Sobre o mercado de trabalho atual: do século XXI ao século XIX, um retorno a Marx. 1 – A centralidade do trabalho vivo – Parte VI

Continua por examinar em profundidade as relações entre a implementação do trabalho vivo e as formas de dominação a que é sujeito para que se possam gerar perspetivas políticas que abram o caminho para a sua emancipação. Da mesma forma, seria necessário integrar o facto de que a implementação do trabalho feita pelo capital implica colocar em dificuldade a própria natureza.

A centralidade do trabalho vivo – Parte VI

As implicações metodológicas do trabalho vivo. Uma crítica epistemológica?

(Por Jean-Marie Harribey, Setembro de 2017)

Uma crítica epistemológica?

Pode-se ficar surpreendido que um autor como Marx, tendo dedicado o seu trabalho a “desnaturalizar” processos sociais, abrindo a crítica da economia política pelo questionamento das pretensas  leis naturais da economia, seja levado a considerar uma faceta do trabalho como ultrapassando um determinado quadro sócio histórico. Na sua relação para com Marx [60], a posição de Foucault, pela sua radicalidade, é a de estar a escolher claramente o trabalho como uma categoria puramente histórica. De acordo com ele, há uma centralidade do trabalho, mas esta centralidade é inseparável da modernidade capitalista.

No entanto, o antropólogo Philippe Descola encara duas modalidades de experiência individual e coletiva, a identificação e o relacionamento, que constituem dois tipos de invariantes que determinam a relação para consigo mesmo e a relação com os outros: o “Eu” e o “Tu” existem em todas as línguas e culturas. Ora, precisamente, o trabalho é o momento e o lugar onde estes dois tipos de relações são construídas. A tal ponto que Descola , analisando a sociedade de Jivaros Achuar na Amazónia, acredita que a atividade deste povo para responder às suas necessidades é o trabalho: “está, por exemplo, fora de qualquer dúvida de que os Achuar têm uma ideia clara da quantidade de esforço que exige cada uma das técnicas produtivas que eles utilizam. ” Esta despesa energética não é, obviamente, pensada sob a forma de uma alocação de trabalho quantificável integrando a composição dos factores de produção. Isso não significa que o esforço físico muito concreto pelo qual o Achuar socializa certas porções da natureza seja representado por eles como uma empresa lúdica, ou como o meio de uma vaga comunicação com o universo. Por isso, parece-nos inexato dizer que o trabalho se constitui em realidade somente nas sociedades em que é percebido como uma categoria específica de prática. O trabalho do Achuar não é alienado, porque a sua finalidade e os seus meios são controlados pela pessoa que o executa; “mas isso não significa que ele é um não-trabalho.” [61]

Marshall Sahlins [62] mostra que os povos de caçadores-coletores trabalharam menos do que nós, mas trabalharam, mesmo que a fronteira com as suas outras atividades seja ténue. E Polanyi cita Bronislaw Malinowski que analisa o “trabalho no meio indígena” como “dissociado da ideia de seu pagamento”; Ele também cita Raymond Firth: “O trabalho por si-mesmo é uma característica constante da indústria dos Maori” [63]. O  trabalho por si-mesmo é pois o oposto ao trabalho por dinheiro, mas existe.

O antropólogo Maurice Godelier também destacou a pluralidade das formas sociais de produção e da relação para com a natureza: “O que os bosquimanos demonstram … é que cada sistema económico e social determina um modo de exploração específica de recursos naturais e de implementação da força de trabalho humana e, portanto, determina padrões específicos de boa e má utilização desses recursos e desta força, ou seja, uma forma específica , original, de racionalidade intencional. Por racionalidade intencional, referimo-nos s a um sistema de regras sociais conscientemente elaborado e aplicado para melhor alcançar um conjunto de objetivos. “[64]

Continua por examinar em profundidade as relações entre a implementação do trabalho vivo e as formas de dominação a que é sujeito para que se possam gerar perspetivas políticas que abram o caminho para a sua emancipação. Da mesma forma, seria necessário integrar o facto de que a implementação do trabalho feita pelo capital implica colocar em dificuldade a própria natureza.

Mas isso seria o tema de outros artigos que não este. [65] O objetivo era de  mostrar que a categoria de trabalho vivo não estava ultrapassada e que a centralidade que poderia ser estabelecida a seu respeito não impossibilitava a compreensão nem da complexidade nem das mudanças na história das sociedades. “Por outras palavras, mesmo que o trabalho nos ocupe agora menos que antigamente, a centralidade do trabalho permanece e é o trabalho, na sua relação com o capital e na qualidade de produtor de valor que continua a estruturar a economia e a sociedade.” [66] É por isso que reteremos três principais ideias.

