A crítica demolidora de Michael Pettis à teoria e à política económica neoliberal – 18. As tarifas aduaneiras aumentam a poupança num mundo já letárgico com demasiada poupança. Por Michael Pettis

egoista

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

18. As tarifas aduaneiras aumentam a poupança num mundo já letárgico com demasiada poupança

michael pettis Por Michael Pettis

Publicado por FTimes, Alphaville, em 12 de abril de 2018

 

Neste texto de convidado Michael Pettis, associado de Carnegie Endowment e professor de finanças na Universidade de Pequim, explica o efeito das tarifas aduaneiras num mundo em que os fluxos de investimento são independentes do comércio. A tentativa dos Estados Unidos para baixar o défice comercial poderá valer a pena, mas escolheu o modo errado de o fazer.

 

À medida que Washington e Pequim arriscam cair cada vez mais fundo numa guerra de retaliação de tarifas aduaneiras, é importante compreender de que forma as tarifas afetam realmente o comércio. Embora possam reduzir o défice comercial sob determinadas condições, elas não o poderão fazer no atual contexto global das balanças de pagamento, e provocará em vez disso que o crescimento global enfraqueça ainda mais.

A maioria de nós compreende as tarifas de forma simples. Em teoria, aumentando os preços que os consumidores têm de pagar por bens estrangeiros, as tarifas aduaneiras fazem com que os consumidores mudem as suas compras de produtos estrangeiros para produtos domésticos mais baratos. Como as importações dos bens visados diminuem, o mesmo deve acontecer com o total das importações, fazendo diminuir o défice comercial.

O impacto nos fluxos de capital associados é, por conseguinte, também simples. Os fluxos de capital e de comércio têm que estar sempre equilibrados, e assumimos que a contração do défice comercial relacionado com as tarifas reduzirá automaticamente os fluxos líquidos de entrada de capital no país, mantendo ambos em equilíbrio. Embora este pressuposto não seja habitualmente expresso, ele é necessário se se pretende que as tarifas reduzam o défice.

Mas embora as tarifas tenham realmente funcionado deste modo até ao século XIX, quando os fluxos de capital consistiam sobretudo em movimentos financeiros comerciais, deixaram de funcionar assim. Hoje, os fluxos de capital são largamente fluxos de investimento, não relacionados com o comércio, mas uma vez que a balança de capital e a balança comercial têm que estar equilibradas, se os estrangeiros continuarem a investir nos Estados Unidos tanto como anteriormente à imposição de tarifas, as tarifas de Washington não reduzirão o défice comercial dos Estados Unidos e poderão mesmo aumentá-lo. Esta regra absoluta não pode ser violada: se os fluxos líquidos de entrada de capital não diminuem, as tarifas levarão simplesmente os americanos a mudar de um conjunto de importações para outro.

Isto não significa que as tarifas não tenham impacto. As tarifas afetam os saldos comerciais, mas não por alterarem os custos relativos como geralmente se pressupõe. Eles fazem-no sim pela alteração da relação interna entre poupança e investimento. Ao aumentarem o custo das importações, as tarifas reduzem o valor real do rendimento das famílias em relação ao PIB, subsidiando efetivamente os produtores locais via transferências implícitas das famílias.

Se a quota parte das famílias no PIB diminui, o mesmo acontece com a quota parte do consumo, enquanto o seu reverso, a parte da poupança, aumenta. Isto, a propósito, é também como funcionam as moedas subavaliadas ou as taxas de juro artificialmente baixas que caracterizaram a China e a Alemanha no início dos anos 2000. As moedas subavaliadas, tal como as tarifas, subsidiam os produtores através da tributação implícita dos consumidores familiares, enquanto as taxas de juro baixas ou negativas fazem o mesmo tributando os aforradores familiares.

O efeito é sempre o mesmo. Em cada caso, à medida que a parte das famílias no PIB se contrai, a quota parte do total da poupança do país expande-se automaticamente. À medida que a poupança doméstica aumenta em relação ao investimento doméstico, o excedente comercial do país aumenta (ou o seu défice diminui). A alteração do saldo comercial somente pode ocorrer na medida em que os fluxos líquidos de capital também se alterem, mas se as tarifas têm algum impacto no défice comercial, isso sucede pela redução da parte do consumo no PIB e por forçar a subida da poupança.

Enquanto estas várias políticas (tarifas, moedas desvalorizadas, taxas de juro reais baixas) reduzem a contribuição de cada país para o consumo global, elas de qualquer forma impulsionam o crescimento desse país aumentando a sua reivindicação sobre o consumo estrangeiro. É por isto que as políticas comerciais de empobrecimento do vizinho estão a prejudicar a economia mundial: elas impulsionam o crescimento do país reduzindo a sua contribuição para a procura mundial e forçando as famílias em sofrimento a subsidiar a sua competitividade internacional.

Isto não significa que não haja nada que Washington possa ou deva fazer para reduzir o défice comercial americano. As políticas exteriores que forçam a subida da taxa de poupança doméstica afetam o comércio, independentemente de se é esse o objetivo, mas embora estas políticas possam ser formas legítimas de impulsionar o crescimento doméstico, os excedentes comerciais resultantes criam défices desestabilizadores noutros países.

Dito de outro modo, os excedentes não surgem porque os países podem produzir bens mais produtivamente ou eficientemente. Eles surgem em resultado da necessidade de exportar a poupança doméstica provocada pela baixa quota parte do rendimento das famílias no PIB. Em virtude de os países excedentários direcionarem o seu excesso de poupança principalmente para os Estados Unidos, a única economia suficientemente ampla, flexível e aberta para o absorver, são os Estados Unidos que inevitavelmente têm que gerir excedentes da conta capital e os correspondentes défices comerciais, que forçam os americanos a escolher entre um desemprego mais elevado e um crescente peso da dívida.

É por isto que Washington tem razão em implementar políticas destinadas a reverter o défice comercial dos Estados Unidos. Todavia, se o faz através das tarifas os Estados Unidos não ficarão melhores e o mundo ficará pior. Porque os desequilíbrios comerciais são a consequência, e não a causa, de desequilíbrios de capital, as tarifas não reduzirão o défice comercial. Somente enfrentando diretamente o excesso de entradas de capital poderão os Estados Unidos reduzir o seu défice. Entretanto, enquanto a China e os Estados Unidos – e em breve outros países – intensificam as suas guerras de tarifas, a procura mundial apenas enfraquecerá ainda mais.

 

Texto disponível em https://ftalphaville.ft.com/2018/04/12/1523505600000/Tariffs-increase-savings-in-a-world-already-drowsy-with-too-much-savings/

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