Homenagem ao Carlos Tenreiro, uma série de textos sobre questões de macroeconomia e de alta finança – 3. A rotação da mente entorpecida de Peter Navarro. Por Lance Roberts

Carlos Tenreiro

Carlos Tenreiro, um estudante de excecional maturidade emocional, de rara cultura, de rara sensibilidade e de alta capacidade pedagógica para transmitir o que sabia e até muitas vezes a gerar nos estudantes uma apetência por aquilo que ele mesmo ainda não sabia, mas que faria parte da sua trajetória de conhecimentos a desenvolver.

 

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

3. A rotação da mente entorpecida de Peter Navarro

Por Lance Roberts lance roberts de real investment advice

real investment adviceem 6 de abril de 2018

Texto 3 1

O mercado está a reagir de uma maneira que não é compatível com a força, com a força inacreditável na economia do presidente Trump. Quero dizer, tudo nesta economia está na força máxima por causa das políticas económicas do presidente Trump. Nós cortámos impostos. Isso estimula o investimento de um modo que não será inflacionário. Isso aumentará a produtividade e os salários. Tudo vai bem.” diz Peter Navarro

 

Infelizmente, por mais que gostássemos de acreditar que o comentário de Navarro é uma realidade, simplesmente não é o caso. O gráfico abaixo mostra a média de 5 anos de salários, crescimento económico real e produtividade.

Texto 3 2

Repare na linha sombreada a amarelo, à direita do gráfico. Como escrevi anteriormente:

Após a crise financeira, o governo e o Federal Reserve decidiram que seria prudente injetar mais de US $ 33 milhões de milhões em injeções de dívida na economia, acreditando que isso estimularia a retoma da economia. Aqui está uma lista de todos os programas “.

Texto 3 3

Se US $ 33 milhões de milhões de dólares não “libertassem” a economia dos EUA ou até mesmo mudassem as tendências dos anos anteriores, deveria haver sérias dúvidas de que apenas a redução de algumas regulamentações desatualizadas, oferecer às grandes empresas uma redução de impostos e o envolvimento numa “guerra comercial” com a China seria a solução. Mas, no entanto, aqui vai o que nos diz Navarro:

“Historicamente, o setor de energia liberta-se, o que vai reduzir os custos para os fabricantes americanos – torná-los-á mais competitivos, mesmo se isso reduz os custos para os consumidores e lhes permite que gastem mais e tirem mais proveito dos seus dólares gastos.”.

Espere um segundo.

Leia atentamente o que Navarro disse. Ao liberar o setor de energia, a oferta de petróleo aumentará, diminuindo o preço do petróleo, que é um custo na indústria, o que reduz assim os seus custos.

Isso é uma coisa boa?

Dissequemos esta afirmação. O declínio nos custos de energia pode ser benéfico para partes da economia, mas devemo-nos lembrar que esta redução pode ser neutralizada por causa do efeito de arrasto do setor de energia, que perde receitas por cada barril de petróleo fornecido à economia. Como já discutimos muitas vezes antes, o pacote da energia é um enorme contribuinte nas despesas de capital e a energia é o setor onde se pagam alguns dos mais altos salários. Como vimos anteriormente, a energia é um contribuinte muito maior para a saúde da economia do que muitos outros.

No entanto, segundo Navarro, a descida do preço do petróleo, por si só, tornará a produção mais competitiva no mercado global. Se isso fosse verdade, não seria já atualmente essa a situação dos EUA, ou seja, um país altamente competitivo no mercado mundial, considerando que o petróleo desceu brutalmente passando de mais de US $ 100 / barril para apenas US $ 30 por barril? Além disso, seguindo a lógica de Navarro, os salários deveriam ter disparado.

Texto 3 4

Nenhuma dessas coisas aconteceu.

Navarro ainda não concluiu. Diz ele:

Em termos de política comercial, através da redução do défice da balança comercial, que é o objetivo das políticas comerciais justas e recíprocas do presidente, isso vai trazer milhares de empregos para a nossa economia; e trazer também investimento estrangeiro. Quero dizer, quando colocamos as tarifas sobre as máquinas para a obtenção de energia solar e sobre as máquinas de lavar, em janeiro, isso conduz-nos a ter uma avalanche de novos investimentos “.