A primeira é que a caracterização de “vivo” como característica do trabalho é justificada por pelo menos dois motivos. Por um lado, porque o trabalho é a condição da reprodução material e simbólica da sociedade. Por outro lado, porque contribui para a construção de identidades individuais e para, no plano coletivo, a criação do próprio vínculo social.

A segunda ideia é que a dualidade do trabalho vivo pode ser identificada a vários níveis, em particular: o trabalho concreto é tornado abstrato pela troca mercantil; O trabalho vivo é alienado, mas os trabalhadores “vivos” nunca são totalmente despojados da sua capacidade de ser, do seu conatus diria Spinoza [67]. E essa dualidade multifacetada permite reconciliar uma abordagem objetiva com uma abordagem subjetiva, ou seja, em termos grosseiros, uma abordagem materialista e uma abordagem psico-sociológica. Porque, para dizê-lo como Godelier, “o ideal está no real”.

Os dois polos que formam a dualidade do trabalho vivo não são redutíveis uns aos outros. Claude Meillassoux falou sobre “a incomensurabilidade do valor social dos seres humanos e da sua força de trabalho [que] interdita ver neles, à maneira de uma economia reificadora ,” os recursos humanos “[68].

O trabalho é vivo porque condiciona as vidas dos indivíduos e das sociedades. E é porque ele está vivo, que o trabalho é central. Indubitavelmente, a consequência desta escolha conceitual é política e estratégica: construir a preeminência do trabalho vivo sobre o trabalho morto. A questão é crucial e muito atual porque, com a decomposição dos direitos sociais, na França e em outros lugares através de “leis laborais”, a burguesia e os seus porta-vozes [70], ao quere esmagar o trabalho vivo, ativam “a pulsão da morte ” [71] do capitalismo, que é uma mistura de destruição e autodestruição.


Notas

[60] A obra de análise crítica de referência é a de Isabelle Garo, Foucault, Deleuze, Althusser & Marx, La politique dans la philosophie, Paris, Demopolis, 2011.

[61] Philippe Descola, La nature domestique : symbolisme et praxis dans l’écologie des Achuar, Paris, Éditions de la Maison des sciences de l’homme, 1986, p. 350-351. O autor  confirmera a ideia em  Par-delà nature et culture, Paris, Gallimard, 2005.

[62] Marshall Sahlins, Âge de pierre, âge d’abondance, L’économie des sociétés primitives, 1972, Paris, Gallimard, 1976.

[63] Karl Polanyi, La grande transformation, op. cit., p. 352-354.

[64] Maurice Godelier, L’idéel et le matériel, Pensée, économies, sociétés, Paris, Fayard, 1984, p. 61.

[65] Pode-se ver  Jean-Marie Harribey, La richesse, la valeur et l’inestimable, op. cit.

[66] Jean-Pierre Durand, La Fabrique de l’homme nouveau : travailler et consommer et se taire ?, Lormont, Le Bord de l’eau, 2017, p. 232.

[67] Baruch Spinoza, Éthique, Paris, Flammarion, Le Monde de la philosophie, 2008.

[68] Claude Meillassoux, Anthropologie de l’esclavage, Paris, PUF, Quadridge, 1986, p. 319.

[69] Veja-se  François Morin, L’Économie politique du XXIe siècle, De la valeur-capital à la valeur-travail, Montréal, Lux Éditeur, 2017. Para um comentário a este livro, veja-se ir Jean-Marie Harribey, « La valeur-travail à la place de la valeur-capital ?, Note sur le dernier livre de François Morin », Contretemps, 5 juillet 2017. Voir aussi Thomas Coutrot, « Libérer le travail, vraiment ? », Politis, n° 1455, 25 mai 2017.

[70] Que as almas sensíveis se abstenham  de ler  o que se preconiza de ideológico em : « Ordonnances sur le Code du travail : un vrai progrès qui en appelle d’autres », Le Figaro, 6 septembre 2017.

[71] Sigmund Freud, Le malaise dans la culture, 1930, Paris, Flammarion-Le Monde, 2010.

.Artigo original aqui

 O segundo texto desta série será publicado, amanhã, 03/11/2017, 22h


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