A crítica demolidora de Michael Pettis à teoria e à política económica neoliberal – 8. Estará Peter Navarro errado sobre o comércio internacional? (5ª parte). Por Michael Pettis

egoista

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

8. Estará Peter Navarro errado sobre o comércio internacional? (5ª parte)

michael pettis Por Michael Pettis

Publicado por Carnegie Michael Pettis em 2 de fevereiro de 2017

 

9. Implicações do comércio internacional (continuação)

(…)

 

5. A intervenção é inflacionária, e o custo para as famílias desta inflação vai virá-las contra o intervencionismo comercial.

A intervenção protecionista aumenta os custos das mercadorias importadas, mas não provoca inflação. Embora a intervenção comercial vá certamente aumentar os preços de certas mercadorias importadas, qualquer aumento na despesa num conjunto de bens e serviços deve ser compensada com gastos mais baixos no resto, e os consequentes declínios de preço noutros lugares significa que, no agregado, não há razão para o intervencionismo comercial ser inflacionário. Não há certamente nenhuma evidência empírica que credivelmente estabeleça a ligação. É somente quando a procura agregada aumenta mais rapidamente do que a oferta agregada que a economia sofre de forma generalizada de inflação, e os agregados familiares sofrem realmente da inflação somente se os preços sobem mais rapidamente do que o rendimento dos agregados familiares. O intervencionismo comercial só é suscetível de ser inflacionário se fizer com que o rendimento familiar total aumente – talvez através da colocação de trabalhadores desempregados de regresso ao mundo do trabalho ou colocando uma pressão crescente sobre os salários – caso em que as famílias mesmo assim estão em melhor situação.

 

6. A experiência de cada período de intervencionismo comercial americano, incluindo o Smoot-Hawley Act de 1930, prova que o intervencionismo americano acaba, em última instância, por prejudicar os Estados Unidos mais do que qualquer outro país.

A lei Smoot-Hawley prova o que deveria ter sido óbvio: países com grandes excedentes comerciais nunca se deveriam envolver em guerras comerciais. A desvalorização não funciona mudando os preços relativos. Ela funciona por deslocamento de rendimento do consumo para a poupança. Em países numa situação de défice, onde as poupanças são, por definição, insuficientes para financiar o investimento, como o abrandamento do crescimento assusta o investimento estrangeiro estes influxos devem reduzir-se e com isso declina também o investimento e a economia baixa ainda mais o seu ritmo. Redirecionando o rendimento do consumo para a poupança, a desvalorização reduz a dependência do capital estrangeiro e impede o investimento de cair.

Contudo, os países em situação de excedente, como os Estados Unidos em 1930, não sofrem de poupança insuficiente. Eles sofrem de procura interna insuficiente, e isso quase sempre significa consumo insuficiente.

Ao deslocar o rendimento do consumo para a poupança, a Smoot-Hawley simplesmente reduziu o consumo interno dos EUA já de si baixo – agravado pelo efeito de riqueza dos preços de ativos em colapso – e aumentou, por um lado,  a dependência americana no investimento interno, do qual as empresas americanas estavam a fugir e, por outro lado,  aumentou as exportações para países cada vez mais incapazes de pagar pelas suas importações americanas. Para os países em situação de excedente, a desvalorização desloca uma forma sustentável de procura, ou seja o consumo, e substituindo-a pela procura insustentável de investimentos e de excedentes comerciais.

 

APÊNDICE 1: o que é que impulsiona os fluxos de capitais?

Quase todas as discussões sobre o comércio internacional assumem implicitamente que a balança comercial tem primazia sobre a balança de capital, provavelmente porque é mais natural de alguma forma pensar em termos de comércio de bens e serviços do que em termos de fluxos de investimento. Presume-se que os países que têm excedentes comerciais ou défices comerciais os têm principalmente devido a estruturas de custos relativos que tornam as mercadorias num país mais baratas do que no outro. Se a China tem um excedente da balança corrente com os Estados Unidos, por exemplo, a hipótese é que os fabricantes chineses têm fundamentalmente uma vantagem de custo sobre os fabricantes americanos, e o  resultado é que os agregados familiares e as empresas americanas consideram ser mais barato importar bens chineses do que comprar bens americanos, e os agregados familiares e os negócios chineses consideram mais barato comprar bens chineses do que importar bens americanos.

