Do plano técnico ao plano político: do sistema Target 2 à fragmentação financeira da União Europeia – 5. Nós também estamos a mergulhar no poço de liquidez do Target2 (2/2). Por Nicolas Perrin

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Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

5. Nós também estamos a mergulhar no poço de liquidez do Target2 (2/2)

Nicolas Perrin Por Nicolas Perrin

Publicado por Agora newLogo2018 em 9 de novembro de 2018 (ver texto original aqui)

 

(conclusão)

O TARGET2 é uma baleia que preocupa os alemães e mina o sector bancário europeu. A nova crise na zona-euro poderá muito bem encontrar aqui o seu lar.

O TARGET2 é um sistema de liquidação interbancária sem mecanismo de liquidação entre os vários Estados-Membros, o que o torna mais frágil do que o da Reserva Federal dos EUA.

Por isso, não é de estranhar que a Alemanha se preocupe com os quase mil milhões de euros que ela tem de créditos sobre os seus vizinhos…..

Controlar os movimentos de capitais… e sair da zona euro?

Para Clemens Fuest, sucessor de Hans-Werner Sinn à cabeça do think tank Ifo Institute for Economic Research, se a Itália não estiver de acordo com as regras do jogo da zona euro, o BCE terá de tomar medidas com as suas próprias mãos.

Como se relata no Daily Telegraph, este economista “advertiu em maio que o BCE deverá cortar as linhas de crédito TARGET2 concedidas ao banco de Itália como parte de seu sistema de pagamentos interno, o que poderia agravar seriamente a crise. ‘Se a Itália começar a violar as regras orçamentais da zona euro, o BCE terá de agir, mesmo que não o queira fazer. Será como com a crise grega. A Itália terá de pôr em prática controlos de capitais e será forçada a abandonar a zona euro‘, afirmou. ‘Este seria um grande revés, mas penso que o euro poderia sobreviver com a França, a Alemanha e a Espanha. No entanto, seria um euro diferente‘, disse ele”.

Em suma, como já terão compreendido, os países meridionais da zona euro – e em particular o Governo de Giuseppe Conte – não têm muitos fãs na Alemanha.

Em junho, em entrevista ao Die Welt (outro dos três maiores jornais diários alemães, também liberal-conservador), Hans-Werner Sinn propôs uma solução ainda mais radical. O objetivo seria assegurar que “o Bundesbank […] estabeleça um controlo dos movimentos de capitais para limitar o crescimento dos saldos do TARGET2”, como refere Bruno Bertez.

 

«A fuga de capitais para a Alemanha atinge o seu ponto mais alto»

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Para o antigo professor de economia da Universidade de Munique, esta seria a única forma de a Alemanha esperar rever o seu dinheiro.

Na verdade, a proposta do professor Sinn é nada mais nada menos do que um pedido indireto para que a Alemanha abandone o euro. Subsiste a questão de saber como ser reembolsada, com que meios de pagamento? “, resume Bertez.

Poderá a Alemanha deixar a zona euro? Como Simone Wapler escreveu em 25 de maio, “a Alemanha conhece o preço: os créditos que tem no TARGET2. O TARGET2 contabiliza todos os valores de créditos não pagos pendentes entre os países da área do euro. A Itália deve 450 mil milhões de euros às empresas alemãs. Estas somas a receber seriam imediatamente desvalorizadas. Mas este preço seria o da soberania recuperada da Alemanha e de não assumir uma responsabilidade que não controla. »

Os alemães, bons em tática e maus em estratégia

Se adotarmos uma perspetiva histórica, como faz o blogueiro Franck Boizard, vemos que “há povos que lutam pela vitória. Os alemães, por outro lado, lutam até à derrota.”

Excelentes em tática e pobres em estratégia, continua o blogueiro:

Os alemães venderam-nos os seus carros e depois, em vez de devolverem esse dinheiro à sua economia ou de no-lo devolverem, emprestaram-no para que pudéssemos continuar a comprar carros que eles produziam. Hoje, estão sentados numa pilha enorme de títulos do Tesouro gregos, italianos e franceses que em breve não valerão nada quando estes países tiverem entrado em bancarrota.

