A responsabilidade da esquerda na trajetória de ascensão do neoliberalismo – algumas grelhas de leitura – 6. A leitura de François Ruffin – A semana em que a esquerda virou à direita (2/2)

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Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

6. A semana em que a esquerda virou à direita (2/2)

François Ruffin Por François Ruffin

Publicado por jornal Fakir logo, em 30 de junho de 2016

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Nota do editor: este texto é a edição revista do texto que foi publicado em A Viagem dos Argonautas entre os dias 13 e 16 de julho de 2017, integrado na série “Crónica sobre os anos 80, sobre Viva a Crise”. A presente edição revista é apresentada em 2 partes.

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(conclusão)

 

19 de março de 1983 – O bluff

Em Bruxelas, reúnem-se os ministros das Finanças, sob elevada tensão, e Le Monde diz-nos com preocupação: “A França não exclui sair do sistema monetário europeu”, coloca em título o jornal diário. O país é assim “ tentado, como o desejam abertamente alguns, a praticar ainda mais uma política a contracorrente, passando por um desenvolvimento económico mais autocentrado, – apoio da procura interna – pronto a tomar medidas temporárias de salvaguarda para proteger o seu mercado. A parada é considerável”. Jacques Delors ameaça, de facto: “Venho a esta reunião um pouco triste, pensando que se nada evolui a França irá deixar o Sistema Monetário Europeu no fim desta reunião. A reunião de hoje. Bati-me durante toda esta semana pela Europa, como o tenho feito desde há muito tempo, mas face a pessoas arrogantes e incompreensivas, que querem que eu faça?” É bluff, essencialmente bluff. Destinado à opinião francesa. Será suficiente um gesto dos Alemães, à margem, uma minidesvalorização, e aceitar-se-á acertar o passo, fingindo sair com a cabeça elevada.

20 de março de 1983 – O vencedor

O cenário esperado produz-se: o franco e a lira são desvalorizados aos mínimos, 2,5 %, o marco reavaliado 5,5 %, a França não sai do SME, e Jacques Delors pode aplaudir, feliz: “É um bom acordo. Tem em conta as forças comerciais dos diferentes países.” Finalmente, Delors ganhou. Não contra os Alemães, mas contra a ala esquerda do PS, contra os partidários “de outra política”, no fim de uma longa batalha. Ainda mal Mitterrand tinha sido eleito, em 1981, Jacques Delors convidava já à “defesa da moeda: O rigor, é fazer em função das margens de jogo da economia e da herança que nos deixaram. Eis pois os princípios que nos irão servir de guia“ Em 25/05/81, apresentava um elogio ao liberal Raymond Barre: “O Primeiro-ministro precedente permaneceu cinquenta e seis meses no poder, e apesar de uma política coerente, corajosa, não pôde alterar a taxa de inflação francesa” (30/05/81), e Delors fixava então estranhos objetivos à esquerda: “Queremos que a França possa dar o seu contributo para o aumento das trocas comerciais e financeiras e que se possa dizer dentro de três a quatro anos, que a França é um bom trabalhador da comunidade internacional” (30/05/81). No Outono de 1981, opunha-se ao orçamento do seu ministro delegado, reclamava que 25 mil milhões de despesas fossem suprimidos, obtinha o congelamento de 15 mil milhões, e desejava nessa sequência “uma pausa no anúncio das reformas” (29/11/81)

Este domingo Delors venceu.

Os seus opositores atiram a toalha ao chão. Michel Jobert (gaullista de esquerda) imediatamente anunciou a sua demissão, preparando Jean-Pierre Chevènement a sua.

23 de março de 1983 – Abandonos

François Mitterrand intervém na televisão:

Não quisemos e não queremos isolar a França da Comunidade europeia… É tempo de parar a máquina infernal. Combater a inflação, é salvar a moeda e o poder de compra. Aí está porque razão irei lutar, e o governo comigo, contra este mal, e mobilizarei o país para este fim. […] E acontece o mesmo com o outro mal que nos corrói: o défice insuportável do nosso comércio externo e a dívida que daí decorre. O vosso papel é decisivo. Por toda a parte onde se fabrica e por toda a parte onde se cria, por toda a parte onde se compra, por toda a parte onde se troca, na vossa maneira de viver, de consumir e mesmo de viajar, devemos preferir, a qualidade igual, as produções francesas. O esforço pedido a todos deverá ser repartido equitativamente de modo a que cada um contribua à medida dos seus meios.”

