Da crise atual à próxima crise, sinais de alarme – Na Itália, a democracia em risco. Por George Friedman

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Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

Na Itália, a democracia em risco 

george friedman gPF Por George Friedman

Publicado por friedman logo em 30 de maio de 2018

Republicado por Gonzalo Raffo News

Às vezes, a maneira mais segura de fazer com que haja mudanças é resistir-lhes. Tal pode ser o caso em Itália, cujas eleições trouxeram recentemente para o poder dois partidos nacionalistas e eurocéticos, conhecidos como o Movimento 5 Estrelas e a Liga. Juntos, eles ganharam os lugares suficientes para formar um governo de coligação, o que eles se esforçaram por fazer na semana passada, e apesar de ambas as partes terem moderado a sua retórica campanha anti-UE, escolheram para o cargo de ministro das Finanças uma figura controversa que quer que a Itália saia da zona euro. Então, numa atitude que ninguém antecipou, o presidente italiano, normalmente uma figura de proa, vetou a nomeação do candidato ao lugar. A coligação desmoronou-se. Para acrescentar ainda um insulto ao veto, o Presidente escolheu um antigo funcionário do Fundo Monetário Internacional para ser o primeiro-ministro interino. Conduzirá um governo tecnocrata que não pode empreender iniciativas mas pode trabalhar dentro de um quadro designado – isto é, até que sejam realizadas novas eleições.

Por outras palavras, o Presidente contornou a vontade do povo. Ele nomeou um funcionário de uma organização detestada pelos que votaram nos partidos vencedores de eleições livres e justas e deu-lhe o poder de continuar a fazer as políticas que estes eleitores essencialmente votaram para serem desfeitas. Notavelmente, ele também expôs o quão fraca era realmente a coligação. Poucos dos seus membros têm experiência na alta política italiana. Os seus partidários podem usar isso como um emblema de honra, e os seus adversários podem considerá-lo um erro, um engano, mas os observadores neutros simplesmente veem-no pelo que isso representa: o resultado inevitável da transformação da política italiana.

As táticas do Presidente podem ser um tiro no pé.  Ele está a apostar que, ao forçar uma nova eleição, irá surgir um novo resultado. Isso é possível. Afinal de contas, em Itália, o apoio às diretivas comunitárias é relativamente baixo, mas a maioria dos italianos continua a apoiar a sua permanência na zona euro. Eles só querem tomar a decisão por si próprios.

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Mas é também provável que as forças antiestablishment que trouxeram a Liga e O Movimento 5 Estrelas ao poder venham a aumentar os seus resultados eleitorais, especialmente se os italianos acreditarem que a sua democracia está em perigo. Ao longo dos próximos meses, a política italiana será lírica e irá repercutir-se por toda a Europa, especialmente em lugares como a Polónia, a Hungria e a República Checa, que têm todos eles desobedecido à autoridade de Bruxelas.

A UE aceitará, sem dúvida, a decisão do Presidente italiano de substituir uma coligação eleita por um governo provisório que pelo menos seja menos hostil à UE. O argumento será que o presidente italiano agiu dentro das regras da Constituição italiana. Isto é verdade. Mas o facto é que ele inverteu os resultados da eleição, e isso será visto como tal. Será visto como um truque utilizado pelos perdedores contra os vencedores, um obstáculo que impede que um governo popularmente eleito assuma o poder para o qual foi eleito. Não sendo um perito em direito constitucional italiano, hesito em especular que esta não era a intenção dos princípios constitucionais utilizados. Ainda assim, a falta de vontade da UE para sancionar a Itália será vista como um apoio a medidas que bloqueiam, antidemocraticamente, mesmo se constitucionalmente, o resultado de uma eleição fundamentalmente anti-UE.

O problema que esta situação põe à Itália é óbvio. A crise é um dado. A Itália é um país importante e um membro fundador da UE. Os seus cidadãos elegeram partidos que formaram um governo anti-europeu. O Presidente afundou-o.

O problema que isto representa para a UE não é menos acentuado. Os europeus apoiarão o Presidente em apertados fundamentos constitucionais. Eles serão atacados por motivos democráticos mais amplos. Mas mais revelador da fraqueza fundamental da UE são as escolhas limitadas que tem para poder responder. Se simplesmente aceita a anulação de uma eleição livre, isto parecerá uma resposta de desespero, antidemocrática e seletivamente moralista. Se tomar medidas contra a Itália – algo que é muito improvável que faça- vai minar os adeptos da UE que ainda tem em Itália e noutros lugares

A situação está a tornar-se cada vez mais difícil na Europa.

Texto em https://geopoliticalfutures.com/italy-end-around-democracy/

Republicação em https://gonzaloraffoinfonews.blogspot.com/2018/06/in-italy-end-around-of-democracy.html

 

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