UMA CARTA DO PORTO – Por José Fernando Magalhães (128) – Reposição + Podcast

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28 de Abril de 2016

A VIA DE CINTURA INTERNA – A GRANDE CICATRIZ DA CIDADE DO PORTO

 

VCI imagem Internet
VCI
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A  A 20  – Circular Regional Interior do Porto (CRIP), vulgo VCI, é uma auto-estrada que contorna por norte e por nascente a cidade do Porto, e a atravessa, dividindo a cidade em duas. Integra na maior parte da sua extensão a Via de Cintura Interna (circular do Porto, anteriormente chamada IC23) e na restante serve de acesso leste à cidade do Porto para o tráfego que vem de sul, através das auto-estradas  A 1 ,  A 29  e  A32 .

Antão de Almeida Garrett nasceu no Porto em 29 de Março de 1896, e faleceu em 1961. Professor Catedrático e Doutorado em Engenheiro Civil pela Universidade do Porto, que tinha tido um papel relevante nas relações da Câmara Municipal do Porto com os arquitectos Marcello Piacentini (1881 — 1960) e Giovanni Muzio (1893-1982), foi quem pela primeira vez propôs a construção de uma Avenida de Cintura que contornasse “a região nevrálgica da cidade, sede do comércio, escritórios, bancos, cafés, cinemas, teatros, hotéis, restaurantes, etc.”, no seu Plano Geral de Urbanização da Cidade do Porto de 1947. Esta Avenida de Cintura começaria na ponte projectada para a Arrábida e, ligando à Via Rápida de acesso a Leixões, à Via Norte de acesso a Viana do Castelo e Braga, e a uma Via Noroeste em Contumil para aceder a Guimarães e Penafiel, fechava o arco numa nova ponte mista (rodo-ferroviária) que substituiria a velha Ponte Maria Pia.

Lembremo-nos que em 1947 nenhuma destas vias ou pontes existia.

Mais tarde, em 1962, Robert Auzelle (Coulommiers 1913 – Paris 1983), no seu Plano Director da Cidade do Porto (o instrumento urbanístico que mais marcou a cidade do Porto na segunda metade do século XX), retoma algumas das concepções anteriores, tentando dar resposta ao enorme aumento do trânsito automóvel. É delineada a Via de Cintura Interna, com um assumido perfil de via rápida e não de avenida urbana. Esta via, que começaria na Ponte da Arrábida (na época, ainda em construção), teria o seu término na Avenida de Fernão de Magalhães, junto à zona das Antas.

Em 1963 inaugura-se a Ponte da Arrábida e é construído o primeiro troço da VCI até à antiga Rotunda de Francos, onde se iniciava a Via do Marechal Carmona, como foi oficialmente baptizada a via rápida de acesso a Leixões (hoje Avenida AEP). Só 26 anos depois, em 1989, a VCI seria prolongada, com a inauguração do troço entre Francos e o Amial. Nessa altura já estavam adiantados os planos e estudos para a construção de uma nova ponte sobre o rio Douro, na zona oriental da cidade, por onde deveria passar a futura auto-estrada de ligação a Lisboa que iria complementar a já muito congestionada ponte da Arrábida.

Em 1994, a VCI é prolongada até às Antas, engolindo a Avenida de D. João II e substituindo a rotunda da Praça de D. Manuel I, a meio da Avenida de Fernão de Magalhães, por um nó rodoviário. No ano seguinte, em Setembro, é inaugurada a Ponte do Freixo, e a VCI é prolongada até lá, para receber o trânsito que vinha de Sul.

A 8 de Janeiro de 2007, 43 anos depois do seu início, a Via de Cintura Interna foi finalmente concluída!

VCI
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Hoje, a VCI é um anel rodoviário de tal modo importante para a fluidez do trânsito da cidade, para o Grande Porto e até para toda a Região Norte, que é impensável transformá-la em algo diferente do que é. Redistribui os veículos entre as duas principais pontes sobre o rio Douro (Arrábida e Freixo), descongestiona o centro das cidades do Porto e de Vila Nova de Gaia, reduz os engarrafamentos, aumenta a segurança, reduz os custos de transporte e a emissão de gases causadores do efeito de estufa, etc..

Mas terá de mudar muito para cumprir em pleno os objectivos para que foi criada. Deverá ter melhores saídas e/ou entradas em pelo menos três ou quatro pontos do seu percurso, de modo a escoar melhor, o trânsito, nas horas de ponta, e deverão, também, ser criadas mais algumas acessibilidades.

Mas a existência da VCI criou um problema enorme à cidade do Porto. Dividiu a cidade. E dividiu-a de uma forma que tem de ser solucionada a breve prazo. A barreira que existe entre uma parte e outra da VCI tem de ser eliminada. Já vivemos tempo de mais com esta cicatriz.

A solução que proponho, uma boa forma de se fazer cidade (como agora é moda dizer-se), será a de se criarem pontões, grandes, largos, com tamanhos variados entre uma e várias centenas de metros e com pontes pedonais a uni-los sempre que possível, transformando a Via de Cintura Interna num enorme túnel em mais de dois terços da sua extensão, recortado e entre-cortado, de forma a que seja fácil o escoamento dos gases dos escapes e o acesso de material de socorro, se necessário alguma vez vier a ser.

Por cima dos pontões, jardins, árvores de pequeno porte, relvados, fontes, caminhos para pessoas e veículos sem motor, lençóis de água, bancos, parques infantis, circuitos de manutenção, esplanadas, cafés, sanitários, sombras, etc., formando uma extensa massa verde. Tudo para bem da cidade. Tudo para ajudar a fazer do Porto, ainda mais, um exemplo urbano de excelente qualidade de vida.

Temos excelentes arquitectos que, em conjunto, ou cada um em sua parcela dos pontões, podem colocar a sua criatividade ao serviço da nossa cidade. E para se fazer esta obra, quase gigantesca, muitos anos pela nossa frente, mas com a perseverança de querer fazer obra para o bem da cidade do Porto.

Um pontão inaugurado a cada cinco anos, e eu já ficava satisfeito. Um a cada três anos e eu exultaria de alegria.

 

 

 

CAPA DO ÚLTIMO LIVRO de HELDER PACHECO, JOSÉ MAGALHÃES e JOSÉ VALLE DE FIGUEIREDO 1ª Edição 21 - Abril - 2016
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HELDER PACHECO, JOSÉ MAGALHÃES e JOSÉ VALLE DE FIGUEIREDO
1ª Edição 21 – Abril – 2016

 

 

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