A responsabilidade da esquerda na trajetória de ascensão do neoliberalismo – algumas grelhas de leitura – 6. A leitura de François Ruffin – A semana em que a esquerda virou à direita (1/2)

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Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

6. A semana em que a esquerda virou à direita (1/2)

François Ruffin Por François Ruffin

Publicado por jornal Fakir logo, em 30 de junho de 2016

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Nota do editor: este texto é a edição revista do texto que foi publicado em A Viagem dos Argonautas entre os dias 13 e 16 de julho de 2017, integrado na série “Crónica sobre os anos 80, sobre Viva a Crise”. A presente edição revista é apresentada em 2 partes.

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É um aniversário que as pessoas se esqueceram de celebrar: há trinta anos, em março de 1983, a esquerda virou à direita. Em dez dias desenrola-se um thriller político. No dia 13 de março, François Mitterrand deseja uma “outra política”. No dia 23 de março, vergou-se: será o momento “ da viragem para o rigor” e para a Europa da austeridade. Abre-se então “o parêntese liberal”. No qual ainda estamos bloqueados.

Publicamos a seguir extratos do nosso dossier «A semana em que a esquerda virou à direita», publicado no nº 60 de Fakir em abril de 2013, ou seja, um ano após a vitória de François Hollande nas eleições presidenciais. E 30 anos depois da viragem para o rigor de François Mitterrand.

 

 

1 de maio de 2012- A homenagem

Em plena campanha, entre as duas voltas das presidenciais, François Hollande não desfila nos cortejos de manifestantes. Foi a Nevers, para uma homenagem ao antigo Presidente da Câmara Municipal da cidade, o Primeiro-ministro Pierre Bérégovoy, que se suicidou no dia 1º de maio de 1993. O candidato socialista saúda «o operário, o homem de Estado, grande servidor da República, mas, diz-nos Libération , “mais do que da vitória da esquerda, é de 1984 que ele fala, quando Bérégovoy, nomeado para Ministro da Economia, teve que pôr em marcha  a correção das contas públicas da França, corroída pelos défices e pela inflação”. Quando o antigo operário se tornou “o homem que sabia gerir”. Um retrato póstumo que vale como promessa se ganharem no Domingo», conclui o jornal. E o porta-voz da sua campanha, Bernard Cazeneuve, hoje ministro do Orçamento, acrescenta: “Bérégovoy é um marco na história da esquerda. Foi ele que reconciliou a esquerda e o realismo.

É mais que um sinal. Como pai espiritual, François Hollande tinha já Jacques Delors, o grande artesão da renúncia, de que ele foi um dos seus colaboradores quando esteve á frente do clube dos Témoins (Testemunhos). Mas eis que antes mesmo da sua entrada em funções, como inspirador pouco inspirado, escolhe o agradável Béré, o socialista que liberalizou os mercados financeiros, que tinha sempre cheia a sua boca com “a austeridade”, que se tornou um lacaio do franco forte. Porque Pierre Bérégovoy, para além das suas qualidades pessoais, para além do seu fim trágico, encarnou a esquerda tapete, vergada totalmente em face das potências do dinheiro, pondo-se de joelhos face à Alemanha e à Europa.

Todo um programa, para o futuro presidente: ele não lutaria, não resistiria, anunciava-o desde já. Em 1983, François Mitterrand, e com ele o PS, tinha aberto “o parêntese liberal”, assinado um armistício, após muitas hesitações, muitas evasivas, uma pequena dor de alma. Trinta anos depois, o seu sucessor no Eliseu faz desta renúncia o seu orgulho: a capitulação quer-se definitiva – e habitada por um estranho orgulho.