De acordo com este ponto de vista, o desequilíbrio na balança de capital é principalmente a consequência do desequilíbrio comercial. Os Estados Unidos são um importador líquido do capital chinês, por exemplo, porque deve financiar o seu défice comercial com a China, e o seu défice comercial com a China é uma consequência não dos fluxos de capital que podem distorcer o comércio mas sobretudo por causa dos custos elevados na indústria transformadora nos Estados Unidos, com o trabalho caro quase sempre apontado como sendo o principal culpado deste mesmo desequilíbrio. Como prova de que o défice é provocado pelo trabalho caro, pelos elevados custos de fabrico e pelos hábitos de esbanjamento dos americanos, muitos economistas salientarão que os Estados Unidos têm défices comerciais bilaterais com muitos países, e não apenas com a China. Por exemplo, Stephen Roach da Universidade de Yale assinalou o seguinte:

Em 2015, os Estados Unidos tiveram défices comerciais com 101 países – um défice comercial multilateral na linguagem técnica dos economistas. Mas isso não pode ser fixado num ou em dois “maus da fita”, como os políticos invariavelmente fazem. Sim, a China – o bode expiatório favorito de todos – tem a maior parcela deste desequilíbrio. Mas os défices combinados dos outros 100 países são ainda maiores.

A ideia de que a estrutura do comércio bilateral nos pode informar sobre o que precisamos saber sobre as variáveis que impulsionam a balança comercial depende da hipótese de que a balança comercial tem a primazia e que é ela que impulsiona a balança de capital. Mas a hipótese está errada. Embora o comércio bilateral possa dizer-nos coisas úteis ao nível dos mecanismos microeconómicos, estas coisas são quase completamente inúteis a nível macroeconómico. De facto, a relação entre a balança de capital e a balança comercial é extremamente complexa e, ao longo das últimas décadas, é quase certo que as variáveis que impulsionam os fluxos de capitais têm dominado os aspetos fundamentais dos fluxos comerciais. Na verdade, o meu mentor na Universidade de Columbia, Michael Adler, costumava dizer que olhar para os saldos bilaterais do comércio só poderia prejudicar a compreensão dos fatores que dirigem o comércio internacional, e ele insistiria que não lhes prestássemos atenção.

A opinião de Adler pode ser extrema, mas é seguramente verdade que os fluxos de capitais cresceram tão rapidamente que o volume de transações de capital pode ser igual a muitos múltiplos dos volumes comerciais, e as variáveis que mudam a natureza e o fluxo da balança de capital podem facilmente subjugar a balança comercial. No início dos anos 1970, por exemplo, como uma recentemente assertiva OPEP impulsionou os preços do petróleo e depositou os seus ganhos excedentários enormíssimos em bancos internacionais, esses bancos foram obrigados a encontrar mutuários com quem eles poderiam reciclar esses fluxos. Então, estes bancos voltaram-se para um grupo de países em desenvolvimento de rendimento médio, incluindo grande parte da América Latina.

A história subsequente é-nos familiar. No início dos anos 1970, como o capital começou a fluir em quantidades cada vez maiores para os mutuários latino-americanos, alguns dos quais tinham estado a ter pequenos défices comerciais e outros tinham mesmo excedentes comerciais, toda a região se tornou um grande importador líquido de capital e começou correspondente a ter os enormes défices comerciais correspondentes. No início da década de 1980, os enormes volumes de dívida externa fizeram, a explosão das taxas de juros, e o início de um declínio de longo prazo nos preços das matérias-primas desencadearam o que foi posteriormente conhecido como a crise da dívida dos países menos desenvolvidos. Após 1982, toda a região mudou de grandes fluxos de entrada de capital líquido para grandes fluxos de saída de capital líquido à medida que secava a entrada de investimento estrangeiro, para ser substituído pelas fugas de capital e pela luta para responder aos encargos do serviço de dívida externa. Toda a região também começou também a ter grandes excedentes comerciais que caracterizaram a América Latina na década de 1980.

Era óbvio então que a mudança nos fluxos de capital tinha primazia, e que a mudança nos fluxos de comércio era em grande parte uma consequência dos fluxos de capital. Isso não quer dizer que não tenha havido alterações correspondentes nos fundamentais económicos – pós-1982, afinal, os custos na indústria transformadora e os custos laborais caíram – mas mostra-se assim que as políticas que tinham sido concebidas na base dos fundamentais comerciais teriam tido um impacto menor, e isto na melhor das hipóteses, no sentido geral do comércio.  Vimos esta história replicada muitas vezes. Como já expliquei – no meu livro de 2001, The Volatility Machine, por exemplo, e noutros textos – nos últimos 200 anos, os fluxos de capitais para os países em desenvolvimento têm ocorrido em vagas que são muito mais facilmente explicadas como tendo sido impulsionadas por mudanças de liquidez no mundo desenvolvido do que por variações paralelas na estrutura de custos da indústria transformadora no conjunto dos países em desenvolvimento.