[…] Mas o dia em que os devedores rejeitarem as suas dívidas (e esse dia está a chegar), quem é que fica com os títulos do Tesouro que não valem mais nada? Adeus bezerros, vacas, porcos, poupanças, pensões… E depois? Vão enviar os panzers? Nesse dia, vamos pensar que eles poderiam ter afundado os seus BMWs e Mercedes no porto de Hamburgo, o resultado teria sido o mesmo. Não há nada de novo: desde Colbert, sabemos que o mercantilismo acaba em desastre. Só os alemães e os enarcas [os da ENA-École nationale d’administration] o ignoram. Os alemães terão lutado, mais uma vez, até à derrota.

Se a Itália deixasse a zona euro, desativaria a bomba de mil milhões de euros sobre a está sentada a Alemanha?

A ideia de que seria impossível um país sair da zona euro tem de ser quebrada.

Estranhamente, embora o artigo 50º do Tratado da União Europeia preveja a possibilidade de um Estado abandonar voluntariamente a UE, não existe qualquer disposição que diga respeito a uma saída da zona euro.

Comecemos, porém, por recordar, como De Gaulle subtilmente explicou a Peyrefitte sobre o Tratado de Roma, no qual nada foi previsto para que um dos seus membros o abandonasse:

Isto é uma piada! Já alguma vez viu um grande país comprometer-se a permanecer como um tonto, sob o pretexto de que um tratado não tem disposições para o caso de ser um tonto? Não. Quando se é estúpido, diz-se: ‘Sou estúpido. Bem, já chega, vou-me embora daqui!’ Trata-se de histórias de advogados e diplomatas, é isso. “

Dito isto, importa salientar que, numa carta dirigida a dois eurodeputados italianos em 18 de janeiro de 2017, Mario Draghi insinuou nos seguintes termos que um país pode abandonar a zona euro, mas que teria primeiro de liquidar [1] as suas dívidas no âmbito do TARGET2:

Se um país deixar o Eurosistema, os créditos ou responsabilidades do seu banco central nacional face ao BCE terão de ser integralmente liquidados“.

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Impõem-se duas observações.

Em primeiro lugar, notar-se-á que o Presidente do BCE teve o cuidado de se abster de mencionar a moeda em que a liquidação deve ser feita…..

Em segundo lugar, duas objeções poderiam ser feitas ao raciocínio de Mario Draghi. Na verdade, como Zero Hedge o evoca:

Se a Itália deixasse a união monetária e regressasse à lira, diz-se que o Banco de Itália seria obrigado a liquidar imediatamente as suas responsabilidades para com o BCE. No entanto, perguntamo-nos como é que isto poderia acontecer na prática e como é  possível forçá-la. Que se saiba, o BCE não tem um exército, pelo que não pode ameaçar invadir a Itália para a pilhar em retaliação.

Além disso, dado que cinco países participantes no sistema TARGET2 não são membros da união monetária (Bulgária, Croácia, Dinamarca, Polónia e Roménia), porque é que um país que abandonasse a união monetária não poderia continuar a ser membro do sistema de pagamentos? E, em caso afirmativo, por que razão deveria este país liquidar as suas responsabilidades no TARGET2?

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Como se pode ver, no caso hipotético de uma saída da Itália da zona euro, o Governo italiano poderia muito bem dar uma lição de realpolitik ao seu ilustre compatriota do BCE.

Mario Draghi combinaria então a figura do bombeiro com a de incendiário, ele que autorizou o BCE a comprar títulos italianos, permitindo ao Governo italiano continuar a financiar a sua má gestão a taxas ridiculamente baixas.

Ainda não chegámos aí, mas é importante ter estes cenários em mente para tentar antecipar como poderá evoluir a próxima crise na zona euro.

 

Nota

[1] https://www.reuters.com/article/us-ecb-eurozone-idUSKBN1542KL

 

O autor: Nicolas Perrin é consultor independente sobre questões de gestão de património. Licenciado pelo IEP de Estrasburgo, do Collège d’Europe e da Universidade de Aix-Marseille, é editor nas publicações Agora. É autor de “Investir sur le marché de l’Or – Comprendre pour agir”, edições SEFI Arnaud Franel.

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