Nós, na verdade, temos um défice comercial porque existem mais de 300 milhões de consumidores americanos a procurarem produtos e serviços estrangeiros mais baratos do que os nossos do que há estrangeiros a procurarem as nossas exportações.

Embora as pessoas critiquem severamente a quantidade de bens e serviços que importamos, a simples realidade é que estamos a “exportar” a nossa deflação e a importar “deflação.” Fazemos isso para que possamos comprar televisores de ecrã plano por US $ 299 contra US $ 2999 se eles fossem feitos na América. O problema simples é que os trabalhadores americanos exigem salários mais altos, férias, assistência médica, benefícios, licenças, etc. Tudo isso aumenta os custos de bens fabricados na América. E para não mencionar os custos adicionais resultantes do facto de que os produtores de bens e serviços têm de respeitar uma miríade de regulamentos exigidos desde a EPA (Environmental Protection Agency dos Estados Unidos) até à OSHA (Agência Europeia para a Segurança e Saúde no Trabalho). Numa entrevista anterior, Greg Hayes, Diretor Executivo da Carrier Industries, di-lo com bastante clareza.

“Então, o que há de bom no México? Temos uma força de trabalho muito talentosa no México. Os salários são obviamente significativamente menores. Cerca de 80% mais baixos, em média. Mas o absentismo é de cerca de 1%. A estabilidade da mão-de-obra no emprego é elevada, a taxa de substituição da mão-de-obra é de 2%. A força de trabalho é muito, muito dedicada.

Que é muito melhor que na América. E acho que isto é apenas uma parte disso – os empregos, novamente, não são os empregos de uma linha de montagem que as pessoas realmente acham atraentes a longo prazo”.

Isto leva-nos ao “dilema norte-americano”. Embora acreditemos que o nosso “trabalho” vale “MAIS” do que em qualquer outro lugar do mundo, também queremos “comprar” produtos baratos.

Para que essa equação funcione, as empresas devem “exportar” a nossa “inflação”. Isso é conseguido pela mão-de-obra utilizada a taxas substancialmente mais baixas, o que permite que produtos e serviços sejam fornecidos mais baratos (deflação) para satisfazer a procura americana. Como escrevi ontem, há pouca capacidade de os americanos absorverem os custos mais altos de bens e serviços gerados por meio de “tarifas” ou outras metas inflacionárias utilizadas para “reequilibrar o comércio internacional dos Estados Unidos”.

“O gráfico abaixo mostra a diferença entre o padrão de vida de uma família de quatro pessoas ajustada pela inflação ao longo do tempo. A partir de 1990, as fontes combinadas de poupança, crédito e rendimento deixaram de ser suficientes para financiar a grande diferença entre as fontes de dinheiro e o custo de vida. Com o aumento dos custos de saúde, rendas, alimentação e energia, essa lacuna continuou a aumentar a um nível insustentável, que continuará a bloquear as taxas de crescimento económico”.

Texto 3 5

 

É claro que, embora Navarro esteja otimista quanto à hipótese das políticas de Trump gerarem uma criação líquida de alguns milhares de empregos, essas aspirações ficarão muito aquém do necessário para equilibrar a economia.

Texto 3 6

Mas, honestamente, ninguém pode sustentar esta sua última afirmação.

Então o leitor questiona – e se coloco o meu velho chapéu de analista dos mercados financeiros, estou a olhar para isso – este mercado e a economia e o pensar, o dinheiro inteligente aqui vai comprar nos mercados em alta aquando das suas variações à baixa porque a economia é tão forte quanto um touro.

Um gráfico dissipa esta noção (evolução do retorno de capital a 10 anos):

Texto 3 7

Portanto, tenha-se cuidado também com os conselhos financeiros de Peter Navarro.

