Sobre o que foi o ano de 2018, sobre os perigos que nos ameaçam em 2019 – uma pequena série de textos. 1.Noticias da Eurolândia – Recessão iminente

Em toda a Europa, e particularmente na zona euro de 18 membros, as notícias económicas são sombrias. Está agora claro que a crise do crédito nos mercados emergentes, que se prolongou durante a maior parte deste ano, mais a desaceleração que se verificou na China, estão a ter consequências negativas na Europa. No entanto, apesar do trauma que se tem estado a viver com o Brexit, o Reino Unido está-se a movimentar de forma relativamente suave – por enquanto.


brexitz.Noticias da Eurolândia – Recessão iminente

(Por Victor Hill, 30 de Novembro de 2018)

Quando a torneira do dinheiro secou…

Em toda a Europa, e particularmente na zona euro de 18 membros, as notícias económicas são sombrias. Está agora claro que a crise do crédito nos mercados emergentes, que se prolongou durante a maior parte deste ano, mais a desaceleração que se verificou na China, estão a ter consequências negativas na Europa. No entanto, apesar do trauma que se tem estado a viver com o Brexit, o Reino Unido está-se a movimentar de forma relativamente suave – por enquanto.

Uma série de eventos críticos estão prestes a coincidir. Em primeiro lugar, o BCE deixará de imprimir dinheiro através da flexibilização quantitativa (QE) em Dezembro. A principal referência quanto à oferta de moeda na Europa, o indicador  M3, estava a crescer em cerca de 5% ao ano quando o BCE estava a comprar  cerca de €80 mil milhões de títulos por mês em 2013. Essa taxa desacelerou e caiu para 2,1% no terceiro trimestre deste ano e, prospectivamente, cairá para zero no primeiro trimestre de 2019.

O QE foi instigado pelo Presidente do BCE, Mario Draghi, que assumiu o papel de Governador do BCE em 1 de Novembro de 2011. No início de 2012, no auge da crise da dívida soberana europeia, prometeu que o BCE faria tudo o que fosse necessário para salvar o Euro. Primeiro veio um programa de empréstimos em condições favoráveis aos bancos da zona Euro (a chamada LRTO); depois veio um programa massivo de compra de obrigações de dívida pública e de obrigações emitidas pelas empresas, seguindo o exemplo da Reserva Federal Americana, no rescaldo da crise financeira de 2008.

O programa de flexibilização quantitativa (vulgarmente conhecido pela expressão inglesa Quantitative Easing de sigla QE ) do BCE foi sempre contestado pelos alemães, que tendem a ter uma reação instintiva contra a política económica inflacionista. Isso deriva da memória histórica dos alemães relativamente ao  episódio cataclísmico de hiperinflação que ocorreu na República de Weimar em 1921-23. Na sua raiz, há aqui uma dicotomia cultural. Os países europeus do Norte (protestantes) acreditam em dinheiro sólido; enquanto os países do Sul (católicos) favorecem o estímulo monetário como instrumento de política económica. Como resultado, a QE sempre foi suposto ser uma medida temporária, na verdade, foi um compromisso. No final de 2019, o mandato de Mario Draghi como presidente do BCE expirará e os poderes instituídos já estão à procura do seu sucessor. Isto irá colocar os conservadores monetaristas alemães contra os restantes.

Depois há um segundo choque prestes a chegar, nomeadamente o Brexit, agendado para 29 de Março de 2019. Como eu escrevi, parece muito improvável que o Acordo de Saída do Reino Unido acordado entre May e Barnier venha a ser aprovado pela Câmara dos Comuns quando for a sua votação que será realizada em 11 de Dezembro (veja abaixo). Os europeus já disseram que não há espaço para qualquer forma de renegociação. Portanto, um Brexit sem negociação parece ter mais de 50 por cento de probabilidades de se verificar.

Isto seria um grande choque para a economia do Reino Unido porque as cadeias de abastecimento ficariam bloqueadas (pelo menos por algumas semanas até que os fabricantes definam como negociar com a UE sob as regras da OMC), mas seria também um enorme choque para a economia da UE. Recorde-se que cerca de 20% de todos os automóveis alemães produzidos são enviados diretamente para o Reino Unido. As ameaças de encerramento de ligações aéreas (o Sr. O’Leary, da Ryanair, parece, felizmente, ter ficado calado nos últimos tempos) e de encerramento de portos europeus com ligação pelo canal da Mancha na Europa seriam uma faca de dois gumes. A previsão de crescimento da zona euro estabelecidas pela Comissão Europeia para 2019, de 2,1%, parece agora altamente improvável.

