Os Planos de Recuperação e Resiliência da União Europeia e dos Estados Unidos no contexto das Democracias em perigo: 3ª parte – Biden e o programa de Recuperação e Resiliência americano: virar de página sobre o legado de ruína de Milton Friedman? – 3.2. Joe Biden quer enterrar 40 anos de hegemonia neoliberal. Por Claudi Pérez

Seleção e tradução de Francisco Tavares

 

 Por Claudi Pérez

Publicado por Negocios, em 18 de Abril de 2021 (ver aqui)

 

O presidente dos Estados Unidos é mais ambicioso que os líderes europeus na busca de soluções para reativar a economia com um programa de estímulos sem precedentes.

 

O presidente dos Estados Unidos Joe Biden na Casa Branca em Washington no passado dia 7 de Abril. Leigh Vogel/EFE

 

A economia é um género arrítmico, quase tipo jazz. Funciona a um ritmo impossível de dançar: lento, mais lento, de repente um pandemónio quando a crise chega, e chega sempre. Este ziguezague ocorre também no campo das ideias: todos os grandes movimentos da política económica são seguidos por correntes em sentido contrário, golpe-contragolpe, avanço-retrocesso, heresia-apostasia. A terceira lei de Newton – a cada ação opõe-se sempre uma reação – teve uma correlação quase perfeita na economia política do último século.

À Grande Depressão seguiu-se o consenso keynesiano, uma revolução passiva do capitalismo para corrigir os excessos do laissez faire e que deixou 30 gloriosos anos. Quando esta onda se esgotou, com a feia doença económica dos anos 70 que combinava estagnação económica e alta inflação, surgiram Ronald Reagan, Margaret Thatcher e a sua revolução conservadora, um neoliberalismo que cabia praticamente num guardanapo de cocktail – a famosa curva Laffer – e num decálogo chamado Consenso de Washington, que se resume em desregulamentações, impostos mais baixos, privatizações, globalização e, em suma, o poder magnético de mercados eficientes acima de quase tudo.

A revolução conservadora tem resistido entre nós com diferentes roupagens; a sua última evolução é o Trumpismo, mas antes disso também permeou até a social-democracia, especialmente com o charlatanismo associado à Terceira Via, ou no ordoliberalismo alemão de Merkel e companhia. Depois veio a Grande Recessão e o seu desolador remate sob a forma do Grande Confinamento. Todas as grandes crises acabam por provocar convulsões políticas, e esta não ia ser menos: flutua um ar de mudança de regime na política económica global.

O artífice dessa convulsão é um homem de quase 80 anos que, contra todas as probabilidades, virou o mundo de pernas para o ar. O democrata estado-unidense Joe Biden, nascido politicamente no paraíso fiscal de Delaware, votou entusiasticamente a favor dos cortes fiscais de Reagan nos anos oitenta, e foi vice-presidente com o grandiloquente Barack Obama, que pôde protagonizar uma mudança de paradigma há uma década atrás, mas ficou a meio caminho pela feroz oposição republicana e de Wall Street e acabou por deixar Trump como legado. Biden chegou à Casa Branca com aquela auréola de político moderado, quase aborrecido, que normalmente contrata um alto funcionário do Goldman Sachs para abrir a boca. “Por acaso pareço um socialista radical?” disse ele olhando para a câmara no meio da campanha. E no entanto, não há funcionários superiores do Goldman Sachs no seu governo, e Biden surpreendeu o seu partido, incluindo a adormecida ala esquerda, e a toda a gente com uns tremendos primeiros 100 dias, que tornam tentador falar de uma mudança de paradigma.

Essa mudança de paradigma começou a tomar forma em 2009, mas acelerou com o Covid. No auge da pandemia, os governos de todo o mundo aprovaram estímulos fiscais e monetários a uma escala vista apenas nas guerras mundiais. Biden duplica ou triplica a aposta: Os EUA, além de vacinarem a toda a velocidade, aprovaram um primeiro pacote de estímulo de quase 2 milhões de milhões de dólares para reforçar a recuperação da economia a curto prazo, incluindo cheques de 1.400 dólares para os americanos, o equivalente ao que os economistas muitas vezes chamam “lançar dinheiro desde um helicóptero”. Imediatamente depois anunciou um segundo pacote, mais estrutural, com uma perspetiva a longo prazo. São mais dois milhões de milhões de dólares nos próximos oito anos, com medidas destinadas a corrigir alguns dos problemas que a principal potência mundial tem vindo a acumular há décadas: desigualdade, pobreza, educação, saúde, clima, investimento em infra-estruturas, luta contra os monopólios tecnológicos, regresso ao multilateralismo e, algo inaudito há algumas gerações, uma proposta de aumento global dos impostos sobre as empresas, anátema até ontem, bem como um piscar de olho ao sindicalismo que é invulgar na América do Norte. Combinado com o que já estava sobre a mesa, é um estímulo do tamanho de um desses enormes porta-aviões que cruzam o Pacífico Sul: cerca de 5 milhões de milhões de dólares, um quarto do PIB dos EUA. “É uma sacudidela brutal no sistema que procura ter efeitos imediatos na vida dos americanos”, resume o Professor Peter Praet.

