Ano de 2019, ano de eleições europeias. Parte I – Grandes planos sobre uma União Europeia em decomposição. 11º Texto: A União Europeia à beira da desunião…

 

A União Europeia à beira da desunião…

(Guillaume Berlat, 24 de Setembro de 2018)

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“Sabemos… que existem diferentes conceções sobre uma federação europeia em que… os países perderiam a sua nacionalidade nacional e na ausência de um elemento federador… a federação europeia seria governada por um areópago tecnocrático, apátrida e irresponsável”. E é saltando para a sua cadeira que ele declara a solidariedade na defesa europeia: “Claro que podes saltar para a tua cadeira como um cabrito a dizer Europa! Europa! Europa! Europa!… mas isso não leva a nada e não significa nada”. O General de Gaulle tinha razão já em 1965, quando falávamos apenas da Comunidade Económica Europeia (CEE), que tinha apenas seis membros e a língua de trabalho era o francês (algumas pessoas estão demasiado inclinadas a esquecê-lo).

Hoje, sem ter empreendido um verdadeiro exercício de introspeção após uma série de alargamentos inconsiderados após a queda do Muro de Berlim, a Europa encontra-se num mau estado, muito mau (1). Esta poderia estar até a correr para a sua morte a curto prazo, está em curso um o estabelecimento de um comportamento típico do tempo das Sociedades das Nações (nas vésperas da Segunda Guerra Mundial). Apesar desta triste realidade, a Europa destaca-se em dois exercícios, o da treta e o do exibicionismo. Isto leva-a, naturalmente e de forma direta contra a parede, como o demonstram amplamente os perigos passados e futuros que enfrenta diariamente

A Europa, perita em tretas e exibicionismo (2)

Confrontados com as provas evidentes que nos entram pelos olhos adentro, incluindo para os deficientes visuais, os seus defensores mais zelosos tentam esconder a verdadeira vigarice que constitui a Europa na sua forma atual.

Um facto óbvio

O mínimo que podemos dizer é que a União Europeia (ou seja, os seus mais brilhantes sujeitos) é incapaz de resolver os problemas que normalmente seriam da sua competência: migração, defesa e segurança, clima (3), orçamento europeu (correspondência entre os objetivos declarados e os recursos que lhes serão atribuídos), o futuro da União após o “Brexit “( 4), a nomeação dos seus Comissários (a Alemanha, que se encontra numa posição de força, está a agitar para que Manfred Weber seja nomeado Presidente da Comissão Europeia(5)), uma resposta concertada à guerra comercial lançada por Donald Trump, à poluição atmosférica (segundo o Tribunal de Contas Europeu, a saúde dos cidadãos não está suficientemente protegida(6))… Não existe nenhuma estratégia comum na ausência de um acordo mínimo entre os membros da União sobre a finalidade do projeto europeu. Qual é a relação entre a Europa imaginada por Emmanuel Macron no seu discurso na Sorbonne e a de Viktor Orban, que reúne cada vez mais parceiros (apesar de ter sido fortemente contestado pelo Parlamento Europeu (7))? (8) Muito pouco. Isto mesmo, nem mais nem menos. Aqui levanta-se um problema, mas este não incomoda os nossos dirigentes que estão a fazer a roda do pavão em Bruxelas. A clivagem da Europa é uma realidade que vai cegando os europeus, independentemente do que digam alguns foliculares ideológicos (9).

Quanto mais fraco fores na ação, mais forte serás em palavras (para não dizer na garganta). Especialmente quando o funcionamento interno da loja é problemático: atividades remuneradas do antigo Presidente da Comissão, Manuel Barroso, e carambolas em torno da nomeação de Martin Selmayr (de nacionalidade alemã, como por acaso), antigo Chefe do Estado-Maior de Jean-Claude Juncker, para o cobiçado cargo de Secretário-Geral da Comissão Europeia, tal como assinalado pelo Provedor de Justiça Europeu, Emily O’Reilly num relatório publicado em 4 de setembro de 2018 (10).