Mas, deixem-me concordar com o meu amigo Doug Kass:

“Para mim, os pontos de vista que estão na base das prescrições políticas de Navarro demonstram o seu analfabetismo económico.

Não há nenhuma relação inversa entre importações e PIB, como afirma Navarro.

De facto, há uma forte relação positiva entre mudanças nos défices comerciais e variações do PIB.

Tanto Navarro como Ross são defensores das tarifas sobre o aço. Como mencionei, tais tarifas prejudicam os produtores que usam produtos siderúrgicos muito mais do que beneficiam uma mais pequena população de produtores de aço. O subproduto destas tarifas poderiam ser custos crescentes do aço que podem espalhar-se por toda a economia.

Na realidade, os EUA dependem da China – nós estamos totalmente, interligados e interconectados numa economia global:

  1. O mercado de exportação chinês é importante para os EUA.
  2. A China produz bens de baixo custo que beneficiam os consumidores americanos.
  3. A China financia o nosso défice orçamental, o seu excedente de poupança é importado pelos EUA – a quadratura do círculo. Se a China deixar de comprar os nossos títulos do Tesouro, onde é que conseguiremos financiamento?”

As políticas mal orientadas continuam

Nos últimos 30 anos, cada Administração, juntamente com o Federal Reserve, continuou a operar sob políticas monetárias e fiscais keynesianas acreditando que o modelo funciona. A realidade, no entanto, é que a maior parte do crescimento agregado da economia tem sido financiado pelo défice orçamental, pela expansão do crédito e pela redução da poupança. Por sua vez, isso reduziu o investimento produtivo na economia e o valor do PIB desacelerou. À medida que a economia desacelera e os salários caíram, o consumidor foi forçado a assumir mais alavancagem, o que também reduziu a poupança. Como resultado do aumento da alavancagem mais e mais rendimento foi necessário para satisfazer o serviço da dívida.

Em segundo lugar, a maioria dos programas de despesas públicas redistribui rendimento dos trabalhadores para os desempregados. Isso, argumentam os keynesianos, aumenta o bem-estar de muitos que sofrem com a recessão. O que os seus modelos ignoram, no entanto, é a produtividade reduzida que se segue a uma transferência de recursos para a redistribuição e para longe, portanto, do investimento produtivo.

Todas essas questões pesaram sobre a prosperidade geral da economia e sobre a dos seus cidadãos. O que é mais revelador é a incapacidade de pessoas como Navarro e muitas outras, que estabelecem políticas monetárias e orçamentais, perceberem que o que estão a fazer é tentar resolver o problema “da dívida através de mais dívida “.

É por isso que as políticas que foram promulgadas anteriormente fracassaram, desde a de conceder subsídios em dinheiro para poder “trocar o carro velho” até à “Quantitative Easing”, porque cada intervenção comprometeu o consumo futuro ou estimulou os ativos nos mercados financeiros. Comprometendo o consumo futuro leva depois a que se venha a verificar um “vazio” no futuro que terá de ser continuamente preenchido e que criar um efeito de riqueza artificial fará descer o nível de poupanças que poderia e deveria ser utilizado em investimentos produtivos.

A teoria keynesiana de que “mais dinheiro nos bolsos das pessoas” irá impulsionar a despesa em bens de consumo, o que se traduz finalmente num aumento do PIB está claramente errada. Isso não acontece desde há 30 anos.

O modelo keynesiano morreu em 1980. É chegada a hora para aqueles que conduzem a política monetária e orçamental despertarem, sentirem o cheiro do dólar a arder e olharem para a pilha maciça de dívidas que se foi acumulando.

Estamos em guerra sim, mas é connosco mesmos, não é com a China, e os jogos que estão a ser praticados por Washington para manter o status quo está a reduzir o ritmo da formação da próxima crise que não poderá ser corrigida com outro resgate monetário.

 

Texto original em The Mind Numbing Spin Of Peter Navarro

 

O autor: Lance Roberts é economista, especialista em mercados financeiros, diretor e editor chefe de Real Investment Advice, chefe de estratégia de portfolio em Clarity Financial.

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