 

Recuperação desigual entre os EUA e a Europa

 

Projeção do PIB no final de 2021

% de queda relativamente às previsões anteriores à pandemia

 

 

Planos de estímulo orçamental

Em % do PIB

Evolução do PIB


Fonte: OCDE

Os livros de texto dizem com meridiana clareza que no meio de um choque externo de grande magnitude, como o que foi provocado pelo Covid, há que aplicar políticas orçamentais ultra-expansivas, e políticas monetárias que acompanhem os estímulos. Mas ninguém – ninguém – se tinha atrevido a tanto.

Economistas e governantes de todas as tendências, à direita e à esquerda, levaram, durante anos, demasiado longe a sua adoração (ou medo) pelos mercados. Claro que, quando eclodia uma crise todos sacavam da cartola um keynesianismo grosseiro, de artesanato; mas assim que diminuía voltavam à receita neoclássica: utilização das taxas de juro para domar os ciclos económicos, manter debaixo de olho o défice e confiar na magia dos mercados. Essa magia começou a falhar com o colapso do Lehman Brothers:”Todo o edifício intelectual se afundou”, sentenciou então um mal humorado Alan Greenspan, sumo sacerdote dessa fé económica, que disse encontrar-se “num estado de total incredulidade e estupefacção” quando o castelo de cartas se desmoronou.

Obama não quis ou não foi capaz de dar o golpe de força que prometeu, e as águas regressaram ao seu curso habitual. Mas a semente estava plantada, e a combinação da terra queimada dos anos Trump e o choque pandémico convidam-nos a cometer esse pecadilho económico que consiste em pensar que desta vez pode ser diferente: “O estímulo de Biden é o despertar de uma nova era”, escreveu o historiador económico Adam Tooze. “É a ruptura definitiva com o neoliberalismo”, de acordo com a análise de J. W. Mason do Instituto Roosevelt. “A pandemia é a oportunidade de empreender uma mudança que devolva o protagonismo ao Estado”, diz Mariana Mazzucato, do University College. Até mesmo FAES, o think tank muito liberal de José María Aznar, falou claramente esta semana do “canto de cisne dos supply siders [economistas do lado da oferta, pouco amigos do keynesianismo] que tinha dominado o debate desde a era Reagan”.

Ao jornalismo costuma assentar-lhe muito bem o advérbio de prudência talvez: face à inauguração permanente da história deve recordar-se sempre um aforismo de Rafael Sánchez Ferlosio, “a nova era, o velho infortúnio”. Mas a dúzia e meia de economistas consultados apontam para algo semelhante a uma mudança de guarda na política económica que não está isenta de riscos.

Os amores e as revoluções, mesmo as económicas, precisam da pessoa certa, no lugar certo e na altura certa; a vida, no entanto, quase nunca consegue reunir tais oportunidades. Será que Biden consegue fazê-lo? “Os velhos com pressa são uma coisa boa”, diz James Galbraith do outro lado do telefone, um economista da Universidade do Texas e um dos poucos académicos de esquerda com uma voz poderosa nos media. Biden chega ao lugar certo, uma Casa Branca abalada pelos excessos histriónicos de Trump, em plena crise, que como a direita diz é sempre uma oportunidade, “e com os Democratas conscientes de que só têm dois anos antes do próximo ciclo eleitoral para mudar as coisas e impedir o regresso do populismo”, observa o filho do lendário John K. Galbraith. “A questão é se a academia e a política, em parte como resultado do pânico, dão ao pensamento económico o impulso definitivo para acabar com o neoliberalismo. Mas há ainda um longo caminho a percorrer”, acrescenta ele.

