Tempos de pandemia, de disfuncionamento da justiça, de disfuncionamento dos mercados, de apostas selvagens em Wall Street (2/5). Por Júlio Marques Mota

Nota do editor

Dada a extensão deste texto de introdução à série Tempos de pandemia, de disfuncionamento da justiça, de disfuncionamento dos mercados, de apostas selvagens em Wall Street, o mesmo será editado em 5 partes. Hoje é publicada a parte II.

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Tempos de pandemia, de disfuncionamento da justiça, de disfuncionamento dos mercados, de apostas selvagens em Wall Street (2/5)

 Por Júlio Marques Mota

                                        Coimbra, 30 de Maio de 2021

 

Parte II – À procura do que não encontro: a racionalidade dos e nos mercados financeiros

Se tudo é permitido nada pode então ser previsível, a menos que “o tudo é permitido” seja apenas para alguns, para os fabricantes da (des) Ordem estabelecida e para aqueles que filosoficamente sustentam as suas teses, os seus mentores. Sobre esta matéria, veja-se, por exemplo o que nos diz David Einhorn diretor do fundo de cobertura Greenlight Capital, Inc. no seu relatório de 15 de Abril de 2021:

Alguém nos indicou a Hometown International (HWIN), que possui uma única charcutaria [a Hometown Deli] na zona rural de New Jersey. A charcutaria tinha $21.772 em vendas em 2019 e apenas $13.976 em 2020, uma vez que esteve encerrada devido ao COVID de Março a Setembro. A HWIN atingiu um limite de mercado de $113 milhões em 8 de fevereiro. O maior acionista é também o CEO/CFO/Tesoureiro e Diretor, que por acaso é também o treinador de luta livre da escola secundária ao lado da charcutaria. O pastrami deve ser espantoso. É provável que os pequenos investidores que são fortemente atraídos para estas situações acabem por ser prejudicados. No entanto, os reguladores – que supostamente estão a proteger os investidores – parecem não estar presentes nem terem curiosidade em estarem. De uma perspetiva tradicional, o mercado está disfuncional e possivelmente em processo de rutura total.” (…)

Outro exemplo recente é a investigação de Tether pelo Gabinete do Procurador-Geral de Nova Iorque. Tether é uma moeda criptográfica que vale sempre um dólar (o valor é “amarrado” ao dólar). Tether é uma das maiores moedas criptográficas com cerca de 40 mil milhões de dólares em circulação, mas não foi auditada nem regulamentada de forma séria. Em teoria, a moeda Tether é suposto ter um dólar de suporte por cada Tether emitido. Só que não o fez, pelo menos quando a questão foi investigada. (…)

A Procuradoria mandou fechar Tether? Alguém foi preso ou até perdeu o seu emprego? A infraestrutura reguladora foi alterada para garantir que isto não volte a acontecer? Não, claro que não. A Procuradoria determinou uma penalização de 18,5 milhões de dólares e Tether concordou em cessar “qualquer atividade comercial com os nova-iorquinos”. Foi como se tivesse sido dito a Bernie Madoff para pagar uma pequena multa e deixar de andar a enganar os nova-iorquinos, mas para ir em frente e divertir-se com a multidão de Palm Beach.

Se o Congresso quiser compreender porque é que a GME fez o que fez, ou mais recentemente como é que o fundo Archegos encurralou o mercado num punhado de punhado de ações [3], seria melhor chamar à responsabilidade os reguladores ausentes e aqueles que filosoficamente os apoiam e sustentam as suas teses. [4] (O sublinhado é nosso)

 

Mas um mundo sem valores é um mundo em que dominam os mais fortes, os que estarão sempre para lá das regras estabelecidas, porquê então o corpo de regras que caracterizam a regulação? Simples, muito simples a resposta: por um lado, para serem cumpridas por aqueles a quem quase nada é permitido para que o sistema sobreviva e se reproduza e, por outro lado, para serem as balizas daqueles a quem tudo é permitido, das regras que se eles forem inteligentes podem não ter que obrigatoriamente cumprir, bastando contorná-las.