Em terceiro lugar, a disputa entre Bruxelas e Roma sobre o governo italiano está prestes a transformar-se numa grande crise. A divisão Norte-Sul sobre a política económica é agora rivalizada pela guerra cultural entre o Ocidente e o Oriente. Isto está-se a manifestar com crescente azedume sobre a gestão da crise dos refugiados. Em toda a UE, os movimentos hostis à imigração estão a ganhar terreno eleitoral, conquistando votos dos jovens desempregados, dos trabalhadores manuais e dos artesãos qualificados. Os cidadãos europeus estão a deslocar-se para a direita – para desgosto dos eurófilos liberais como Emmanuel Macron. O jornal The Guardian publicou recentemente um relatório que sugere que um em cada quatro eleitores europeu votou num partido populista no último ano, contra apenas 7% em 1998.

À medida que o populismo avança, tanto de esquerda como de direita (o governo italiano é uma coligação de ambos os tipos), a animosidade em relação à elite da UE intensifica-se.

Deutschland: Merkeldämmerung

O índice de produção alemão IHS Markit caiu para 50,2 em Novembro. Os alemães nunca estiveram  tão pouco confiantes sobre o seu futuro desde que acabou o jogo da crise da dívida soberana europeia em 2013. As encomendas das exportações alemãs caíram para um mínimo desde há seis anos.

Destatis, a versão da Alemanha do Office for National Statistics do Reino Unido, confirmou em 23 de Novembro que a economia da Alemanha se contraiu em 0,2 por cento no terceiro trimestre de 2018. Segundo Destatis, isto deve-se  parcialmente à interrupção na todo-poderosa indústria automóvel alemã como resultado dos novos padrões de teste de veículos, num momento em que o Grupo Volkswagen (ETR:VOW) vai de um escândalo a outro. O setor manufatureiro alemão foi atingido pela quebra nas vendas para a China, Itália e Turquia. Essa tendência é provável que continue em 2019.

Italia: a filha que chora

O crescimento económico da Itália foi interrompido no terceiro trimestre. O Economista-Chefe do BCE, Peter Praet, alertou que o país está a caminhar em direção à crise financeira. Os títulos do governo italiano a 10 anos estão a render 3,2 por cento esta manhã – enquanto os equivalentes Bunds alemães estão a render 0,34 por cento. Os bancos da Itália estão-se a tornar incapazes de refinanciar as suas emissões de títulos em curso no mercado atual, com o resultado de que eles estão a reduzir os empréstimos num momento em que a economia já está em queda. As taxas hipotecárias têm vindo a aumentar acentuadamente, o que está a ter um impacto imediato nos rendimentos disponíveis.

É pouco provável que haja qualquer adiamento para os credores italianos na próxima reunião anual do BCE em Dezembro. Roma está a acusar o BCE por forçar à subida dos rendimentos dos seus títulos de dívida . O economista Lorenzo Bini-Smaghi (um ex-membro do conselho do BCE) afirma que a Itália já está em recessão. O PIB real per capita na Itália não é maior do que era há 20 anos.

A França : a vida em tons de cinzento

Os dados da produção francesa em Novembro foram dececionantes. A França tem sido assolada por protestos em massa e por  manifestações de vários tipos – todos contra as políticas económicas do Presidente Macron que, apesar da sua linhagem socialista, parecem estar a beneficiar apenas os ricos. As suas credenciais liberais metropolitanas foram reforçadas por algumas de suas iniciativas sociais, mas ele é cada vez mais visto como um globalista – tanto dentro como  fora da França. As sondagens de opinião sugerem que ele é hoje o presidente francês mais impopular de sempre.

Irlanda: Os olhos irlandeses que não sorriem

No final de Novembro, a equipa de resgate da UE, composta por inspetores, chegou a Dublin com os seus tablets e as suas boas maneiras oficiosas. Disseram aos seus anfitriões que estavam em risco de sobreaquecimento. Avisaram que um choque do Brexit poderia perturbar o frágil sistema bancário do país.