 

Algo se mexe

Este cepticismo é a norma numa profissão habituada a novas madrugadas que não eram mais do que aldeias Potemkin: palavras de verniz e conjuntos de papel maché. E no entanto, é inegável que algo está em movimento. O antigo economista chefe do FMI Maurice Obstfeld observa que o Plano Biden “é muito mais ambicioso do que as propostas de Obama”, embora deixe no ar a dúvida: representa a nova era prometida ou a velha e esmerada desventura. Simon Johnson, que também esteve no FMI, chama ao pacote “um esforço brilhante para estimular a economia a curto prazo para acelerar a recuperação pós-covid”, ao mesmo tempo “pensar na economia americana a longo prazo com medidas arrojadas e ambiciosas”. “Não chamaria a estas políticas de esquerda ou de direita, nem lhes chamaria velho paradigma ou novo paradigma: são simplesmente o caminho adequado para reconstruir a economia onde as duas últimas crises atingiram mais duramente. E talvez sirva de inspiração noutros lugares”, acrescenta Johnson.

Esta “inspiração” para “outros lugares” é uma forma educada – eufemística – de aludir à Europa, que tem sido muito menos ousada do que os EUA. Mas essa alusão será esclarecida alguns parágrafos mais abaixo. Porque para além da comparação com a Europa, o facto é que a política económica de Biden apresenta riscos, e de forma alguma foi adoptada por consenso. Larry Summers, o guru económico de Obama, oráculo de Wall Street e prima donna dos economistas americanos supostamente progressistas, é o que mais claramente sublinhou que o novo executivo americano foi longe demais, apesar de até há dois dias ter defendido abertamente estímulos para tirar a economia global da armadilha da estagnação secular. O prestigiado economista francês Olivier Blanchard segue-o de muito perto: “Biden foi longe demais; há riscos de sobreaquecimento e inflação”, explica ele por e-mail. “Muitos economistas concordam com Summers e Blanchard: Biden está a descartar a ciência e a substituí-la pelos seus objetivos políticos e popularidade”, diz Tyler Cowen, autor de The Great Stagnation e professor influente na Universidade George Mason.

Contra os teóricos de chumbo do universo que subscrevem o glamour intelectual do pessimismo, Simon Wren-Lewis sublinha desde Oxford que Biden “mostra o caminho a seguir”. “O Reino Unido e a Europa têm sido demasiado tímidos: as preocupações com o défice são descabidas. Mas os riscos inflacionistas também podem ser dominados”. Não fazer nada, com os velhos demónios à espreita, já não era uma opção: “Isto não é o fim do neoliberalismo, que vai para além da política económica, mas esperemos que seja o princípio do fim para aqueles que se preocupam com o défice – ou inflação – no meio de uma depressão, ou uma armadilha económica de baixo crescimento e taxas de juro e inflação em zona zero como aquela em que encalhámos”.

Muitas vezes, os economistas são como Napoleão em Guerra e Paz: a sua capacidade de decidir a trajetória da economia é limitada. Armados de fantásticos modelos matemáticos, um grandioso plano de batalha que visa simplificar a realidade e prometer uma vitória quase certa, a “obsessão com a teorização” dos cientistas sociais tornou-se “um obstáculo à compreensão”, escreveu Albert Hirschman, cujo 100º aniversário acaba de passar. O economista de Harvard Dani Rodrik argumenta que a profissão levou “demasiado longe o seu culto aos mercados” e “a sua fé em modelos”. A economia é simultaneamente um espelho e uma expressão de uma era: o Estado-Providência foi a tradução social-democrata do guião do pós-guerra, e a revolução conservadora foi a resposta à crise do petróleo, com uma estagnação preocupante e uma inflação desenfreada. Mas agora os problemas são diferentes: as alterações climáticas, a hiperglobalização, o excesso de peso do sector financeiro nas economias avançadas e o impacto da revolução tecnológica nos trabalhadores não estão a aterrar adequadamente nos modelos. O neoliberalismo perdeu o seu brilho devido aos excessos das últimas três décadas de monopólios tecnológicos, as loucuras das finanças – a imagem do filme Pottersville do “Que belo é viver feito realidade” – a desigualdade galopante e o rasto de crises dos últimos tempos. “Ao contrário dos acidentes aéreos, as crises financeiras tornaram-se mais frequentes, não menos: o avião está mais perigoso”, resume Mervyn King, antigo governador do Banco de Inglaterra.