Uma farsa colossal: fantasias sobre as supostas virtudes da Europa

Que tipo de disparates é que foram ouvidos nas últimas décadas? É graças à construção europeia que vivemos em paz desde 1956. É graças ao mercado comum (CEE), depois à União Europeia (UE) que o nível de vida dos europeus aumenta constantemente, que o desemprego diminui. É graças à Política Europeia Comum de Segurança e Defesa (PECSD) que os 28 contam entre as nações em que a segurança, a paz e a harmonia prevalecem no mundo (11). É graças a um Serviço Europeu para a Acção Externa (SEAE) poderoso que a Europa é um ator-chave no concerto das nações. É graças a um euro forte que a Europa se está a impor no mundo económico. É graças a Schengen e à liberdade de circulação que este Tratado organiza que estamos protegidos contra todo o tipo de intrusões externas. Foi graças a um negociador notável (Michel Barnier) que o Reino Unido iria ver quanto lhe custou a escolha do “Brexit” (“No interior, a Inglaterra passa o seu tempo a exigir cláusulas de excepção. E fora passa o seu tempo a exigir cláusulas de inclusão”) (12). É através de uma comissão independente que o interesse geral europeu prevalece sobre o interesse egoísta das nações (13). É graças a esta comissão que reagimos, um a um, às sanções comerciais americanas (“Face ao protecionismo americano, Bruxelas agita uma espada de madeira chamada “lei de bloqueio”) (14). Uma magra resposta que confirma de facto uma relação de vassalagem”). “A eurobeatice corre por todo o lado e transforma todas as salas de imprensa em sacristias da nova religião” (15). Não se poderia dizer melhor!

É verdade que “a Europa dos sonâmbulos ” (16) ainda tem um longo caminho a percorrer para ver como os muitos perigos que enfrenta deslizam sobre ela como um “grão” na pele de um marinheiro bretão. A grande proposta para salvar a Europa vem do Presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, que defende o fim da mudança das horas na Europa( 17). O seu último discurso sobre o Estado da União distingue-se pelo estilo da lamentação. Por outro lado, nada como reação contra as sanções americanas injustas a que as empresas europeias se arriscam quando investem no Irão! (18) Nós fazemos um bloco sólido com Washington (19). Felizmente, continuamos a ter os conselhos pertinentes de Bernard Kouchner, Chefe de Negócios Sem Fronteiras. O Padre Thénardier não considera piedoso estabilizar um continente à deriva, “deslocando fronteiras” nos Balcãs (20). É verdade que ele brilhou com toda a sua incompetência quando estava ativo nesta região sob a égide da ONU. É melhor calar-se. O que está a Europa a fazer para combater os GAFAM delinquentes em muitas questões (informação, impostos) (21)? Ela disserta a perder de vista (22) ou pratica a diplomacia do encantamento (23). Felizmente, no dia em que o Parlamento Europeu sanciona Viktor Orban pela sua violação dos valores da União (24), este organismo adota a Diretiva Direitos de Autor (25).

.Há que dizer que, contra a América de Donald Trump, a Europa não passa de um vulgar tigre de papel (26) e nunca usa o bastão das sanções contra Washington.

A EUROPA A ENFRENTAR OS PERIGOS DO PASSADO E DO FUTURO

Os factos são teimosos. As más notícias acumulam-se constantemente na frente europeia, tanto no passado recente como no futuro próximo.