14 de março de 1983 – O nó da questão

Ontem, a esquerda sofreu uma derrota, mas não uma derrocada. “Uma advertência”, como diz Lionel Jospin, o primeiro secretário do PS, com trinta e uma cidades perdidas: Grenoble, Roubaix, Tourcoing, Épinal, Nîmes, etc. No Eliseu, o presidente espera o seu Primeiro ministro. É a hora da escolha, então, uma escolha que ele recusa desde há já muito tempo. Relê uma nota, que lhe passou Jacques Delors, o seu ministro da Economia: “Ao longo de um ano, o consumo dos Franceses aumenta 3,7 %, mas a produção interna apenas 2,1 %. A diferença é assegurada por um aumento de importações”. O défice comercial aumentou de trinta e dois mil milhões. Ao longo de um ano, a taxa de cobertura em produtos manufaturados reduziu-se de dez pontos, passando de 88 % a 78 %. É claro: o relançamento da economia francesa beneficia sobretudo os Alemães, os Americanos, os Japoneses.

O que fazer, então? Há apenas duas opções, e nenhuma terceira via: a França deve sair do Sistema monetário europeu (SME), tomar medidas protecionistas, limitar as importações, e persistir numa política “de esquerda”, voluntarista, virada para a indústria, para o progresso social? Ou deve aceitar a disciplina do SME, vincular o franco ao marco e, portanto, proceder “a um saneamento” orçamental, a uma “desinflação competitiva”, em suma, à austeridade tanto para o Estado como para os assalariados?

Este é nó da questão, é necessário agora cortá-lo, decidindo qual a opção a tomar.

Um nó que Mitterrand ele mesmo foi enrolando, conscientemente, desde há um ano pelo menos.

16 de junho de 1982 – A outra política

A partir de 5 de junho de 1981, o seu conselheiro, Jacques Attali, sempre rápido a pôr o pé no travão, avisou-o contra os défices: “De momento, faço política, respondeu-lhe François Mitterrand. O rigor, ver-se-á mais tarde.” Na Primavera de 1982, o seu Primeiro-ministro, Pierre Mauroy, apresentou‑lhe um plano de rigor, precisamente: “deixe-me organizar a minha cimeira, depois ver-se-á.” O monarca socialista acolhia o G7 em Versailles, com banquete, fogo-de-artifício, ópera, no princípio de junho: pelo que não estava interessado, por agora, em inquietar-se com estas questões de intendência. Mas a partir do fim-de-semana seguinte, sábado 12, o franco era desvalorizado em 9,75 % relativamente ao marco. E no dia seguinte, domingo, o Conselho de Ministros bloqueava os preços e os salários por um período de quatro meses.

Os defensores da política de rigor pareciam estar a ganhar a batalha de convencer o Presidente.

Mas no dia 16 de junho, em conferência de imprensa, o presidente acompanhou esta orientação, temporária, de um discurso combativo: “Encontramo-nos num caso típico de luta das classes, ao mesmo tempo nacional e internacional. Não podemos contar com nenhum dos grandes países capitalistas, porque para eles o objetivo é demonstrar que nós não nos podemos isolar. Esta constatação teria podido conduzir-nos então a deixar o SME porque, finalmente, este sistema obriga-nos a que o combatamos. […] Se falharmos nesta segunda fase, uma terceira fase poderia conduzir-nos a sair do SME.”

Naquele dia, o presidente abre, por conseguinte, a porta a uma “outra política”. Os seus partidários põem-se ao trabalho. Entre eles, um patrão iconoclasta, Jean Riboud, presidente de Schlumberger: “Sim, François Mitterrand vai ganhar. Mas para fazer o quê? interrogava-se antes de maio de 1981. Se for para ouvir Delors e fazer como Raymond Barre, então a França terá perdido uma possibilidade, a última, de se modernizar e desaparecerá da cena dos grandes, dissolvendo-se num magma neoliberal europeu.” E preconiza que, a partir da sua chegada ao poder, Mitterrand “marque a rutura com o conformismo ambiente com duas medidas fortes: investir massivamente para modernizar o aparelho industrial francês e passar imediatamente à semana das 35 horas. Faria assim desaparecer instantaneamente uma parte do desemprego e preparar-se-ia para digerir os ganhos de produtividade que resultam da modernização dos meios de produção.” E se isso não funcionar com as 35 horas, que se tente com as 32 horas!

