Do plano técnico ao plano político: do sistema Target 2 à fragmentação financeira da União Europeia – 5. Nós também estamos a mergulhar no poço de liquidez do Target2 (1/2). Por Nicolas Perrin

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Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

5. Nós também estamos a mergulhar no poço de liquidez do Target2 (1/2)

Nicolas Perrin Por Nicolas Perrin

Publicado por Agora newLogo2018 em 8 de novembro de 2018 (ver texto original aqui)

No sistema bancário europeu há uma série de enguias a rodopiar. Mas o TARGET2 é uma baleia que só os alemães parecem ser capazes de notar.

Já tive oportunidade de vos falar sobre o TARGET2, a principal plataforma de pagamentos em euros no âmbito do Euro-sistema.

A sua característica curiosa é que se trata de um sistema de liquidação desprovido de mecanismo de liquidação.

Este mecanismo tem uma característica que o distingue radicalmente do seu homólogo americano. De facto, no âmbito do Sistema da Reserva Federal dos EUA, os desequilíbrios de pagamentos internos são resolvidos anualmente [1] através da transferência de certificados de ouro entre os 12 bancos regionais (Bancos da Reserva Federal).

Pelo contrário, o TARGET2 é um “sistema de liquidação desprovido de mecanismo de liquidação” (para utilizar as palavras do economista Pater Tenebrarum).

O montante de ativos e passivos de cada um dos países participantes no sistema é conhecido, mas é expresso face ao conjunto do Euro-sistema e não face a cada um dos outros países. Também não existe um mecanismo para a resolução periódica dos desequilíbrios entre países.

TARGET2, portanto, tem a dupla característica de ser um cartão de crédito ao mesmo tempo gigante e oferecido pelo único banqueiro do mundo (Mario Draghi) que finge não se preocupar com o valor do nosso descoberto (como veremos abaixo).

Por construção, este sistema de liquidação é, por conseguinte, mais frágil do que o da Reserva Federal norte-americana, na medida em que, em última análise, expõe o euro a um risco de fuga, ou seja, ao risco de fuga à moeda, como explicou Alan Greenspan.

A intervenção do BCE não corrigiu (evidentemente) o fundo da questão

Vejamos a situação em outubro de 2018:

5 a mergulhar no poço de liquidez do Target2 1

Vamos voltar alguns anos atrás. Foi entre 2010 e 2012, durante a crise da dívida soberana na zona euro, que os desequilíbrios realmente se agravaram. Os capitais começaram a fugir da periferia para os países do norte, mais seguros do ponto de vista financeiro.

Em seguida, estes desequilíbrios atenuaram-se durante dois anos, à medida que a crise se atenuou, antes de se agravarem novamente quando o BCE desencadeou o seu QE em março de 2015.

Em meados de 2017, os desequilíbrios tinham regressado ao seu nível mais elevado alcançado no inverno de 2012. Desde então, continuaram a aumentar, com um novo pico em setembro de 2018.

Estes desequilíbrios continuaram a crescer mesmo quando se supunha que a zona euro teria sido reparada e as nossas economias estavam a melhorar no ciclo… É assim que as economias “convergem” (uma promessa dos tecnocratas europeístas) ao tentar alcançar a união monetária entre países que não têm grande coisa de uma zona monetária ótima [2], e cujos membros mais ricos não querem realmente mergulhar nos meandros de uma nova utopia socialista.

Os capitais continuam a fugir de Itália

39 mil milhões de euros fugiram dos bancos italianos em maio passado, a pior deterioração desde março de 2012.

5 a mergulhar no poço de liquidez do Target2 2

Para Zero Hedge, é de facto o início de uma corrida aos bancos aquilo que estamos a testemunhar:

Como salienta JPMorgan, no balanço do Banco de Itália, o aumento das responsabilidades do TARGET2 foi largamente compensado por uma diminuição dos depósitos das instituições financeiras monetárias, embora a dimensão global do balanço não se tenha alterado significativamente, o que, como escreve Nick Panigirtzoglou da JPMorgan, sugere o pior cenário possível: alguns depósitos foram transferidos para o exterior. “

 

Draghi: «Toca a mexer, não há aqui nada para ver!»