A tese da sobreabundância global da poupança enunciada por Ben Bernanke é outro exemplo da primazia dos fluxos de capitais e, na verdade, a decisão dos países do Leste Asiático de acumular poupanças sob a forma de reservas cambiais crescentes, que desencadeou o excesso de poupança, foi a provável resposta à crise asiática de 1997, crise esta que ocorreu como consequência de uma reversão acentuada dos fluxos de capitais para os países asiáticos em sérias dificuldades financeiras. Com a reversão desses fluxos, as moedas caíram e os grandes défices comerciais que contrabalançavam os afluxos enormíssimos de capital tornaram-se nos excedentes necessários que contrabalançaram a saída de capital. As fugas de capital são geralmente um exemplo de fluxos de capitais que impulsionam os fluxos comerciais.

Eu poderia continuar, mas a questão já se terá tornado bem clara. Não nos podemos virar essencialmente para os fundamentais económicos para explicar os fluxos comerciais. A relação entre a balança de capital e a balança corrente, que tende a ter que ver com a balança comercial, é extremamente complexa e pode funcionar em ambos os sentidos. E nas últimas décadas, as variáveis que afetaram a balança de capital tenderam a subjugar os fundamentais da balança comercial, que tiveram que modificar-se a fim de acomodar as mudanças na balança de capital. Na verdade, um exemplo convincente, de um modo mais geral, pode ser que aquilo que nós chamamos de globalização é impulsionado largamente pelas mudanças na liquidez e na apetência pelo risco: “a globalização ocorre”, como eu escrevi em 2001, “em grande parte porque os investidores estão repentinamente ansiosos por assumir o risco.”

 

APÊNDICE 2: porque razão as reservas da China estão a declinar

Normalmente dividimos a balança de capital em duas contas separadas para os países, como a China, cujos bancos centrais intervêm fortemente nos mercados monetários. Uma das contas, confusamente chamada de conta de capital, consiste em todas as transações de balança de capital excluindo compras ou vendas de reservas pelo banco central. A outra conta, como é lógico, consiste nas compras e vendas de reservas feitas pelos bancos centrais. Nesse caso, devemos refazer a nossa identidade inicial da balança de pagamentos e reescrevê-la:

Excedente da Balança Corrente= Défice da Balança de Capital + Défice dos Bancos centrais

Anteriormente a 2014, quando havia um consenso esmagador de que o RMB continuaria a apreciar-se, a China tinha um grande excedente na balança de capital: muito mais dinheiro vindo do exterior estava a ser investido na China do que a quantidade de dinheiro chinês estava a ser investida no exterior, impulsionado principalmente pela chamada arbitragem, através da qual as empresas chinesas levantavam empréstimos de zonas offshore a taxas de juros mais baixas e traziam-no de volta para o país, geralmente de forma ilegal, para investir em taxas mais elevadas de juro de modo a ganharem a diferença de juros, e ainda mais algum lucro pela apreciação da moeda chinesa. A China tinha também um grande excedente na sua balança corrente.

Isto significava, por definição, que deve ter havido um défice ainda maior do banco central, o que significa confusamente que as suas reservas bancárias centrais cresceram à medida que exportava capital para o exterior para comprar títulos do tesouro dos EUA e outros ativos. Para dar números, vamos supor que o excedente da balança corrente da China foi de $22 mil milhões e vamos ainda considerar que foram investidos na China mais $30 mil milhões do que o dinheiro levado para o exterior. Uma vez que a balança corrente teve um excedente de $22 mil milhões, o total da balança de capital mais a conta do banco central tiveram então um défice de $22 mil milhões e dado que a primeira estava com um excedente de $30 mil milhões então o défice do banco central era de 52 mil milhões, ou seja, as reservas do banco central aumentaram $52 mil milhões.

Hoje as dinâmicas são diferentes. A balança corrente ainda está em excedente – admitamos que é ainda de 22 mil milhões – mas a balança de capital está a ter um grande défice dado que os chineses têm estado apressadamente a colocar dinheiro fora do país. Se assumirmos que o défice da balança de capital é de $40 mil milhões, o banco central deve ter vendido $18 mil milhões de reservas para levar a que a soma das duas balanças , a de banco central mais a conta de capital relativa aos outros capitais, tenham apenas um défice de $22 mil milhões, e mais uma vez a equilibrar perfeitamente o excedente de 22 mil milhões da balança corrente.

 

(continua)

Texto disponível em http://carnegieendowment.org/chinafinancialmarkets/67867

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