Estas ideias, Mitterrand retoma-as, completa-as (“desendividar massivamente as empresas”, “baixar duravelmente o custo do crédito”, “proteger os produtos franceses da concorrência estrangeira”), expõe-nas ele no Eliseu. E um grupo informal, heterogéneo, “os visitantes do serão”, “os Albaneses”, constitui-se, para lhe proporem esta “outra política”, para “pôr entre parênteses a condicionalidade externa”.

Face a estes, Jacques Attali, Jean Peyrelevade, Jacques Delors, Michel Rocard e muitos outros enarcas, diversos altos funcionários, preconizam o contrário: que se termine com esta “experiência”. O presidente não diz nada, mantém a ambiguidade: “Durante este período, nota o seu conselheiro Charles Salzman, François Mitterrand fará confidências contraditórias a uns e a outros, a fim de baralhar todas as pistas e deixar-se a liberdade total de escolha, sem compromisso de nenhuma espécie.” De qualquer modo, não decidirá nada antes das municipais.

E em 19 de fevereiro ainda, em privado, diz-se “dividido entre duas ambições: a da construção da Europa e a da justiça social. O SME é necessário para ter êxito na primeira e limita a minha liberdade para a segunda.”

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14 de março de 1983 – A recusa

Este dilema atormenta o presidente, nesta manhã. Mas dilacera o PS, como testemunha a imprensa desse dia: em Le Monde, os militantes da linha de Chevènement atacam os militante da linha de Rocard, e falam “de consentimento de uma fatalidade”, “de submissão melancólica aos condicionalismos de um ambiente hostil”, e “de uma controvérsia antiprotecionista” que seria “a ponta avançada de uma operação política de grande envergadura”, que conduziria ao “liberal deflacionismo ”.

É necessário decidir.

Pierre Mauroy senta-se à sua frente. “Mantenho-o como Primeiro-ministro, anuncia-lhe François Mitterrand, mas para fazer uma política económica mais contundente, que implica a saída do franco do SME.

 — Não! responde-lhe Pierre Mauroy. Não saberei fazê-la! Não sou o homem de uma tal política! “Depois desta recusa, por conseguinte, a incerteza permanece: para que lado se inclinará a balança?

15 de março de 1983 – A conversão

A esquerda nomeou, como diretor do Tesouro, Michel Camdessus, um liberal convencido, que se tornará em breve o diretor do FMI e que imporá aos países do Sul “planos de ajustamento” draconianos. Um tal personagem não é, adivinha-se, francamente favorável “à outra política”. Faz mesmo tudo para se lhe opôr. Em ligação com o grupo Attali, avisa mesmo que os cofres do tesouro estão vazios. E juntos, estes dois comparsas vão nesta manhã ao ministério do Orçamento. A Laurent Fabius descrevem “as consequências terríveis que poderia ter uma saída do franco do SME: é pôr um fim na construção europeia, desvalorização de pelo menos 20 %, o que seria terrível para as compras de petróleo e para a dívida; taxas de juro que sobem para 15 a 20 %; um milhão de desempregados mais e, no fim de contas, um plano de austeridade por parte do FMI”. Ao lado disto, as dez pragas do Egito são uma brincadeira. Até então, Laurent Fabius estava sobretudo próximo da “outra política”, favorável a uma saída temporária do SME. No Outono de 1981, preparou um orçamento com despesas públicas em aumento de 30 %, a contratação de 200.000 funcionários, 500 % de aumento para a investigação, 100 % para a cultura e a formação profissional, 40 % para a habitação, 30 % para a justiça… Após a sua exposição, Michel Camdessus “viu abruptamente Fabius mudar de rosto. Não tinha percebido todas as consequências de uma flutuação generalizada. Mas talvez eu não tivesse conseguido convencer tão facilmente Fabius se ele não soubesse que o Presidente podia ainda mudar de opinião”.