Será a resposta certa a este cenário o Plano Biden, este bidenomics? O historiador económico de Berkeley Barry Eichengreen tem dúvidas. “Os EUA responderam com muito mais munições do que a Europa aos novos problemas económicos, associados ao covid, e aos não tão novos problemas que se estão a acumular em todo o Ocidente. Mas há agora um rico debate sobre se Washington fez demasiado, criando riscos de inflação significativos“. “O estímulo de Biden é várias vezes o tamanho do hiato do produto [a diferença entre a velocidade de cruzeiro da economia e o potencial de crescimento], e há ainda mais estímulos à vista. Do lado monetário, a Reserva Federal, o banco central dos EUA, deixou claro que não irá alterar a sua política ultra-expansiva até, pelo menos, 2023. É melhor recuperar a toda a velocidade e arriscar um retorno da inflação, ou é preferível algo mais lento para evitar esses riscos? Biden prefere a primeira opção; a Europa prefere a segunda”, conclui ele.

Os Estados Unidos ultrapassaram a Europa à direita depois de 2008. Quando as coisas ficaram realmente feias, Washington juntou os maiores bancos do país e fê-los pedi dinheiro às pazadas (que depois pagaram com juros), e inovou com a política monetária e orçamental: a Europa optou pela austeridade e as coisas quase acabaram como o rosário do amanhecer, isto é, mal. Agora Biden está a ultrapassar os europeus pela esquerda: A Europa também optou por estímulos desta vez, mas numa escala muito menor. “A zona euro, ao contrário dos EUA, parece estar a contentar-se com uma recuperação incompleta”, critica o economista Angel Ubide. “Joe Biden acaba de atrasar o declínio do seu país; os líderes europeus parecem estar prontos a acelerar o seu”, escreveu o analista Martin Sandbu no Financial Times. “A comparação é enganadora porque na Europa temos estabilizadores automáticos, os heróis anónimos da política económica moderna”, matiza Benedicta Marzinotto da Universidade de Udine. O FMI, contudo, considera que o estímulo europeu fica muito aquém: o Fundo acredita que a Europa teria de injetar mais 3% do PIB na sua economia. Cerca de 400.000 milhões mais de uma só vez.

A Europa contra os EUA, em suma, mais uma vez. Blanchard interpõe-se no debate com fineza: “O plano de Biden é provavelmente demasiado grande, e os planos europeus demasiado pequenos, mas talvez não tão pequenos. Isso dependerá do que acontecer com a procura privada: o optimismo relacionado com as vacinas e as poupanças que se acumulam nas empresas e nas famílias poderão causar um “boom” também na Europa”. Outros peritos queixam-se dos atrasos acumulados tanto nas vacinas como no Fundo de Recuperação de 750 mil milhões aprovado há um ano em Bruxelas, mas do qual só começará a sair dinheiro fresco no final de 2021.

 

Taxas de imposto sobre as sociedades

Taxa média nominal de imposto sobre as sociedades por regiões

Fonte OCDE. El País

 

“O Fed dos EUA comprou 2,6 milhões de milhões de euros em ativos desde Janeiro de 2020; o BCE, 320 mil milhões de euros (380 mil milhões de dólares), sete vezes menos. E a política orçamental conta uma história semelhante: o estímulo europeu é cerca de metade do dos americanos. Não estamos a repetir os erros da última crise, pelo menos desta vez a Europa está a ir na direção certa, mas em volume estamos a repeti-los: sairemos mais tarde e com mais dificuldade”, salienta Paul De Grauwe da Universidade de Lovaina. “O contraste entre o paradigma neoliberal e o que Biden fez deixa uma mudança fundamental: os governos estão a recuperar um papel central na luta contra a crise”, acrescenta ele. Charles Wyplosz, do Graduate Institute, concorda. E arremete contra os que criticam a ambição de Biden por causa do risco inflacionista. “Parecem-me acusações espantosamente desajustadas. Há uma década que lamentamos os efeitos perversos de uma armadilha de baixo crescimento, taxas de juro negativas e inflação muito baixa. Se a inflação finalmente subir e obrigar os bancos centrais a agir, teremos pelo menos escapado à maldição dos últimos anos”. “Pela primeira vez em décadas, um governo está na realidade a tentar fazer algo por aqueles que, por puro desespero, acabaram por votar a favor de opções populistas. Ri-me de tais críticas quando confrontado com um passo deste calibre”, berra Wyplosz. Vítor Constâncio, antigo vice-presidente do BCE, também aplaude a coragem dos EUA: “Washington está a tentar experimentar políticas para ultrapassar completamente a crise, enquanto a Europa definha sob o peso dos seus fantasmas e medos”, escreveu recentemente.