Em 2010, os leitores recordar-se-ão de que a Irlanda foi obrigada a aceitar um resgate de 85 mil milhões de euros da troika (UE, BCE e FMI). Este montante foi complementado com empréstimos bilaterais da Dinamarca, Suécia e Reino Unido. A economia irlandesa caiu 11% e destruiu 300 mil postos de trabalho. Embora a economia tenha recuperado desde então, grande parte da recuperação está nas costas de algumas empresas multinacionais (principalmente a Apple (NASDAQ:AAPL)) que se domiciliaram na Irlanda devido ao seu regime fiscal favorável. Isso teve o efeito de inflacionar artificialmente a taxa de crescimento do país (e, portanto, da zona do euro em geral).

Cerca de 10% das hipotecas  irlandesas ainda estão com património negativo – embora poucas pessoas provavelmente percam as suas casas como resultado das regras liberais de execução de hipotecas da Irlanda (ao contrário da Espanha). No geral, os bancos da Irlanda têm uma proporção de 9,2% de empréstimos de cobrança muito difícil.

A Irlanda está fortemente exposta a qualquer consequência negativa do Brexit. A Irlanda envia 15 por cento das suas exportações para o Reino Unido e o Reino Unido é responsável por 25 por cento das importações irlandesas. No entanto, o Brexit, a meu ver, não é a maior ameaça à economia irlandesa. Pelo contrário, isso é manifestado pelos planos do Presidente Macron de harmonizar os impostos sobre as empresas em toda a zona euro.

Atualmente, a Irlanda oferece às multinacionais como a Apple a chamada Double Irish tax break. Esta lacuna jurídica permite que a Apple e outros transfiram os seus direitos de propriedade intelectual para uma jurisdição offshore (Panamá – qualquer que seja) e, em seguida, vendam licenças da sua tecnologia para uma empresa com sede na Irlanda. (A Starbucks faz algo semelhante na Holanda). Tais entidades estão sujeitas à tributação offshore, mas o governo dos EUA considera-as como empresas irlandesas. Em breve, os nossos amigos irlandeses terão a Comissão Europeia e o Serviço Fiscal dos EUA atrás deles ao mesmo tempo.

A grande ideia de Monsieur Macron

Uma “verdadeira” união monetária – como a que se obtém nos 50 estados dos EUA – é apoiada pela promessa tácita de transferências fiscais entre estados relativamente ricos (Califórnia) e estados relativamente pobres (Missouri). Os alemães, apesar de serem quem mais beneficiou com a moeda única, nunca se interessaram por essa ideia. Recentemente, o ministro francês das Finanças, Bruno Le Maire, afirmou que o euro é perigosamente vulnerável a uma recessão sem novas instituições – mas os alemães não o estão a ouvir.

No início do seu mandato, o Presidente Macron tinha um grande plano para transformar a arquitetura da zona euro. Os alemães nunca foram tão entusiastas: Angela Merkel parecia retirar-se dos assuntos europeus desde as eleições alemãs de Setembro de 2017 até à coligação de Março deste ano. Desde então, ela tem estado em retirada – e agora está oficialmente de saída.

Em Junho deste ano, em Meseberg (Saxónia-Anhalt), os franceses e os alemães acordaram “explorar” a criação de um orçamento da Zona Euro presidido por um Ministro das Finanças Europeu e prosseguir com a fase seguinte da união bancária (em que todos os depósitos bancários de retalho são garantidos pelos governos da zona euro). O futuro orçamento da zona euro será financiado por um imposto comum que será aprovado por uma assembleia eleita, na qual cada país estará representado proporcionalmente à sua contribuição fiscal.

As transferências líquidas de um Estado para outro seriam utilizadas para estabilizar as economias da zona euro durante os períodos de recessão. Assim, se os governos fossem obrigados a cortar na despesa pública em tempos de austeridade (vem-me à mente a Grécia), estas transferências seriam utilizadas para mitigar o impacto social de tais cortes. Para que os cidadãos beneficiem deste sistema pan-europeu de segurança social, os seus governos nacionais seriam obrigados a submeter os seus orçamentos à supervisão do Ministro das Finanças Europeu.