16 de março de 1983 – A decisão

O Conselho de Ministros aprova, esta manhã, a redução da idade da reforma para os 60 anos. Aí está, para a fachada. Pelo lado dos bastidores, o jovem Fabius pediu um encontro com o “Velho” e, por sua vez “vai esforçar-se então por fazer compreender as consequências terríveis que poderiam ter uma saída do franco do SME”. É, ao que parece, a entrevista decisiva. Imediatamente a seguir, François Mitterrand recebe de novo Pierre Mauroy e pede-lhe, esta vez, “que pense na formação de um governo no âmbito da manutenção no SME”. Os dados estão lançados, em princípio. Mas o presidente não intervirá, disse-o, na televisão senão na quarta-feira 23 de março. Tudo poderá depender, ainda, das negociações monetárias que se devem realizar neste fim-de-semana em Bruxelas.

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18 de março de 1983 – O único verdadeiro debate

É entregue a Jean-Pierre Chevènement, e a seu pedido, um relatório que recomenda a generalização da norma NF [marca de certificação em França]: “A normalização deve adaptar-se às preocupações económicas e sociais do governo”, indica o relator. “A outra política” afia assim as suas “temíveis armas protecionistas”, como o escrevia o jornal Le Monde, que lhe era hostil. Como “participar na reconquista do mercado interno”. Porque, com exclusão de alguns iniciados, ignora-se ainda qual será o resultado do jogo. E Philippe Labarde, sempre no Le Monde, publica um notável editorial, que é ainda hoje atual, que vê bem mais longe que a questão técnica do momento:

“A ideia é seriamente encarada de assumir um golpe decisivo em termos de política económica e europeia, fazendo sair o franco do SME. Mas podemo-nos interrogar se na verdade o país não está a ser privado do único verdadeiro debate económico que vale a pena fazer. Dado que estamos com um poder de esquerda, e dado que este dispõe de três anos antes de ter de enfrentar reais perigos eleitorais, que política é necessário efetuar, apesar dos sacrifícios necessários, para que os resultados desta política possam ser qualificados de socialistas? Que tabus convirá abater, ou será que se deve fazer contrapé relativamente às teses ortodoxas? Tudo se passa como se o poder socialista guarde no bolso as suas teorias económicas e responde na urgência da situação utilizando o arsenal mais clássico possível. Não terá ele um outro discurso a defender, outras escolhas a fazer, e no mínimo um verdadeiro debate a propor? […] John Maynard Keynes, nos seus Ensaios sobre a moeda e sobre a economia, desejava que se relegasse o problema económico «ao lugar que lhe pertence: o segundo plano, a fim de que o campo de batalha dos nossos corações e das nossas cabeças esteja ocupado, ou melhor reocupado, pelos nossos verdadeiros problemas, os da vida e das relações entre os homens, os da criação de ideias, os do nossos comportamento e da religião.»”

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(continua)

FRANÇOIS RUFFIN, (2013) LA SEMAINE OÙ LA GAUCHE A BASCULÉ À DROITE, Publicado pelo jornal LE FAKIR N°(60) Abril – Junho de 2013. Disponível em https://www.fakirpresse.info/La-semaine-ou-la-gauche-a-bascule

 

Fontes:

  • Le Bruit de la main gauche, Charles Salzman, Robert Laffont, 1996.
  • François Mitterrand, les années du changement, 1981-1984, sous la direction de Serge Berstein, Pierre Milza, Jean-Louis Bianco, Perrin, 2001.
  • Histoire du franc, Georges Valance, Flammarion, 1998.
  • Défis républicains, Jean-Pierre Chevènement, Fayard, 2004.
  • Les journaux télévisés de l’époque (sur le site de l’Institut national de l’audiovisuel) et les archives du Monde.
  • La deuxième droite, Jean-Pierre Garnier et Louis Janover, Robert Laffont, coll. Libertés, 2000.

 

O autor: François Ruffin (1975-), jornalista, ensaísta, realizador e político francês. Fundador e redator do jornal Fakir, escreve também em Le Monde Diplomatique e na associação Acrimed. Eleito deputado à Assembleia nacional em 2017, integra o grupo La France insoumise.

 

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