Neoliberalismo, Globalização e Crise no mercado de trabalho – uma análise país a país. O problema do sub-emprego Escondido no Japão. Parte (2/7)

(Philip Lachowycz, Setembro de 2014)

As remunerações de base estão finalmente a subir no Japão, mas somente em termos monetários. Após ajustamento pela inflação, os salários reais estão a cair rapidamente. Se a Abenomics “for bem-sucedida, o setor das famílias deve desempenhar um papel na recuperação da economia. No mínimo, exige‑se que o aumenta em salários  seja mais do que o necessário para manter  o ritmo do aumentos dos preços. No Japão, a proporção de vagas de emprego para os candidatos está agora em 1,10. É não somente acima de seu pico da pré-crise de 1,07, ele está ao seu nível mais elevado desde há mais de 20 anos. O Banco do Japão espera que um mercado de trabalho mais apertado coloque pressão sobre os salários, incentivando mais o consumo.

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Nesta semana em News in Charts, nós aprofundámos um pouco mais o mercado de trabalho japonês e verificámos que existe  uma quantidade considerável de desemprego oculto. Desde o final dos anos 1990, quando ficou claro que a economia japonesa estava em crise, o mercado de trabalho japonês passou por um grau significativo de mudanças estruturais que não são facilmente detetáveis nos indicadores económicos como a taxa de desemprego. Os empregadores estão cada vez mais à querer oferecer apenas trabalho a tempo parcial, a uma força de trabalho que ainda anseia pela segurança e pelos rendimentos oferecidos por um emprego a tempo inteiro. Isso significa que os empregos oferecidos são menos adequados para aqueles que procuram trabalho do que costumavam ser. Na linguagem técnica de economista, o grau de incompatibilidade no mercado de trabalho japonês aumentou, e a pressão ascendente no salário é menos do que indicadores tais como a relação das ofertas de trabalho relativamente aos requerentes podem estar a sugerir.

O envelhecimento da população no Japão significa que a oferta de trabalho está a descer …

Os problemas demográficos do Japão são bem reconhecidos. A partir de meados da década de 1990, a relação de dependência – o número de pessoas com menos de 15 ou com mais de 64 anos  como uma proporção do número de pessoas entre 15 e 64 anos aumentou drasticamente. Com grupos etários mais velhos menos propensos a procurar trabalho, a consequência é uma queda dramática na taxa de participação- e por extensão uma queda dramática na oferta de mão-de-obra. Como o nosso gráfico abaixo mostra, a maior parte da queda na participação desde meados da década de 1990 é consequência do envelhecimento da população.

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Mas o Japão não é o único país que tem uma população envelhecida. A participação dos EUA começou por volta do ano 2000 como os bay-boomers do pós-guerra a deslocarem-se agora para a aposentação. A maior parte do declínio na participação dos EUA nos últimos anos é também uma consequência da demografia. Olhando para vários países, a taxa de participação do Japão dificilmente parece extrema. A sua taxa de participação está próxima desta taxa na Alemanha e é superior à da zona euro como um todo.

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…mas a procura de trabalho decresce mais depressa

A média de horas trabalhadas em Japão apresenta-se com uma  tendência descendente desde pelo menos os anos 70. Esta é uma característica comum das economias desenvolvidas. À medida que as pessoas vivem melhor e têm um melhor património , muitas delas optam por trabalhar menos horas. No entanto, há um elemento cíclico, bem como um elemento estrutural no que diz respeito ao número médio de horas trabalhadas e o nivelamento feito a partir das correspondentes médias ao longo dos últimos dois a três anos, dificilmente sugere um mercado de trabalho que está em perigo de sobreaquecimento.

