MARRINER ECCLES, um homem muito à frente do seu tempo (anos 30) e do nosso também – 1. Alguns textos sobre Marriner Eccles, sobre o espírito de 33 e sobre os homens do New Deal: 1.9. Reconhecer as fronteiras.  Por David Warsh

A good many people believe Marriner Eccles is the only thing standing between the United States and disaster.” – TIME Magazine, 1936

Nota de editor:

Iniciámos no passado dia 1 de Fevereiro uma longa série – de mais de 50 textos – cuja última parte está ainda em preparação. O presente texto “Reconhecer as fronteiras, insere-se no conjunto de 17 textos que compõem a 1ª parte 1. Alguns textos sobre Marriner Eccles, sobre o espírito de 33 e sobre os homens do New Deal”.

Esta série é, desde logo, o resultado do labor incansável e da mais elevada competência do seu autor, Júlio Marques Mota, e, como o próprio refere, é um trabalho que leva mais de um ano em preparação e “não foi um trabalho fácil porque, partindo do zero quase absoluto, tivemos de andar a deambular de texto em texto, aceitando uns, rejeitando outros, de referência bibliográfica em referência bibliográfica, cruzando textos e referências bibliográficas”.

É com grande satisfação e orgulho que publicamos na língua portuguesa estes textos em torno das ideias e ações de Marriner Eccles, o mais brilhante de todos os Presidentes do Conselho de Governadores do FED nas palavras de Michael Pettis (e que fazemos nossas). Como diz Júlio Mota, “Marriner Eccles é um dos maiores símbolos intelectuais da oposição fundamentada feita contra os teóricos criadores de catástrofes e os seus vassalos” e cujas ideias e ação, segundo a Time referia em 1936, “protegeram a América do abismo. Trata-se de ideias que na primeira metade do século XX ajudaram a fazer da América um grande país, e que vão contra as ideias destes falcões monetaristas (…) que querem fazer da Europa um insignificante continente”. E como conclui Júlio Mota os “… tempos de ontem, afinal, não diferem muito dos tempos de hoje, a lembrar a frase de Peter Kenen: o mundo mudou muito, mas os problemas são os mesmos. Os problemas são os mesmos e os políticos, pelo que se vê, são também os mesmos. É exatamente isto que confere uma extrema atualidade aos textos que iremos apresentar em torno da obra de Marriner Eccles.”


Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

7 m de leitura

 

1. Alguns textos sobre Marriner Eccles, sobre o espírito de 33 e sobre os homens do New Deal

1.9. Reconhecer as fronteiras

 Por David Warsh

Publicado por  em 27/10/2013 (Beckoning Frontiers, ver aqui)

 

O Sistema da Reserva Federal permanece nos noticiários. O Senador Rand Paul (Republicano-Kentucky) prometeu opor-se à nomeação de Janet Yellen para presidir à Reserva Federal, talvez com um “golpe “, que poderia ser ultrapassado por sessenta votos. O antigo presidente Alan Greenspan está a promover o seu novo livro, The Map and the Territory: Risk, Human Nature and the Future of Forecasting, no qual ele “recalibra” os seus pontos de vista económicos à luz do “que a crise de 2008 nos estava a dizer sobre nós próprios”.

Eu próprio, passei o meu tempo livre a ler um livro publicado em 1951, Beckoning Frontiers: Public and Personal Recollections, de Marriner Eccles.

Eccles é o homem cujo nome está na sede do Fed, na Constitution Avenue. Como autor principal da Lei Bancária de 1935, foi o criador do Fed moderno. Ele foi o seu presidente de 1934 a 1951. De regresso a Utah e aos seus interesses comerciais, viveu até 1977.

Suponho que, entre os defensores do New Deal, a Secretária do Trabalho Frances Perkins é provavelmente melhor lembrada hoje do que qualquer outro, por mais pessoas, graças ao seu pequeno papel na cena da reunião do gabinete do Presidente Franklin Roosevelt na comédia musical Annie.

Eccles, por outro lado, é um dos mais notáveis altos funcionários públicos do século XX, a par de George Catlett Marshall e Paul Volcker. No entanto, ele seria praticamente desconhecido, exceto para os estudantes de história bancária, não fosse o capítulo de 50 páginas sobre ele em The Vital Few: The Entrepreneur and American Economic Progress, do historiador económico Jonathan Hughes, um livro largamente subestimado (do qual é tomada a maior parte deste relato).