Este sistema substituiria efetivamente o Pacto de Estabilidade e Crescimento (PEC – promulgado em Julho de 1998 e reformado em 2005),em que se estabelece que os défices orçamentais nacionais dos Estados da zona euro não podem exceder 3% do PIB. Estabelece-se igualmente que a dívida pública total não deveria exceder 60 por cento do PIB: uma disposição que nunca foi observada.

Cinco meses após a declaração de Meseberg, no entanto, a UE publicou, em 19 de Novembro, o que representava pouco mais do que uma nota de rodapé do atual orçamento da UE. Não foi feita qualquer referência à segurança social transfronteiriça. Não estão à vista novas instituições pan-europeias.

O Presidente Macron afirmou que o seu regime de segurança social teria de ascender a “uns poucos por cento” do PIB da zona euro para ter um impacto significativo. Em comparação, o orçamento federal dos EUA vale cerca de 20% do PIB dos EUA e o orçamento federal da Alemanha representa 11% do seu PIB. Uma razão para a relutância da Alemanha em se comprometer com este esquema é que eles prevêem grandes problemas no próximo ciclo do orçamento da UE, dada a perda de contribuições britânicas após o Brexit. O presidente francês deve estar à espera que o próximo chanceler alemão seja mais recetivo – mas isso não está de modo algum garantido.

Na quarta-feira (28 de Novembro), o ministro alemão das Finanças, Olof Scholz, exigiu que o lugar permanente da França no Conselho de Segurança das Nações Unidas fosse cedido à UE-27 pós-Brexit. A resposta francesa foi, digamos, pouco entusiasta.

Os alemães fizeram o suficiente em 2012 para salvar o euro de uma crise existencial. Mas não fizeram nada para resolver a questão fundamental: que a Alemanha (mais os Países Baixos) geram enormes excedentes comerciais de forma recorrente, enquanto a maioria dos outros membros da Zona Euro tem défices comerciais perpétuos. Em vez disso, impuseram um regime de desvalorizações internas às nações deficitárias do sul.

Durante a Crise da Dívida Soberana Europeia (2010-12) os índices de dívida em relação ao PIB de todos os estados da zona euro eram muito mais baixos do que são agora. O rácio da divida relativamente ao PIB da Espanha subiu de 36% para 98%; a de Portugal de 69% para 125%; a da França de 65% para 99%; e a da Itália de 103% para 133%. Mas haveria uma profunda resistência a qualquer nova ronda de austeridade, de modo que os cortes nos gastos futuros são politicamente impossíveis. Além disso, da próxima vez haverá pouco espaço para que uma política monetária seja capaz de gerar qualquer alívio. A taxa interbancária do BCE já está abaixo de 0,4% – quanto mais é que pode descer?

Qualquer futura recessão na zona euro resultaria inevitavelmente em incumprimentos de alguns Estados-membros – a Itália na vanguarda. Acrescente-se a isso a perspetiva de um Brexit sem acordo. Se os franceses fecharem o porto de Calais, como é que os alemães irão os alemães entregar os 750 mil automóveis que vendem anualmente na Grã-Bretanha? Ambrose Evans-Pritchard, do Daily Telegraph, fala agora de DMA – depressão mutuamente assegurada [i].

Os economistas deveriam estar mais bem informados

Como tenho vindo a escrever, tanto o Tesouro como o Banco de Inglaterra apresentaram previsões que preveem resultados económicos desastrosos para (a) o Brexit em geral, e (b) para um Brexit sem negociação em particular. Estes resultados têm sido regurgitados persistentemente pela BBC.

Eu não vou aqui dissecar estes estudos. Basta dizer que a OBR não pode sequer projetar com precisão a cifra de crescimento do próximo ano – então como é pode o Tesouro possivelmente afirmar saber a dimensão do nosso PIB sobre um período de  15 anos? Especialmente quando eles assumem que a composição de nossas exportações no futuro permanecerá como está hoje. (As exportações do Reino Unido para a Europa em percentagem do PIB têm vindo a diminuir a longo prazo – veja-se o meu artigo publicado na semana passada).

Quanto ao filme de catástrofe apresentado pelo Banco de Inglaterra – com uma queda imediata de 8% no PIB – já ouvimos tudo isto antes – foi reciclado de um estudo semelhante no ano passado, mas foi fecundado pelo nosso tempo febril. Muito em breve, vou partilhar exatamente a sequência de eventos que aconteceriam no caso de um Crash Brexit em 29 de Março de 2019. É assustador – mas a desvantagem é em grande parte uma função da confiança com que as pessoas esperam nadar de um lado do rio para o outro.

