UMA CARTA DO PORTO – Por José Fernando Magalhães (299)

 

 

FÉRIAS (1)

 

(Texto proferido no âmbito da “FOZ LITERÁRIA”, em Maio de 2019)

A Praia de Gondarém tem cerca de 155 metros de extensão de areal e foi conhecida durante muitos anos como Praia da Conceição e mais tarde como Praia do Magalhães, a primeira, tia do segundo, pertencentes a uma família de banheiros que durante décadas tiveram a concessão de parte das praias da Foz e de Nevogilde.

Ainda não tinha um mês de vida, e já eu frequentava a praia de Gondarém. Uma grande parte das famílias tradicionais da Foz, daquela altura, frequentavam esta praia, a da Luz ou a dos Ingleses. Eram quase como umas praias de elite, e, de uma forma ou de outra, toda a minha família paterna o fazia, embora quase exclusivamente na de Gondarém.

A Praia de Gondarém, tinha muito menos areia do que tem agora. Não a enchiam como agora se fez, e apesar de menos apelativa, tinha muito mais encanto.

Tínhamos uma barraca, das grandes, invariavelmente situada, ano após ano, no mesmo sítio da praia. Era a terceira, à direita de quem olha para o mar, a seguir à primeira abertura entre barracas, logo a seguir ao fim das escadas em redondo, e em frente à rampa norte. Se não me engano, tinha o número 29. Não tinha que enganar.

Os vizinhos de um lado e do outro eram sempre os mesmos. Ao fim de uns anos, eram como que da família. A do senhor Andrade, era uma delas.

O senhor Andrade habitava, três meses em cada ano, a barraca ao lado da nossa. A nossa nuns anos à direita, noutros à esquerda, a dele, sempre no mesmo local. Diziam que a barraca, e o pano que a cobria, eram mesmo dele. A nossa era alugada, como todas as outras existentes.

Na nossa barraca acabávamos por estar muitos, pelo que era uma das maiores barracas que por lá havia. Entre primos e primas, tias e tios, os meus pais e uma empregada que nos ia servir o almoço, chegávamos a ser dezassete, mas, ao mesmo tempo, nunca mais de dez. A barraca do senhor Antero, que servia só duas pessoas, era ainda maior que a nossa. Era a maior de todas, e o pano que a cobria era diferente de todas as outras, com riscas mais finas e tricolores, enquanto as restantes tinham riscas largas e bicolores.

Durante os três meses que durava a estação de veraneio, encontrávamo-nos, pontualmente às nove horas de cada manhã, exceptuando aos Domingos.

“Bom dia senhor Andrade” 

“Bom dia meninos, bom dia minha senhora.”

“Bom dia dona Maria.”

“Bom dia minha senhora, bom dia meninos.”

“Hoje é que está bom!”

“É verdade, está um dia bonito!”

“O marido, está bem?”

“Está sim, obrigada senhor Andrade, vem logo à tarde para nos vir buscar.”

E as conversas, que começavam sempre assim, lá derivavam para outros assuntos, comezinhos, banais. Enfim, conversas de praia.

O que me lembro do senhor Andrade é muito pouco. Já tinha alguma idade, talvez muito perto dos oitenta anos, quando eu ainda era uma criança. Era baixo, careca e um pouco cheio de carnes, mas muito musculado. Era um nadador exímio e resistente. Provavelmente teria sido atleta de competição quando fora novo. Todos os dias nadava naquelas águas muito frias, da Foz do Douro, mais de uma hora seguida de manhã e outra de tarde, numa toada lenta e constante, de um lado para o outro. Era um regalo vê-lo. Como era também um mimo apreciar o amor, o desvelo e o carinho com que a dona Maria o preparava para o banho e o ajudava no fim.

Como muita gente fazia naquela época, sendo o senhor Antero careca, deixava crescer de um dos lados, onde ainda tinha cabelo, uma longa madeixa que, serpenteava, tapando grande parte do cocuruto da cabeça. Era a dona Maria que lhe serpenteava o cabelo, e, antes do banho de mar, lhe colocava uma touca de pano, que ela mesma fizera, que colando-se muito bem, qual segunda pele, evitava que esse serpenteado se desfizesse. No fim do banho, era o movimento contrário, de tirar a touca e refazer o que estivesse mal. Isto acontecia duas vezes por dia, todos os dias.

Nunca me cansei de apreciar essa demonstração, diária, de amor.

Bem …

Os donos, concessionários em parceria com o sr. Francisco, e que detinham a parte melhor e maior da praia, eram parentes nossos, primos direitos de meu pai, e assim, era como se a praia também fosse minha.