Os tempos felizes são páginas em branco nos livros de história, mas o “que vivas tempos interessantes” dos chineses é uma maldição. Quando tomou posse em 1933, Franklin D. Roosevelt desvalorizou o dólar, obrigou os americanos a vender-lhe, a um preço fixo, todo o ouro que tinham adquirido desde o início da crise e fechou os bancos durante 28 dias: com o novo acordo – e a Segunda Guerra Mundial – os Estados Unidos começaram a cimentar uma hegemonia que durou até hoje. Biden não vai tão longe, mas em menos de 100 dias anunciou uma injecção multi-milionária de dólares na economia, e está mesmo a patrocinar um aumento global dos impostos sobre grandes empresas. No fundo, a luta pela hegemonia global continua: o presidente dos EUA, em pleno momento Roosevelt, afirma que o seu plano “coloca-nos em posição de ganhar competitividade com a China”. Para além desta luta, Washington viu as orelhas do lobo do populismo; o plano de Biden é uma tentativa quase desesperada de evitar o regresso do Trumpismo. E a pressa também tem uma explicação mais prosaica: o Partido Republicano está grogue após a última derrota, mas Biden tem apenas dois anos até às eleições para o Senado, o que poderia acabar com a sua magra maioria e estragar resto do seu mandato.

 

Expetativas

As crises não são um acontecimento, mas sim um processo; um processo que em certos lugares, lugares infelizes, ainda não terminou. Os anglo-saxões precisariam de outro Dickens para descrever as cicatrizes em algumas áreas dos EUA e do Reino Unido, mas Victor Hugo poderia também reescrever Les Miserables em muitas áreas da Europa. Sairemos disto, porque nenhum vírus ou crise dura 100 anos, e sairemos mais cedo do que mais tarde. Mas esse será o momento mais perigoso: as pessoas não se rebelam quando as coisas estão mal, mas sim quando as suas expectativas são defraudadas. Se Biden acertou e a Europa está a arrastar os pés, a agitação pode muito bem crescer deste lado do Atlântico; se Washington foi longe demais, podemos estar a enfrentar a enésima fase da revolução conservadora e a mudança de regime terá sido uma miragem. Estamos a enfrentar uma incerteza radical através de narrativas, construindo narrativas: Biden está a conceber as suas próprias narrativas, e a Europa, por enquanto, está apenas à espera para ver o que acontece.

Cavafis [1] escreveu-o, como sempre, melhor: toda a cidade se tinha reunido para esperar pelos bárbaros e havia medo, tremor, a esperança de que esta irrupção mudasse as suas vidas.

 

O dólar dá muito espaço

“A resposta anti-crise de Washington é muito agressiva, em grande parte devido à janela política de oportunidade após a derrota eleitoral dos Republicanos, mas além disso o privilégio exorbitante do dólar dá aos Estados Unidos um espaço orçamental praticamente ilimitado; o dólar dá muito espaço e Biden usou-o ao máximo”, diz Gian Maria Milesi-Ferretti da Brookings. “A Europa tem feito muito, mas o dólar faz a diferença e os governos nacionais poderiam ser mais agressivos tendo em conta os atrasos com as vacinas e o Fundo de Recuperação: com tanta incerteza o papel da política orçamental tem de ser mais ambicioso”, acrescenta ele.

 


O autor: Claudi Pérez [1972 -] é jornalista, redator chefe da secção económica de El País desde 2018. Licenciado em Economia (Universidade de Barcelona) e Jornalismo (Universidade Pompeu Fabra). Trabalhou para El Periódico de Catalunya, Expansión e EL PAÍS, em Barcelona e Madrid, na sequência de questões económicas internacionais, reuniões do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do G-8, e nos últimos tempos a crise financeira interminável, que se tornou a crise interminável do euro. Foi correspondente do El País em Bruxelas. Em 2017 foi galardoado com o prémio de jornalismo Salvador de Madariaga

 

Nota

[1] N.T. Constantino Cavafis, poeta grego, uma das figuras mais importantes da literatura do século XX e um dos maiores expoentes do renascimento da língua grega moderna (vd. Wikipedia, aqui)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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