PENSA-SE EM WASHINGTON E ALGURES QUE UMA OUTRA CRISE, AGORA MILITAR, É NECESSÁRIA E CONVENIENTE – nova série – a nota explicativa de JÚLIO MARQUES MOTA

Uma série de textos dedicada à juventude do meu país sujeita agora a forte poluição política

 

 

Dedico   esta série  de textos intitulada “Pensa-se em Washington e algures  que uma outra crise, agora militar,  é necessária  e conveniente” à juventude do meu país que na lengalenga dos discursos da Direita Liberal irá votar massivamente neste campo político, porque aí se defende a liberdade dos mercados, a existência do estado mínimo pela redução dos impostos e não só,   porque na  crise  de emprego que  atravessamos  e onde ela é maior  vítima, a juventude   pensa que é por  aí, votando massivamente nessa lógica, que encontrarão o seu porto de abrigo. 

A seguirem esta via, os jovens descobrirão lamentavelmente mais tarde,  se esta Direita sair vitoriosa, que votaram, afinal na desconstrução e destruição  dos parcos abrigos ainda existentes e que lhes são destinados.  Uma destruição que será então feita   em nome da soberania dos mercados e dos seus  agentes que eles, os jovens,  também são, e isto   quando nunca lhes foi ensinado o que são verdadeiramente os mercados livres, mercados à Alan Greenspan de tão má memória.  O que são verdadeiramente os mercados livres foi coisa que nunca lhes foi ensinado e, mais,  desviaram-nos sempre de poderem aprender a questionar o que   são afinal os mercados a que chamam livres, e muito menos ensinaram os nossos jovens a ver o que eles são, sobretudo, por oposição a mercados regulados, inseridos num quadro jurídico de um Estado Providência moderno e forte. Foi com Estado Providência deste tipo, regulador e forte, que os Estados Unidos se reconstruíram com o New Deal depois da crise de 29-33 e a Europa se refez  depois da Segunda Grande Guerra com os 30 gloriosos anos de crescimento. Tudo isto foi destruído pela vaga do neoliberalismo desencadeada com a ascensão de Reagan e de Margaret Thatcher ao poder, neoliberalismo este que a Direita portuguesa quer agora cavalgar, porque estamos perante um  Estado Providência  extremamente enfraquecido, o que é sobretudo devido às  politicas impostas pela Troika e ainda não estruturalmente rejeitadas.

Seguir a via neoliberal, como muita da nossa juventude está agora a querer seguir,  é exatamente fazer a opção de destruir os poucos alicerces de politica social que ainda apoiam a nossa juventude, desabrigando-a, portanto..  A razão por que  é assim, é  ela bem simples  e resulta de que  os problemas que estão no base do sentimento de  revolta que conduz a juventude a aderir aos movimentos da Direita Liberal só terão  espaço de resolução no enquadramento garantido por um Estado Democrático forte capaz de estabelecer carreiras profissionais e  salários condignos assentes no respeito e na estabilidade  profissional de quem trabalha em vez de fazer da precariedade da juventude o pão nosso de cada dia e dos apoios do Estado ao emprego apenas subsídios ao empregador, pervertendo assim toda a lógica do Estado Providência e das fracas  políticas  de apoio ao emprego  hoje existentes . 

Não nos esqueçamos que nas sociedades  modernos mais mercados livres, mais  concorrência, mais desregulação, isso significa mais  empresas tipo Uber,  Amazon, Microsoft, Google, Apple, mais  plataformas digitais de empregos precários, mais empresas tipo  Goldman Sachs, JPMorgan, mais empresas financeiras tipo Bridgewater,  Vanguard,  BlackRock a gerirem a dívida pública em nome dos estados considerados soberanos, substituindo-se elas à  articulação Tesouro-Banco Central-Política Orçamental, porque este tipo de empresas são elas  verdadeiramente mais eficientes a irem aos bolsos dos contribuintes, a favor das classes dominantes! E de qualquer um destes tipos de empresas poderíamos continuar a citar exemplos.     ,

Reclamem em vez de mais mercado e de mais concorrência ou desregulação, em vez disso,   reclamem mais e melhor educação  e formação, reclamem  mais saúde, reclamem mais emprego, reclamem mais habitação e talvez menos alojamento local, menos gentrificação,  mas não se esqueçam, reclamem  também  mais responsabilização para quem é empregador e para quem é empregado  como no ensino enquanto jovens estudantes e cidadãos também  devem reclamar mais responsabilidade para quem é professor e para quem é estudante e votem em qualquer um daqueles partidos   que isso sinceramente defendem.

Sem ironia, e parafraseando o que nos diz Ashore sobre o país de mercado livre que é os Estados Unidos, diria:  Nesse espírito, peço-vos que se juntem a um jovem velho que sou eu, Júlio Mota ou a muitos outros como eu mas mais jovens, para  se respirar fundo  e  sair da escuridão política em que  vos querem colocar para viver à luz dos céus cristalinos do nosso país  e encantarmo-nos com  as luzes das nossas  cidades   e o sentir o  pulsar da humanidade  que temos pela nossa frente em vez de nos perdermos em discursos políticos que, se levados à prática, nos podem deixar ainda piores do que estamos. E reconstruamos este nosso país  para que todos possamos  desfrutar das maravilhas que  nele existem ou   que nele se podem produzir e de que dele  se  podem repartir. Nada disto tem a ver com  a lógica da Direita Liberal que agora  seduz  os nossos jovens com um discurso político enganador e poluidor das mentalidades dos jovens como se dispusessem de uma flauta mágica. 

