Opiniões divergentes sobre uma intervenção dos EUA na Venezuela Por George Friedman e Jacob L. Shapiro

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Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

Opiniões divergentes sobre uma intervenção dos EUA na Venezuela

Por George Friedman e Jacob L. Shapiro

Publicado por gpf_logo em 31 de janeiro de 2019

George Friedman (presidente e fundador de Geopolitical Futures) e Jacob L. Shapiro (diretor de análise de Geopolitical Futures) apresentam diferentes perspetivas quanto a uma potencial intervenção dos EUA.

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Nota do editor: Nós em GPF somos um grupo de indivíduos (mais ou menos) unidos na escrita por um propósito comum – dar sentido ao mundo. É uma tarefa difícil sendo-nos impossível estarmos de acordo em tudo, pelo que em vez de nos furtarmos a essa tarefa, decidimos aceitar o impossível publicando a primeira daquilo que espero venham a ser muitas Opiniões Divergentes, uma coluna onde expomos aquilo em que discordamos e porquê. O vosso feedback, como sempre, será muito apreciado.

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george friedman gPF George Friedman, fundador e presidente

Durante anos, a Venezuela tem sido o retrato de um prolongado colapso, uma façanha ainda mais impressionante devido a que a sua queda foi em grande parte sem assistência. Porém, as conversas sobre intervenção estrangeira abundam. Um avião russo aterrou recentemente em Caracas, sendo o rumor de que se destinava a apanhar algumas centenas de milhões de dólares de ouro venezuelano. Importa menos o montante de dinheiro em causa do que o sinal que o seu transporte envia – que o Presidente Nicolas Maduro está a fechar a loja. E uma vez que os Estados Unidos cortaram de facto os laços com Citgo, um importante ativo financeiro da Venezuela e filial da sua empresa petrolífera estatal PDVSA, poderá muito bem ser esse o caso.

Analisar as intenções de Maduro não é assim tão interessante, e não é essa a questão. O que é interessante é que os Estados Unidos observaram durante anos a auto-imposta falência da Venezuela com uma indiferença incaracterística. Agora agiu, pelo que os russos e os chineses também reagiram.

E no entanto, é difícil pensar que qualquer deles se preocupe o suficiente para intervir militarmente na Venezuela. Mesmo os interesses de Washington na Venezuela são apenas ligeiramente convincentes. Um é o petróleo, mas a importância do petróleo venezuelano diminuiu, em parte devido à subida da produção mundial, principalmente nos Estados Unidos, e em parte porque a produção venezuelana tem vindo a diminuir. As disrupções na Venezuela afetam algumas empresas mas deixaram de ser estrategicamente significativas. (a destruição da PDVSA é um legado da era Chavez-Maduro) Outro são os narcóticos. A produção colombiana tem sido direcionada através da Venezuela e o rumor é que responsáveis governamentais venezuelanos estarão envolvidos no negócio. Mas isto parece uma razão pequena para se envolverem diretamente numa mudança de regime.

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Na verdade, estes interesses não são novos nem, no que aos Estados Unidos diz respeito, particularmente prementes. A Venezuela está simplesmente muito em baixo na lista de considerações estratégicas de Washington. Preferiria que a Venezuela e a América Latina sejam estáveis, e nesse sentido, há uma variedade de implicações regionais da queda da Venezuela. A deterioração económica do país produziu uma saída massiva de migrantes para outros países Latino Americanos, que estão, naturalmente, preocupados com os custos, reais e sentidos, que a imigração acarreta. Estes países, normalmente, opôr-se-iam à intervenção dos Estados Unidos – eles recordam-se do legado de Washington nessa matéria, e certamente querem evitar serem o próximo alvo de Washington – mas muitos pensam que alguma coisa tem de ser feita no que concerne à Venezuela, por isso a maioria dos vizinhos da Venezuela apoiam o líder da oposição Juan Guaidó, e isso os EUA é o único que pode fazê-lo (claro, reservar-se-ão o direito de criticar os EUA quando lhes convenha). Quando a estabilidade está em causa, sanções e discursos têm um baixo custo e um elevado retorno.