Mas o texto de David Einhorn acima citado levanta muitas questões e uma delas é um outro teorema, central nos mercados financeiros a que podemos chamar Teorema Disney. Sobre o tema da charcutaria acima citado por Einhorn, diz-nos Michael Linhorst, da Yale Law School e referindo-se à mesma charcutaria:

Richard Cazier, que estuda relatórios financeiros e litígios de valores mobiliários na Universidade do Norte do Texas, afirmou que a charcutaria pode ser um outro esquema do tipo “fábrica de conchas, fábrica de falsas fábricas “, mas que outros fatores provavelmente desempenharam um papel no aumento do valor das cotações das ações da charcutaria Hometown Deli. As suas ações não eram muito transacionadas nos anos que antecederam a sua subida ao estratosférico nível atual e basicamente não receberam qualquer escrutínio (até recentemente) dos reguladores do mercado, investidores institucionais, ou quaisquer outros estranhos. “Portanto, basicamente, isto parece uma combinação de má conduta, má governação, falta de divulgação, falta de supervisão, e falta de investidores sofisticados”, disse ele. ( O sublinhado é nosso)

Isto leva-nos de volta à queixa de David Einhorn sobre a “quase anarquia” e a irracionalidade dos mercados. O preço das ações da Hometown subiu constantemente de $1,50 no final de 2019 até atingir cerca de $13,90 por ação no início deste ano, sem que se vislumbre uma qualquer razão para tal, dando à empresa uma capitalização de mercado de mais de $100 milhões. Talvez, sugeriu Tony Loviscek, presidente do Departamento de Finanças da Universidade de Seton Hall, Hometown tenha sido impulsionado pelo mesmo tipo de apostadores que enviaram a GameStop para a Lua. “Estão a invocar a primeira lei da Disney: “Wishing will make it so” – “A desejar se transforma o desejo em realidade” [5]. Este é o nosso segundo teorema.

Mas como se isto não chegasse, a valorização atual da Hometown International, que é uma charcutaria, não será agora de 100 mil milhões, mas de cerca de 20 vezes mais! Como?

Uma imagem da charcutaria Hometown Deli

 

Sobre esta charcutaria vejamos o que nos diz Matt Levine [6], antigo banqueiro de Goldman Sachs e hoje um analista de referência sobre Wall Street:

“… Hometown International Inc., uma charcutaria  em Paulsboro, New Jersey, que é uma empresa cotada em bolsa no montante de 100 milhões de dólares por razões muito desconcertantes, teve outro bom dia ontem. Após negociar 27.381 ações, no total, desde o início de 2021 até à última quinta-feira, uma média de apenas 353 ações por dia, negociou 42.762 ações na sexta-feira – depois de David Einhorn ter apontado a sua valorização como um exemplo de excesso de mercado atual – e depois 14.989 ações ontem. Fechou a $13,01, ligeiramente acima do fecho de $12,99 de sexta-feira, ligeiramente abaixo do fecho pré-Einhorn de $13,50 de quinta-feira.

Na quinta-feira passada, a charcutaria era uma empresa cotada em bolsa de 100 milhões de dólares porque se faz esse cálculo multiplicando o número de ações em circulação pelo preço de negociação mais recente da ação, mesmo que a ação seja muito pouco ou quase nada transacionada; aqui, o número de “100 milhões de dólares” veio da simples matemática. A ação da Hometown valia $13.01 por ação e este o preço de fecho daquele dia, o que multiplicando pelo número de ações emitida que é de 7.8 milhões representa cerca de 100 milhões. Têm-se verificado transações no valor de cerca de 3.900 dólares por dia. Mas agora é um pouco mais. Em vez de negociar um par de milhares de dólares de ações por dia, negociou ontem o valor $212.799 no valor de ações. Em vez de obter a sua valorização muito elevada a partir de um pequeno número de transações entre, presumivelmente, iniciados, recebeu muita atenção do público, ao mesmo tempo que manteve praticamente a sua valorização.

Na verdade, lamento dizer-vos isto, mas a avaliação é realmente muito mais elevada do que isso. Do formulário 10-K [N.T. relatório anual exigido pela U.S. Securities and Exchange Commission (SEC), que fornece um resumo completo do desempenho financeiro de uma empresa] da Hometown, apresentado no mês passado:

A 15 de Abril de 2020, a Empresa emitiu a cada acionista de registo na referida data: (i) cinco Warrants Classe A, que dão direito ao seu titular a adquirir cinco ações ordinárias da Empresa ao preço de exercício de $1,25 por ação (os “Warrants Classe A”), (ii) cinco Warrants Classe B, que dão direito ao seu titular a adquirir cinco ações ordinárias da Empresa ao preço de exercício de $1,50 por ação (os “Warrants de Classe B”), (iii) cinco Warrants de Classe C, conferindo ao seu titular o direito de adquirir cinco ações ordinárias da Empresa ao preço de exercício de $1,75 por ação (os “Warrants de Classe C”), e (iv) cinco Warrants de Classe D, que conferem ao seu titular o direito de adquirir cinco ações ordinárias da Companhia ao preço de exercício de $2,00 por ação (os “Warrants de Classe D”), com cada warrant a expirar a 15 de Abril de 2035 (coletivamente, os “Warrants”).

