Sobre o mercado de trabalho atual: do século XXI ao século XIX, um retorno a Marx. 7 – Alguns resultados dos inquéritos europeus sobre a relação face ao trabalho – Parte II

Muito recentemente, um pequeno artigo do colunista Christophe Barbier, em L’Express propôs  mesmo que se encurtassem as férias dos franceses de uma semana, sugerindo que os franceses  teriam um problema no  seu relacionamento para com o trabalho… O que é desesperante sobre tudo isso é que esta posição representa a vitória ideológica ganha por todas essas pessoas sem que isto assente em algum fundamento, alguma prova de concreto: Esta posição não assenta em nada de verdadeiro, não tem nenhum suporte na realidade, nem há nenhum   estudo nem nenhum testemunho que a defenda.

Parte II

(Dominique Méda, Setembro, 2017, Tradução Júlio Marques Mota)

Os franceses reafirmam o interesse do trabalho

Nós interrogámo-nos em conjunto com Lucie Davoine sobre o significado desses resultados e as suas explicações. Tínhamos finalmente proposto  duas : a situação francesa pode ser explicada pela combinação da elevada taxa de desemprego que o nosso país tem experimentado desde há mais de trinta anos – a falta de trabalho que está a ser ligada à afirmação da sua importância (como tinha sido bem evidenciado com o inquérito “trabalho e estilos de vida” que  Baudelot e Gollac fizeram em 1997 [4]) – e pela importância dada pelos franceses às dimensões intrínsecas do trabalho ou aos aspetos não-instrumentais do trabalho: interesse da atividade, relações… Foi o levantamento ISSP que, então, tornou possível destacar o fato de que os franceses foram os mais numerosos (68%) a declarar importante o interesse intrínseco do trabalho nas duas últimas vagas do levantamento (gráfico 1).

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A última vaga (2015) do ISSP confirma estes resultados: quase 69% dos entrevistados franceses indicam que ter um trabalho interessante é para eles pessoalmente muito importante. Este é, de longe, o primeiro item escolhido a partir de dez propostos. Isso não significa que as dimensões instrumentais sejam  ignoradas: se nesta investigação é a segurança do trabalho que vem imediatamente após o interesse do trabalho (65% dos inquiridos considerando este aspeto muito importante para eles, enquanto o salário não é considerado como tal senão para  menos de 20% dos inquiridos) ganhar bem na vida continua a ser considerado um elemento  importante do emprego  por 57% dos franceses na última vaga do EVS. Isto não impede que os franceses estejam muito descontentes com o seu nível de remuneração, bem como as suas oportunidades promocionais.

A dimensão instrumental do trabalho é predominante na Europa. Mais de 84% dos europeus entrevistados no EVS mencionam a ideia que têm de que bem ganhar a sua vida é para eles um dos aspetos mais importantes do trabalho: se 89% dos portugueses ou 74% dos alemães e ingleses citam o fato de ter um bom salário como uma parte importante do emprego , este é o caso apenas para 55% dos dinamarqueses, 57% dos franceses, 60% dos belgas e 61% dos suecos. A heterogeneidade percetível entre os países é parcialmente explicada pelo contexto económico: “ganhamos bem a nossa vida” é, portanto, um item muito importante para os búlgaros (98%), gregos (94%), húngaros (85%), espanhóis ou italianos (77%).

Quais são as principais características que parecem importantes no emprego? O EVS coloca esta questão para os indivíduos, apresentando um mapa em que se colocam quinze itens. Em 2008, o item que obtém mais votos, depois do que se refere às dimensões instrumentais, é o ambiente de trabalho: “O ambiente de trabalho é bom” é citado por mais de 75% das pessoas interrogadas nos 47 países, e “o que é feito é interessante” por 69%.

