Um adeus a Carlos Tenreiro- reflexões em torno da bolha cognitiva dos tempos de agora: 3. A tragédia do euro” ou a incrível bolha cognitiva em que a Europa se fechou. Entrevista a Ashoka Mody, autor do livro económico do ano de 2018 nos Estados Unidos

Carlos Tenreiro

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

3. A tragédia do euro” ou a incrível bolha cognitiva em que a Europa se fechou. Entrevista a Ashoka Mody, autor do livro económico do ano de 2018 nos Estados Unidos

Nicolas Goetzmann Entrevista conduzida por Nicolas Goetzmann

Publicado por logo atlantico em 2 de fevereiro de 2019

Adeus porta aberta texto 3

Cegueira:”A tragédia do euro” ou a incrível bolha cognitiva em que a Europa se fechou

Ashoka Mody Ashoka Mody

Exclusivamente para a França, Ashoka Mody responde às perguntas do sítio Atlantico sobre o seu livro EuroTragedy: A Drama in Nine Acts, livro do ano 2018 nos Estados Unidos. Este livro dá-nos a história do euro que nós nos recusamos a ver.

 

Publicado em junho de 2018 nos Estados Unidos, ” EuroTragedy: A Drama in Nine Acts” (disponível apenas em inglês) acaba de ser nomeado Economic Book of the Year 2019 pela Associação dos Editores Americanos. Em menos de 500 páginas, Mody conta-nos a nossa história, a do euro, e a cegueira dos nossos dirigentes, movidos por uma ambição política desprovida de qualquer sentido económico. Ashoka Mody não é um economista heterodoxo, é um antigo economista do FMI e do Banco Mundial, próximo do Prémio Nobel George Akerlof – marido de Janet Yellen, ex-presidente do FED – Mody apresenta-nos no seu livro um grande número de referências, uma sucessão de avisos dos economistas de maior nomeada a nível mundial, incluindo muitos economistas laureados com o Nobel. Avisos que nunca foram tidos em conta, rejeitados pelas certezas franco-alemãs. Enquanto a Europa e o euro se apresentam ao mundo como a emanação da “razão”, Mody desvenda as regras da sua arquitetura, demonstrando como este pensamento “super-ortodoxo”, que foi enxertado numa construção já imperfeita, causou danos consideráveis aos países da zona euro. Do mandato exclusivo do BCE para a estabilidade dos preços às regras orçamentais – os famosos 3% – e às “reformas estruturais”, Mody conta-nos como é que os europeus construíram um mundo paralelo, uma “bolha cognitiva” baseada em regras sem qualquer razão económica. A capacidade de negação dos europeus torna-se então a linha vermelha deste livro. No entanto, em nenhum momento Mody recomenda que se acabe com o euro. Limita-se a registar, descrever, contar a história completa desta loucura económica que domina a questão europeia, ou como, como ele assinala na nossa entrevista, descreve como é que o euro inverteu os imensos benefícios decorrentes das origens dos primeiros passos da integração europeia. A EuroTragedy ainda não está traduzida para francês, e como nos disse Ashoka Mody, “Viajei por toda a Europa por causa do livro, mas em França, ninguém parece querer ouvir”.

 

Atlantico: O senhor escreve sobre o euro: “A intenção inicial – defendida por três presidentes franceses durante um quarto de século – era utilizar a união monetária para controlar o poder alemão. Aconteceu o contrário.” Pode resumir-nos esta história?

Ashoka Mody: A história começa em 1969 com Georges Pompidou. Poucos meses antes, Charles de Gaulle havia-se recusado a desvalorizar o franco, numa época em que estava claro que isso era necessário. A desvalorização tornou-se o estigma da humilhação francesa. Esta escolha feita por Charles de Gaulle foi apoiada por uma maioria de franceses, que a viam como uma restauração da honra do país contra a Alemanha. Mas, objetivamente, isto não era sustentável e a primeira ação de Georges Pompidou, uma vez eleito, foi desvalorizar o franco. Em seguida, optou rapidamente por realizar esta reunião em Haia, onde propôs a união monetária. Os biógrafos de Georges Pompidou indicam que a união monetária se tornou para ele uma verdadeira prioridade. Foi também muito influenciado por Valéry Giscard d’Estaing, que estava imbuído da ideia – conhecida na literatura económica europeia como “ancoragem externa” – de que é necessário ter uma restrição externa. Não creio que Giscard e Pompidou estivessem na mesma linha nesta questão, mas estavam de acordo quanto ao objetivo de uma união monetária.

