Um adeus a Carlos Tenreiro- reflexões em torno da bolha cognitiva dos tempos de agora: 2. Uma marcha de loucos. Por Andrew Stuttaford

Carlos Tenreiro

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

2. Uma marcha de loucos 

Recensão sobre o livro “EuroTragedy: A Drama in Nine Acts”, de Ashoka Mody (Oxford University Press)

Andrew Stuttaford Por Andrew Stuttaford, em 26 de julho de 2018

Publicado por national review em 13 de agosto de 2018

Adeus porta aberta texto 2 1

Bandeiras da União Europeia no exterior da sede da Comissão Europeia em Bruxelas, Bélgica (Yves Herman/Reuters)

 

Logo no início do seu relato convincente, de leitura clara e satisfatoriamente ácido, sobre o nascimento do euro e de quem sabe bem o que se passa agora com o euro, Ashoka Mody cita a teoria monetária básica e acusa os dirigentes da União Europeia de que “deviam ter consciência de que uma moeda única não poderia, por si só, proporcionar… prosperidade”.

A UE deve a sua existência à noção de que a Europa deve evitar repetir as catástrofes do seu passado do século XX. No entanto, ao impor uma moeda única a um grande número de países muito diferentes, estava a misturar elementos de duas catástrofes menores – taxas de câmbio fixas e planeamento central – numa combinação que a história e algumas distintas Cassandras sugeriram que poderia, de facto, acabar muito mal.

Não importa. A ambição política sobrepõe-se ao risco económico numa base que não consegue convencer Mody. Afinal, as tensões económicas incorporadas numa moeda comum com um tal alcance eram mais propensas a dividir do que a unir. Mas Mody passa um pouco por cima da centralidade das palavras “união cada vez mais estreita” no preâmbulo do Tratado de 1957, que preparou o caminho para a UE. Elas definem o rumo do projeto europeu numa única direção – avançar. Para Bruxelas e os seus aliados, o principal atributo da união monetária foi o de ter deitado fora a chave da casa: não havia uma forma fácil de sair. Nestas circunstâncias, os governos que aderiram à nova moeda deveriam ter prestado mais atenção às falhas na sua conceção, que vieram agravar os seus já consideráveis riscos. Talvez mais perigosamente, na ausência de apoio político a uma união orçamental que funcione como rede de segurança, o euro foi lançado sem nenhuma proteção. Mais uma vez, nada disso era considerado relevante: se se desenvolvesse uma crise, o que muita gente acreditava que se viria a verificar, ela suscitaria, com toda a certeza, uma forte oposição a essa união orçamental. O interruptor da integração voltaria a funcionar.

Isto não foi uma ideia nova. Quando a moeda única foi formalmente proposta pela primeira vez em 1970, “cair para a frente” devia ser “a sua filosofia orientadora”, escreve Mody. “As crises tornariam os europeus mais determinados a avançar…. A Europa sairia mais forte e mais vibrante”. Esta estratégia cínica funcionou bem para Bruxelas noutras áreas, mas, com a moeda única, foi levada demasiado longe. A UE não saiu nem mais forte nem mais vibrante, mas paralisada, amargurada e desequilibrada.

Mody, economista e professor convidado em Princeton, trabalhou no Banco Mundial e no Fundo Monetário Internacional. Neste último, desempenhou, entre outras funções, as de director-adjunto do Departamento Europeu e foi responsável pela relação do Fundo com a Irlanda durante o período em que a zona euro atingiu o seu nível mais baixo. Ele está assim bem equipado para descrever as curiosas origens políticas e intelectualmente indefensáveis do euro, bem como a repugnante gestão da nova moeda, a bolha que o euro facilitou e a profundidade da crise na zona euro que esteve à beira de levar à destruição da própria zona euro. Mody conta como a união monetária foi mantida unida, antes de centrar a sua atenção numa recuperação que pode não ser mais do que a calma entre as tempestades. Em geral, Mody conta uma história de avisos ignorados, de pensamento de grupo de pressão, de deceção e de negação, de imprudência e excesso de cautela, de mito, de pensamento mágico e de ilusão tecnocrática – e da vingança implacável da realidade.

