A Galiza como tarefa – belos cadáveres – Ernesto V. Souza

Ecoa, de Oscar Wilde a Sid Vicious, passando por James Dean, a quem a cultura popular terminou por atribuir, o dito de roda queimada e no future: Viva rápido, morra jovem e deixe um belo cadáver.

Francamente se tivesse de fazer hoje, e após tão poucos e agitados anos, uma descrição simples do momento atual dos novos partidos políticos espanhóis, de esquerda e direita, da Nova política, da renovação cidadã, da quebra com a Transição, e etc. escolheria isto dos belos cadáveres.

A recuperação dos partidos alternantes é uma realidade. Uma vez o PP termine a sua purga e uma vez o PSOE recupere a sua estrutura hierárquica, o sistema de maiorias da monarquia tem todas as possibilidades para se recuperar e permanecer. Imperfeito, corrupto, incompleto mas e quem sabe para quanto.

De nada terão servido, a esquerda e direita, as novas propostas e os discursos renovadores destes anos. A tentativa pela esquerda era de um único impulso com base na surpresa e na velocidade do assalto. Perdido o momento, fracassado por um nada, uma falta de cálculo na direção, o assalto, a esquerda política foi-se desgastando no uso e na erosão dos média (em mãos dos partidos rotativistas). Já nem resulta nova, esperançadora nem ilusionante, e os seus principais líderes protagonistas resultam já muito vistos e repetitivos nos seus truques retóricos e shows ante as câmaras. Nada novo a dizer.

Pela direita também. As figuras de laboratório de publicidade criadas para as campanhas esmorecem. As modas passam e estão a passar a grande velocidade as palavras, os discursos, as imagens e sorrisos forçados. E total para imagem de anúncio de colônia, de camisa branca desabotoada, é mais guapo o líder atual do PSOE.

E fracassado o punch, convertido numa guerra de posições, as novidades desgastam-se com rapidez inaudita. Afinal numa guerra que vai para longo é o aparato, a estrutura do partido, a militância ativa por todo o território, o controlo de instituições e cargos o que vai decidir o futuro político da Espanha.

E perdidos nestas histórias, com um fundo catalão também repetido e paralisado, e com um nacionalismo espanhol vociferante mas sem projeto real, os grandes Partidos fecham-se num esquema liberal, neocon, de Aves, especulações, judicialização, e velhas estratégias, na única obsessão do controlo político de todas as instituições e da administração, do local ao Estado central, passando pelas fundações ou as Universidades.

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Francisco Padilla – Doña Juana «la Loca» (Museo del Prado, 1877)

Sem qualquer capacidade para reativar a economia, Espanha perde-se num caminho cara nenhures. Debatendo e debatendo passados, ideologias, temas que deveriam ter sido resolvidos e superados, mas sem qualquer projeto de futuro civilizado.

Passou também o verão. Espanha parece viajar de volta a qualquer passado imperfeito. Como num poema de Antonio Machado. Por enquanto, quase fantasmal, esmorecente, perdida em saudades qualquer família galega arredor de uma empada e uma ração de polvo ou compartilhando uma tortilla e uns pimentos de padrão numa festa de verão continua a ser mais nação que Espanha inteira com todas as suas instituições.

3 Comments

  1. Muito bom e com um final galego, otimista de verdade.
    “Passou também o verão. Espanha parece viajar de volta a qualquer passado imperfeito. Como num poema de Antonio Machado. Por enquanto, quase fantasmal, esmorecente, perdida em saudades qualquer família galega arredor de uma empada e uma ração de polvo ou compartilhando uma tortilla e uns pimentos de padrão numa festa de verão continua a ser mais nação que Espanha inteira com todas as suas instituições.”

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