CALÇADA DE CARRICHE por Luísa Lobão Moniz

 

Luísa sobe,
sobe a calçada,
sobe e não pode
que vai cansada.
Sobe, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe
sobe a calçada.

Saiu de casa
de madrugada;
regressa a casa
é já noite fechada.
Na mão grosseira,
de pele queimada,
leva a lancheira
desengonçada.

Anda, Luísa,

Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

 

Luísa é nova,
desenxovalhada,
tem perna gorda,
bem torneada.
Ferve-lhe o sangue
de afogueada;
saltam-lhe os peitos
na caminhada.


Anda, Luísa.
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

 

Passam magalas,
rapaziada,
palpam-lhe as coxas,
não dá por nada.

Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Chegou a casa
não disse nada.
Pegou na filha,

deu-lhe a mamada;
bebeu da sopa
numa golada;
lavou a loiça,
varreu a escada;
deu jeito à casa
desarranjada;
coseu a roupa
já remendada;
despiu-se à pressa

desinteressada;
caiu na cama
de uma assentada;
chegou o homem,
viu-a deitada;
serviu-se dela,

não deu por nada.

Anda, Luísa.
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Na manhã débil,
sem alvorada,
salta da cama,
desembestada;
puxa da filha,
dá-lhe a mamada;
veste-se à pressa,
desengonçada;
anda, ciranda,
desaustinada;

range o soalho
a cada passada;
salta para a rua,
corre açodada,
galga o passeio,
desce a calçada,
desce a calçada,
chega à oficina
à hora marcada,

puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga;

toca a sineta
na hora aprazada,
corre à cantina,
volta à toada,

puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,

 

Regressa a casa
é já noite fechada.
Luísa arqueja
pela calçada.

Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,

sobe a calçada. 

António Gedeão, Poesias Completas (1956-1967)

  Este belo poema de António Gedeão é ao mesmo tempo um retrato da mulher maltratada em casa e explorada no trabalho.

A Calçada de Carriche é o caminho percorrido pela vida de miséria, de violência, de dor e de discriminação a que as mulheres estão sujeitas.

     Estas mulheres não recebem medalhas nem condecorações do Presidente da República, não querem flores no dia 8 de Março, não querem discursos nem músicas que falem delas.

       Estas mulheres querem ser reconhecidas, querem ter uma identidade, querem ter as mesmas oportunidades que os homens, querem um salário justo.

     Querem justiça quando fazem queixa dos maus tratos, querem que os seus filhos estudem para viverem melhor do que elas.

      Querem ser amadas pelo pai dos seus filhos, não querem que sejam bêbados, pois quanto mais álcool mais pancada, por vezes, não só nelas, mas também nos filhos.

      Estas mulheres vivem no silêncio da violência, por vezes negam-na por medo ou por dependência económica.

     São tantas as Luísas deste mundo! E delas dizemos “coitadas”, mas não há sanção nem revolta contra este mundo que é tão hábil a transformar as formas de violência.

    Já alguém pensou numa Calçada de Carriche em que quem a sobe é um Luís?

    Uma simples vogal faz a diferença.

    Mas também um forte sentimento de justiça e de auto estima faz desta Luísa uma guerreira contra aqueles que a oprimem pela pancada, pela falta de atenção, pela falta de um reconhecimento positivo.

   Estas Luísas só sorriem quando estão sozinhas com os seus filhos, mas facilmente as lágrimas escorrem pelas suas faces magoadas, pois mesmo quando dorme para voltar a subir a Calçada é violada pelo homem, seu companheiro na desgraça.

   Está perto o Dia Mundial da Mulher, e já muitos juízes pensaram na melhor maneira de o comemorar, fazer da mulher um objecto em que se faz uma hipócrita maquilhagem porque a mulher tem que estar apresentável para agradar ao macho e procriar!

   A melhor homenagem que todos e todas podem fazer é a igualdade de oportunidades, a honestidade, a representatividade na vida das comunidades, o direito a ter Direitos e uma justiça imparcial em termos de géneros.

  Todas as Luísas e as que não o são devem sim, lutar pelo mesmo objectivo. A classe social não faz ninguém humanamente mais ou menos pessoa.

   Avante mulheres e homens, a igualdade espera por nós.

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