A GALIZA COMO TAREFA – 7 cuncas – Ernesto V. Souza

A Galiza tem um fugaz fulgor republicano, um enérgico pulo romântico e um fundo pouso barroco e românico. Sem saudades, nem mitificações: são épocas históricas nas que por causas económicas favoráveis, circunstâncias sociais determinadas e reivindicativas prendeu, na parte mais ativa da sua sociedade, a reivindicação e orgulho pela própria imagem.

Pintura, gravado, arquitetura, poesia, discurso polêmico e político, depois imprensa, história e prosa arquitetam a representação simbólica da Galiza. Uma Galiza que emerge desde a origem do mundo, discreta e sofrida, autêntica mater hispaniae, que lamenta em desconsolo, como velha fidalga numa torre antiga, o abandono e esquecimento dos seus hoje poderosos filhos.

Tem também elementos mais antigos, próprios de um espaço agrícola e mares cheios de alimento, nos que se fixou de muito antigo uma população continuada, que pouco e pouco foi lavrando e humanizando a paisagem que por sua vez a condiciona desde há tanto.

Nos últimos séculos tivemos um Rexurdimento cultural, com poetas e historiadores celebres e talentosos que não chegaram a mais, bombardeados impiedosamente por uma construção política, pela imprensa e as academias de um Estado espanhol que aspirava a ter um projeto nacional unitário.

Tivemos um nacionalismo, progressista, lusófilo, federalista e iberista, de teor republicano que foi brutalmente esmagado, com o melhor dos seus assassinado, exilado ou postergado. E tivemos também um colaboracionismo sui generis com o franquismo – afinal Franco e os principais da sua corte eram galegos – que trocou reivindicações políticas e ideários sociais republicanos, por uma presença acomodatícia, estética, tolerada, cultural, arqueológica e folclórica. E foi-se vivendo.

Houve também em paralelo um nacionalismo exilado que se foi extinguindo, e um nacionalismo de novo modelo marxista que por vezes ligou umas cousas com outras enquanto bebia na tradição independentista dos movimentos de descolonização. E isto tudo entrou baralhado no processo de Transição dos anos 70 e no que apenas os conservadores e a mesocracia administrativa, política e cultural soube tirar algum partido.

Passamos décadas a debater. Sobre a estratégia política do nacionalismo. Sobre o modelo de língua. A respeito de como conciliar a normalização linguística com a imposição do castelhano passivamente exercida com apoio do Estado. Sobre a cultura galega e a construção de um sistema institucional “de seu” integrado e não conflituoso no modelo do Estado.

Fomos como de quem construindo, mirando uns para outros, sem fazer e deixar fazer o aparato autonómico. Também chegou Fraga, aquele ex-ministro franquista, que era galego a se ir aposentando na Galiza, deixando ferro a sua pegada de gransciano fascista, ante o desconcerto da oposição. Depois já sabem: bipartido, com ataques constantes às reformas que trazia o BNG e traição do PSOE.

A língua esmorece. A população envelhece. O rural é abandonado. A população das cidades entrou num ciclo de recessão e empobrecimento nunca visto. Consolida-se também uma nova classe média, cultivada, alternativa e contestatária, nela de mais em mais o reintegracionismo e a lusofilia vão ganhando espaços.

E o mundo muda sempre. Os empresários galegos olham cara Portugal. As empresas galegas descobriram que bastava saltar a fronteira para encontrar nos parques industriais do Alto Minho uma Terra de promissão. E já se aventuram, nas ondas da reativação económica portuguesa além mais.

Mas o empresariado galego é um baluarte do PP. O seu mundo é o que atacou a política económica do bipartido, na mesma imprensa que hoje ecoa o milagre português; é o que rejeitou sem diálogo as reformas sociais, estruturais, os projetos de reativação e desenho económico que defendia o bipartido, uma política de esquerda (bases comuns na esquerda europeia) que hoje conforma em muito aspecto a política econômica que faz de Portugal um modelo apetecível; é o que acossou sem trégua o modelo educativo e denunciou a “imposição” nele da língua galega no sistema educativo e na administração; é o que se opõe ao desenvolvimento da lei Paz Andrade. Os mesmos que de Portugal, porém, aceitam às carreiras e com naturalidade, a utilidade e necessidade da língua portuguesa, não querendo uma e própria, e tragam com sete cuncas fora.

One comment

  1. luiz

    Tragam–> Engolem
    (tragam é mais de “trazer”)
    De resto magnifico!

    Gostar

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