Na quinta-feira à noite (29 de Novembro) soube que um fundo do Reino Unido que investe em projetos de energia do Reino Unido chegou a uma decisão importante. À luz das declarações de Carney, os gestores desse fundo determinaram que todo o seu orçamento de £250 milhões em instalações e equipamentos para 2019 seria obtido a partir de fabricantes britânicos para evitar potenciais riscos cambiais… Certamente que o Sr. Carney merece um gongo mesmo só por isso.

A pérfida Albion : Será que devemos engolir o veneno?

Tendo retido o julgamento definitivo do Acordo de May-Barnier, tive a oportunidade de fazer uma análise tipo  forense. É muito pior do que eu pensava.

A UE exporta para o Reino Unido mais 95 mil milhões de libras esterlinas de mercadorias do que o valor das que importa, facilitado pelo regime de tarifa zero no âmbito da União Aduaneira/Mercado Único. Era uma prioridade para a UE manter esta situação. E é exatamente isto que o acordo de Maio-Barnier lhes dá: continuidade durante todo o período de transição e depois para além de qualquer acordo putativo (em que a Declaração Política afirma que “assentará no território aduaneiro único previsto no Acordo de Saída “). O acordo liga-nos à legislação atual e futura da UE em matéria de auxílios estatais e concorrência.

Se não tiver sido alcançado um acordo comercial até ao final do período de transição (prorrogável), as disposições comerciais não serão vinculativas (o que estabelece a União Aduaneira com comércio à taxa zero através de um território aduaneiro único), até ao momento em que a UE acordar com o Reino Unido em alterar esse regime – ou até concordar que este pode ser abandonado. Salvo que não há nenhum incentivo para que a UE o faça. Portanto, muito provavelmente, continuaríamos encurralados.

Mesmo que o Reino Unido escapasse à jaula da União Aduaneira, poderia assinar tantos acordos de comércio livre com países terceiros quantos quisesse, mas estaria proibido de pôr em vigor direitos aduaneiros inferiores aos direitos aduaneiros em vigor na UE. A Primeira-Ministra e os seus apoiantes afirmam que seremos capazes de concluir acordos de comércio livre (ACL) como se isto fosse um triunfo. Mas ela não menciona que tais ACLs permanecerão vazios até que a UE concorde de outra forma.

Pior ainda, o acordo foi concebido de modo a que a UE possa roubar-nos o máximo de serviços que puder. A UE compra ao Reino Unido mais 28 mil milhões de libras esterlinas de serviços do que o que vende ao Reino Unido. O acordo de May-Barnier parece permitir que o status quo se mantenha ao longo do período de transição. No entanto, no final do período de transição (prorrogado ou não), o comércio livre de serviços cessará, a menos que a UE e o Reino Unido tenham acordado um novo acordo sobre as mercadorias.

Não existe sequer um acordo de segurança rigorosamente definido sobre os serviços como existe com os bens. Esta situação cria uma enorme incerteza no setor dos serviços ao longo do período de transição, sendo o resultado mais provável que os prestadores de serviços decidam deslocalizar a prestação de serviços para países da UE (sobretudo França, aposto eu) a fim de preservar a continuidade. Isto é nada mais do que o equivalente a uma apropriação de terras relativamente ao nosso setor dos serviços.

A UE quer que o Reino Unido continue a dar um contributo importante para a segurança europeia – na verdade, para se juntar ao exército europeu do Presidente Macron. É claro que o Reino Unido é de longe a maior potência militar da Europa – com a França em segundo lugar. Mas a continuidade da segurança encontra o seu caminho juridicamente vinculativo no Acordo de Saída – com o custo da separação em 39 mil milhões de libras como condição de implementação.

Tudo o que é realmente importante para o Reino Unido, tal como a preservação do sector dos serviços, a expansão do comércio internacional de mercadorias, para não falar do futuro da indústria da pesca e de Gibraltar, é relegado para a Declaração Política não vinculativa, sem garantias e sem certezas.