Desde o início, os alemães mostraram-se relutantes em dizer “não” aos franceses, por razões históricas que todos podemos compreender. A posição alemã na altura era dizer que a união monetária era uma boa ideia, mas que era prematura. Mais preparação, mais convergência, mais unidade política foram então considerados necessárias. Nessa altura, os objetivos pareciam inatingíveis e parecia que este projeto de união monetária iria morrer por si só. Depois, Helmut Schmidt e Valéry Giscard d’Estaing tentaram relançar a união monetária, tendo o Presidente francês indicado nas suas memórias que a ideia tinha sido sua. E sempre pela mesma razão: sempre que os franceses se encontravam em situação de desvalorização, desenvolviam um complexo de inferioridade. No entanto, é totalmente errado considerar uma desvalorização como uma desonra nacional, é uma questão psicológica. Se Pompidou e depois Giscard acreditaram nesta ideia de uma moeda única, a história e a experiência já mostraram que todas as formas de taxas de câmbio fixas eram uma má ideia. A Serpente Monetária Europeia ficou rapidamente obsoleta, o Mecanismo Europeu de Taxas de Câmbio (MTC) explodiu. Apesar disso, o projeto permaneceu ancorado na psique europeia, e ainda foi considerado uma boa ideia.

Foi então a vez de François Mitterrand apoiar a união monetária numa visão explicitamente orientada para o desejo de equilibrar o estatuto económico francês com o da Alemanha. É uma ideia curiosa pensar que as taxas de câmbio podem equilibrar o estatuto económico dos países. Pode-se concluir que François Mitterrand – como os seus principais assessores, como Jacques Delors – não entendiam a economia. É absurdo pensar que a situação de um país irá melhorar ao acrescentar-lhe uma moeda única, e esta ideia baseou-se em extrapolações económicas não garantidas.

O referendo francês de setembro de 1992 foi particularmente importante neste processo e por várias razões. A primeira é entender que sociológica e economicamente, as pessoas que votaram NÃO correspondem aos Coletes Amarelos de hoje. Este momento revelou, portanto, que já havia uma profunda divisão em França, ainda que nem sempre se tenha refletido nas eleições. Os políticos franceses pensavam que o euro seria uma solução para os seus problemas económicos, quando estes eram sobretudo problemas internos: falta de crescimento, desigualdades, fragmentação social. Mas a ideia de que o euro resolveria estes problemas não tem nada em comum nem com a teoria nem com a prática económica. A segunda mensagem deste referendo é que aqueles que votaram NÃO receavam que a Alemanha se tornasse o país dominante na União Monetária. E a lógica deste raciocínio é fácil de entender: como a Alemanha é o país economicamente mais poderoso, a Alemanha terá a maior influência na zona euro. O que é notável, e acredito muito na sabedoria dos povos, é que, já em setembro de 1992, os franceses expressaram esta visão de que a Alemanha se tornaria o país dominante. Helmut Kohl fez parte dessa máquina de publicidade que tentava fazer com que parecesse que tal coisa não iria acontecer, e o facto de se poder tornar uma possibilidade real foi sempre descartado.

Assim, e enquanto as políticas francesas se destinavam a lutar contra a superioridade económica alemã, e apesar da clarividência dos franceses, que receavam que esta dominação pudesse reaparecer de uma forma diferente, o euro produziu o oposto do resultado político desejado. E, em alguns aspetos, esta dominação surgiu de uma forma ainda mais desagradável, porque agora os alemães deixariam de ser apenas economicamente superiores, terão também a possibilidade de impor reformas económicas alemãs à Europa e à França. Foi exatamente o que aconteceu nos últimos 20 anos, com os Ministros das Finanças alemães a tentarem implícita ou explicitamente dizer à França quais as políticas económicas que devem pôr em prática. Uma união monetária não altera os equilíbrios de poder entre as nações, esses equilíbrios reaparecem sob outra forma.

 

“Reformas estruturais”, “estabilidade de preços”, “pôr em ordem as questões orçamentais”. O senhor descreve uma situação a que chama “bolha cognitiva”, que faz parte de agora em diante da cultura e da identidade europeias, mas que foi construída com base numa loucura económica. Até que ponto está esta loucura económica afastada da realidade?