As últimas eleições parlamentares na Europa: a ascensão do populismo

Enquanto os “maus ventos” (as “paixões tristes”), caros a Júpiter[1], são cada vez mais violentos, os fortes sinais preferidos dos estrategas de salão (a tecnocrática “bobolândia” de Bruxelas) são cada vez mais evidentes, cada consulta eleitoral nos Estados-Membros da União dá origem a uma utilização incomensurável da má-fé. Depois do coro pré-eleitoral dos federalistas ajoelhados aos pés de Deus Europa, é agora a vez do coro das mulheres que choram após as eleições para efeitos mediáticos.. É que as eleições sucedem-se e são semelhantes. Áustria, Alemanha, Itália, Eslovénia e Suécia (27)… ver partidos anti-europeus (injustamente descritos como “populistas”) levantarem a cabeça e entrarem em força no poder executivo e legislativo em exercício. Pior ainda, têm o descaramento de criticar os erros e as escolhas obstinadas dos tecnocratas apátridas de Bruxelas e dos seus homólogos nacionais, o modelo de cabeça de ovo de Bercy, que são adeptos da economia que governa a política. E, depois de cada eleição, é a mesma canção: não tínhamos visto nada, os cidadãos ignorantes não responderam à pergunta feita, a culpa é da Rússia que manipulou os eleitores (cf. o disparate que nos é dito sobre as razões do “Brexit”). Mas nada funciona. A mecânica louca está em curso e a toda velocidade como se tudo estivesse a ir bem e no melhor dos mundos. Além disso, os partidos políticos (direita e esquerda) estão totalmente confusos quanto à forma de abordar seriamente as questões europeias (28). Estão divididos quanto ao caso Orban no que se refere aos deputados pertencentes ao Grupo PPE, demonstrando assim que o assunto está hoje a ser debatido. O que é uma coisa boa.

As próximas eleições para o Parlamento Europeu: o risco de um tsunami

Há algumas semanas, o Deus “mesquinho” fez um regresso em força e com tanto estrondo que se notou um grande perigo na casa Europa. Porque, nas iluminadas farmácias da Eurolândia, as pessoas começam a pensar no próximo grande prazo europeu, a saber, a renovação do Parlamento de Bruxelas Estrasburgo (26 de Maio de 2019) para respeitar equilíbrios estúpidos que já não têm nenhuma razão de ser. Para que conste, este areópago reúne-se normalmente uma semana por mês em Estrasburgo. Mais uma vez, um caso que custa ao contribuinte europeu “uma quantia louca de dinheiro”! Mas vamos seguir em frente. Imaginem que este teatro de marionetes escapou, por uma vez, ao controlo dos três grandes partidos tradicionais (direita, centro e esquerda, para simplificar) e que os partidos eurófobos detêm uma maioria simples, ou mesmo uma minoria de bloqueio significativa! Do Rififi ao OK Corral. Pânico a bordo, especialmente na França. Acabaram-se os cargos honoríficos e bem pagos para as velhas e o velhos políticos que já não tem préstimo Acabou a fonte financeira providencial para os partidos políticos. Acabaram-se as viagens e outros divertimentos. Imagine este editorial do fim do velho mundo anunciado…. Isto é impensável. Tremo ao dizê-lo! Os resultados das últimas sondagens não são encorajadores para os partidos do ARCO DO PODER, que já não sabem em que pé se encontram os objetivos do projeto europeu, nem como este será diariamente posto em prática.

O que fazer quando se está no fim da corda e já sem argumentos sérios? Tentar assustar para trazer de volta as ovelhas perdidas. E para alertar contra os riscos de manipulação das eleições através da desinformação (os dos horrorosos nacionalistas) e do reforço da cibersegurança (contra os vilões russos que seriam capazes de mudar o resultado das eleições, colocando um espião do KGB atrás de cada cidadão europeu) (29). Moscovo elegeu Donald Trump e fez pender a balança a favor do “Brexit”. A este ritmo, ser-nos-á dito que, se os europeus não chegarem a acordo sobre a questão da tributação do GAFAM, então a culpa será da Rússia (30). A este respeito, um recente relatório conjunto da CAPS (MEAE) e do IRSEM (Ministério das Forças Armadas) sobre desinformação e “notícias falsas” publicado no site do Quai d’Orsay confunde ingenuidade ou cumplicidade com a vulgata jupiteriana. Tudo isto não é muito sério, sobretudo quando a única arma de sedução em massa disponível é a chantagem e o medo. Não é vencendo o confronto com um inimigo que torna o populismo conveniente, nem praticando a ditadura da aparência e do imediatismo (Aurélie Filippeti no seu último livro Les idéaux) que vamos conjurar o destino funesto que é prometido ao transatlântico Europa que, tal como o Titanic, se dirige para o iceberg. Enquanto não abordarmos seriamente as causas do mal, há boas hipóteses de o ideal europeu dos pais fundadores se desvanecer antes mesmo de o podermos salvar.