Mas a intervenção nunca é fácil, mesmo quando “benvinda” da parte de tantos intervenientes externos envolvidos. Para começar, uma ação contra a Venezuela é também uma ação contra Cuba. A reconciliação começada com a administração do Presidente Barack Obama não teve qualquer resultado. Forças poderosas em Cuba, sobretudo os serviços de inteligência, estão a desenvolver um trabalho excelente no governo comunista de Havana, e não desejam liberalizar a economia (o Presidente Donald Trump, também, é muito cético quanto às relações com Cuba e por isso desfez algum do progresso feito pelo seu predecessor.). Os serviços de inteligência cubanos têm sido, entretanto, um importante fator para garantir a sobrevivência do governo de Caracas. Hugo Chavez e Maduro têm de manter-se no poder, e Cuba obter petróleo com desconto e ter um pé na América do Sul. Deixar cair Maduro vai contra os interesses de Cuba.

E depois há os russos, que estão à procura de qualquer oportunidade para demonstrarem a sua importância para o mundo e para os seus eleitores. Eles não são atores globais, por isso necessitam fazer gestos de alcance mundial. Sem os recursos necessários para estabilizar o governo de Maduro, resolveram beliscar nas margens, insinuando o uso da Venezuela como base para operações militares e aterrando um avião de carga no país. Voar para um país em crise para recolher ouro certamente envia uma mensagem importante. Oferecer intermediar conversações entre os Estados Unidos e a Venezuela também. Poderá ser ou não uma mensagem eficaz, mas envia para casa a ideia, em teoria, de que a Rússia é poderosa.

A China está a desempenhar um jogo similar. Está a abrir uma porta para bases militares no país, algo que Maduro acolheria com satisfação mas que, em última análise não faz sentido considerando que a Venezuela está do lado errado do Canal do Panamá, de um ponto de vista militar chinês. Manter significativas forças terrestres ou aéreas a essa distância exige um sistema logístico de base marítima, e esse sistema seria altamente vulnerável a um contra-ataque dos EUA. O Canal do Panamá é, por definição, um ponto de estrangulamento que poderia facilmente interromper esses sistemas logísticos. É compreensível porque razão a China colocaria a hipótese de uma tal estratégia; fazendo-o captaria a atenção de Washington, tirando o seu foco do Mar do Sul da China. Mas a ideia desmorona-se assim que é examinada.

A Venezuela, portanto, é uma crise estratégica para ninguém menos que a Venezuela. Para outros, o país é uma fonte de irritação e de oportunidades. Os EUA estão irritados com Maduro e com os cubanos. Por isso, toma medidas mínimas com o máximo efeito, usando ameaças militares vagas que levariam a uma reação negativa na América Latina que os EUA não necessitam. Os russos estão a enviar aviões e notas diplomáticas para irritar os Estados Unidos e tentar fazer com que os EUA façam algo tolo. Como parte da sua estratégia para parecer que se está a deslocar para o Hemisfério Ocidental, Pequim não deixará passar a oportunidade de fazer um gesto sem sentido adequado.

Ninguém vai correr grandes riscos a favor ou contra o governo de Maduro. O barulho em torno da sua queda é feito por aqueles que querem usar Caracas como um cacete contra os seus adversários. Isso não quer dizer que a escalada seja impossível, ou que as coisas não vão piorar para o povo venezuelano antes que melhorem. É só para dizer que, na maioria das vezes, a estratégia dita uma ação decisiva.

Jacob, sei que não concorda totalmente com a minha avaliação. Eu adoraria ouvir os seus argumentos sobre o porquê disso.