O ponto crucial é que François Mitterrand e Jacques Delors queriam o euro, o que Helmut Kohl aceitou. Aceitou-o, mas em termos alemães. No entanto, Jacques Delors tinha-se apercebido, no final das negociações do Tratado de Maastricht, que o euro no horizonte era diferente do euro que ele tinha imaginado. Utilizou o termo “super-ortodoxia” para descrever aquilo que seria o quadro político e económico da moeda única. Mas ele tinha ido tão longe neste projeto – com o qual sonhava – que quando percebeu que seria um euro que iria provocar problemas económicos e políticos, não foi capaz de se retirar. Os dois pontos em que a Alemanha insistiu foram as regras orçamentais e o mandato do Banco Central Europeu em matéria de estabilidade dos preços.

 

Quais são os principais erros na conceção da moeda única que formam esta “bolha cognitiva”?

O erro principal é realmente muito básico. Não há realmente nenhum mistério aqui, e muitos autores já tinham advertido sobre esta situação em 1969. Uma política monetária aplicada a vários países conduzirá sempre a uma situação que não corresponde aos interesses de nenhum país. A política monetária será demasiado restritiva para os países mais frágeis e demasiado flexível para os mais fortes. Trata-se de uma evidência inerente à moeda única. Para lidar com isso, poderia haver mecanismos de compensação. A versão inicial era que era necessário alcançar uma elevada mobilidade dos trabalhadores e uma união orçamental. Houve um longo debate na década de 1970 sobre a dimensão dessa união orçamental, e a conclusão foi que deveria ser criado um orçamento de, pelo menos, 5 a 7% do PIB. Isto significa que cada país deve contribuir com 5-7% do seu PIB para uma união orçamental que seria utilizada em tempos de recessão ou de crise. Mas, desde o início das negociações, ficou perfeitamente claro que os alemães – como sempre disseram – não participariam no resgate de outros países.

Helmut Kohl, no seu discurso no Bundestag em abril de 1998, disse duas vezes que a Alemanha não pagaria as contas de outros países. Desde os anos 70 até hoje, existe uma visão alemã constante e uniforme em todo o espetro político, mas também na população e no mundo dos negócios alemães: a Alemanha não paga as contas de outros países. E essa é a principal falha. Porque uma união orçamental não é possível sem uma união política.

No entanto, os alemães dizem que querem uma união política, mas isso significaria que o Parlamento Europeu seria superior ao Bundestag. E tudo o que não seja isso não é uma união política. Numa união política, o Bundestag teria a mesma relação para com o Parlamento Europeu que um Lander para com o Bundestag hoje. Então seria uma união política. Quando Helmut Kohl diz que quer uma união política, mas diz que a Alemanha não vai pagar as contas de outros países, é um paradoxo. A contradição levanta-se a dois níveis. A nível económico, onde uma união monetária exige uma união orçamental, mas também ao nível político. Esta duplicidade de linguagem tornou-se endémica na construção do euro, tornou-se parte integrante da cultura do euro.

O senhor construiu o seu livro numa base cronológica, levando em conta todos os avisos emitidos, desde o início, por economistas de grande nomeada e destes alguns eram laureados com o Prémio Nobel de Economia. Como explica que estes avisos tenham sido ignorados pelos líderes europeus?

Às vezes criamos uma ficção que se torna realidade nas nossas cabeças e se torna uma motivação que nos anima para seguirmos em frente. Culpo o Helmut Kohl por esta situação. Ele está na origem da ideia que estas dificuldades políticas e económicas poderiam ser ultrapassadas. No mesmo discurso de abril de 1998, Helmut Kohl afirmou que a moeda única seria o veículo da liberdade, democracia, paz e prosperidade. Estas palavras são muito importantes porque fazem parte da psicologia europeia. No que diz respeito à prosperidade, e como salientei numa análise do discurso de Mario Draghi no aniversário do euro, a realidade económica é agora perfeitamente clara: não há qualquer benefício económico com a moeda única enquanto esta apresentar riscos económicos reais para os seus membros. Quanto à paz… como podemos acreditar que uma moeda única cria a paz? Tal como Nicholas Kaldor salientou já em 1971, uma moeda única cria uma divergência económica e esta divergência aprofunda as divisões políticas. Em 1998, Martin Feldstein foi mais longe e disse que os europeus se oporiam entre si no futuro devido à moeda única. Seja qual for o resultado, e espero que não seja um resultado infeliz, o euro nada tem a ver com a paz. Quando o Paquistão foi unificado com o Paquistão Oriental com uma moeda única, acabou em guerra civil e na divisão de países entre o Paquistão e o Bangladesh.

