Sobre o mercado de trabalho atual: do século XXI ao século XIX, um retorno a Marx. 6 – O futuro do trabalho: sentido e valor do trabalho na Europa – Parte II

Este artigo retoma em primeiro lugar a história longa do trabalho, mostrando como a noção de trabalho tem sido enriquecido por novos significados ao longo dos séculos. Em seguida, analisa-se a importância que os europeus dão ao trabalho e empenhamo-nos em descrever as consequências sobre o trabalho e a utilização do discurso atual, de acordo com o qual a revolução tecnológica atual seria um portador de transformações radicais. O documento examina então o futuro do trabalho nas próximas décadas à luz de três cenários principais que estão entre si em concorrência para descrever o futuro do trabalho nas próximas décadas.

Parte II

(Dominique Méda, publicação da OIT, 2016, Tradução Júlio Marques Mota)

2.1.3 Trabalho, o pivô da sociedade salarial

No final do século XIX, em vez de suprimir a relação salarial em vias de formação, o discurso e a prática social-democrática, pelo contrário, fazem dos salários o canal através do qual a riqueza se espalhará e através do qual uma ordem social mais justa (fundada sobre o trabalho e as capacidade) e verdadeiramente coletiva (os “produtores associados”) irá gradualmente enraizar-se.

É na relação salarial – especialmente na França e na Alemanha – que a lei da proteção social e do trabalho se irá gradualmente ancorar, contribuindo assim para a fortalecer e para a tornar indispensável. Na Alemanha, por exemplo, a legislação    do trabalho e de proteção social reforçou esta ligação entre empregador e empregado por causa das leis de segurança social introduzidas por Bismarck entre 1883 e 1889. Mas isso fortaleceu a relação de subordinação. Por conseguinte, é pois considerado fator de desenvolvimento do homem mesmo enquanto o salário não é abolido e, pelo contrário, é através do aumento dos salários e do consumo e através da aquisição de direitos sociais que o trabalho se torna central e o trabalho assalariado, de estatuto indigno, torna-se o estado mais desejado (Castel, 1995).

É no século XX que, particularmente na Europa, que se dá a última (?) viragem: arrancando-o cada vez mais à sua dimensão dolorosa (a etimologia sugere que o trabalho vem do termo “Tripalium”, um instrumento feito de três paus aguçados e eventualmente com pontas de ferro utlizado na tortura, Muitas vezes referido como um instrumento de tortura, o termo trabalho representa agora o oposto, representa uma atividade desejável ao nível mais alto, tanto por causa dos direitos a que o exercício de um trabalho dá acesso, mas também porque permite, numa série de casos cada vez mais frequentes, a expressão e a autorrealização, a capacidade de mostrar as suas capacidades para os outros e para si mesmo. Tudo se passa como se as sociedades ocidentais tivessem ainda ultrapassado com a entrada no século XXI, um passo adicional nesta mudança multisecular do trabalho- de elemento de tortura (Tripalium) para o trabalho como elemento de libertação e de afirmação pessoal e coletiva: de acordo com o sociólogo alemão Stefan Voswinkel (2007), o desenvolvimento da pós-taylorismo e a intensa mobilização da subjetividade no trabalho posta em prática desde a década dos anos 1980 teria ajudado a substituir a ética do dever por uma ética subjetivizada de autorrealização profissional em que o indivíduo seria posto em cena e onde o reconhecimento seria baseado na admiração muito mais do que na valorização. A promessa de admiração, isto é, da pessoa enquanto sujeito, seria, portanto, concomitante com a eleição do trabalho como o lugar de autorrealização, o ligar onde o indivíduo pode dar o seu pleno valor e toda a sua grandeza, como um dos principais arenas em que dá a ver as suas capacidades.