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jacob shapiro Jacob L. Shapiro, diretor de análise

Está claro que concordamos que a razão declarada pela Casa Branca para se envolver na Venezuela – a restauração da democracia – não é o verdadeiro interesse dos EUA aqui. Esse é o tipo de argumento apresentado pelos funcionários da administração Trump que acreditam que uma democracia vibrante na Venezuela é uma questão de interesse nacional dos EUA (alguns deles são os mesmos responsáveis que guiaram a política externa dos EUA para a invasão do Iraque em 2003.) Mas eu discordo de você, George, sobre quais são os principais interesses dos Estados Unidos na Venezuela. Não acho que sejam petróleo e drogas. O interesse dos EUA na Venezuela está na manutenção da posição dos EUA como a potência mais forte das Américas e em impedir que potências estrangeiras intervenham nos seus assuntos. O lento declínio da Venezuela cria oportunidades, mesmo que sejam remotas, para outros desafiarem os EUA numa esfera de influência que os próprios Estados Unidos reivindicaram já em 1823.

A minha maior discordância é que os EUA já demonstraram que estão interessados o suficiente na Venezuela para intervirem lá de todas as formas possíveis, exceto militarmente. Na terça-feira passada, o vice-presidente dos Estados Unidos ligou para Juan Guaidó, presidente da Assembleia Nacional, e disse-lhe que o governo dos EUA o apoiaria se ele assumisse o governo venezuelano. No dia seguinte, Guaidó declarou-se presidente interino e Washington imediatamente reconheceu-o como líder da Venezuela. Em outras palavras, Guaidó é a escolha, a dedo, dos Estados Unidos como o próximo líder da Venezuela. Na segunda-feira, os Estados Unidos impuseram sanções contra a petrolífera estatal PDVSA para cortar a principal fonte de receita do governo de Maduro e redirecioná-la para Guaidó. Os EUA também querem dar a Guaidó o controle sobre alguns ativos venezuelanos detidos pelo Banco da Reserva Federal de Nova York e outros bancos segurados pelos EUA. Isso evoca a forte intervenção dos EUA na América Central e do Sul ao longo do século 20 e confirma uma de nossas principais previsões para a região em 2019.

Ambos sabemos que a maioria das sanções significam “mais ladrar do que morder”, mas as que os EUA impuseram esta semana vão provocar dano. Quase metade da receita do governo venezuelano, e praticamente toda a sua receita de exportação, vem do petróleo. As importações americanas de petróleo bruto da Venezuela caíram quase 40% nos últimos dois anos, mas mesmo assim, os EUA consumiram quase metade da produção total de petróleo da Venezuela antes das sanções serem aplicadas. Com um excesso de petróleo já no mercado, e com a produção dos EUA em aumento, os EUA podem usar essas sanções como o proverbial “pau grande” de Teddy Roosevelt. Logo após o anúncio das sanções, Guaidó disse que estava a começar a “apoderar-se progressiva e ordenadamente” de ativos estatais venezuelanos no exterior, além da nomeação de novas diretorias para a PDVSA e sua subsidiária norte-americana, a Citgo. Guaidó ainda não conseguiu garantir o apoio dos militares venezuelanos, mas os EUA estão a fazer tudo o que podem para garantir que o dinheiro (ou o bolívar) não pare nas mãos de Maduro.

Os EUA estão a fazer tudo isso não apenas porque estão irritados, mas porque não têm condições de administrar todas as questões de política externa que precisam administrar globalmente se a Venezuela for uma vulnerabilidade flagrante.

A prova está no colapso de quais países apoiam Guaidó e quais não apoiam. Rússia e China continuam a reconhecer Maduro e são os países mais próximos de usar a Venezuela como peão contra os Estados Unidos. Concordo, George, que nem a China nem a Rússia podem sustentar forças militares no Oceano Atlântico, por isso também não estão em condições de utilizar a Venezuela como, digamos, a União Soviética usou Cuba na década de 1960. Para Moscovo e Pequim, o importante é distrair Washington com Caracas, não para co-optá-la completamente. Se os Estados Unidos exagerarem com o envio dos seus militares, até mesmo isso poderia ser vantajoso para eles, pois os Estados Unidos ficariam atolados em mais um conflito. A China está a jogar um longo jogo e, do seu ponto de vista, quanto maior for a hostilidade gerada entre os EUA e a Venezuela, melhores serão as perspetivas de uma relação forte entre Caracas e Pequim.