Toda a família chegada do meu pai vinha, no mês de Agosto, para aquela praia, para a nossa barraca. Tínhamos direito a ela durante os três meses de Verão, de 15 de Junho a 15 de Setembro. Abancavam em nossa casa, vivíamos numa casa na esquina do início da Rua de Gondarém, durante os primeiros anos da minha infância, e depois, mais tarde, vinham diariamente de Paços de Ferreira, de onde saíam antes das oito horas da manhã, no carro de meu avô, atulhado de crianças, umas por cima das outras em duas e três camadas. Chegaram a vir sete primos meus, mais a tia, sem nome, simplesmente tia, que conduzia, e a outra tia A, mãe de três dos pirralhos.

A viagem diária que durava perto de uma hora para cada lado, deveria ter sido sempre uma verdadeira aventura.

Na “minha” praia, para além do primo António, dono da praia, e de sua mulher a prima Zulmira, e dos filhos deles, havia, como não poderia deixar de ser, o que hoje se chama o nadador salvador. Na altura não se chamava assim, era simplesmente o banheiro, que saberia ou não nadar.

Na praia de Gondarém, o banheiro era o sr. Joaquim Lavadeira, ou simplesmente o sr. Joaquim.

Lavadeira não era o nome dele, não sei de onde lhe veio a alcunha, mas tinha um irmão, José, que a usava também.

Hoje, a praia de Gondarém já não é o que era, poucos se recordam ou falam dos tempos passados até aos anos setenta ou mesmo oitenta e os novos nem imaginam a qualidade que tinha. Já quase só lá páram os turistas. As pessoas daqui vão até à esplanada, mas …. Fazer Praia não … que isso é no Algarve ou noutras paragens mais badaladas. A agua é fria … a areia é grossa …

Bem …

Toda a minha vida conheci o sr. Joaquim. Na altura, estava omnipresente na praia.

Durante anos, até muito perto do seu falecimento, encontrava-o com frequência, na Avenida Brasil, atarefado numa qualquer incumbência.

Homem rude, de maneiras duras, adorado por toda a gente, era ele que dava banho às crianças que ainda não sabiam nadar, e também era ele que as entrosava nas práticas e lides da natação. Sempre depois de serem respeitadas as três horas inteiras de digestão, não fosse o diabo tecê-las. Tinha um método peculiar de dar banho aos mais pequenos, e que mais tarde fiquei a saber que era usual na maior parte dos banheiros, que consistia em colocar a mão sobre a cara do puto, tapando-lhe a boca e o nariz, e mergulhá-lo de costas e rapidamente na água do mar, mesmo onde as ondas rebentavam. Os berros, gritos de gelar qualquer um, dos miúdos, eram mais que muitos, e as mães, à beira da água, quase sem molharem os pés, exultavam com o banho dos seus meninos, abafando-os depois, na toalha seca, e levando-os de volta à barraca, findo o banho, no meio de carinhos, pequenas risadas e palavras meigas, para lhes darem o lanche, que já eram horas.

Para ensinar a nadar, o sr Joaquim, tinha outros métodos. Depois de ensinar, no seco da areia, os movimentos necessários à boa execução do acto de nadar, levava os ganapos, aos três, quatro e cinco de cada vez, no barco a remos pintado de azul claro e escuro, para uma zona do mar que distaria entre trinta e cinquenta metros da praia. Aí, amarrava uma corda à cintura do primeiro, e dizia-lhe para saltar para a água. Claro que poucos o faziam à primeira, pois o escuro da água e o medo de afogamento era superior à valentia de qualquer um, e assim, se não ia de livre vontade, ia de empurrão. O esbracejar assustado, o bater de pés aflito, era o que se via de imediato, logo seguido de um acalmar gradual, quando cada um verificava que o sr Joaquim segurava firmemente na corda, e não deixava ninguém ir ao fundo. E realmente tal nunca aconteceu!

Poucos queriam repetir a façanha no dia seguinte, mas a maior parte, ou mesmo a totalidade, voltava, pois que era assim que se aprendia ali, e as mãezinhas estavam à beira da água, a ver os seus pimpolhos, e de braços cruzados, molhando os pés, iam comentando as façanhas dos meninos às outras mães enquanto não largavam os olhos do barco, não fosse acontecer algo de menos bom.

Ao longo dos anos, centenas de cachopos e cachopas, passaram pelas mãos do sr. Joaquim, na estreia de cada um nas lides do banho de mar e da natação.

A parte mais engraçada e pitoresca de tudo isto, mesmo até caricata, consistia no facto de o sr. Joaquim, quase não saber nadar. Nada que afligisse fosse quem fosse!

 

-continua na carta nº 300-

 

GILREU

 

MOLHE DE CARREIROS

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About José Fernando Magalhães

Escrevo e fotografo pelo imenso prazer que daí tiro

4 comments

  1. Pingback: UMA CARTA DO PORTO – Por José Fernando Magalhães (299) | joanvergall

  2. AB

    É bom recordar quando as memórias dizem respeito a momentos felizes.

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  3. Adriano Silva

    Boas memórias!

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  4. Maria Filomena MCS

    Adorei a história da praia!

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