A nossa ideia atual do trabalho tem com ela todas estas dimensões diferentes: o trabalho é considerado simultaneamente (em proporções diferentes de acordo com os países e os indivíduos) como um fator da produção, a essência do homem, e o centro do sistema de distribuição dos rendimentos, direitos e proteções. Estas dimensões são contraditórias entre si e são a base da pluralidade de interpretações que é o tema do presente texto. Olhemos para a forma como os europeus articulam e valorizam hoje estas diferentes dimensões do trabalho.

2.2 A relação dos europeus para com o trabalho [1]

A análise dos inquéritos de que dispomos sobre a relação dos europeus para com o trabalho torna possível pôr em evidência, por um lado, a importância agora atribuída ao trabalho em relação a outros domínios de atividade ou outros valores, mas também as tendências comuns e a diversidade demonstrada pelos europeus quando se trata de julgar o que é particularmente apreciado no trabalho.

2.2.1 A importância do trabalho

Os European Values Study que analisam regularmente a relação dos europeus com os seus valores desde 1981, permitem de ficarmos a conhecer principalmente qual é a importância que os europeus atribuem ao trabalho. Uma das perguntas feitas é: “é o trabalho importante na sua vida?”, e os inquiridos podem escolher entre quatro itens : muito importante- bastante importante-não importante- nada importante mesmo. Claro que o termo “importante” pode ter múltiplos significados: o trabalho pode ser importante porque é central na vida, porque a fonte de rendimento, porque se está muito agarrado a ele, porque fonte de felicidade ou sofrimento, porque ausente…. Por outro lado, os limites destes inquéritos são muito numerosos e é sabido, por exemplo, que a propensão para usar estimativas extremas (“muito importante”) é diferente dependendo do país (Davoine, MEDA, 2008). Dado que estes limites são tidos em conta, os resultados do inquérito são claros (ver quadro 1): o trabalho é considerado em toda a Europa como muito importante ou muito importante. Menos de 20 por cento dos inquiridos dizem que o trabalho não é importante ou nada importante, exceto na Grã-Bretanha e na Irlanda do Norte.

Nestes dois últimos dois países, mas também na Finlândia, a afirmação de que “o trabalho é muito importante” é menos escolhida do que em outros lugares, enquanto um outro grupo, formado pelos países do Sul (Grécia, Espanha, Itália), de dois países continentais (França e Luxemburgo) e muitos novos Estados-Membros (Malta, Chipre, Eslovénia), a proporção de pessoas que declaram que o trabalho não é ” importante ou nada importante” é inferior a 10 por cento e entre 58 e 75 por cento da população indica que “o trabalho é muito importante “.

 

Quadro 1: importância do trabalho na vida dos europeus, 2008 (em%) Fonte: EV Survey, 2008 [2].

QUADRO1

A situação era comparável em 1999 (cf. quadro 2), onde apenas 40 por cento dos dinamarqueses, dos britânicos e dos irlandeses do Norte declararam na altura que o trabalho era “muito importante”, enquanto esta proporção foi 50 por cento na Alemanha, na Suécia ou nos Países Baixos, mas também na Croácia, na República Checa e na Estónia, e foi muito mais elevado na França e nalguns novos países membros (Polónia, Roménia, Malta, Letónia).

Quadro 2: importância do trabalho na vida dos europeus, 1999 (em%)

QUADRO2

As diferenças entre os países permanecem significativas mesmo quando o efeito da composição populacional é tido em conta [3].  Este último também é difícil de interpretar na medida em que as pessoas de diferentes estatutos de emprego respondam de uma forma muito diversificada à questão colocada nos diferentes países. Mostra-se no quadro 3 que põe em evidência que, em França, quase dois terços dos ativos que estão a tempo integral e três quartos dos ativos a tempo parcial, os desempregados e os reformados indicam que o trabalho é muito importante, enquanto na Grã-Bretanha e na Alemanha esta opinião é principalmente apresentada pelos trabalhadores a tempo completo e trabalhadores independentes.