A Europa do recurso à chantagem para meter medo

Desde o fim do verão, não se tentam convencer as pessoas, graças à lógica cara a Descartes, da validade da orientação atual (mais precisamente da desorientação) da construção europeia (mais precisamente da desconstrução), mas sim em jogar sobre os medos e atuando sobre três registos complementares.

O regresso de idiotas úteis na cena mediática: pseudo-intelectuais ao serviço da doxa oficial

Ao longo das semanas, descobrimos nas colunas de debates ou ideias dos nossos jornais favoritos alguns avisos sobre velhos cavalos que regressam a casa sobre os perigos do aventureirismo extra-europeu e os benefícios permanentes de uma União Europeia que nos protege de todos os males da terra, uma espécie de vacina que nos protege contra tudo… mas, acima de tudo, contra nada. A União é força, é-nos dito vezes sem conta nas colunas dos media

O presidente do IFAS pede uma tomada de consciência comum para a Europa, que foi maltratada por Donald Trump e Vladimir Putin. Atalho bastante simplista (31). É um filósofo universitário que pede aos europeus “que ousem a afirmar uma identidade europeia comum” (32). Um vasto programa teria dito o General de Gaulle no seu tempo. Uma teia de banalidades (“enquanto a Europa não existir, será impossível travar as tensões nacionalistas e as tentações xenófobas”) de um pensador que nunca assistiu a um encontro europeu em que o procedimento prevaleça sobre a substância. É um investigador sério que pede à Europa que faça política, o que nunca fez (33). Diz-nos coisas surpreendentes se as palavras ainda tiverem significado (“Uma coisa é certa: não pode haver projeto europeu sem uma história e sem símbolos”). Pensa-se que vamos resolver os graves problemas baseados em quimeras? É uma questão ridícula se tomarmos consciência da dimensão da crise europeia. Um investigador chinês (do Ministério do Comércio de Pequim) apela a que “a China e a Europa caminhem lado a lado” (34). Por muito simpática que seja, esta abordagem não tem falta de ironia por parte do representante de um país que tem muito a fazer-se perdoar em termos de comércio internacional.

Quanto ao filósofo e professor Etienne Balibar, ele propõe uma “lei internacional da hospitalidade” que parece desfasada relativamente aos medos dos povos (35). Esquece que os Estados-Membros da União Europeia estão longe de ser unânimes quanto à questão do acolhimento dos migrantes no seu território, como o demonstra a ausência de acordo no Conselho informal de Salzburgo (19-20 de Setembro de 2018) (36). A título de exemplo, a maioria dos franceses (54%) opõe-se a que a França acolha ua parte dos migrantes residentes no Mediterrâneo, de acordo com um inquérito do Ifop para o jornal eletrónico publicado em 18 de Agosto de 2018. Isto é quatro pontos a mais do que em Junho e sete pontos a mais do que há um ano, sinal de uma mudança na opinião francesa sobre este assunto. Claramente, os nossos brilhantes intelectuais não entendem o mundo em que vivem. Inteligência e senso comum não são necessariamente sinónimos nas relações internacionais.

Apela-se a um jornalista, Lionel Duroy, que implore ao Presidente da República: “Mobilize os presidentes de câmara e os prefeitos para que possamos ser o primeiro país da União Europeia a mostrar o caminho. Ordene que todos os nossos portos sejam abertos aos refugiados a partir de agora e que lhes abramos as nossas cidades, aldeias e casas. Este bom apóstolo deveria lembrar-se do que aconteceu em 2017-2018 com o projeto humanista de abertura aos migrantes de Angela Merkel de 2015. Há matéria para reflexão sobre a AFD e Chemnitz.