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O Irão e a Coreia do Norte também anunciaram o seu apoio a Maduro. Isso não é surpreendente, mas você pode começar a ver as linhas ténues do que poderia tornar-se um eixo não intencional, mas potente, de poderes anti-EUA significativos. As respostas de dois outros países – Turquia e México – são mais surpreendentes e, portanto, mais interessantes. A Turquia aproximou-se mais da Venezuela nos últimos anos, uma pequena faceta da sua tentativa geral de reposicionar-se como potência regional em vez de como um lacaio dos EUA no Médio Oriente. O México, no entanto, é o que para mim espanta mais. O presidente Andres Manuel Lopez Obrador não criticou a Venezuela durante a sua campanha presidencial, mas não pensei que isso significasse que ele iria romper com os EUA numa questão tão séria. Sob a administração do ex-presidente Enrique Peña Nieto, o México uniu-se aos EUA e à maioria dos países sul-americanos na oposição a Maduro, mas sob o governo de Lopez Obrador, o México agora defende uma política de não-interferência e recusa-se a reconhecer Guaidó. Simplificando, o México está a opor-se à mais séria tentativa de mudança de regime feita pelos Estados Unidos na América do Sul desde a década de 1970 e, ao fazê-lo, está a alinhar com os concorrentes estratégicos dos EUA. Estes é o tipo de consequências não intencionais que poderiam tornar-se um problema muito maior do que o destino de Maduro.

Concordo que a crise interna da Venezuela não é um problema estratégico para os Estados Unidos. Mas também acho que a deterioração da economia e da estrutura política venezuelana representou uma oportunidade estratégica para que os adversários americanos, que já tinham um pé na porta após a ascensão de Chávez ao poder no início dos anos 2000, cravassem mais profundamente as suas garras. Os Estados Unidos decidiram intervir, com uma combinação de medidas políticas e económicas, para conseguir uma mudança de regime e instalar um governo mais amigável enquanto o custo ainda é baixo. A questão agora é saber se a cura de Washington é pior do que a doença da Venezuela. Intervenções anteriores dos EUA na América Latina criaram regimes pró-EUA frágeis que muitas vezes viravam os corações e mentes do povo contra os EUA – e em outros casos pura e simplesmente causaram caos. Eles podem ter tido alguns benefícios a curto prazo, mas a longo prazo, essas intervenções causaram tantos problemas quanto os que resolveram. É difícil ver como na Venezuela poderá ser diferente.

Não concordo que a Venezuela seja tão insignificante que nenhum país esteja disposto a correr grandes riscos em seu nome. Os EUA correram um grande risco ao comprometerem recursos políticos e económicos para remover Maduro do poder. Está a fazer isso porque tem a oportunidade de expulsar um regime hostil aos Estados Unidos num momento em que os turbulentos aliados da Venezuela são incapazes de ajudar. Significativamente, os EUA tiveram dificuldade em articular os seus interesses nestes termos rígidos, então recorreram à justificativa do avanço da democracia. A última vez que os EUA tentaram fazer avançar a democracia num país estrangeiro – o Iraque – desencadearam uma cadeia de eventos com os quais Washington ainda hoje está a lidar. O desafio daqui para frente será garantir que essa intervenção não precipite a própria crise estratégica que ela pretende evitar.

 

Texto disponível em http://gonzaloraffoinfonews.blogspot.com/2019/02/dissenting-opinions-on-intervention-in.html

 

One comment

  1. Contra o imperialismo ! Conheça meu blog sobre marxismo : http://www.marxismo.home.blog

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