Na maior parte, a atmosfera de trabalho é a primeira prioridade (Holanda, 95%, Portugal, 88%, Suécia, 84%, Dinamarca, 78%, Bélgica, 68%). Aparece um grupo de países (Holanda, Bélgica, Dinamarca, França, Suécia) para os quais, de acordo com o EVS, as dimensões não instrumentais são predominantes, ou seja, a população dos interrogados é mais numerosa a atribuir importância à questão do ambiente de trabalho, em vez de ser o item ganhar bem a sua vida. Este grupo é acompanhado de perto por Portugal e Grã-Bretanha, para o qual as duas dimensões instrumentais e não instrumentais são muito próximas. Os países do Mediterrâneo e a Hungria dão uma preferência muito clara aos salários.

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A atmosfera de trabalho, declarada como a primeira dimensão não-económica ou não-instrumental do trabalho, salienta uma qualidade de trabalho que parece estar menos ligada aos indivíduos e às suas possíveis performances singulares do que ao coletivo de trabalho, e mais geralmente ao que resulta do exercício do trabalho numa empresa e com uma determinada organização de trabalho e um coletivo de trabalhadores. A formulação da questão em inglês também é muito mais explícita: “importante um trabalho: pessoas agradáveis”.

O ambiente de trabalho e o interesse do trabalho são itens que são amplamente discutidos nas entrevistas. Aparece-nos assim que o conceito do interesse do trabalho deve ser articulado com o conteúdo da atividade e com as capacidades do indivíduo. Um trabalho interessante é um trabalho que permite ao indivíduo continuar a aprender, a usar plenamente as suas competências, ter á sua frente dificuldades a resolver e a ter de dar soluções à medida  das suas capacidades técnicas, intelectuais, organizacionais que constituem, portanto, desafios e oportunidades para desenvolver as suas capacidades e para mostrá-las em ação. É um trabalho que não se irá tornar rotineiro, que mantém a pessoa desperta, que não é monótono, o que lhe permite continuar a desenvolver-se.

É também um trabalho criativo, que dá ao indivíduo a oportunidade de demonstrar as suas competências, de  mostrar as suas capacidades, de se confrontar e medir-se  a si mesmo. O interesse do trabalho deve, obviamente, ser colocado em estreita correlação com a forte procura de sentido que se revela nas entrevistas. Mas o interesse do trabalho não se limita a uma congruência feliz entre as capacidades do indivíduo e a natureza da tarefa em mãos. Este interesse também desempenha um papel essencial para as modalidades concretas de exercício da profissão e na forma como essa atividade é realizada, e em particular para o coletivo de trabalho, para a pequena equipa com a qual se trabalha numa base diária. É também esta dimensão do trabalho, mais social, que cobre a atmosfera de trabalho.

A importância da dimensão relacional do trabalho é uma das principais características comuns que emergiram das entrevistas que conduzimos nos seis países europeus envolvidos com a nossa investigação. O que os psicólogos chamam de “motivo relacional” cobre de acordo com as nossas investigações dois significados distintos: por um lado, ele aparece como um dos componentes da relação expressiva no trabalho, e, por outro lado, como a expressão da necessidade do indivíduos pertencer a um coletivo. Este segundo sentido refere-se à ideia de identidade social, ao sentimento de pertença a um grupo profissional, a uma profissão ou, como muitas vezes ouvimos, à pequena equipa com a qual se  trabalha  diariamente.  O que se tornou essencial em todos os países onde as entrevistas ocorreram é a importância dada às relações interpessoais desenvolvidas no trabalho, àquelas relações diárias que unem o indivíduo àqueles com quem se  encontra todos os dias.

O que os trabalhadores, portanto, parecem estar claramente a privilegiar, mais do que pertencer a um coletivo distante (“sociedade”), é, pelo contrário, esta pequena rede de pessoas com quem os hábitos se têm desenvolvido e que constituem um dos elementos centrais do “local do trabalho” e um elemento determinante do ambiente de trabalho.


Artigo original aqui

 A terceira parte deste texto será publicada, amanhã, 16/01/2018, 22h


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