Ano de 2019, ano de eleições europeias. Parte I – Grandes planos sobre uma União Europeia em decomposição. 5º Texto – O Império Europeu da Alemanha

O Império Europeu da Alemanha  

(Uma entrevista com Wolfgang Streeck, conduzida por Loren Balhorn  20/08/2018)

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Wolfgang Streeck

Um dos sociólogos críticos mais conhecidos no mundo de língua alemã, Wolfgang Streeck, viu o seu trabalho estar a  receber uma crescente atenção da esquerda internacional nos últimos anos.

Os seus livros mais recentes têm-se  concentrado na crise estrutural do capitalismo e na medida crescente em que ele está em contradição com a democracia – uma contradição para a qual ele não vê nenhuma resolução imediata, levando-o a questionar-se por  quanto tempo mais o capitalismo pode sobreviver.

Loren Balhorn, de Jacobin, falou-lhe das perspetivas da União Europeia, do papel do Estado-nação e do espectro do populismo.


LB – Vamos começar com uma pergunta simples: qual é a sua avaliação da grande coligação alemã após os seus primeiros cem dias? É um mal necessário, ou o senhor teria preferido outra coisa?

WS – Não, sem preferências. Talvez se houvesse alguma perspetiva de que a ala esquerda do  SPD (Partido Social Democrata) na oposição seria forçada a  envolver-se mais com os elementos não-sectários do  Die Linke, para que algo novo pudesse emergir na interseção onde a esquerda pudesse ter algo que se aproximasse das perspetivas de assumir  o poder. Mas teria sido improvável que isso acontecesse mesmo sob um governo “jamaicano” [ou seja, uma coligação entre os democratas-cristãos de Merkel, os Verdes e os democratas livres ].

LB – Está preocupado com a possibilidade de novas eleições, dada a disputa em curso entre Angela Merkel e o seu parceiro de coligação de direita, Horst Seehofer?

WS – Não, de todo. Não faria diferença, exceto que o SPD cairia abaixo de quinze por cento, e os Verdes substituiriam a CSU (União Socialista Cristã, os  Democratas Cristãos da Baviera) num governo “Merkel V”.

LB – Vamo-nos  alargar o  horizonte da nossa atenção . O senhor argumenta que um retorno ao capitalismo democraticamente regulado, que leve em conta os interesses materiais da maioria, só é possível no âmbito do Estado-nação.

Ao mesmo tempo, o senhor denunciou a tendência alemã de considerar a “Europa” como a personificação da moralidade política, em suposta oposição ao nacionalismo destrutivo dos séculos anteriores – apesar de a política da UE, na sua maioria, promover os interesses alemães.

Não seria possível impor limites à hegemonia alemã, por exemplo, através de uma regulamentação salarial e fiscal uniforme entre todos os Estados-Membros? Até ao final da década de 1990, esta exigência era feita por muitos partidos social-democratas, incluindo o SPD.

WS –  De onde viriam os “regulamentos salariais e fiscais uniformes para todos os Estados-Membros”? O problema é a variedade de estruturas económicas e sociais nacionais, que se desenvolveram ao longo do tempo. O que está a sugerir exigiria uma revisão uniforme e simultânea das instituições de importância central, que se ajustariam de forma bastante diferente às capacidades económicas nacionais e aos interesses nacionais. Nenhum líder político, e especialmente nenhum líder politicamente responsável, poderia tentar algo assim.

E, incidentalmente, isso não adiantaria nada quanto à necessidade de  acabar com a “hegemonia alemã” que corretamente mencionou. Esta hegemonia  existe porque o regime de moeda comum da Europa, como um regime de moeda forte, se encaixa na economia alemã (e em algumas outras economias do norte), mas não funciona para as economias do Mediterrâneo e da França.

LB – Isso parece bastante plausível, mas a maioria das forças progressistas na Alemanha provavelmente rejeitaria uma estratégia de Estado-nação. De onde é que acha que vem esta ideia?