Esta série pouco tem diretamente a ver com a juventude a quem a dedico. Simplesmente, é um  muito bom exemplo da mistificação a que estamos a assistir, mais uma mistificação diremos nós, para nos levar a aplaudir o pior, uma guerra,  se o pior for alcançado.  Pense-se nisso e pense-se depois   também nas mentiras que a Direita Liberal nos tem vindo a oferecer e com as  quais pretende seduzir a nossa juventude.

Dou-vos conta de uma pequeníssima série de textos, intitulada “Pensa-se em Washington e algures  que uma outra crise, agora militar,  é necessária  e conveniente”. Trata-se de uma série que tem como pano de fundo dois pontos:

  1. um tema candente, a guerra às portas do Leste da Europa, uma guerra fortemente indesejável mas francamente possível dadas as bestas militares que sonham com a criação de uma guerra para dar vida às muitas patentes que já têm ou às que querem adquirir.

  2. Uma estranha reunião havida em Dezembro passado em Jerusalém que reuniu altos funcionários do Tesouro de 10 países a simularem os impactos financeiros de um jogo de guerra: Israel, USA, Áustria, Alemanha, Itália, Holanda, Suíça, Tailândia e Emirados Árabes Unidos.. Além destes países também participaram representantes de organizações supranacionais, tais como o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Mundial e o Banco de Pagamentos Internacionais (BPI). Não será por acaso, que a Rússia e a China não estavam presentes!

Uma reunião a 9 de Dezembro em Israel com altos funcionários de dez países ocidentais quando a 8 de dezembro Biden avisava que se o Presidente russo Vladimir Putin decidisse atacar a Ucrânia, os Estados Unidos e aliados aplicariam à Rússia sanções “como ele nunca viu”. Uma reunião no dia 9 que não se organizava numa noite, da noite de 8 para 9. Tirem-se conclusões.

Uma das armas possíveis, uma arma sem fumo a ser utilizada por pressão americana neste contexto bélico, tendo em conta as declarações de Biden,  tem como base a sigla SWIFT, uma sigla que todos nós vemos nos pagamentos que fazemos por via eletrónica sem possivelmente nos questionarmos o que tal sigla significa.

Por esta razão, dedicaremos dois textos a explicar o que é a rede SWIFT quer do ponto de vista técnico quer do ponto de vista político. Seguem-se dois textos sobre a simulação feita do jogo de guerra, um texto da Reuters e o outro do site The Defender de Robert Kennedy Júnior, um texto de Thomas Palley, um importante economista americano, sobre a guerra que poderá estar às portas do Leste da Europa. Um texto duro para quem está habituado às verdades da nossa imprensa e é  educado a odiar Putin, pelo regime autocrático em vigor na Rússia.  Face a  isto procurei, e encontrei, um texto  escrito por um tenente coronel da força aérea americana e que passou muita da sua  vida profissional nas bases americanas encarregadas dos eventuais ataques nucleares, William Astore, onde são analisadas as lógicas militares e que confere substância à tese defendida por Thomas  Palley.

Do texto de Ashore aqui vos deixo um excerto, um excerto que vejo, leio e sinto como um verdadeiro poema dramático sobre os perigos  que atravessamos nos tempos que vivemos  e por responsabilidade maior dos políticos atuais..

“Posso dizer-vos uma coisa com certeza absoluta: os nossos generais conhecem uma palavra e não é a palavra “vencer”, é  a palavra mais. Mais mísseis nucleares. Mais bombardeiros nucleares. Nunca se fartarão. O mesmo é verdade para certos membros do Congresso e para o presidente. Portanto, o povo americano precisa de aprender duas palavras, não mais, e dizê-las repetidamente a esses mesmos generais e a todos aqueles que os apoiam e sustentam esta máquina infernal , quando vierem pedir quase 2 milhões de milhões de dólares para aquele seu programa de modernização nuclear.

Nesse espírito, peço-vos que se juntem a um jovem tenente da Força Aérea enquanto ele passa pela enorme porta de explosão da Montanha Cheyenne e desce o longo túnel. Juntem-se a ele para respirar fundo ao sair daquela escuridão para os céus cristalinos claros e examinar as luzes da cidade debaixo de si e o pulso da humanidade diante de si. Outra noite de dever cumprido; outra noite em que a guerra nuclear não chegou; outro dia para desfrutar das bênçãos deste nosso planeta cheio de maravilhas.

A nova guerra fria da América coloca essas mesmas bênçãos, essa maravilha, em profundo perigo. É por isso que temos de sair tão corajosamente dos túneis construídos pelo medo e pela ganância e nunca mais regressar a eles. Temos de dizer “não mais” às novas armas nucleares e voltar a comprometer-nos com a eliminação de todo esse armamento em todo o lado. Tivemos a oportunidade de embarcar numa tal viagem há 30 anos atrás, no rescaldo da primeira Guerra Fria. Tivemos outra oportunidade quando Barack Obama foi eleito. Em ambas as ocasiões, falhámos.

É finalmente tempo de este país voltar a ter sucesso em algo – algo nobre, algo que não seja a perpetuação de uma guerra assassina e a horrível produção de armamento genocida.  Afinal, só os tolos reproduzem cenários que terminam no dia do juízo final.” Fim de citação

Desta série aqui vos deixo três textos, um texto sobre a rede SWIFT, um texto da Reuters sobre a reunião de Jerusalém   e o curto texto de Thomas Palley. Sugiro a quem estes textos interesse que os leia pela ordem referida  e se puderem que acompanhem a edição da série em A Viagem dos Argonautas.

Como habitual, o meu pedido de desculpas pela liberdade tomada.

Júlio Marques Mota

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