a lei de valor só se desenvolvem totalmente no capitalismo onde são as determinações essenciais [54], outra coisa é concluir que elas existem apenas sob o capitalismo e que no seio deste só há valor para o capital [55]. Encontra-se a mesma ideia em Jappe : ” trata-se de […]” de categorias, que na sua forma totalmente desenvolvida pertencem apenas à sociedade capitalista. [56] Se a afirmação de Postone e Jappe é verdadeira, seguindo o seu próprio raciocínio, o capitalismo já deveria ter desaparecido, de acordo com o fim do mito de Érysichthon, o insaciável “rei que se auto-devora ” [57]. De duas coisas uma: ou o capitalismo e as suas categorias ainda não estão “totalmente desenvolvidos” e não se pode ser “na época da decomposição do capitalismo” [58], ou devemos questionar a pertinência da afirmação. [59] Além disso, todas as questões precedentes convidam a um último tipo de reflexão epistemologia.


Notas

[48] Robert Kurz, Vies et mort du capitalisme, Fécamp, Éditions Lignes, 2011. Para uma apresentação da sua obra, veja-se  Anselm Jappe, « Une histoire de la critique de la valeur à travers les écrits de Robert Kurz », in Éric Martin et Maxime Quellet (dir.), La tyrannie de la valeur, Débats pour le renouvellement de la théorie critique, Montréal, Écosociété, 2014, p. 52-66.

[49] Anselm Jappe, Les aventures de la marchandise, Pour une nouvelle critique de la valeur, Paris, Denoël, 2003 ; Crédit à mort, La décomposition du capitalisme et ses critiques, Fécamp, Nouvelles Éditions Lignes 2011.

[50] Moishe Postone, Temps, travail et domination sociale, 1993, Paris, Mille et une nuits, 2009. Pour des commentaires, voir Jean-Marie Harribey, « Ambivalence et dialectique du travail, Remarques sur le livre de Moishe Postone,Temps, travail et domination sociale », Contretemps, Nouvelle série, n° 4, 4e trimestre 2009, p. 137-149 ; Dominique Méda, « Note de lecture de Temps, travail et domination sociale de Moishe Postone », Revue française de socio-économie, n° 6, 2e trimestre 2010, p. 175-182 ; Richard Sobel, « Le travail est-il soluble dans le capitalisme ? Apports et limites de l’interprétation de Marx par Moishe Postone », Revue économique, 2017.

[51] É também a tese que defendemos   desde há muito tempo  : veja-se  La richesse, la valeur et l’inestimable, op. cit.

[52] Karl Marx, Le Capital, Livre III, 1894, in Œuvres, Paris, Gallimard, La Pléiade, 1968, tome II, p. 1457, sublinado por mim.Veja-se também  Critique du programme du parti ouvrier allemand, 1875, in Œuvres, Paris, Gallimard, La Pléiade, 1965, tome I, p. 1420.

[53] Karl Marx, « Contribution à la critique de l’économie politique », Introduction dite « de 1857 » aux Manuscrits de 1857-1857 (« Grundrisse »), Paris, Éditions sociales, 1980, tome I, 1980, p. 39.

[54] Moishe Postone, Temps, travail et domination sociale, op. cit., p. 198, souligné par nous.

[55] No fim desta frase, fazemos uma alusão  ao trabalho  produtivo de  na esfera monetária  não mercantil. Veja-se r La richesse, la valeur et l’inestimable, op. cit.

[56] Anselm Jappe, La société autophage, op. cit., p. 13, sublinhado por nós. .

[57] Anselm Jappe, La société autophage, op. cit., p. 5.

[58] Anselm Jappe, La société autophage, op. cit., p. 186.

[59] A rejeição absoluta de todos os autores da corrente crítica do valor em dar o menor caráter antropológico ao  trabalho não se verifica em todos os domínios. Assim, Jappe escreve na  La société autophage, op. cit., p. 186 : « Tal como Marcuse que levou a sério  “a pulsão da  morte” e construiu  sobre esta noção uma crítica do capitalismo ,  nós pensamos que é necessário admitir que uma parte das pulsões  destrutivas  estão bem presentes  no ser humano   desde o início e não resultam somente  da  natureza  humana que outrora estaria virgem. O capitalismo não foi ele que as  inventou , mas foi ele que fez saltar as barreiras que as continham e  favoreceu a expressão, muitas vezes para as explorar. »


.Artigo original aqui

 A sexta parte deste texto será publicada, amanhã, 02/11/2017, 22h


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