Explicações de ordem cultural [4],  religiosas [5],  económicas destas diferenças foram sugeridas, nenhuma das quais é totalmente satisfatória: foi, no entanto, salientado que a influência do PIB/habitante e a taxa de desemprego sobre a importância dada ao trabalho era significativo (Clark, 2005;) Davoine e MEDA, 2008; (MEDA e Vendramin, 2013).

QUADRO3

No nosso trabalho, sugerimos que, embora alguns países, particularmente a França, colocassem mais importância no trabalho do que outros, como a Grã-Bretanha ou a Dinamarca, que parecem ter uma relação mais pragmática quanto ao trabalho, era necessário, sem dúvida, como o sociólogo Philippe Iribarne (1989) sugere, colocar isto em relação aos sistemas de educação nacional e à dimensão estatutária do trabalho. Em França, a profissão e o tipo de trabalho realizado são constitutivos do “estatuto” da pessoa e indicam, em particular, o currículo escolar que completou e, finalmente, a sua posição na sociedade. A consideração de outras dimensões dadas ao trabalho permite-nos refinar esta análise, como vemos abaixo.


Notas

[1] Os resultados apresentados são retomados de   Davoine, Méda, 2008 et de Méda, Vendramin, 2013.

[2] Os inquéritos sobre os valores dos europeus (subsequentemente os EVS) nasceram em 1981, graças a um grupo de investigadores liderados por Jan Kerhofs, da Universidade de Louvain e Ruud de Moor, da Universidade de Tilburg. O inquérito compreende quatro vagas : 1981, 1990, 1999, 2008. Agora cobre 47 países. O questionário de EVS, do qual uma grande parte é invariável de uma vaga para outra, evoca, entre outras coisas, o lugar de grandes valores tais como o trabalho, família ou religião, mas também práticas religiosas, opiniões políticas, bem como a importância dada a cada faceta do trabalho (salário, segurança, desenvolvimento pessoal, etc.).

[3] A composição da população refere-se à estrutura da população por idade, a proporção de pessoas ativas ou ainda o nível de qualificação e a profissão. As mulheres em casa  e que tenham concluído o curso de pós-graduação por exemplo afirmam menos frequentemente que o trabalho é muito importante. Por outro lado, os patrões, os desempregados e os trabalhadores independentes prestar mais atenção ao trabalho. No entanto, essas categorias são distribuídas de forma muito diferente em países europeus. Os níveis de ensino, portanto, são mais elevados nos países nórdicos, e as mulheres são menos frequentemente empregadas nos países do Sul da Europa.

[4] Em psicologia e em gestão principalmente  as dimensões culturais postas em evidência entadas por Geert Hofstede (2001) são sistematicamente retomadas  para tentar explicar o relação para com o  trabalho (ver por exemplo, Parboteeah e Cullen, 2003). Por exemplo, entre os europeus, os franceses e os belgas são estes que mais facilmente aceitariam uma certa distância hierárquica (poder à distância), enquanto que a escuta  e a proximidade de um superior hierárquico seriam mais apreciadas e solicitadas para o Dinamarca, Suécia, Áustria e Finlândia.

[5] “Uma rutura entre os países protestantes e os países católicos parece estar a desenhar: contrariamente ao que Max Weber nos tinha ensinado, o trabalho parece menos importante em muitos países protestantes (Dinamarca, Grã-Bretanha, Holanda, Alemanha, Finlândia).” E mais importante nos países católicos (França, Bélgica, Espanha, Itália, Áustria), com exceção da Irlanda, no entanto. Mas é preciso distinguir claramente o efeito da prática individual de uma religião sobre a relação com o trabalho do efeito da pertença de um país ou um grupo a uma determinada religião. A nível individual, a religião tem um impacto sobre o relação para com o trabalho: em relação aos ateus, os inquiridos que se dizem  cristãos ou muçulmanos dão mais importância ao trabalho e dentro desta categoria, os protestantes estão entre aqueles que concedem mais importância ao trabalho.


Artigo original aqui

 A terceira parte deste texto será publicada, amanhã, 14/12/2017, 22h


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