WS – Aqui está-se a referir  a um problema bastante complexo. Depois da guerra, a Alemanha Ocidental não foi totalmente soberana durante muito tempo e considerou isto como uma merecida punição  e um estado de coisas geralmente desejável. Por um lado, os alemães foram punidos pelo “nacionalismo” alemão, enquanto, por outro, tentaram recomendar a desnacionalização da política como o ideal de uma nova ordem mundial para todos os outros.

Paradoxalmente, isso ajudou gradualmente a restaurar a soberania nacional alemã, culminando na reunificação, enquanto nenhum outro país na Europa alguma vez teria considerado  colocar a sua soberania nacional em cima da mesa.

Desde a década de 1990, as coisas tomaram sobretudo um outro  rumo, já que o supranacionalismo europeu efetivamente deu origem a um império alemão. É por isso que, na Alemanha de hoje, podemos opor-nos ao nacionalismo e ao Estado-nação e, ao mesmo tempo, defender os interesses nacionais alemães sem ter de o admitir. Uma situação ideológica muito confortável – basta olhar para Angela Merkel.

LB – A União Europeia começou como uma tentativa de acabar com a rivalidade entre a França e a Alemanha, ligando o poder diplomático francês à força económica da Alemanha. Poder-se-ia argumentar que a estrutura da União foi, na sua maioria, continuamente estruturada ao longo deste compromisso.

Acha que as propostas de Emmanuel Macron para “refundar a Europa” têm o potencial de cimentar, a longo prazo, estas falhas nacionais? Ou será que a lógica do interesse nacional está demasiado enraizada na estrutura da própria UE?

WS – As propostas do Macron não são nada disso. Ele é completamente vago quando se chega aos detalhes. Qual deve ser  a dimensão  do orçamento especial da zona euro? Que critérios devem ser utilizados na sua distribuição? De que  tipo de “investimentos” é que ele fala? Porquê um “ministro europeu das Finanças”? E  é  isto  suposto ultrapassar as nossas “linhas de falha nacionais”, como lhes chamam? Na minha opinião, não se trata de linhas de fratura, mas sim de fronteiras com as quais podemos e devemos trabalhar, não por ditames do topo para a base, mas através de acordos entre iguais.

Como já disse, ninguém na Europa está realmente a alimentar a ideia de renunciar à soberania nacional – os Alemães apenas fingem que o fazem. Em todo o caso, a soberania nacional é, em primeiro lugar e acima de tudo, uma arma para os pequenos países usarem contra os grandes, e são os grandes países que são incomodados por ela (não pela sua própria soberania, evidentemente). Se os EUA respeitassem a soberania nacional dos pequenos Estados, muitas pessoas teriam sido poupadas a muitos problemas.

E Macron fala constantemente sobre uma “França soberana numa Europa soberana” – não sobre acabar com o Estado-nação francês, mas sobre expandi-lo para a Europa. Outros países terão que encontrar uma maneira de viver com isso, e isso é possível a menos que se tenha ficado bêbado com a ideia de supranacionalismo.

LB – O Presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, afirmou numa recente conferência de imprensa que a Grécia voltaria a ser em breve um “país normal”. Ele e outros tecnocratas europeus estão a tentar vender a Grécia como uma história de sucesso da Zona Euro – uma prova de que a estrutura permanece forte e resistente.

Como vê isto, especialmente tendo em conta a situação crítica em Itália?

WS – Essa é a conversa vazia habitual; ninguém a leva a sério. Os problemas estruturais da Grécia e de outros países mediterrânicos foram sempre subestimados, enquanto os problemas da dívida foram exagerados; mas isso é pôr o carro à frente dos bois. Mesmo que a Grécia possa agora voltar a contrair empréstimos – e teríamos primeiro de ver isso acontecer -, as suas estruturas institucionais e económicas continuam a não ser adequadas a uma moeda forte.