Eccles nasceu em 1890, em Logan, Utah. O seu avô tinha sido atraído em 1863 de Paisley, Escócia, pelo Fundo de Emigração Perpétua dos Mórmons. Quaisquer que fossem as dúvidas que tivesse sobre o Profeta José e as placas douradas, estas dúvidas não tinham qualquer importância, escreveu Eccles mais tarde. O seu pai fez fortuna nas indústrias da madeira e da refinação de açúcar, e, de acordo com o costume, teve duas esposas. Como primeiro filho da segunda esposa, ou esposa cadete, Eccles assumiu o controlo de dois sétimos do império empresarial do seu pai quando este, “o homem mais rico de Utah”, morreu, em 1912.

Durante os vinte anos seguintes, Eccles transformou a parte da sua família numa fortuna substancialmente maior, numa altura juntando-se a um sindicato de construção de grandes obras públicas com Henry Kaiser, os Bechtels e Morrison Knudsen, para construir a Barragem de Boulder; noutra altura, inventando a holding multibancária, dezassete bancos e uma associação de poupança e empréstimo espalhados por Utah, Idaho e Wyoming, uma inovação que foi rapidamente imitada. A banca chegou facilmente a Eccles; assim como lhe chegou a sensação de fragilidade inata da indústria bancária.

Quando a Grande Depressão chegou , em 1929, Eccles procurou todo um conjunto de remédios que levou, entre outros lugares, à visão subconsumista de William Foster e Waddill Catchings, uma antecipação não muito refletida da economia keynesiana descrita em Road to Plenty em 1928, que Eccles complementou com as suas próprias observações “a olho nu”. Em 1932, o magnata assustou a Associação de Banqueiros de Utah ao proclamar o evangelho das finanças compensatórias:

A teoria do trabalho árduo e do aforro como meio de nos tirar da depressão é economicamente insensata. O verdadeiro trabalho árduo significa mais produção, mas a parcimónia. a poupança e o entesouramento significam menos consumo… Agora reconciliem essas duas forças… Há apenas uma instituição… que pode virar o ciclo para cima e essa instituição é o governo. O governo… deve regular… a estrutura económica de modo a dar aos homens capazes, dignos e dispostos a trabalhar a oportunidade de o fazerem e a garantir-lhes o sustento das suas famílias e a proteção contra a miséria e a privação de recursos.

Em Ogden, Eccles conheceu o economista Paul Douglas, da Universidade de Chicago (onde as finanças compensatórias também estavam na moda); conheceu o jornalista Stuart Chase; e numa viagem para leste, conheceu o economista da Universidade de Columbia Rexford Tugwell, então responsável pelo “conjunto de cérebros” que rodeavam Roosevelt. Em Janeiro de 1934 foi-lhe solicitado que regressasse a Washington, e desta vez o Secretário do Tesouro Henry Morganthau pediu-lhe que escrevesse um relatório sobre moeda e banca. Dez meses depois, o Presidente Roosevelt nomeou-o presidente do FED.

O Fed que Eccles herdou tinha sido estabelecido pelo Congresso em 1913 em resposta ao Pânico de 1907, num plano elaborado em grande parte pelo financeiro J. P. Morgan, cuja autoridade pessoal tinha sido suficiente para restaurar a confiança após 1907. Uma dúzia de bancos regionais da Reserva Federal, cada um com o seu próprio presidente e conselho de administração, o mais importante dos quais, de longe, era Nova Iorque, contendiam com sete governadores do Conselho da Reserva Federal nomeados pela presidência. O braço direito de Morgan, Benjamin Strong, tinha operado com sucesso o sistema a partir do banco de Nova Iorque durante quinze anos, mas depois da sua morte, em 1928, faltou orientação; o Fed não agiu à medida que a Depressão se aprofundava.

Ao elaborar a Lei Bancária de 1935, com a ajuda do economista Lauchlin Currie (mais tarde expulso de Washington como comunista), Eccles insistiu em três mudanças fundamentais. O poder de decisão final seria transferido para um Comité Federal de Mercado Aberto (FOMC), no qual os governadores teriam uma maioria de 7-6; os bancos regionais seriam chefiados por presidentes, escolhidos com o consentimento do Conselho, em vez de presidentes escolhidos pelos seus conselhos de administração; e a autoridade creditícia do banco central deveria ser alargada durante uma situação de pânico. O sistema continuaria a ser propriedade privada; o seu grau relativamente elevado de descentralização seria preservado; mas deixaria de estar demasiado dividido para agir numa crise. O Senador Carter Glass (Democrata-Virgínia) procurou sabotar esta nova arquitetura do FED (ele era um dos autores da Lei Glass-Steagall de 1933 e tinha vinte anos antes de ter legislado a existência do Fed), mas não conseguiu. Assim emergiu o Fed moderno.

