FRATERNIZAR – O MERCADO GLOBAL QUER MATAR AS MÃES! – por MÁRIO DE OLIVEIRA

 

Ainda o Mercado não era global, e o dia 8 de dezembro de cada ano, o da demencial festa católica da “imaculada conceição de maria” que, absurdamente, dá direito a feriado nacional, era simultaneamente o “Dia da Mãe”. Não das mães. Da Mãe. Um mito, mais. Mães, são seres humanos de carne e osso, com os seus quotidianos. Mãe, é puro mito. Sem carne nem sangue. Sem história. De mitos, estão as religiões e as igrejas cristãs cheias. Totalmente vazias de realidade histórica. Por isso, inimigas dos seres humanos.

Desde que se tornou global, o Mercado decidiu transferir o “Dia da Mãe” para maio, primeiro domingo. Distante, por isso, do natal em que ele faz abarrotar de euro os seus estúpidos cofres, com prendas e mais prendas que vende até à náusea. Com o “Dia da Mãe” em maio, o Mercado global pretende acabar de vez com as mães e, com elas, toda a vida humana, ao empanturrá-las com prendas e mais prendas. Acontece que a data escolhida e imposta por ele coincide com a da proximidade do fim do campeonato do seu futebol dos milhões. Pelo que o seu macabro objectivo de matar as mães e a vida humana atinge o paroxismo do perverso, uma vez que, com as mães, mata também os milhões de fãs das SADs que em cada ano e país se sagram campeões

Contra toda esta demência cultural e política, escrevi há anos um Texto-Poema que veio a ser publicado, depois, na pouco conhecida Antologia, AURORA DE POETAS, compilada e editada, na altura, em prol do Barracão de Cultura que, hoje, felizmente, já se encontra em plena actividade cultural nesta aldeia de Macieira da Lixa, onde resido por opção. É esse Texto que aqui partilho convosco. Eis:

 

MÃE

Mãe. São duas as coisas bem difíceis

para uma mãe: Saber desaparecer a

tempo da vida das filhas e dos filhos para

se poder manter mulher a vida toda; e ter

a audácia de passar de mãe a discípula

dos filhos e das filhas para poder viver o

seu Hoje sob o fecundo sopro do Amanhã.

Também tive mãe. Ti Maria do Grilo nunca

frequentou a escola mas quis que os seus

três filhos a frequentássemos. E fôssemos

de olhos bem abertos. Cultos e sobretudo

sábios. Ela sabia que só os sábios como

Jesus poderão manter-se pobres a vida

inteira e tornar-se um dom para os demais.

Cresci à sombra dela até aos 13 anos e

aprendi da sua pobreza a ser autónomo e

senhor do meu próprio destino como se ela

não existisse. E quando me tornei presbítero

da Igreja do Porto tive a alegria de a ver seguir

o caminho libertador que o Sopro de Jesus

em mim me tem levado a abrir na História.

De mãe que era passou depressa a minha

irmã mais velha e a companheira de jornada.

Nunca a vi interferir no meu viver de homem-

-para-os-demais nem nos inevitáveis conflitos

daí decorrentes. E quando os sinistros agentes

da Pide me prenderam e levaram ao Plenário

do Porto logo ela me seguiu em dor e alegria.

A Missão de Evangelizar os pobres em que

um dia fui investido como presbítero da Igreja

levou-me a viver quase sempre longe do seu

quotidiano. Nunca da sua boca ouvi um reparo

ou repreensão. Tudo compreendia e guardava

no seu coração. Para isso havia sido a minha

mãe. Para me perder e encontrar nos demais.

A notícia da sua agonia alcançou-me em

plena Missão. Era a hora dela partir deste

mundo para o Pai/Mãe em quem todas/todos

somos. A Paz cresceu misteriosamente em

mim. Voei até junto à cabeceira do seu leito.

Desfiz-me em gestos e palavras de ternura e

gratidão. E comunguei o seu Sopro de Mulher.

As lágrimas correram-me espontâneas pela

face. Lágrimas de Paz e de Eucaristia. Havia

aprendido com ela que viver é descer até nos

tornarmos a alavanca em que os últimos dos

últimos se poderão apoiar para chegarem a ser

alguém. E tornarmo-nos Pão e Vinho que dêem

corpo a mulheres/homens livres para a liberdade.

Não esperem ver-me neste dia tecer loas

à mãe de Jesus, o de Nazaré. Com ele aprendi

que a grandeza dela não esteve em ter sido a

sua mãe carnal. Nunca Maria, a de Jesus foi tão

grande como quando se fez discípula do filho e

com ele foi capaz de passar do Testamento da Lei

para o do Vento. Porque só o Vento nos faz livres.

 

www.jornalfraternizar.pt

About joaompmachado

Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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