A matemática simples da avaliação é que Hometown vale $13,01 (preço de fecho de ontem) vezes 7,8 milhões (o número de ações em circulação), ou cerca de $101 milhões. Mas normalmente as empresas são avaliadas com base no seu valor patrimonial totalmente diluído, tendo em conta as opções sobre acções e os warrants. Aqui, existem 7,8 milhões de ações, mas também um absurdo de 155,9 milhões de warrants. Isto representa um valor patrimonial totalmente diluído de quase 1,9 mil milhões de dólares” (o sublinhado é nosso).

E continua Matt Levine:

Não quero dar-lhe conselhos de investimento, mas direi que se saísse e gastasse 100 milhões de dólares para comprar todos os títulos da Hometown International – que, mais uma vez afirmo, é uma charcutaria – acabaria por possuir apenas cerca de 5% da empresa. Eu … será que eu faria pessoalmente essa transação? Mas obviamente que cada um faz o que quer. Já ultrapassei largamente a minha capacidade de aconselhar aqui. Olhe para mim, a fazer contas, como um absoluto idiota.“ (o sublinhado é nosso)

Matt Levine face a esta realidade a considerar-se um idiota a fazer contas! Mas será Matt Levine um idiota a fazer contas que ao seu nível não são entendíveis ou será a realidade que ao nível do respeito das regras não é ela entendível, não é ela inteligível? Obviamente estamos perante esta segunda hipótese.

No mercado financeiro mais escrutinado do mundo acontecem casos como Hometown International ou Archegos a envolverem milhares de milhões que não são entendíveis. Não vamos duvidar da integridade dos seus legisladores, de reputação adquirida e reconhecida socialmente  ao longo de décadas, não vamos duvidar de Jerome Powell, Presidente do FED, não vamos duvidar de Janet Louise Yellen, atual Secretária do Tesouro, não vamos duvidar da integridade de Gary Gensler atual Presidente da Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos, não vamos duvidar da integridade da multiplicidade dos seus quadros de supervisão, não, nada disso, mas o certo é que a realidade (os factos) tal como a descrevem os textos desta série torna-se uma realidade ininteligível em termos de Democracia. Duvidamos isso sim de um sistema onde tudo parece ser permitido e onde esses a quem tudo é permitido pelo simples facto de desejarem transformam o desejo em realidade (o “teorema de Disney”).

Na mesma linha de análise se insere um texto do Financial Times[7], publicado nesta série, que nos diz que “eles tudo podem fazer”! Vejamos o que diz:

Os super-ricos enfrentam desafios que o resto de nós não tem de considerar: manutenção de iates, seleção da frota certa de jatos privados, encontrar internatos para os seus descendentes. Graças aos seus cerca de $6milhões de milhões em riqueza familiar agrupada têm agora de se preocupar também com Bill Hwang.

Hwang saiu da obscuridade relativa para se tornar a figura chave nos mercados globais nas últimas duas semanas, uma vez que a implosão da sua casa de investimento Archegos atingiu fortemente um punhado de ações e fez buracos multibilionários no Credit Suisse e Nomura.

O incidente expõe a má gestão do risco entre um grupo de grandes bancos de investimento supostamente bons conhecedores e que deveriam estar preparados face a estes casos, que ficaram encantados com o protegido de Tiger Management – um dos fundos de cobertura mais respeitados de todos os tempos a quem proporcionaram uma alavancagem pródiga para multiplicar as apostas especulativas.” [8]

(…)

“Numa época em que a riqueza se está a tornar cada vez mais concentrada, os escritórios familiares de gestão patrimonial são as entidades onde estas espetaculares fortunas privadas são frequentemente geridas. Mas as pessoas dentro deste mundo rarefeito e secreto sabem que a queda em desgraça de Hwang significa que os tempos de boom da supervisão ligeira estão a ficar para trás.