O aparecimento dos embaixadores franceses de uma enorme clarividência retrospetiva: o regresso dos velhos cavalos de novo

Como se isso não bastasse, tiram-se as naftalinas, aparecem alguns embaixadores franceses reformados que vêm juntar as suas vozes ao coro de pensadores e outros federalistas para nos darem alguns conselhos sábios para sair da crise.

O nosso antigo embaixador na NATO, em Londres, e antigo diretor dos assuntos políticos no Quai d’Orsay, apercebe-se agora (uau!) que “a casa europeia está a arder” e apela à criação de “condições para a soberania europeia”. (38). Nos diferentes e altos cargos que ocupou quando ainda estava no cargo, o que é que ele não terá feito para fazer avançar as questões da moeda, do orçamento, da defesa e da energia? A abordagem deste embaixador dignitário de França a favor da “soberania europeia” não deixa de nos interpelar quando se sabe que entrou para uma grande empresa americana no dia seguinte à sua reforma!

Quanto a um dos seus antigos colegas que terminou a sua carreira em Berlim, este apelou aos europeus para que construíssem uma estratégia de independência (39). Tudo isto está muito bem, mas este embaixador ainda não sabe que os europeus nunca deram demasiada prioridade ao caminho da independência em detrimento do grande irmão americano, favorecendo o caminho da servidão voluntária. E isso não vai mudar no futuro próximo, a menos que haja surpresas improváveis. Isto é evidente na questão da defesa europeia, onde Berlim ainda favorece o caminho da NATO em detrimento da via europeia, como a Chanceler Angela Merkel e a sua Ministra da Defesa, Ursula von der Leyen, regularmente salientam.

Que estes altos funcionários não tenham sido mais corajosos quando tomaram posse! A coragem nunca foi uma virtude cardeal desta velha Casa nas margens do Sena. A sua história do século XX prova-o amplamente. Isto é claramente confirmado pela história mais recente do século XXI, com uma certa dose de riso.

O grande medo da política: uma bofetada magistral

Quanto aos políticos, o seu discurso é uma questão de grau zero de pensamento, na alinha de Richard Ferrand em que este acredita que os eleitores terão uma escolha entre Macron e Salvini (progressistas e nacionalistas) na próxima eleição em maio de 2019 (40). Que fineza de raciocínio entristecedor! Sabemos onde ela ainda não está dirigindo hoje. Ainda não sabemos para onde esta fineza nos poderá levar amanhã. Deixemos de praticar a negação da realidade e a diplomacia do anátema (41). Tentemos compreender antes de denunciar! (42) Vemo-lo hoje nas sondagens de popularidade ( sobretudo de impopularidade) do executivo enredado nos casos Nyssen e Kohler (43), para não mencionar a nomeação insensata de Philippe Besson como Cônsul Geral em Los Angeles através de um concurso de circunstância, a partida do Sr. Hulot, da Sra. Flessel e o romance sem fim do caso Benalla.(44)

Prova de que a União Europeia assusta os nossos dirigentes políticos, ficamos a saber que “os responsáveis políticos têm falta de candidatos de primeiro plano, que receiam envolver-se numa eleição de alto risco “(45). Como se a palavra “União Europeia” fosse uma espécie de quebra-cabeças(46), um espantalho, um palavrão inadequado. A tal ponto que os republicanos (Laurent Wauquiez (47)) e a Républica em Marcha passaram a fazer a corte a Michel Barnier, o “cretino dos Alpes” que não conseguiu livrar-se do espantalho do capitão Haddock, que tem por nome “Brexit” (48). A este respeito, os britânicos levam a União Europeia e os seus 27 passageiros num passeio de barco (49). Theresa May confirmou que não faria concessões sobre o “Brexit”, o que não constituía uma surpresa senão para os euro beatos que ainda não tinham compreendido nada sobre a marcha do caranguejo da União Europeia e a força da diplomacia britânica, por muito enfraquecida que esta possa estar(50). Como o General de Gaulle afirmou no seu tempo, os factos são teimosos. Tão teimosos como os britânicos têm sido desde a aurora dos tempos. Faremos melhor em lembrar-nos disso (51).