Uma moeda única também nada tem a ver com a democracia, porque na realidade é uma subversão da democracia. Hoje, podemos ver que, quando o Parlamento grego introduz uma lei das finanças, esta tem de ser aceite pelos seus credores, o que significa, implícita ou explicitamente, que o Bundestag tem de aprovar o orçamento grego. Temos esta situação incrível em que os dirigentes europeus continuam a utilizar cinicamente a palavra “democracia” quando sabem que o sistema é estruturalmente antidemocrático. Pela sua própria natureza, este sistema nunca poderá ser democrático a menos que os países membros renunciem aos seus parlamentos nacionais.

Acredito no projeto europeu, neste projeto de paz – e que o período entre 1945 e 1970, o do Tratado de Roma, é um feito magnífico. É um projeto de sabedoria. Mas tudo o que aconteceu depois desse período – excluindo o desenvolvimento do mercado único em que acredito -, ou seja, toda a estrutura do euro, desconstrói efetivamente o êxito europeu dos 25 anos que se seguiram à Segunda Guerra Mundial. Mas estamos a assistir a um atraso cognitivo em que se quer que o euro seja a continuação do êxito do Tratado de Roma, o que, pura e simplesmente, não é verdade.

Mais uma vez, a economia da zona euro está a abrandar no início de 2019. Como é que vê esta situação? Os erros do passado são eles tidos em conta?

Temos de compreender as causas da desaceleração. O crescimento europeu é altamente dependente do crescimento do comércio mundial. As exportações são uma parte muito importante da economia europeia, principalmente na Alemanha. Mas todos os países europeus dependem do comércio mundial, quer diretamente – como a Alemanha – quer indiretamente através da transmissão da dinâmica alemã ao resto da Europa. Assim, quando o comércio mundial cresce rapidamente, a zona euro comporta-se bem – como aconteceu em 2017 – e quando o comércio mundial abranda, os países europeus abrandam. O que é importante no período atual é que o próprio comércio mundial é – e de que maneira – uma função do crescimento chinês, porque a China domina o comércio mundial. Assim, quando a China estimulou a sua economia em 2017, o comércio mundial aumentou, assim como o crescimento europeu. E em 2018, quando a China retirou o seu apoio à economia, a China, o comércio mundial e a Europa abrandaram.

O abrandamento do comércio produz um abrandamento do crescimento, mas existe uma força de desaceleração económica a longo prazo que é inerente à estrutura económica europeia. Podemos ver que a economia francesa emergiu da crise de 2008 muito enfraquecida. Penso que o período de crescimento anterior à crise foi de alguma forma uma ilusão. Assistimos atualmente a um rápido abrandamento na Alemanha, que é também o resultado dos desafios enfrentados pelo sector industrial do país. A indústria farmacêutica já não é a líder que em tempos foi, mas, acima de tudo, e isto é muito importante, o sector automóvel está a sofrer uma mudança de regime, tanto devido à evolução regulamentar das normas de emissão de CO2, à potencial proibição dos veículos a gasóleo, como também à questão da transição para motores elétricos. É evidente que os alemães estão a ficar para trás nestas questões. Esta questão é importante porque os fabricantes de automóveis enfrentam uma mudança a longo prazo, mas também a curto prazo, com o abrandamento da economia chinesa. Estamos num momento em que a Europa se encontra potencialmente numa linha de declínio económico em comparação com as nações asiáticas, e em que os Estados Unidos resistem, sobretudo devido à sua capacidade de inovação tecnológica, apesar dos seus problemas económicos e sociais. Este é, pois, um momento em que a Europa necessita tanto de apoio económico a curto prazo como de um grande investimento para o seu futuro….

Olaf Scholz, Ministro das Finanças alemão, acaba de dizer que seria impensável estimular hoje a economia europeia. Este é o tipo de reação de uma pessoa que não quer reconhecer que mesmo se a Alemanha foi uma grande potência, já não é esse o caso. Ele está prisioneiro de um quadro de pensamento que se tornou obsoleto, mas não é uma ciência oculta reconhecê-lo.