A viragem é ainda discreta, o discurso “moderno” permanece tímido. Mas neste dia, a esquerda abandona dois instrumentos económicos essenciais:

— a soberania monetária: a França renuncia a desvalorizar ou reavaliar a sua moeda de acordo com as suas necessidades, ligando-se ao marco forte;

— a soberania comercial: a França proíbe-se de utilizar qualquer protecionismo, substituindo uma medida política, as taxas nas fronteiras, pela boa vontade do consumidor convidado à comprar francês, suprema conversa fiada.

E como é que o desemprego será combatido? “Pela formação dos jovens”, que será o refrão do PS durante vinte anos, o disfarce da abdicação. É dizer que se abandona este combate, julgado menos prioritário que “a luta contra a inflação”, ou contra “o défice da Segurança social”.

Le Monde congratula-se: François Mitterrand “tinha escolhido permanecer no sistema monetário comunitário e tinha optado pela Europa, rejeitando a tentação do protecionismo e do isolacionismo económico de caráter nacionalista que numerosos ministros aprovavam. Transformou o ensaio e tirou as consequências lógicas de sua escolha, dando a prioridade ao rigor, mas em flexibilidade e num contexto “razoável””.

25 de março de 1983 – A Palavra

Então conselheiro económico no Eliseu, François-Xavier Stasse recorda-se “perfeitamente da reunião de gabinete de 25 de Março. Todos nós tínhamos o sentimento que estávamos a mudar de época, que a esquerda tinha dado o salto para o realismo económico, que era irreversível”.

À noite, no telejornal, Pierre Mauroy, confirmado em Matignon, anuncia um plano de austeridade que “não tinha sido encarado”. Majoração do imposto sobre o rendimento, empréstimo obrigatório, taxa sobre a gasolina, e sobretudo: desindexação dos salários – que deixam de seguir automaticamente a inflação. No telejornal das 20 horas, sempre, Jacques Delors é interrogado: “À primeira vista, sublinha o repórter, tem-se a impressão que são as empresas que se saem o menos mal possível, porque se evita sobrecarregar as suas cargas.

— Por uma razão simples. Queremos que possam investir e criar empregos “, replica o futuro presidente da Comissão. De tudo aquilo, Pierre Mauroy felicita-se nas suas Memórias: “Volto ao meu trabalho, para lançar este formidável movimento que se chamou a política de rigor, que se traduziu por um bloqueio dos preços e dos rendimentos nunca visto na França […] Eu cheguei com a inflação a 14 %, antes do fim do ano de 1982 será menos de 10%, enquanto em 1983 será de 8 % e seguidamente estaremos sobre a tendência de 5 %. Pois bem, mantivemos a nossa palavra.”

Que palavra ?

O franco forte” não figurava, no entanto, entre “as 110 propostas para a França” do candidato François Mitterrand. A redução do desemprego, essa sim, essa estava: em dez anos desta política, a barra dos 3 milhões de desempregados é ultrapassada. Durante a mesma década, os dividendos dos acionistas praticamente triplicaram: o capital comeu ao trabalho 8 % do valor acrescentado.

 

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29 de maio de 1983 – O destino

Dois meses após a sua saída do governo, Jean-Pierre Chevènement protesta na convenção nacional do Partido socialista: “A história julgar-nos -á, e tanto mais severamente quanto, ao contrário do que se tinha passado sob a Frente popular, o povo deu-nos, em 1981, todas as responsabilidades. Tudo se passa como se a política governamental atual tenha por filosofia implícita: é necessário assegurar a convergência das políticas económicas com a Alemanha e os nossos vizinhos europeus… Trata-se de um parêntese, de acordo com a expressão de Lionel Jospin? Há infelizmente demasiados sinais em sentido contrário. Acredita-se estar a abrir um parêntese, e seguidamente apercebemo-nos que é uma viragem, e em breve, se não reagirmos, esta viragem assume a figura do destino!”