Aquando da rentrée politica do seu Movimento (La France Insoumise) no dia 25 de Agosto de 2018 em Marselha, Jean-Luc Mélenchon instruiu um processo em devida forma contra a União, ameaçando Júpiter (NTradutor- Macron considerava-se um Júpiter) com um “forte ataque democrático ” durante as próximas eleições europeias de Maio de 2019. Mesmo tratando-se de um ataque excessivo, contém, no entanto, algumas verdades bem sentidas sobre os males da Europa em 2018. Durante o braço de ferro entre a Comissão Europeia e o Governo italiano sobre a questão dos migrantes (52) com o que é que Bruxelas se entretém? A pensar no futuro da Europa, certamente que não. No grande mercato (alguns evocam o jogo das cadeiras musicais) dos grandes cargos que estarão disponíveis nos próximos meses! (53) Quando é que os nossos dirigentes aceitarão a substituição pelo confronto de ideias em vez da desqualificação pelo anátema? “A partir daí, a política deixa de ser um jogo de invetivas em que todos – os abertos, os fechados, os bons, os maus – desempenham o seu papel. É pobre para a inteligência e é perigoso para a democracia (54). Que preguiça intelectual esta que nos conduz lenta mas seguramente para o abismo jupiteriano!

A cereja em cima do bolo, como sublinha Boualem Sansal, autor de 2084, La fin du monde, com razão: “Sim, a Europa tem medo do islamismo, está disposta a dar-lhe tudo” (Le Figaro, 31 de Agosto de 2018). Não há mais nada a acrescentar sobre o assunto.

O virtual e o real

A “verdade dos factos” tão querida a Hannah Arendt será sempre mais forte do que a natureza aleatória dos testemunhos de eurófilos convictos e obtusos. Estes últimos têm apenas uma expressão ritual nos lábios, retirada do preâmbulo do Tratado fundador de 1957: “Uma união cada vez mais estreita entre os povos da Europa”, numa altura em que a união é cada vez mais frágil, se é que não é já uma União desunião. Isto é designado com sendo a mantra diplomática. Conjugar o destino com fórmulas sacramentais que não enganam ninguém a não ser os crentes da religião europeia não nos leva longe! Condenar a Hungria é excessivo em substância, ineficaz na forma e contraproducente a longo prazo! (55) Com efeito, o pensamento de Aristóteles aplica-se à União Europeia: “O todo é mais do que a soma das suas partes”?

Hoje, mais do que ontem, podemos duvidar! A crise migratória combinada com as invetivas anti-europeias de Donald Trump revelam as insuficiências e os excessos de uma Europa em dificuldades. Uma Europa com a União em perigo, (o termo de desunião seria mais adequado) cada vez mais solta como ela é, antes de uma eventual separação do corpo, ou mesmo de um divórcio total. “Paralisada face aos perigos crescentes, a União Europeia deve deixar de ser o seu melhor inimigo[2]“. Nem todos os caminhos levam a Roma… em Roma, onde a imagem do Tratado se apaga com o passar do tempo (Gérard Bellec).