Pior ainda, não podemos sequer sair desta confusão sem o consentimento da UE. Qualquer alavancagem de negociação que pudéssemos ter tido, como a cooperação contínua em matéria de segurança ou de um pagamento para facilitar a separação (justificado ou não), foi cedida no Acordo de Saída. Quanto mais tempo estivermos atados à clausula de salvaguarda “backstop”,[1] [2] potencialmente sem fim à vista, maior será a erosão do nosso sector dos serviços, sem qualquer ganho no comércio de mercadorias. Este é um tratado que se esperaria ver imposto a uma pequena nação terminantemente derrotada na guerra.

Os deputados que votarem a favor deste desprezível acordo na Câmara dos Comuns no dia 11 de Dezembro estarão a agir em grande parte por desespero, tão ansiosos que estão para acabar com o pesadelo do Brexit (como o vêem – embora vá continuar) que irão votar em qualquer coisa. Os trabalhistas irão opor-se a isso na deliciosa presunção de que poderiam voltar de Bruxelas com um acordo “melhor”. Ao fazê-lo, vão conseguir o resultado “não há acordo”, o que é supostamente o que mais receiam. Na verdade, querem o caos, pois sabem que essa é a sua única hipótese de chegarem ao poder.

A senhora deputada May é uma excelente pessoa, mas conduziu a nação a uma armadilha. É uma pena que ela se tenha deixado capturar pelo estado profundo dos Remainer após a eleição (uma catástrofe de que ela é a responsável). Antes disso, ela tinha constituído uma grande promessa. Mas ela não foi apenas sanguinária, mas ecónoma para com a verdade. Primeiro, ela mudou a agenda da Lancaster House sem o admitir publicamente. Depois, preparou a confusão com o plano traçado na sua casa de Campo, the Chequers, que foi depois discretamente atirado para os bastidores – também sem consulta.

 Na minha opinião, todo o debate sobre o Brexit já não é sobre o que é bom para a nossa economia – Permanecer ou Sair? O debate agora limita-se a discutir se o processo de integração europeia é reversível ou não. Tal como a Guerra Civil Americana (1861-65) não teve, de facto, nada a ver com a escravatura, mas com a questão de saber se os estados tinham ou não o direito de se separar da União. E quando a economia se torna secundária em relação aos objetivos de ordem superior é sinal que as coisas podem correr muito mal.

É agora muito provável que um Brexit desordenado seja a faísca que inflama o barril de pólvora que é a zona Euro já no primeiro semestre de 2019. Os marinheiros com uma disposição nervosa podem preferir ficar abrigados no interior do barco.


Notas

[1] Nota de Tradutor. Diz-nos The Guardian: “Variadamente descrito como uma apólice de seguro ou uma rede de segurança, backstop enquanto dispositivo de segurança é um dispositivo destinado a garantir que não haverá uma fronteira dura entre a Irlanda do Norte e a República da Irlanda, mesmo que não seja possível chegar a um acordo formal sobre acordos comerciais e de segurança.

Significaria que, se não houvesse um acordo exequível sobre estas matérias, a Irlanda do Norte permaneceria na união aduaneira e em grande parte do mercado único, garantindo uma fronteira sem atritos com a República da Irlanda”.

Backstop, refere-se, pois, na ausência de acordo definitivo a uma derrogação para a Irlanda do Norte e apenas para a Irlanda do Norte. Trata-se de uma cláusula em que apenas a Irlanda do Norte se mantém na união aduaneira e em grande parte do mercado interno. Para a UE o backstop não poderá cessar enquanto não houver acordo definitivo em matéria comercial e de segurança.

[2] Nota de Tradutor. Ainda sobre o que se entende por backstop diz-nos o Financial Times:

“Aqueles que estão a seguir o debate parlamentar sobre o acordo poderiam ser perdoados por pensarem que o único grande problema é um dispositivo de segurança, chamado “backstop arrangement” para garantir uma fronteira aberta entre a Irlanda do Norte e a República da Irlanda. Na verdade, este mecanismo se segurança é simplesmente um substituto para as querelas sobre soberania. A substância vital do compromisso de décadas da Grã-Bretanha para com a Europa foi perdida em debates obscuros sobre a suposta soberania. O Reino Unido procurado pelos Brexiters é um país de impotente isolamento – uma nação com um direito sem limites para se prejudicar a si própria”.



.Artigo original aqui

 O segundo texto desta série será publicada, amanhã, 13/01/2019, 22h


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