Sobre o mercado de trabalho atual: do século XXI ao século XIX, um retorno a Marx. 5 – A gestão de pessoal não se interessa pelo trabalho – Parte I

A gestão do pessoal encarada sob os aspetos unicamente quantitativos não se interessa nem pelas condições de trabalho, nem pelo seu conteúdo ainda menos se interessa em permitir a  construção de identidades e de saúde dos seus assalariados.

Parte I

(Isabelle Bourboulon, Setembro de 2017, Tradução Júlio Marques Mota)

Isto parece um paradoxo. Por isso, quanto  mais  ouvimos  os assalariados,  os investigadores, à medida que mais avançamos na leitura de muitos livros e estudos dedicados ao trabalho, mais se justificam as nossas dúvidas sobre a adequação dos métodos de gestão atuais às expectativas dos trabalhadores e talvez até mesmo quanto às expectativas da direção das próprias empresas tanto estes  métodos de gestão são frequentemente contraproducentes. Entre uma gestão cada vez mais coerciva, opressiva, e a realidade vivida pelos trabalhadores, o divórcio é óbvio. A gestão do pessoal encarada  sob os aspetos unicamente quantitativos não se interessa nem pelas condições de trabalho, nem pelo seu conteúdo ainda menos se interessa em permitir a  construção de identidades e de saúde dos seus assalariados.

Índice

Uma conflitualidade francesa

Trabalhar sempre mais e mais intensamente

A qualidade do trabalho “impedida”

A exigência do ideal

Individualização e psicologização

Em conclusão.


O que é que caracteriza as principais evoluções na gestão?

  • A  financeirização da economia e o papel das cotações nas bolsas nos métodos de gestão, com a captação do valor produzido pelo trabalho em benefício dos acionistas, ou seja, do capital.
  • A crise de confiança entre gestores e assalariados, é devida, em particular, às desigualdades nas remunerações. Nos olhos de muitos dos assalariados, os mirambolantes salários dos gestores , as opções de compra de ações (stock options) e outros bónus assim como paraquedas dourados constituem uma verdadeira provocação , assim como os consideráveis lucros de certas grandes empresas face à estagnação de salários em vigor desde há vários anos.
  • A crescente individualização da gestão de pessoal e a evolução das competências e o recuo das solidariedades coletivas: a ligação social perdeu-se porque não há já tempo ou espaço para interagir com o outros, para falar, ouvir, discutir.
  • Enfim, a instantaneidade induzida pelo uso da Internet, o telefone e o computador portátil e uma concorrência cada vez mais globalizada entre as empresas, resulta na obrigação de tratar todas as coisas como em situação de emergência. O impacto das novas tecnologias no trabalho em termos de intensificação e de aceleração tem sido considerável.

Uma conflitualidade francesa

A maioria dos franceses pensa que o trabalho tem uma muito grande importância nas suas vidas, mas ao mesmo tempo exige-se-lhe mais do que o que lhe dão,  para que o trabalhador possa encontrar satisfação, realização e orgulho no seu trabalho. Isto foi revelado em 2008 por um inquérito [1] conduzido pelo sociólogo Dominique Méda em vários países europeus sobre o lugar e o significado do trabalho. Esta é também a hipótese avançada por Yves Clot [2] quando este analisa a conflitualidade do trabalho na França. “Aqui temos a ideia bem enraizada de que haveria outra sociedade possível,  baseada em algo além do dinheiro e da taxa de lucro” [3]. (Lembremo-nos disto e exatamente no momento em que o governo quer impor a sua “lei do trabalho descartável” …). Em comparação, nos Estados Unidos, a relação com o trabalho é “ganhador-ganhador”: trabalha-se aí para ganhar a sua vida . Na França, não é só isto. Aqui, cada um de nós não quer apenas sobreviver, mas fazer algo de útil. Esta ideia poderia, além disso, reconfigurar novas relações no trabalho

Trabalhar sempre mais e mais intensamente

As reformas nos métodos de gestão que ocorreram nos últimos trinta anos resultaram num aumento considerável do trabalho e afetaram todas as categorias socioprofissionais. Particularmente aquelas de operários, empregados, técnicos e de agentes do controlo que, devido a problemas organizacionais, muitas vezes acumulam condições psicológicas e físicas muito más.

Certamente, a França já não tem mineiros, mas continuam a existir profissões muito duras e aparecem novas profissões que são potencialmente tão difíceis quanto os mineiros nas minas. Laurence Théry [4] no seu trabalho Le Travail Intenable descreve o mundo dos resíduos com as suas condições em termos de ruído e exposição a riscos químicos e biológicos, e dos cortadores de aves de capoeira, que acumulam a maior parte das características violentas que se podem imputar ao trabalho doloroso – repetitividade, intensidade extrema, esforço excessivo e exclusivo de alguns músculos e articulações, exposição ao frio … Também podemos adicionar o setor de limpeza que cresceu enormemente nos últimos anos com a terceirização de atividades de limpeza, tanto privadas e públicas.

Na origem da intensificação do trabalho, a regra da urgência foi imposta em todos os lugares. Tornou-se um princípio de funcionamento e a sua satisfação é tomada como uma garantia de  profissionalismo. Nos serviços, os projetos são orientados para a busca de resultados de curto prazo, o mesmo acontecendo nas grandes empresas cotadas, submetidas às exigências dos mercados financeiros e dos acionistas em  matéria de publicação de resultados. O desenvolvimento da subcontratação contribui, também, para aumentar a eficiência do aparelho de produção. Esta subcontratação pode ir até à externalização sistemática de todas as atividades de uma empresa que, não fazendo parte do coração das atividades da empresa, são menos produtivas e, portanto, menos rentáveis. Mas esta organização faz incidir sobre os assalariados das empresas subcontratadas encargos anteriormente assumidos pela empresa que externalizam  a sua produção ( e estas são pois as dadores de ordens), tais como controle de qualidade ou a versatilidade de se adaptar às sucessivas mudanças na gama de produtos propostos aos clientes. E o correspondente aumento da flexibilidade externa é complementado pelo aumento da flexibilidade interna das empresas. Enfim, a terceira forma de minimizar os custos de manutenção, o pessoal permanente é reduzido ao máximo possível. Quando a procura aumenta, sempre que há uma necessidade especial ou que há uma ausência inesperada que ameaça interromper o processo de produção, as empresas recorrem à externalização com prazos fixos ou a agências de emprego temporário. Daí o crescimento espetacular do emprego precário [5] nos últimos anos.


Notas

[1] L. Davoine et D. Méda, « Place et sens du travail en Europe. Une singularité française ? », in Document de travail pour le Centre d’étude de l’emploi, n° 96-1, février 2008.

[2] Yves Clot, professor de psicologia do trabalho, titular da cadeira de Psicologia do Trabalho do CNAM e diretor do Centro de Investigação sobre o Trabalho e o Desenvolvimento (CRDT).

[3] Numa entrevista que nos foi concedida em Setembro de 2010.

[4] L. Théry (dir.), Le travail intenable, résister collectivement à l’intensification du travail, Paris, La Découverte/Poche, 2006, 2010.

[5] Segundo um estudo do Ministério do Trabalho, entre 2000 e 2012, o número de contratos de duração determinada aumentou mais de 75 %, atingindo todos os jovens e os menos qualificados e mais, as mulheres que os homens. En 2015, 70 % dos contratos assinados dizem respeito a duração de tempo inferior a um mês.


Artigo original aqui

 A segunda parte deste texto será publicada, amanhã, 08/12/2017, 22h


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