Notas:

1 Phlilippe Bénéton, Repenser l’Europe, La Croix, 17 septembre 2018, p. 27.
2 Guillaume Berlat, L’Europe du baratinwww.prochetmoyen-orient.ch, 5 mars 2018.
3 Patricia Joly, L’Europe accusée d’incurie sur le climat, Le Monde, 16 août 2018, p. 5.
4 Philippe Bernard, Brexit : « Chacun doit faire une partie du chemin », Le Monde, 19 septembre 2018, p. 4.
5 Cécile Ducourtieux, L’Allemand Manfred Weber veut succéder à Juncker, Le Monde, 6 septembre 2018, p. 4.
6 Stéphane Bandard, Pollution de l’air : l’Europe défaillante, Le Monde, 12 septembre 2018, p. 5.
7 Cécile Ducourtieux, Hongrie : le vote historique du Parlement européen, Le Monde, 19 septembre 2018, p. 23.
8 Jean-Baptiste Chastand, Comment Macron et Orban veulent incarner deux Europes opposéesL’Europe face au clivage Macron-Orban, Le Monde, 7 septembre 2018, pp. 1 et 2.
9 Éditorial, Europe : Orban lâché par ses alliés, Le Monde, 14 septembre 2018, p. 21.
10 Agence Reuters, Les procédures n’ont pas été suivies pour la nomination de Selmayr, 4 septembre 2018.
11 Claude Angeli, La fin d’un rêve franco-allemand de Macron, Le Canard enchaîné, 19 septembre 2018, p. 3.
12 Jacques Julliard, Chers amis anglais, Marianne, 10-16 août 2018, p. 6.
13 Thierry de Montbrial/Thomas Gomart (sous la direction de), Notre intérêt national. Quelle politique étrangère pour la France ?, Odile Jacob, 2017.
14 Renaud Dély, Trump et le tigre de papier européen, Marianne, 10-16 août 2018, p. 4.
15 Philippe de Villiers, Le moment est venu de dire ce que j’ai vu, Albin Michel, 2016, p. 239-240.
16 Guillaume Berlat, L’Europe des somnambuleswww.prochetmoyen-orient.ch, 8 janvier 2018.
17 Cécile Ducourtieux, Jean-Claude Juncker prône la fin du changement d’heure en Europe, Le Monde, 1er septembre 2018, p. 5.
18 Sylvie Kauffmann, L’affaire iranienne qui ne passe pas, Le Monde, 30 août 2018, p. 21.
19 Alain Frachon, Iran, vent de tourmente, Le Monde, 14 septembre 2018, p. 21.
20 Jean-Baptsite Chastand/Marc Semo, Balkans : Bernard Kouchner veut « bouger les frontières », Le Monde, 7 septembre 2018, p. 4.
21 Éditorial, Google, Facebook : menaces sur l’information, 12 septembre 2018, p. 23.
22 Fabrice Fries (propos recueillis par François Bougon et Alexandre Piquard), « Les GAFA doivent accepter un partage de la valeur », Le Monde, Économie & Entreprise, 12 septembre 2018, p. 7.
23 Jean-Noël Tronc, Droit d’auteur : nos eurodéputés doivent voter pour l’Europe de la création, Le Monde, 12 septembre 2018, p. 21.
24 Cécile Ducourtieux, Le Parlement européen sanctionne Orban, Le Monde, 14 septembre 2018, p. 2.
25 Damien Leloup/Martin Untersinger, L’Europe adopte la directive sur les droits d’auteurs, Le Monde, Économie & Entreprise, 14 septembre 2018, p. 8.
26 Jack Dion, Face à Trump, l’Europe est un tigre de papier, Marianne, 31 août-6 septembre 2018, p. 60.
27 Frédéric Faux, L’extrême droite ne parvient pas à bouleverser le paysage politique, Le Figaro, 10 septembre 2018, p. 9.
28 Marion Mourgue, Les juppéistes planchent sur l’Europe sans se mettre d’accord, Le Figaro, 10 septembre 2018, p. 8.
29 Jean-Pierre Stroobants, Bruxelles s’inquiète des risques de manipulation des élections, Le Monde, 6 septembre 2018, p. 4.
