A Europa impotente face à perspetiva de uma tragédia global ? Texto 9. Coronavirus, União Europeia dividida: o abismo político de um continente. Por Roberto Ciccarelli

Berlim encontro refazer o muro

Um mês de março intenso em reuniões, em tragédias, em desacordos afirmados, em acordos adiados, em ameaças feitas e desfeitas ou adiadas, tudo isto se passou na União Europeia que se mostra claramente impotente face à tragédia Covid 19 e à crise financeira que nos bate à porta com uma enorme violência.

Um relato destes dias que mais parecem dias de loucura é o que aqui vos  queremos deixar nesta pequena série de textos intitulada A Europa impotente face à perspetiva de uma tragédia global ?

31/03/2020

JM

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Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

Texto 9. Coronavirus, União Europeia dividida: o abismo político de um continente.

Roberto Ciccarelli Por Roberto Ciccarelli

Publicado por Il Manifesto em 28/03/2020 (ver aqui)

Reações em cadeia. O impasse nas negociações sobre o compromisso mínimo entre o Mecanismo de Estabilidade Europeu (Mes-Fundo de Resgate dos Estados-MEE) e o “Coronabond”. A cimeira entre os chefes de Estado optou por não decidir e adiou as discussões por duas semanas. O confronto é muito duro e a todos os níveis. No centro está o gigante relutante: a Alemanha, liderada por Angela Merkel. Sanchez (Espanha), Costa (Portugal), Sassoli (Parlamento Europeu) estão “Contra a miopia e o individualismo”.

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A chanceler alemã Angela Merkel  © Ap

No Conselho Europeu de quinta-feira, os 27 chefes de Estado e de governo acabaram com um entendimento: adiar em duas semanas qualquer decisão sobre a crise económica induzida pelo coronavírus em duas semanas. E, muito provavelmente, não será suficiente um mandato sem orientação política dado aos Ministros da Economia para encontrar uma solução política para o falso dilema: melhor o Mecanismo de Estabilidade Europeu (MEE, apelidado também de  “Fundo de Resgate dos Estados”) ou os “coronabonds” renomeados “Eurobonds” ou “European Recovery Bond” (que significam coisas diferentes). O custo incalculável de uma recessão produzida por um congelamento da produção e as consequências a longo prazo de uma crise capitalista de nova geração podem ser enfrentadas através da constitucionalização de um novo governo supranacional que inclua, para além da alteração do papel do BCE como credor de último recurso, uma democracia económica e social a nível europeu.

ESTA, OU OUTRAS soluções, não estão ao alcance de um compromisso entre os verdadeiros sujeitos de um ectoplasma político chamado “União Europeia”: os governos em funções neste momento. Durante anos, nesta modesta cena, não tínhamos visto o confronto que relatámos ontem. Nem mesmo o já exemplar confronto entre Wolfgang Schäuble e a Grécia de Tsipras e Varoufakis, narrado pela última vez no seu livro “Adultos na sala”, pode ser comparado ao confronto entre Itália, França, Espanha, Bélgica, Luxemburgo, Grécia, Irlanda, Portugal e Eslovénia, por um lado, e Holanda, Áustria, com a Alemanha relutante de Angela Merkel como pano de fundo, mas certamente o principal ator neste impasse.

SE NÃO ESTIVÉSSEMOS no meio da mais grave crise sanitária, humana, social e política dos últimos 75 anos na Europa, as duas semanas para encontrar um acordo sobre uma combinação entre um actor de austeridade e um princípio de mutualização da dívida a nível europeu, ou seja, entre “MEE” e “Coronabond”, esta situação seria uma questão de roleta russa. O único sentido que agora tem a espera de duas semanas para chegar a tal compromisso parece ser a aposta num cálculo macabro: à medida que o contágio cresce em países que até agora foram poupados à fúria do vírus, mais crescerá a possibilidade de um entendimento.

Não é mais a teoria covarde do “risco moral” censurado pelo espírito protestante weberiano dos capitalistas burgueses do Norte contra as alegadas “cigarras” mediterrânicas  que esperariam o dinheiro das “formigas” aumentando a dívida pública. A fábula de Esopo é uma falsa representação de uma relação de interdependência e domínio político-económico: os governantes dos países fora da Alemanha são tão impiedosos quanto os mestres que falam a língua de Goethe, as cigarras adotaram as mesmas reformas neoliberais das formigas com mais fanatismo, menos resultados e com consequências ainda piores no presente e no futuro. Esta relação será abalada definitivamente por esta nova crise que põe à prova as relações económicas pré-existentes, mas sobretudo a vida das populações, agora em emergência e amanhã em recessão.

PENSAR, neste momento, que se é capaz de restaurar as velhas condições após a crise (as formigas) ou pensar em continuar com os pequenos passos de tímidos e sussurrados ajustes sem visão e sem política (as cigarras) significa alimentar outros compromissos, não encontrar uma solução para o futuro. A busca por uma linha comum dentro de duas semanas, na esperança de que a Alemanha encontre a quadratura do círculo, acontece no limite do niilismo. É apostar na contagem dos infetados, dos curados e dos mortos, na evolução continental da infeção, nas estratégias de mera sobrevivência. A política europeia chegou hoje a este abismo moral.

SINAL DE UMA POLÍTICA EMBALADA, a porta-voz de Angela Merkel conseguiu ontem dizer que a Alemanha é solidária com a Itália e a França porque está a acolher pacientes que não podem ser tratados em cuidados intensivos. A solidariedade é boa, mas não é só isso que se pede a este país. Ontem Merkel e os seus aliados também foram alvo do presidente do Parlamento Europeu, David Sassoli: “A miopia e o egoísmo de alguns governos devem ser combatidos. “Solidariedade não pode ser uma palavra usada sem compromisso, deve ser provada com factos”, disse Josep Borrell, Alto Representante da UE para a Política Externa. “A escolha é entre a solidariedade na Europa e o individualismo”, disse o primeiro-ministro espanhol Pedro Sanchez. O primeiro-ministro português António Costa classificou a posição holandesa como “repugnante e mesquinha”. E o ministro holandês Wopke Hoekstra propôs colocar sob investigação os estados que não têm margem orçamental para enfrentar a pandemia.

O JOGO É SEMPRE o mesmo – disse ontem Romano Prodi, ex-presidente da Comissão Europeia – A Holanda ataca e a Alemanha é quase que obrigada a segui-la. O ministro holandês é um pesadelo”. Assim, acordámos no dia seguinte e verificamos estar no ponto de partida de há vinte anos atrás. Os “pró-europeus” lutam por uma opção mínima, realista, mas difícil. Os “nórdicos” não pretendem partilhar nenhum risco financeiro mesmo sob os golpes de uma crise apresentada como “exógena” aos parâmetros da sua visão da economia como um facto moral. Em vez disso, esta é uma crise sistémica que os pode afundar. Agora não, mas no caso de os países que hoje consideram “culpados” por estarem em dívida saltarem.

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O autor: Roberto Ciccarelli é filósofo, blogger e jornalista, escreve para o Il Mannifesto. Ele publicou, entre outros, Il Quinto Stato (com Giuseppe Allegri), La furia dei cervelli (com Giuseppe Allegri, 2011), 2035. Fuga do precariato (2011), e Immanenza. Filosofia, direito e política da vida do século XIX ao século XX (2009). Ele está entre os editores do blog La furia dei bravelli. O seu último livro é Forza lavoro. Il lato oscuro della rivoluzione digitale (Derive Approdi, 2018).

 

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