Dos conhecimentos básicos em finança à opacidade e complexidade do mundo financeirizado: uma exposição e uma análise crítica Parte IV – A titularização como meio para continuar na trajetória da crise – 7. Um Zoo com cada vez mais cisnes de cor preta. Por Peter Wahl

Jan Brueghel the Younger Satire on Tulip Mania c 1640

Jan Brueghel the Younger, Satire on Tulip Mania, c. 1640

 

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota  

Parte IV – A titularização como meio para continuar na trajetória da crise

 Parte IV texto 7 1

7. Um Zoo com cada vez mais cisnes de cor preta

Por Peter Wahl

Publicado por  Parte IV texto 6 2 em 23 de dezembro de 2016

 

Quando o sistema financeiro global colapsou em 2008, a metáfora do cisne preto [1] foi viral. Aqueles que acreditavam nos mercados financeiros eficientes tinham estado fundamentalmente errados. Havia cisnes pretos. Os mercados financeiros não se podiam auto-regular e provaram ser inerentemente instáveis.

Desde então, os cisnes pretos de 2008 estiveram bastante acompanhados. Na esfera financeira e monetária, houve a crise do EURO, o drama grego, a livre entrega de “dinheiro por helicóptero” via BCE aos bancos, as taxas de juro zero e o mais importante banco na UE, o Deutsche Bank, a atravessar uma crise séria. Na esfera política, alguns cisnes pretos em 2016 eram particularmente impressionantes, incluindo a crise dos refugiados, um cisne preto muito grande e gordo, o BREXIT, juntamente com conflitos geopolíticos no Médio Oriente e na Ucrânia – em ambos os casos com participação direta da UE – e tensões crescentes no sul do Mar da China. Por fim, mas não de menor importância, havia a grande surpresa das eleições dos EUA. Aqui, a boa notícia é que Hillary não as ganhou; a má notícia é que foi Trump que as ganhou. E nós deixámos fora da nossa lista as cisnes bebés, tais como o referendo no tratado da associação com a Ucrânia nos Países Baixos, o golpe na Turquia e o referendo em Itália.

Naturalmente, houve igualmente alguns desenvolvimentos encorajadores. O acordo TTIP foi retirado da ordem do dia, o TPP foi cancelado e o acordo UE-Canadá (CETA) era desativado até certo ponto graças à pressão da sociedade civil, a um governo regional resistente na província belga de Valónia e ao Supremo tribunal alemão. E em alguns países, a reação às crises não foi apenas reacionária, como mostram os resultados de Bernie Sanders e de Jeremy Corbyn. Contudo, a imagem total permanece dramática.

Algumas pessoas falam mesmo sobre a síndrome de UCAVA como signo da nossa época: incerteza, complexidade, ambiguidade, volatilidade e aceleração, ou como diria Hamlet: “The time is out of joint”, o que podemos traduzir como o nosso mundo está todo ele fora dos eixos, desconjuntado, desorganizado, desregulado, desarticulado.

Naturalmente, há um nó de crises multifacetadas por detrás de tudo isto. A globalização neoliberal está-se a revelar cada vez mais a sua cara hedionda. O capitalismo impulsionado pela finança provou ser um beco sem saída, com uma instabilidade crescente e gerando cada vez mais problemas económicos em vez de resolver os que já existem. A crescente desigualdade económica e social em quase todos os países é não somente uma forte barreira ao crescimento (sustentável) mas também alimenta a crise da representação e da democracia e conduz à instabilidade política. Tudo isto está a acontecer no meio de uma transformação profunda do sistema internacional. 500 anos de supremacia europeia – e de sua prole dos EUA – parecem estar a chegar ao fim. O mundo está a mover-se para uma ordem multipolar.

A UE foi particularmente afetada. A construção europeia no seu todo provou ser demasiado frágil e inadequada para lidar com os presentes desafios. A gestão da crise e da moeda comum são um desastre económico e político. Mesmo os grandes e significativos apoiantes da UE como Joseph Stiglitz estão agora a defender um divórcio amigável do Euro. E Mark Rutte, o primeiro-ministro holandês e o representante típico das elites europeístas admite: “Se alguém ama a Europa, pare de sonhar com mais Europa e comece a enfrentar os problemas. Há aqui um risco real.

Contudo, enfrentar os problemas exige os recursos políticos, institucionais, legais e financeiros necessários, juntamente com o apoio da população. A UE, enquanto aliança híbrida dos estados-nação e de componentes supranacionais, não tem estes requisitos à sua disposição.  Assim, às apalpadelas ou fazendo uma condução à vista que é como Angela Merkel descreve a sua metodologia política, poderá continuar, mas não resolverá as contínuas crises. O ano de 2017 será um ano de muitos desafios, com eleições nos Países Baixos, em França e na Alemanha, e a política italiana, o que em conjunto poderá gerar mais outro cisne preto.

 

Texto disponível em https://www.somo.nl/growing-zoo-black-swans/

Nota

[1] NT  Metáfora que descreve um evento que ocorre de surpresa, tem um importante impacto, e é frequentemente racionalizado inapropriadamente após ter acontecido beneficiando do distanciamento. O termo baseia-se num antigo ditado que presumia que os cisnes negros não existiam. Vd. https://en.wikipedia.org/wiki/Black_swan_theory

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