(As tentativas infrutíferas de Eccles para persuadir os banqueiros comerciais a criarem o mercado secundário para empréstimos hipotecários que foi finalmente confiado à Federal National Mortgage Association patrocinada pelo governo é toda uma outra história).

Eccles acompanhou muitas outras iniciativas em diversos períodos. Eccles viu o FED atravessar a Segunda Guerra Mundial, viu a aprovação da Lei do Pleno Emprego de 1946, viu o início da Guerra da Coreia. Durante dezassete anos, viveu no Hotel Shoreham de Washington. Em 1950 escreveu um artigo para a revista Fortune criticando o apoio continuado a Chiang Kai-Shek e defendendo o reconhecimento da China comunista. Uma vez concluída a guerra na Coreia (o editor, que trabalhava para o promotor de Chiang, Henry Luce, dissociou-se da opinião de Eccles, mas publicou o artigo. No ano seguinte, o mandato do Eccle expirou. Ele foi para casa, para Logan.

Escreveu o seu livro e voltou aos negócios, após uma candidatura falhada ao Senado, em que os eleitores se surpreenderam ao saber que estava registado como republicano (Tratava-se de um partido Republicano diferente, nessa altura.). Eccles manteve um vivo interesse nos negócios estrangeiros como diretor da empresa de construção da família, Utah International. Num jantar na Casa Branca em 1965, confrontou o Presidente Lyndon Johnson com a sua escalada da guerra no Vietname. Viveu o tempo suficiente para ver os helicópteros norte-americanos retirarem-se de Saigão.

Eccles encarnou uma ética mórmon peculiar de serviço público, plena de pragmatismo levada ao limite (uma vez que Boston tem frequentemente representado os ideais puritanos enquanto Filadélfia representa os caminhos Quaker). O seu papel foi retomado por Willard “Mitt” Romney, que, como governador de Massachusetts, pôs em prática uma reforma obrigatória do seguro de saúde, presumivelmente como modelo para um plano nacional. (Romney acabou por se curvar sob pressão do Tea Party e renegou o objetivo).

Porque estou interessado nesse programa de seguro de saúde, dei por mim a pensar se a Secretária de Saúde e Serviços Humanos Kathleen Sebelius poderia sobreviver e eventualmente entrar no mítico serviço público como Eccles o fez? Depende criticamente do testemunho que ela der esta próxima semana sobre o que correu mal com o sítio web do seguro de saúde do governo. Essa decisão de última hora de exigir que os futuros navegadores no sítio se registassem foi um erro profundo. Qual foi o pensamento que esteve por  detrás disso?

Sebelius é uma figura chave na administração [Obama] [1], encarregada de pôr o programa Obamacare a funcionar. Governadora do Kansas por dois mandatos, ela assumiu as suas funções quando o antigo líder da maioria do Senado Tom Daschle, que elaborou a política, foi afastado por um conflito de interesses. Ela optou por ficar em funções em vez de concorrer a um lugar vazio no Senado do Kansas. Tal como Eccles, ela é um legado; o seu pai, John “Jack” Gilligan, um antigo governador democrata do Ohio, serviu na Câmara dos Representantes dos EUA e votou no Medicare. Essas fronteiras também ela as conhece. Este não é o momento de desistir.

 


Nota

[1] N.T. Kathleen Sebelius demitiu-se do governo Obama em Junho de 2014. Depois fundou e tornou-se CEO da Sebelius Resources LLC, que fornece aconselhamento estratégico a empresas privadas, organizações sem fins lucrativos, instituições de ensino superior, e investidores financeiros. Sebelius serve como membro dos conselhos de administração de empresas nomeadamente Dermira Inc., Grand Rounds, Inc., Exact Sciences, e Humacyte Inc., e da Fundação Estee Lauder e da Fundação Família Kaiser. É consultora sénior da Out Leadership e do Instituto Aspen, onde co-preside o Grupo de Estratégia de Saúde Aspen. (vd. wikipedia aqui)

 


O autor: David Warsh [1944-] é um jornalista e autor estado-unidense que tem geralmente abordado tópicos em economia e finanças. Desde 2002, escreve e publica no seu próprio sítio web, Economic Principals, uma série semanal de ensaios sobre economia e economistas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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