E no seu livro Desafios republicanos, acrescenta:

“Como teria gostado que em março de 1983 François Mitterrand assumisse a sua independência face a um Sistema monetário europeu preparado pelo seu antecessor, defendido com unhas e dentes por qualquer tecnoestrutura liberal e de que o meu colega alemão me dizia, com uma ponta de cinismo, que funcionava como “um sistema de subvenções para a indústria alemã”! Isto teria sido uma alteração da face da Europa mostrando a nossa liberdade no que diz respeito à condicionalidade que nos queriam impor. Isto teria sido o permanecermos fiéis ao sentido que, desde há dez anos, tínhamos querido imprimir preto no branco à nossa política. A esquerda teria perdido em 1986, mas sobre as suas bases, e a sequência teria sido diferente. O Partido socialista teria vertebrado na Europa uma política realmente alternativa cuja hora acabaria por soar. Em vez disso, o Partido socialista desceu ao nível de assumir o papel de turiferário da ortodoxia liberal e monetarista.”

15 de setembro de 1983 – A reviravolta assumida

O presidente volta à televisão, após seis meses de relativo silêncio, e aquando desta emissão excecional intitulada L’Enjeu, a reviravolta é agora assumida, a modernidade da mudança é reivindicada. “A luta de classes não é para mim um objetivo. Procuro que esta deixe de existir!” proclama François Mitterrand que, durante todos os anos de 1970, denunciava “uma luta de classe entre este pequeno grupo de privilegiados e a massa dos assalariados”, entre “o operário especializado, dominado, oprimido, forçado até à revolta” e “os donos do dinheiro, o dinheiro, o dinheiro, os novos senhores, os donos do armamento, os donos dos computadores, os donos dos produtos farmacêuticos, os donos da energia elétrica, os donos do ferro e do aço, os donos dos solos e dos subsolos, os donos do espaço, os donos da informação, os donos das ondas”. Ei-lo, pois em direto na TF1, que reabilita o lucro à esquerda (“Eu não sou, de modo nenhum inimigo do lucro, desde que o lucro seja justamente repartido”), que impõe os critérios de Maastricht antes de Maastricht (“ não se poderá ter um défice orçamental de mais 3 % da produção interna bruta”), que denuncia as “cargas excessivas” (“ demasiado imposto, mata o imposto. Asfixia-se a produção, asfixiam-se as energias. Chega um momento em que isto é insuportável, e este momento chegou”), e Mitterrand fecha, sobretudo, a porta a uma “outra política”: “Penso, eu, que há apenas uma política possível nas circunstâncias presentes“. A TINA de Margaret Thatcher, There is no. alternative, não está muito longe disto. E o presidente caricatura então esta alternativa que, num outro tempo, no entanto, tinha sido das suas preferências: “Esta única política possível proíbe o protecionismo. Para bem me fazer compreender, isto significa que se feche, total ou parcialmente, as nossas fronteiras, a todos os produtos, ou a certos produtos, para evitar ser invadido. Eu acredito que o mundo moderno, o estreitamento do planeta e seguidamente a presença da França no mercado comum, exigem que a França jogue o jogo. (…) Eu, eu tenho confiança na produção francesa, e sou contra o protecionismo.

Rigor” obriga, o desemprego ia crescer 25 % num ano. A Frente Nacional ultrapassaria, pela primeira vez, os 10 % na Primavera seguinte. Os primeiros contratos precários ditos TUC – trabalhos de utilidade coletiva – são aprovados em Dezembro de 1984. E para o Natal de 1985, abriram os Restos du cœur [associação sem fins lucrativos, de assistência às pessoas mais necessitadas, nomeadamente refeições gratuitas e outros apoios, vd. https://fr.wikipedia.org/wiki/Les_Restos_du_c%C5%93ur]. “É necessário ser cruel – ou “brutal”, conforme as fontes – confia o presidente a um Pierre Mauroy preocupado de moderar a rutura industrial. Estaleiros navais, carvão, aço, automóvel: tudo passa, portanto, “setor a setor”, pela trituradora das “reestruturações”. “Os socialistas fazem a limpeza que nós não soubemos fazer”, concederá Alain Juppé – enquanto que Laurent Fabius, em 1986, no final da sua passagem por Matignon, se orgulha de ter efetuado “o trabalho sujo, que não tinha sido feito antes”: “É a esquerda e é a sua coragem e é sua a honra de o ter feito. ” Uma vez este destino escolhido, restava avançar por este caminho, do Ato único à Constituição para a Europa, passando pelos tratados de Maastricht, de Amsterdão, de Lisboa. Porque no meio de todas estas traições, continua a estar bem viva uma fidelidade: ao compromisso europeu.