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Uma mudança para a utilização do trabalho a tempo parcial é responsável por uma boa parte da diminuição da média de horas após década de 1990. Contrariamente à ideia comumente generalizada, cerca de  40% da população empregada está agora empregada a tempo parcial. A cultura da proteção do “trabalho-para-a-vida” através da qual os diplomados entraram para integrar o pessoal das grandes empresas e aí permaneceram para o resto das suas carreiras não é o Ethos atual. O gráfico abaixo mostra que a parte dos trabalhadores a tempo parcial relativamente ao total dos trabalhadores mais do que dobrou nos últimos 30 anos. E isso não é puramente uma consequência do aumento da participação feminina. As mulheres são mais propensos a trabalhar a tempo parcial, sim é verdade, mas a proporção de homens que estão a trabalhar a tempo parcial também mais do que dobrou desde o final dos anos 90.

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De acordo com um inquérito ocasional realizado pelo Ministério da saúde, do trabalho e do bem-estar do Japão, grande parte do aumento do emprego a tempo parcial tem sido involuntário. O inquérito considera que a proporção de trabalhadores a tempo parcial que preferem trabalhar a tempo inteiro mais do que dobrou desde o final dos anos 1990, de cerca de um em cada dez para quase um em cada cinco. Como o gráfico abaixo mostra, o número de trabalhadores a tempo parcial no Japão, que preferem trabalhar a tempo inteiro- os chamados “sub-empregados” – excede o número de pessoas desempregadas em quase 50%. A esse respeito, o problema do sub-emprego do Japão pôde ser considerado maior do que o encontrado nas economias americana e do Reino Unido.

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Um mercado de trabalho desajustado  

O crescente problema do subemprego do Japão é espelhado num aumento dos desajustamentos do mercado de trabalho. As mudanças na eficiência com que os trabalhadores desempregados são capazes de ocupar vagas de postos de trabalho é muitas vezes avaliada  utilizando um gráfico de dispersão simples relacionando a taxa de desemprego com a taxa de vagas de postos de trabalho não preenchidas – conhecida como a ‘curva de Beveridge’.

A amostra no nosso gráfico é dividida em dois períodos. Os pontos de cor alaranjada  representam o período antes de se ter aprofundado a crise económica do Japão no final da década de 1990. Os pontos de cor azul refletem o período de pós-crise. Desde que a crise passou, houve uma mudança notável na curva Beveridge. A qualquer taxa de desemprego, o nível das vagas associadas a um determinado grau de pressão salarial tende a ser maior porque os empregos a serem oferecidos são menos adequados para o pool de trabalhadores desempregados.

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O grau de desajustamento no mercado de trabalho japonês, com um excesso de oferta de empregos a tempo parcial e um excesso de procura de empregos a tempo integral, é evidente nas taxas de salários. Nos últimos 15 anos, os salários por hora oferecidos para o trabalho a tempo parcial têm aumentado, enquanto os salários por hora oferecidos para o trabalho a tempo inteiro têm uma clara tendência descendente.

Conclusões

O BoJ acredita que o mercado de trabalho é suficientemente restritivo  para provocar um aumento sustentado dos salários reais. Na nossa opinião, não é assim- pelo menos ainda não é assim. A existência de uma quantidade significativa de subemprego significa que o mercado de trabalho do Japão é, em primeiro lugar,  menos restritivo  do que poderia parecer. Desde a profundidade da crise económica do Japão no final da década de 1990, houve um afastamento relativamente à antiga cultura do “trabalho para a vida”, para uma outra realidade, onde o que se pretende oferecer mais são empregos a tempo parcial e temporários. É provável que uma mudança significativa no crescimento dos salários seja precedida de uma mudança de tempo parcial para o emprego a tempo inteiro. Há sinais de que isso está a acontecer nalgumas indústrias, como a restauração e a construção, onde há uma grave escassez de mão-de-obra. Mas, por enquanto, isto é a exceção e não a norma. A tendência para mais trabalho a tempo parcial que está em vigor desde o final dos anos 90 permanece. Os salários reais continuam a diminuir acentuadamente. E se o aumento da taxa de IVA de 8% para 10% planeado no próximo ano continuar em frente, isso só aumentará os problemas do setor das famílias já em dificuldades do Japão.

.Artigo original aqui


A terceira parte dos textos sobre o Japão será publicada amanhã, 22/04/2018, 22h.


 

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