Ainda o Mercado não era global, e o dia 8 de dezembro de cada ano, o da demencial festa católica da “imaculada conceição de maria” que, absurdamente, dá direito a feriado nacional, era simultaneamente o “Dia da Mãe”. Não das mães. Da Mãe. Um mito, mais. Mães, são seres humanos de carne e osso, com os seus quotidianos. Mãe, é puro mito. Sem carne nem sangue. Sem história. De mitos, estão as religiões e as igrejas cristãs cheias. Totalmente vazias de realidade histórica. Por isso, inimigas dos seres humanos.
Desde que se tornou global, o Mercado decidiu transferir o “Dia da Mãe” para maio, primeiro domingo. Distante, por isso, do natal em que ele faz abarrotar de euro os seus estúpidos cofres, com prendas e mais prendas que vende até à náusea. Com o “Dia da Mãe” em maio, o Mercado global pretende acabar de vez com as mães e, com elas, toda a vida humana, ao empanturrá-las com prendas e mais prendas. Acontece que a data escolhida e imposta por ele coincide com a da proximidade do fim do campeonato do seu futebol dos milhões. Pelo que o seu macabro objectivo de matar as mães e a vida humana atinge o paroxismo do perverso, uma vez que, com as mães, mata também os milhões de fãs das SADs que em cada ano e país se sagram campeões
Contra toda esta demência cultural e política, escrevi há anos um Texto-Poema que veio a ser publicado, depois, na pouco conhecida Antologia, AURORA DE POETAS, compilada e editada, na altura, em prol do Barracão de Cultura que, hoje, felizmente, já se encontra em plena actividade cultural nesta aldeia de Macieira da Lixa, onde resido por opção. É esse Texto que aqui partilho convosco. Eis:
MÃE
Mãe. São duas as coisas bem difíceis
para uma mãe: Saber desaparecer a
tempo da vida das filhas e dos filhos para
se poder manter mulher a vida toda; e ter
a audácia de passar de mãe a discípula
dos filhos e das filhas para poder viver o
seu Hoje sob o fecundo sopro do Amanhã.
Também tive mãe. Ti Maria do Grilo nunca
frequentou a escola mas quis que os seus
três filhos a frequentássemos. E fôssemos
de olhos bem abertos. Cultos e sobretudo
sábios. Ela sabia que só os sábios como
Jesus poderão manter-se pobres a vida
inteira e tornar-se um dom para os demais.
Cresci à sombra dela até aos 13 anos e
aprendi da sua pobreza a ser autónomo e
senhor do meu próprio destino como se ela
não existisse. E quando me tornei presbítero
da Igreja do Porto tive a alegria de a ver seguir
o caminho libertador que o Sopro de Jesus
em mim me tem levado a abrir na História.
De mãe que era passou depressa a minha
irmã mais velha e a companheira de jornada.
Nunca a vi interferir no meu viver de homem-
-para-os-demais nem nos inevitáveis conflitos
daí decorrentes. E quando os sinistros agentes
da Pide me prenderam e levaram ao Plenário
do Porto logo ela me seguiu em dor e alegria.
A Missão de Evangelizar os pobres em que
um dia fui investido como presbítero da Igreja
levou-me a viver quase sempre longe do seu
quotidiano. Nunca da sua boca ouvi um reparo
ou repreensão. Tudo compreendia e guardava
no seu coração. Para isso havia sido a minha
mãe. Para me perder e encontrar nos demais.
A notícia da sua agonia alcançou-me em
plena Missão. Era a hora dela partir deste
mundo para o Pai/Mãe em quem todas/todos
somos. A Paz cresceu misteriosamente em
mim. Voei até junto à cabeceira do seu leito.
Desfiz-me em gestos e palavras de ternura e
gratidão. E comunguei o seu Sopro de Mulher.
As lágrimas correram-me espontâneas pela
face. Lágrimas de Paz e de Eucaristia. Havia
aprendido com ela que viver é descer até nos
tornarmos a alavanca em que os últimos dos
últimos se poderão apoiar para chegarem a ser
alguém. E tornarmo-nos Pão e Vinho que dêem
corpo a mulheres/homens livres para a liberdade.
Não esperem ver-me neste dia tecer loas
à mãe de Jesus, o de Nazaré. Com ele aprendi
que a grandeza dela não esteve em ter sido a
sua mãe carnal. Nunca Maria, a de Jesus foi tão
grande como quando se fez discípula do filho e
com ele foi capaz de passar do Testamento da Lei
para o do Vento. Porque só o Vento nos faz livres.

