A GALIZA COMO TAREFA – nas paisagens da peregrinação – Ernesto V. Souza

“e acenando com a mão nos fez chegar até os primeyros degraos da tribuna onde os quatorze Reys estauão assentados, e nos tornou a preguntar como homẽ espantado do que tinha ouuido, pucau, pucau? que quer dizer quanto? quanto?” (Peregrinação, 1614)

Num novo intento de divulgar a obra de Mendes Pinto, dar maior visibilidade à análise crítica e contribuir a acrescentar o valor geográfico e histórico da Peregrinação, o galego Afonso Xavier Canosa, depois de um monumental trabalho de pesquisa documental e análise de dados, criou há uns meses um sítio web sobre a toponímia da Peregrinação.

O sítio, que deliciará todos os estudiosos e apaixonados da obra de Mendes Pinto, permite consultar todos os contextos (concordâncias) de cada um dos topónimos e gentílicos que aparecem no texto da primeira edição.

Pucau, Pucau? joga com a dificuldade da tarefa para georreferenciar a toponímia da Peregrinação de Mendes Pinto, não sempre bem interpretada. O site permite localizar os topónimos ordenados segundo uma entrada principal que recolhe todas as variantes gráficas ou derivados utilizados em 1614. As concordâncias recolhem a oração completa que vem acompanhada pelo número de capítulo em que aparece.

Além do contexto, oferece-se uma referência bibliográfica para os topónimos comentados em estudos de geografia histórica e uma análise crítica para os casos mais contraditórios. Todos os topónimos conhecidos vão ligados às coordenadas de latitude e longitude e ao referente toponímico contemporâneo. Se o topónimo não for conhecido, liga-se a uma outra entidade geográfica maior a que pertence, também recolhida no índice toponímico.

Esta monumental achega e fundamental contributo para o estudo da Peregrinação e da biografia de Mendes Pinto, está aberta a colaborações e muito especialmente com fins promocionais e educativos, para mostrar como melhor utilizar os materiais postos à livre disposição do público.

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Visitar o Sítio: http://www.pucau.org.

O estudo da toponímia da Peregrinação

O estudo da toponímia da Peregrinação tem uma tradição quase tão antiga como a própria primeira edição de 1614. Ainda que seja uma publicação póstuma, a ampla geografia costeira, que percorre desde as costas mais ocidentais do Índico até o Japão, e a descrição de espaços que ficaram menos conhecidos durante séculos, como é o caso dos capítulos dos tártaros para a Ásia Central, fez com que especialistas e eruditos tentassem desde muito cedo aproveitar o trabalho de Fernão Mendes Pinto.

Interesses menos claros tentaram também tirar mérito a um trabalho que ficaria, com o tempo, mais valorizado na sua dimensão literária. Porém, o valor geográfico da Peregrinação foi aceite de imediato e pesaria nas primeiras leituras da obra. Em certo sentido, Pinto nunca deixou de ser reivindicado. No séc. XVII destacaram Purchas e os prólogos apologéticos das traduções, no séc. XVIII Francisco de Sousa diz que apenas o vulgo duvida da veracidade da Peregrinação, no séc. XIX Wescenlau de Moraes reconstrói as rotas do Japão, labor que terá continuação no séc. XX, e que destaca a tentativa de reconstrução de itinerários acometida por Mascarenhas e o glossário de topónimos que recolhe os conhecimentos até a data assinado por Reinaldo Flores.

Em 2010, antecipando o quarto centenário da primeira edição, Jorge Alves edita um volume que reúne especialistas de distintos países para de novo analisar criticamente a geografia e os relatos históricos que Pinto escreveu. É aproveitando este trabalho de séculos que em 2011 aparece um mapa online, da autoria de Afonso Xavier Canosa, para georreferenciar os topónimos cujas coordenadas são conhecidas ou foram propostas como prováveis nos trabalhos de geografia histórica.

O mapa virá seguido de um artigo na revista da Associação Internacional de Lusitanistas em 2013 em que se mostra como o trabalho de Pinto foi inicialmente recebido como um repertório ou crónica, de carácter descritivo, geográfico. Com data de 2015 um artigo no Boletim da Academia Galega da Língua Portuguesa (n. 8) anunciava a criação de um mapa com estudo crítico das entidades mais conhecidas. Em 2017, Fluxos e Riscos publica um artigo da mesma autoria em que se explica o método para ligar o corpus da Peregrinação com recursos geográficos, acompanhado de gráficos e notas que mostram como o texto de Pinto foi por vezes lido e traduzido erradamente, contribuindo para uma interpretação equivocada e pouco realista das passagens mais questionadas e uma leitura que dificulta a pronúncia de topónimos que, porém, Pinto tenta transcrever com fidelidade.

Eis a obra restauradora e localizadora, do Dr. Canosa, a ideia é que o sitio recolha o material elaborado para que possa ser utilizado em atividades educativas, divulgativas, de investigação. De momento leva o material mais importante.

Na seção de recursos pode-se baixar a base de dados com as entidades referenciadas por coordenadas para trabalhar com um SIG, por exemplo o QGIS de software livre com que se elaboraram as imagens do site. Também há uma ligação para baixar o formato KML e poder assim mesmo percorrer o espaço da Peregrinação em 3D em aplicações como o Google Earth.

No futuro, o autor gostaria de ir acrescentado material com novas bases de dados, uma secção específica para a Tartária comparando a edição portuguesa e a inglesa, mapas locais e dicas de uso do material. Todo o material é gratuito e livre.

 

O Autor:

canosa01Afonso Xavier Canosa Rodrigues estudou filologia galego-portuguesa na Universidade de Santiago de Compostela onde se doutorou com uma tese sobre a toponímia da Peregrinação de Fernão Mendes Pinto. Foi investigador do Projeto Mercator Media em Aberystwyth (País de Gales) onde colaborou nas obras coletivas Mercator Media sobre diversidade linguística na Europa. É autor da primeira tradução direta de uma parte do Mabinogi para o Galego-Português. Possui o certificado de proficiência em engenharia da linguagem da Universal Network Language em que participou em projectos para Galego-Português e Latim. Deu aulas de introdução à Linguística na Mongólia. Nos últimos meses trabalhou na elaboração de um programa de reconhecimento automático de entidades geográficas mencionadas para textos galego-portugueses medievais e participou nos congressos internacionais de linguística histórica celebrado em Lisboa e da Associação Internacional de Lusitanistas em Macau defendendo a validez geográfica da toponímia da Peregrinação. O website http://www.pucau.org pretende divulgar parte do trabalho da tese de doutoramento sobre a geografia na obra de Fernão Mendes Pinto.

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