Resta também a década de austeridade que prejudicou toda uma geração jovem, custando-lhes um  precioso tempo de vida, para não falar de infraestruturas de serviço público, educação e formação. Isto não é compensado pelo facto de o Estado grego ser agora novamente considerado digno de confiança nos mercados financeiros, se é que o é de facto.

O mesmo se aplica à Itália, que é, no entanto, muito maior do que a Grécia, de modo que nem mesmo um acordo de dívida ao estilo (ostensivo) da Troika  poderia funcionar. Os Jean-Claude Junckers deste mundo são como lemingues – ou pelo menos como o mito sobre os lemingues; na verdade, os lemingues são muito mais espertos do que os eurocratas, que marcham para o abismo com os olhos abertos, sempre ansiosos até chegarem ao chão.

LB – Reparei que num artigo recente, “A Europa sob Merkel IV: Balanço de Impotência”, o senhor  coloca sempre o termo “populistas” entre aspas, sobretudo em relação a Die Linke e à Alternativa für Deutschland, mas também quando se fala de forças comparáveis noutros países europeus. Trata-se de uma atitude  consciente da sua parte e, em caso afirmativo,  porquê?

WS – Uma decisão consciente, sim. Para mim, o termo é sem sentido, não verificável, uma arma de propaganda. Na linguagem dos partidos centristas estabelecidos, toda a gente que possa ser por eles e para eles considerado perigoso  é um “populista”, de Corbyn a AfD. Eles reclamam que “os populistas” “simplificam os problemas” – enquanto Merkel contestou a segunda a última eleição com o slogan, “Já me conhecem”.

O que é “complexo” é para nós decidirmos; o que definimos como “complexo” é demasiado “complexo” para os “populistas”; e não há alternativa às “soluções” que tão laboriosamente temos desenvolvido  para os vossos problemas complexos. (“Não há alternativa”, etc.)

LB – Um dos seus livros mais recentes, Buying Time, sugere que o crescente conflito estrutural entre capitalismo e democracia levará à crescente “Hayekização” da Europa. Desde dessa altura, os partidos de direita ganharam uma série de eleições em toda a Europa e Donald Trump foi eleito presidente dos Estados Unidos. Será que se vê confirmado o  seu prognóstico?

WS – Por “Hayekization” quero dizer a separação  institucional intencional e de longo prazo da economia, ou do mercado, da interferência democrática, ou seja, igualitária. Os partidos de direita não são necessariamente neoliberais no sentido de serem não-intervencionistas ou anti-redistributivos, pelo menos na sua retórica. O que eles realmente fazem na prática é toda uma outra questão.

LB – As suas previsões sobre o futuro da UE e do capitalismo em geral parecem ter-se tornado mais sombrias nos últimos anos. Lembro-me de um acontecimento ocorrido em Berlim no ano passado, em que o senhor se descreveu a si próprio como um “pensador apaixonadamente destrutivo”, e em Buying Time afirma explicitamente que os teóricos não têm de oferecer soluções. Mas você vê pelo menos alguma solução económica possível que permaneça, por enquanto, politicamente obstruída?

WS – Se fosse tão simples apresentar-lhe uma solução, não haveria basicamente um problema. Por “destrutivo” quero dizer que eu gostaria de lutar contra esperanças irrealistas colocadas  numa qualquer cavalaria prussiana que, como em Waterloo,  se mostravam à noite para mudar o decorrer da  batalha. O que precisamos, numa situação como a nossa,  é do realismo mais claro e sóbrio possível.

Estou convencido de que a política, como de costume, não nos ajudará e que a política de hoje é, quase sem exceção, pouco mais que uma gestão elitista, tecnocrática, profissionalizada e altamente remunerada. Precisamos de uma boa medida de disfuncionamento, de rutura, não só na economia, mas também e sobretudo na política. Qualquer coisa a menos e não conseguiremos restaurar o controle coletivo sobre as  nossas vidas de que tão urgentemente necessitamos.


O próximo texto desta série será publicado amanhã, 28/05/2019, 22h


Tradução de Júlio Marques Mota – Fonte aqui

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