1 de maio de 2013 – Um ano

Podia-se compreender esta escolha em 1983: Reagan tinha acabado de ser eleito nos Estados Unidos, Thatcher na Grã-Bretanha, Kohl na Alemanha. E sobretudo: é de modo ideológico que o neoliberalismo está com o vento em popa, as teses de Hayek e de Friedman invadem e dominam, na imprensa francesa, nas universidades, nos intelectuais. Enquanto o socialismo, sem falar já do comunismo, torna-se sinónimo de nulidade, de mediocridade. Neste contexto, a “outra política” teria constituído, com toda a certeza, uma cidadela sitiada. Mas hoje! é o liberalismo que aparece, pelo contrário, sem fôlego, sem força. O voto no referendo de 2005, a crise financeira de 2008, as manifestações massivas contra “as reformas” (1995, 2004,2006,2010), as sondagens sobre o euro ou o protecionismo, muitos sinais demonstram que este modelo está minado, está totalmente desacreditado. E que o povo francês, e os povos vizinhos como Portugal, Itália, Espanha, Grécia, estão na expectativa de ruturas. Aí está o que oferece uma margem de manobra para efetuar “outra política”, a definir, mas enfrentando os dogmas do comércio livre e da moeda, para fazer um 1983 ao contrário, “uma viragem” em sentido contrário. E é neste período que François Hollande, quase a contracorrente da história – que, esta vez, poderia virar à esquerda – é neste momento crucial que François Hollande, em vez de agarrar esta possibilidade, em vez de fechar “o parêntese liberal”, aplaude este conformismo, se instala cobardemente dentro dele e reclama-se “do realismo” de 1983, nada tentando, nada ousando, ligando o nosso destino à Alemanha, ao estar a apelar ao rigor, gravando o parêntese liberal no mármore socialista. No dia 2 de maio de 1993, no dia seguinte ao do seu suicídio, o antigo Primeiro-ministro Raymond Barre, o inventor “da austeridade”, saudava em Pierre Bérégovoy “um homem corajoso e responsável”: “Homem corajoso porque, tendo em conta a sua equação pessoal, foi levado a tomar decisões que deviam necessariamente suscitar reações nos que lhe eram mais próximos. Homem responsável porque media a necessidade, sobre o plano nacional e internacional, de tomar medidas dolorosas e rigorosas.” François Hollande procurará ele a mesma homenagem póstuma da direita, que elogiará a sua “coragem” e o seu “sentido das responsabilidades”? Felicitando-se por sua vez de ter feito “o trabalho sujo”!

 

FRANÇOIS RUFFIN, (2013) LA SEMAINE OÙ LA GAUCHE A BASCULÉ À DROITE, Publicado pelo jornal LE FAKIR N°(60) Abril – Junho de 2013. Disponível em https://www.fakirpresse.info/La-semaine-ou-la-gauche-a-bascule

 

Fontes:

  • Le Bruit de la main gauche, Charles Salzman, Robert Laffont, 1996.
  • François Mitterrand, les années du changement, 1981-1984, sous la direction de Serge Berstein, Pierre Milza, Jean-Louis Bianco, Perrin, 2001.
  • Histoire du franc, Georges Valance, Flammarion, 1998.
  • Défis républicains, Jean-Pierre Chevènement, Fayard, 2004.
  • Les journaux télévisés de l’époque (sur le site de l’Institut national de l’audiovisuel) et les archives du Monde.
  • La deuxième droite, Jean-Pierre Garnier et Louis Janover, Robert Laffont, coll. Libertés, 2000.

O autor: François Ruffin (1975-), jornalista, ensaísta, realizador e político francês. Fundador e redator do jornal Fakir, escreve também em Le Monde Diplomatique e na associação Acrimed. Eleito deputado à Assembleia nacional em 2017, integra o grupo La France insoumise.

 

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