30 Jean-Pierre Robin, La vraie puissance appartient aux Gafam, pas à Donald Trump, Le Figaro, 10 septembre 2018, p. 23.
31 François Géré, Assaut général contre l’Union européenne, Le Monde, 9 août 2018, p. 21.
32 Claude Obadia, Oser affirmer une identité européenne commune, Le Monde, 12-13 août 2018, p. 23.
33 Christian Lequesne, L’Europe doit refaire de la politique, Le Monde, 12-13 août 2018, p. 23.
34 Yao Ling, Guerre commerciale : la Chine et l’Europe doivent marcher main dans la main, Le Monde, 16 août 2018, p. 21.
35 Etienne Balibar, Pour un droit international de l’hospitalité, Le Monde, 17 août 2018, p 23.
36 Gabriel Grésillon/Catherine Chatignoux, Brexit, migrations : les Européens prisonniers de leurs contraintes politiques, Les Échos, 21-22 septembre 2018, p. 10.
37 Lionel Duroy, « Soyez Churchill, soyez de Gaulle, monsieur le Président, plutôt que Chamberlain », Le Monde, 20 septembre 2018, p. 21.
38 Gérard Errera, En Europe, la maison brûle, Les Échos, 18 juillet 2018, p. 8.
39 Bernard Faubournet de Montferrand, Face à l’Amérique de Trump, construire dans la durée une stratégie d’indépendance, Le Figaro, 26 juillet 2018, p. 19.
40 Éditorial, Macron face à l’axe Salvini-Orban, Le Monde, 1er septembre 2018, p. 17.
41 Ivan Rioufol, Le mur des bernés, Le Figaro, 21 septembre 2018, p. 19.
42 Bertrand Mathieu, Crise des démocraties en Europe : comprendre avant de dénoncer, Le Figaro, 20 septembre 2018, p. 16.
43 Bonne rentrée Jupiter, Marianne, 24-30 août 2018, p. 1.
44 Benalla les rend nerveux, Le Canard enchaîné, 19 septembre 2018, p. 2.
45 Olivier Faye/Astrid de Villaines, Européennes : les partis cherchent toujours leur tête de liste, Le Monde, 21 août 2018, pp. 1 et 6.
46 S.Q., Européennes. Le casse-tête, Marianne, 23-30 août 2018, p. 14.
47 Laurent Wauquiez (propos recueillis par Marion Mourgue), « Emmanuel Macron conduit la France dans le mur », Le Figaro, 25-26 août 2018, p. 4.
48 Olivier Faye, Michel Barnier très courtisé, à la fois par LR et LRM, Le Monde, 21 août 2018, p. 6.
49 Éric Albert/Cécile Ducourtieux, Quatre mois pour trouver un accord sur le Brexit. Le compte à rebours s’accélère pour parvenir à un accord sur le divorce, Le Monde, Économie & Entreprise, 2-3 septembre 2018, pp. 1 et 3.
50 Cécile Ducourtieux/Jean-Pierre Stroobants, Brexit : les Vingt-sept ne cèdent rien à Theresa May, Le Monde, 22 septembre 2018, p. 5.
51 Éditorial, Brexit : l’art du deal, Le Monde, 22 septembre 2018, p. 24.
52 Anne Rovan, Bruxelles balaie les « menaces italiennes », Le Figaro, 25-26 août 2018, p. 7.
53 Anne Rovan, Coup d’envoi du grand jeu des chaises musicales européennes, Le Figaro, Économie, 25-26 août 2018, p. 23.
54 Vincent Trémolet de Villiers, Une droite qui pense ?, Le Figaro, 25-26 août 2018, p. 1.
55 Renaud Girard, Ne soumettons pas l’Europe à la noire dialectique « progressistes »/ « nationalistes », Le Figaro, 18 septembre 2018, p. 17.
56 Patrick Saint-Paul, L’Europe dans les limbes, Le Figaro, 20 septembre 2018, p. 1.


O próximo texto desta série será publicado amanhã, 22/07/2019, 22h


Tradução de Júlio Marques Mota – Fonte aqui

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