Isto está em forte contraste com o que Mario Draghi disse, para quem tudo está a ir muito bem. Questionado sobre isto numa conferência de imprensa, o Presidente do BCE explica sistematicamente que estes desequilíbrios estão intimamente ligados ao QE e que não há mesmo nada a lamentar.

Outra forma de ver as coisas é expressa pela Zero Hedge:

Enquanto o programa de compra de ativos estiver em curso, é de facto difícil dizer em que medida um saldo crescente do TARGET2 é impulsionado pela QE ou pela fuga de capitais. »

Além disso:

“Porque é que os vendedores destes [títulos italianos comprados pelo BCE] não utilizam o produto da venda para comprar outros ativos em Itália? Por outras palavras: o que representa [o crescente défice TARGET2 da Itália], senão uma fuga de capitais? Parece-nos que não importa realmente se as compras são feitas sob a QE ou não – se nenhum fluxo de capital compensatório chegar posteriormente na Itália, significa que alguém decidiu deixar este pântano e nunca mais voltar a pôr os pés nele. »

Falando de pântano, com 426 mil milhões de euros, o passivo italiano atingiu 26% do PIB em abril. Com quase 500 mil milhões de euros em outubro, excedemos agora 30% do PIB (para uma dívida pública total + saldo TARGET2 que ascenderia a mais de 160% do PIB).

5 a mergulhar no poço de liquidez do Target2 3

 

As elites alemãs sob ansiolíticos

Entretanto, na Alemanha, as elites têm os olhos postos nesta curva que parece estar a caminho dos milhares de milhões de euros:

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Como Bruno Bertez resume, «toda a Alemanha está em pânico com o TARGET2, os franceses nem sequer sabem que ele existe! »

Por exemplo, o diário liberal conservador Frankfurter Allgemeine Zeitung, a 7 de julho, titulava sobre o TARGET2: “A Alemanha está sentada em cima de uma bomba”:

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«1 milhar de milhões de euros […] que poderão não voltar », continuava o jornal, ou seja, o equivalente grosso modo da capitalização de Apple.

Com tais somas em jogo, será difícil ficarmos espantados que a elite conservadora alemã, liderada pelo economista Hans-Werner Sinn, esteja a ter dificuldade em dormir.

Ambrose Evans-Pritchard explicou em maio no Daily Telegraph que para este membro do Comité Consultivo do Ministério Federal da Economia:

Não existe nenhum mecanismo que permita à Alemanha recuperar as quantias astronómicas de dinheiro que possui disseminadas por toda a zona euro, incluindo os 923 mil milhões de créditos TARGET2 devidos ao Bundesbank. ‘Nunca mais veremos a cor desse dinheiro. Ele já está perdido’, disse ele. ‘Não há solução. O desastre está em vias de acontecer. Isto conduzirá à destruição da Europa, para o dizer sem rodeios. Também vai levar os populistas da AfD ao poder na Alemanha’.

A elite conservadora alemã continua a pensar na menos má das soluções. Esta poderia passar pelo controlo de capitais, como veremos amanhã.

(continua)

Notas

[1] https://www.federalreserve.gov/aboutthefed/chapter-1-balance-sheet.htm

[2] A teoria das zonas monetárias ótimas nasceu nos anos 1960, desenvolvida principalmente pelo economista canadiano Robert Mundell, que se opunha à hegemonia do dólar.

 

O autor: Nicolas Perrin é consultor independente sobre questões de gestão de património. Licenciado pelo IEP de Estrasburgo, do Collège d’Europe e da Universidade de Aix-Marseille, é editor nas publicações Agora. É autor de “Investir sur le marché de l’Or – Comprendre pour agir”, edições SEFI Arnaud Franel.

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