Apesar de toda a meticulosa crónica de eventos de Mody, ele também tem espaço para temas mais amplos. Estes incluem um ataque sustentado – não sem motivo – à fixação dos objetivos orçamentais liderada pela Alemanha e, em particular, uma insistência excessivamente enfática na “austeridade” como cura para os problemas da zona euro. Não se trata de uma aprovação do esbanjamento orçamental argumentar que, em certos casos, o parafuso foi apertado com demasiada força e demasiado cedo. Obrigar a Grécia, em essência, a uma cura de forte austeridade para reencontrar o seu caminho de volta a melhores dias era já pedir muito. É certo que os Estados bálticos (na altura membros de facto da união monetária) conseguiram fazer exatamente isso. Mas havia razões específicas que lhes permitia fazê-lo, tal como havia razões específicas para que a Grécia não o pudesse fazer. E eram distinções a que não foram dadas a atenção que mereciam, graças a um regime financeiro de tamanho único que foi levado muito mais longe na zona euro – e que, depois da eclosão da crise, foi aplicado ainda de forma mais dura – do que a partilha de uma moeda necessariamente implicaria.

Para entender porque razão é que Berlim queria que os cordões da bolsa fossem tão apertados, é necessário examinar o que estava por trás do que, a princípio, parece ser puramente uma habitual mesquinhez. É claro que não é de surpreender que os políticos alemães tenham pensado que o seu bem sucedido modelo interno – um certo grau de frugalidade – era o modelo certo a seguir, mas havia mais do que isso. Berlim simplesmente não tinha confiança em que os seus parceiros (nomeadamente os do sul da zona euro) tivessem a vontade ou a capacidade de gerir as suas finanças de forma adequada, uma preocupação que Mody poderia ter sublinhado ainda mais. Esta falta de confiança pode ou não ter sido merecida, mas era um sintoma de uma união monetária unida sem ter suficientemente em conta a disponibilidade psicológica ou política dos seus Estados-Membros para tal. Mesmo a exigência (refletida no Tratado de Maastricht) de uma convergência económica revelou-se uma anedota, na melhor das hipóteses largamente sem qualquer sentido e, na pior das hipóteses, revelou-se uma farsa.

Os dirigentes políticos alemães também estavam nervosos com as consequências de os seus eleitores terem de pagar a conta de uma união monetária que nunca quiseram, uma fatura que os seus políticos lhes tinham garantido que nunca teriam de pagar. Mody está claramente consciente dessas questões e, apontando para a experiência da América durante a Grande Depressão, destaca o facto de que o governo dos EUA tinha tanto a “autoridade política legítima quanto a concordância de número suficiente de cidadãos do país” de que precisava para ajudar os estados em dificuldade. E ainda tem. Os seus homólogos na Alemanha (e nas outras nações “credoras” da zona do euro) tinham pouca justificação para afirmar que eles também tinham. Havia uma outra distinção vital: pedia-se aos americanos que ajudassem os seus compatriotas. Apesar das grandes proclamações de uma “cidadania” comum da UE, o laço entre Michigan e Missouri é infinitamente mais vinculativo do que entre a Alemanha e a Grécia.