“Vai ficar mais apertado para todos agora”, diz um antigo executivo de escritório familiar, que não desejava ser nomeado. “Vai haver um maior escrutínio dos empréstimos sobre margem, os serviços de primeiro nível, a ordem dos mercados e outras coisas em que provavelmente ainda nem sequer pensámos. Eu não caracterizaria os últimos anos como fáceis, mas tem sido uma espécie de idade de ouro para os escritórios familiares e podemos estar a assistir ao fim disso, ou pelo menos, a muito menos liberdade na nossa forma de abordar os mercados.”.

(…)

“Mas apesar da dimensão destas casas de investimento, os escritórios familiares tendem a funcionar fora do radar regulamentar. Ao contrário dos principais fundos de pensões e gestores de investimento que servem as massas, ou mais fundos especulativos de alto nível, eles não gerem dinheiro externo. Isto significa que muitas vezes não respondem perante ninguém a não ser a família – para além das regras padrão contra o branqueamento de capitais e o cumprimento das sanções.”

“A menos que ultrapassem limiares exigindo transparência sobre a dimensão das suas participações em empresas cotadas em bolsa ou optem por revelar investimentos, talvez por causa da sua tonalidade filantrópica, não revelam as suas apostas. Raramente falam com a imprensa e não fornecem atualizações sobre o desempenho ou participações.

“Uma vez que o dinheiro é deles, podem fazer o que quiserem”, diz Angelo Robles, fundador e chefe executivo da Associação Family Office. “Tal como a pessoa comum, por que razão deveriam eles divulgar as coisas?

 

Tudo boas pessoas, tudo boa gente, diremos nós, é assim que podemos caracterizar todas as ilustres figuras públicas que eram consultores de primeiro nível de Greensill Capital acima citadas, tudo boa gente, é assim podemos caracterizar todas as ilustres figuras públicas de reputação socialmente adquirida em décadas que são os supervisores da SEC nos Estados Unidos, não se duvide disso, mas o sistema é o que é, e o texto do Financial Times também é claro quando a isso: fala-nos de supervisão ligeira, fala-nos de operações feitas fora do radar da SEC.

Em suma, em princípio os todo-poderosos não se podem chocar contra as regras, as disposições que derivam da Constituição, como não se podem também chocar contra a própria Regra, a Constituição. A partir daí, podemos talvez dizer que se não as podem infringir poderão, talvez, contorná-las. Uma das vias, a mais simples, é que podem evitar penalizações forçando com muito bons advogados e com muito dinheiro dilatar… dilatar o tempo de ida a julgamento até que os crimes eventualmente caiam na esfera da prescrição. Compra-se o tempo, para usar uma expressão do sociólogo alemão Wolfgang Streeck. Um processo só possível para quem tem muito dinheiro, que pode “comprar” o tempo para que os crimes prescrevam arrastando o processo nos tribunais. Não é só em Portugal…

 

(continua)

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Notas

[3] Os meios de comunicação estão concentrados na forma como os bancos permitiram uma alavancagem excessiva e geriram mal (ou inadequadamente) os seus riscos. A verdadeira história é como é que Arch-Egos foi capaz de comprar a maior parte das acções da GSX Techedu, fazendo com que as acções subissem 400% face a alegações não refutadas de fraude massiva. A SEC tem uma investigação em curso sobre a GSX mas parece não ter notado um único fundo (ou um pequeno grupo de fundos) essencialmente a encurralar o mercado. Um tradicionalista poderia dizer que isto foi manipulação de mercado e é claramente  ilegal.

[4] David Einhorn, Greenlight Capital. Disponível em: https://www.valuewalk.com/wp-content/uploads/2021/04/Qlet2021-01-2.pdf

[5] MICHAEL LINHORST, Whatever it is, it’s not very good”: The strange, incredible case of the $100 million deli. Texto disponível em: https://www.fastcompany.com/90629075/the-case-of-the-100-million-deli

[6] Matt Levine. Os seus  artigos aqui citados são diversos e estão disponíveis em: https://newsletterhunt.com/newsletters/money-stuff-by-matt-levine.

[7] Katie Martin, Robin Wigglesworth e Laurence Fletcher, Financial Times: They can do what they want’: Archegos and the $6tn world of the family office. Texto disponível em: https://www.ft.com/content/c319839d-d185-4e8a-bbc7-659bebe58031

[8] Diz a Wikipedia: o fundo Tiger Management fechou em 2000, e entregou a Hwang cerca de 25 milhões de dólares para lançar o seu próprio fundo, Tiger Asia Management, que foi fechado em 2012. Bill criou depois o escritório de gestão patrimonial Archegos Capital Management.

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