 

O seu livro foi comentado pelo website americano Foreign Affairs, indicando que, ao apontar corretamente os problemas do euro e a incapacidade dos líderes de levarem em consideração os avisos que lhes foram dirigidos, o senhor tinha omitido que os interesses particulares que sustentavam o euro, os ricos, os banqueiros, os exportadores, etc. Qual é a sua resposta a isso?

Andrew Moravcsik, que escreveu esta crítica, era meu colega em Princeton. Concordamos em tudo, exceto nesse ponto. Neste momento, estou em Colónia e o mesmo argumento foi levantado contra mim, mas o euro não foi o resultado de uma racionalidade económica. O argumento diz que os exportadores alemães foram os lobbies do euro porque pensavam que esta moeda seria mais fraca do que o marco alemão, o que os ajudaria. De acordo com a minha leitura da história, de 1988 a 1992, quando foi assinado o Tratado de Maastricht, as empresas alemãs eram perfeitamente claras: não queriam a moeda única. Estavam conscientes de que uma moeda fraca poderia apoiar as suas exportações, mas também compreenderam que uma moeda única permitia que a Alemanha concedesse apoio fiscal a outros países com os quais partilharia a moeda única. Por conseguinte, o cálculo era considerar que a moeda poderia ajudar, mas as empresas não queriam estar numa posição em que os recursos fiscais alemães fossem transferidos para outros países. Refiro-me a este período no livro, citando os textos da Associação Industrial Alemã, e também me encontrei com políticos deste período, e não encontrei provas disso mesmo. Procurei estas provas, mas não as encontrei. Acho que esta decisão depende muito do Helmut Kohl. Sem ele, creio que a zona euro não existiria.

 

50 anos após o início do processo e 20 anos após ter sido posto em prática, como é que qualificaria o resultado do euro e o que é que antecipa quanto ao seu futuro?

Os dirigentes europeus fizeram alguns progressos, construíram linhas de defesa para o euro durante a crise, a sua arquitetura foi reforçada. Mas se olharmos para a outra face da moeda, contatamos que a força económica da Europa está em declínio, que haverá novas crises e que o euro permanecerá politicamente disfuncional durante muito tempo, com profundas fragilidades económicas. Cada crise fará aparecer novos desafios para os quais a Europa estará cada vez menos preparada. Creio, por exemplo, que o Banco Central Europeu já atingiu os limites políticos da sua ação e que uma das razões pelas quais Mario Draghi optou por parar com a política de flexibilização quantitativa é o facto de não haver vontade política para estas medidas num grande número de países. E mesmo que ele diga hoje que pode restabelecer a flexibilização quantitativa, prorrogará o prazo e, mesmo que o faça, faltará credibilidade, porque todos saberão que o BCE não poderá mantê-la por muito tempo. O BCE poderia potencialmente agir, mas perdeu a sua credibilidade ao negar sistematicamente os problemas e ao adiar as medidas que era necessário tomar. O Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE) é uma inovação importante, mas depende fortemente da notação de crédito alemã. Se ocorrer uma crise em Itália, esta notação poderá ser afetada. E se o declínio económico continuar, especialmente na Alemanha, penso que afetará a capacidade dos europeus para fazerem face à crise. Não estou a dizer hoje que o euro vai entrar em colapso, mas estou a dizer que haverá um processo contínuo de enfraquecimento das defesas do euro nos próximos 10 ou 20 anos. É igualmente possível que uma crise italiana possa tornar-se tão significativa que a capacidade europeia para a enfrentar deixe simplesmente de existir. Sim, foram feitos esforços, mas as deceções económicas e políticas subjacentes continuarão a minar a capacidade de resposta a crises futuras. Penso que, a dada altura, terá de surgir uma determinação muito mais dramática.

Texto em https://www.atlantico.fr/decryptage/3565100/-la-tragedie-de-l-euro-ou-l-incroyable-bulle-cognitive-dans-laquelle-l-europe-s-est-enfermee–interview-exclusive-de-ashoka-mody-auteur-du-livre-economique-de-l-annee-2018-aux-etats-unis

 

Nicolas Goetzmann: Responsável das questões económicas em Atlantico.fr

 

 

 

 

 

 

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

%d bloggers like this: