A GALIZA COMO TAREFA – abaladiço – Ernesto V. Souza

Se lembrarem, no Auto da Lusitânia intercalado com o entremez Todo-o-Mundo e Ninguém, de 1532, decorre este pequeno diálogo de carácter plenamente clássico e sapiencial:

[…]

Todo o Mundo:
e meu tempo todo inteiro

sempre é buscar dinheiro
e sempre nisto me fundo.

Ninguém: Eu hei nome Ninguém,
e busco a consciência.

Belzebu: Esta é boa experiência:
Dinato, escreve isto bem.

Dinato: Que escreverei, companheiro?

Belzebu: Que ninguém busca consciência.
e todo o mundo dinheiro.

[…]

Para além de outros momentos célebres no jogo de equívocos nominal laértida, este fecho Vicentino, perfurado por esse estilo misturado e espírito dacavalo entre épocas, casa bem neste presente que também esvoaça num momento de confusa transição, no que se amoream ante as portas e ouvidos fechados como muros as urgências mais gritantes de reformas.

Battering Ram vintage engraving
Attack on the Walls of a besieged Tower (shows a battering ram) Gravado, 1845. Fonte wikipedia,

Nova normalidade dizque. Mas a pandemia dinamitou a normalidade, o hábito, o ritmo, as sequências e processos que se seguiam, o consagrado, o institucionalizado, e o banalizado.

Paramos. E agora a questão é se nos metemos nelas e como decidirmos as reformas.

A mudança é necessária, ai é… isso é cascavel no gato; mas mudança a sério apenas compensa quando é simplesmente inapelável; dado que exige mudanças de funcionamento, de procedimento que demandam, ou por sua vez modificam, as necessidades de recursos.

E talvez não fosse preciso tanto gasto, mas sim pensar e repensar as reformas antes, tomando tempo e pensando modularmente, com a olhada e o benefício em décadas por chegar. Mas não é assim que na história acontece. Antes bem, chega o dia e é depois que as cousas se improvisam. Às carreiras, com mais gasto e mais de lamento para apagar as vozes dos agoireiros e o dinheiro tintinante que por toda parte ressoa e muda, aí sim ligeiro, de bolso.

A invenção e popularização da imprensa partiu em duas a história da educação, das bibliotecas e das universidades. Já antes as mudanças sociais e a evolução dos auctoristas (amadores individuais) a humanistas (o coletivo de profissionais) iam advertindo que a transmissão e o próprio conhecimento (a história, as ciências, a medicina, as línguas) mudara.

Emergiram com a imprensa as edições humanísticas, a filologia, a crítica, a procura da edição normalizada, cuidada e mais correta, e também a competência, as notas críticas, os anexos, os prólogos e comentários, e com elas o livro moderno e o manual. Ao mesmo tempo a pedagogia e a ciência ensaiavam métodos inovadores nos livres colégios dos humanistas. Apareciam nas bibliotecas novos sistemas classificativos, armazenistas e de ordem planificado ante a avalanche de materiais.

Porém a pécia com tanto e quanto que significava de modelo, ideia de negócio, ritmos e sistematização do mundo educativo universitário resistiu bem de tempo e resistiu-se a ser substituída. O valor do manuscrito, o domínio da letra, o negócio da cópia autorizada, a temporalização na transmissão dos cadernos, era uma parte significativa do processo e valor do aprendizado e também um negócio. A universidade foi abalando e foi mudando. Tardou cousa de um par de séculos, mas deixou de ser medieval e passou a renascentista. Modificou o modelo de ensino e de negócio.

Internet leva décadas perfurando os muros e batendo às portas dos sistemas educativos. Os sistemas resistem-se às mudanças, e na defesa dos ritos e das autoridades, os triunfadores foram as grandes editoras e revistas, as grandes empresas de softwares privativos que souberam contornar as grandes reformas democráticas da Internet, para dar os serviços adaptados que permitiram não mudar nada ou apenas. Mais burocracia, mais indicadores de processo, mais discurso neo-liberal, mais capital. Porém, ordem, controlo e autoridade.

A crítica humanista moderna continua batendo à porta, com os seus modelos distribuídos e softwares livres, livres acessos e produção científica por fora dos sistemas regulares. Berners-Lee e as suas hostes aí no muro. Por entanto o modelo educativo, da creche aos doutoramentos e além,  ficou em parálise. Até setembro, até que morra o vírus ou se encontre uma vacina. Porém, o problema não é voltar a uma normalidade impossível. A realidade é abaladiça. E a questão é sempre a mesma, no entre-épocas, começarmos o salto de fase, entrarmos no renascimento. Deixarmos a pécia e os livros cadeados e controlados, abandonarmos os sistemas medievais vigentes.

Pelo momento contemplamos as prioridades na ladaínha informativa: futebol, turismo, construção, bares e discotecas. Sentaremos, enfim, a esperar pela revolução humanística 2.0 entrando no ensino e nas  universidades. Mas não se apressurem. O primeiro que se movimente, claro, perde. Que ninguém busca consciência e todo o mundo dinheiro.

1 Comment

  1. Ernesto é uma fonte na que jorra sabiduria em abundância, para deleite e aprendizado dos seus afortunados leitores, e entre pincelada e pincelada, coloca-nos no presente desconfortável e inseguro que vivemos e sofremos de um jeito preciso como cirurgião que opera o paciente e corta com exata precisão, para podermos perceber a realidade que sofremis sem sermos quem da apreixar.

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