Entretanto, os problemas de países para lá da Alemanha – especialmente nas nações mais duramente atingidas da zona euro – viram-se aumentados pela herança de Berlim que estipulava que o Banco Central Europeu (BCE), tal como o Bundesbank antes dele, deveria (pelo menos nominalmente) estar livre de interferências políticas e, ao contrário da Reserva Federal (que também tem de promover o emprego), devia concentrar-se apenas na estabilidade dos preços. Isso pode funcionar, como aconteceu na Alemanha (onde as memórias da inflação de Weimar perduram), com suficiente consentimento popular, mas, em países onde esse consentimento não existe, pode ser um convite à radicalização quando chegam os tempos difíceis- e eles vieram a permitir essa radicalização. Esse convite foi ainda mais fácil de aceitar pela forma como a irresponsabilidade do BCE é reforçada – como demonstra Mody em algumas das passagens mais perturbadoras do seu livro, e este é um livro frequentemente perturbador – pelo espírito tecnocrático da UE. Trata-se de uma abordagem essencialmente pós-democrática e, como mostra Mody (sem recorrer a esse adjetivo), esta é responsável, em grande medida, pelo fiasco da zona euro.

Os efeitos desta experiência monetária ruinosa não se limitaram à radicalização política (fenómeno não reservado às fraquezas da zona euro) ou ao despertar de antagonismos entre as nações que se pretendiam aproximar. Os retardatários da união monetária sofreram imensos danos económicos, e os danos, adverte Mody, ao seu potencial de crescimento podem perdurar por muito tempo depois do trauma atual ter diminuído. Isto implica que a possibilidade de uma verdadeira convergência económica dentro da zona euro – nunca muito provável, apesar de todas as promessas – ficará ainda mais fora de alcance. A tendência natural de uma união monetária de afastar a atividade económica da sua periferia (um tema discutido por Joseph Stiglitz no seu livro de 2016 sobre o euro) pode piorar ainda mais a situação – não é uma boa perspetiva quando essa periferia inclui nações inteiras.

O drama da zona euro ainda tem um longo caminho a percorrer. Alguns meses depois do manuscrito de Mody ter sido publicado, um governo de coligação de direita populista e (ou uma espécie de; isto é difícil de explicar) de esquerda populista, tendo em comum uma enorme suspeição sobre o euro e uma aversão à austeridade teutónica, tomou posse em Itália. Muito maior do que a Grécia, a Itália representa, afirma Mody, a “falha geológica da zona euro”. Ele pode estar certo, mas não se espere ainda um cataclismo. A coisa mais impressionante desta malfadada união monetária é a vontade política de a manter inteira.

O próprio Mody olha para o futuro no final do livro. Uma visão supostamente mais brilhante é o perdão da dívida, o afrouxamento dos grilhões orçamentais da zona do euro, a melhoria da emissão de títulos soberanos e panaceias habituais desde educação à tecnologia. Muito mais intrigante é uma sugestão escondida na descrição de Mody de um cenário pessimista (mais plausível) em que, em geral, aqueles que dirigem a união monetária pouco fazem para mudar de rumo.

Entre conversas obscuras sobre o crescimento lento e a vulnerabilidade a novos choques – para não mencionar os incumprimentos em cascata que poderiam seguir-se a uma saída italiana da zona euro – Mody lança a alternativa mais feliz de que a Alemanha poderia readotar o marco alemão ou formar um novo bloco monetário com outros países do “norte” com a mesma opinião. Enquanto isso, os Estados que permaneceriam na antiga zona euro ainda poderiam pagar as suas dívidas em euros, evitando assim o incumprimento e beneficiando-se da maior competitividade criada por uma moeda que, sem dúvida, desvalorizaria fortemente uma vez que os países virtuosos tenham abandonado o cenário.

Por outras palavras, a melhor maneira de sair da confusão na zona euro continua a ser, como tem acontecido há anos, a divisão. No entanto, tal medida representaria mais do que alguns passos para trás no que se pretende que seja uma marcha perpetuamente em frente.

E isso nunca seria aceitável ou viável.

 

Fonte: MAGAZINE | AUGUST 13, 2018, ISSUE,  A March of Folly. Texto disponível em https://www.nationalreview.com/magazine/2018/08/13/a-march-of-folly/

 

O autor: Andrew Stuttaford é editor em National Review

 

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