A Guerra na Ucrânia- para lá dela — As guerras da América enfrentam um rumo de divisão. Por Alastair Crooke

Seleção e tradução de Francisco Tavares

10 m de leitura

As guerras da América enfrentam um rumo de divisão

 Por Alastair Crooke

Publicado por em 30 de Agosto de 2022 (original aqui)

 

 

Antes de que Putin abdique da pressão sobre as nações da UE, ainda é provável que ele insista que a influência americana sobre a Europa Ocidental seja retirada.

Estamos em Agosto – Dia da Independência da Ucrânia, e o aniversário, também, da desastrosa retirada de Biden de Cabul. Washington está muito consciente de que estas imagens dolorosas (afegãos agarrados ao trem de aterragem dos aviões Hércules) estão prestes a ser reproduzidas de novo, no período que antecede as eleições de Novembro.

Porque os acontecimentos na Ucrânia estão a desenrolar-se mal para Washington – à medida que o lento e calibrado rolo compressor de fogo da artilharia russa desfaz o exército ucraniano. A Ucrânia tem sido notavelmente incapaz de reforçar posições sitiadas, ou de contra-atacar e de manter território reconquistado. A Ucrânia tem utilizado HIMARS, artilharia e drones para atingir alguns depósitos de munições russos, mas estes, até agora, são incidentes isolados, e são mais ‘jogadas’ dos meios de comunicação social, do que qualquer mudança no equilíbrio estratégico da guerra.

Portanto, vamos mudar a ‘narrativa’: Durante a última semana, o Washington Post tem estado dedicado a elaborar uma nova narrativa. No essencial, a mudança é bastante simples: No passado, os serviços secretos norte-americanos podem ter-se enganado desastrosamente, mas desta vez “acertaram em cheio”. Eles alertaram para o plano de invasão de Putin. Eles conheciam os planos detalhados dos militares russos.

Primeira mudança: A equipa Biden avisou Zelensky várias vezes, mas o homem obstinadamente recusou-se a ouvir. Como resultado, quando a invasão surpreendeu Zelensky, os ucranianos no seu conjunto todo estavam irremediavelmente despreparados. Mensagem: ‘A culpa é de Zelensky’.

Não entremos na omissão flagrante desta narrativa, a de oito anos de preparação da NATO para um mega ataque no Donbas, que não podia senão provocar uma réplica russa. Não há necessidade de uma bola de cristal para descobrir “isso”. Há meses que as estruturas militares russas se encontravam a cerca de 70 kms da fronteira ucraniana.

Segunda mudança: o exército da Ucrânia está “a virar a situação”, graças às armas ocidentais. A sério? Mensagem: Não haverá repetição do desastre de Cabul; um colapso em Kiev não pode ser tolerado antes das eleições de meio mandato [Novembro]. Portanto, repita depois de mim: ‘A Ucrânia está a virar a situação’; mantenha-se firme, mantenha o rumo.

Terceira mudança (de um editorial do Financial Times): A economia russa provou ser mais resistente do que o esperado, mas as sanções económicas “nunca foram susceptíveis de fazer ruir a sua economia”. Na verdade, os responsáveis dos EUA, dos serviços secretos americanos e do Reino Unido previram precisamente que um colapso financeiro e institucional russo, na sequência de sanções, desencadearia uma turbulência económica e política em Moscovo de tal magnitude que o domínio de Putin sobre o poder poderia afrouxar, e que uma Moscovo destroçada por uma crise política e financeira seria incapaz de prosseguir eficazmente uma guerra em Donbas – assim Kiev prevaleceria.

Esta foi “a linha” que persuadiu a classe política europeia a apostar tudo em sanções. O Ministro das Finanças francês, Bruno Le Maire, declarou “uma guerra económica e financeira generalizada” contra a Rússia, de modo a desencadear o seu colapso.

Quarta mudança (o FT novamente): Os europeus não se prepararam suficientemente para os consequentes aumentos do preço da energia. Por conseguinte, devem perseverar mais na redução das receitas da Rússia, “afinando mais” o próximo embargo petrolífero. Mensagem: A UE deve ter entendido mal. As sanções “nunca” foram “susceptíveis” de derrubar a economia russa. Também eles não prepararam as pessoas para aumentos dos preços da energia a longo prazo; a culpa foi deles.

Embora esta mudança de narrativa possa ser compreensível do ponto de vista do interesse dos EUA, ela vem como um “duche frio” para a Europa.

Helen Thompson, Professora de Economia Política na Universidade de Cambridge, escreve no FT:

Na Europa, os governos querem aliviar as terríveis pressões sobre as famílias” … [ao mesmo tempo que deixam que] o medo sobre o Inverno que se aproxima, faça baixar a procura. Orçamentalmente, isto significa financiamento estatal para reduzir o aumento das contas de energia … O que não está disponível em lado nenhum, é um meio rápido para aumentar o fornecimento físico de energia [ênfase acrescentada].

Esta crise não é uma consequência inadvertida da pandemia ou da guerra brutal da Rússia contra a Ucrânia. Tem raízes muito mais profundas em dois problemas estruturais. Em primeiro lugar, por ser esta realidade impalpável por razões climáticas e ecológicas, o crescimento económico mundial ainda requer a produção de combustíveis fósseis. Sem mais investimento e exploração, é pouco provável que haja oferta suficiente a médio prazo para satisfazer a procura provável. A actual crise do gás tem a sua origem no aumento do consumo de gás durante 2021, impulsionado pela China. A procura cresceu tão rapidamente que a compra na Europa e na Ásia só esteve disponível a preços muito elevados.

Entretanto, a trégua do aumento dos preços do petróleo este ano só se concretizou quando os dados económicos da China não foram favoráveis. Na opinião da Agência Internacional de Energia, é bem possível que a produção global de petróleo seja inadequada para satisfazer a procura já no próximo ano. Durante grande parte da década de 2010, a economia mundial conseguiu sobreviver ao boom do petróleo de xisto … Mas o xisto americano não pode voltar a expandir-se ao mesmo ritmo: A produção global dos EUA ainda está mais de 1 milhão de barris por dia abaixo do que estava em 2019. Mesmo no Permiano, a produção diária por poço está a diminuir. Mais perfuração offshore, do tipo aberto no Golfo do México e Alasca pela Lei de Redução da Inflação, exigirá preços mais elevados, ou investidores dispostos a injectar capital, independentemente das perspectivas de lucro. As melhores perspectivas geológicas para uma mudança de jogo, à semelhança do que aconteceu na década de 2010, residem na enorme formação de óleo de xisto Bazhenov na Sibéria. Mas as sanções ocidentais significam que a perspectiva de as grandes companhias petrolíferas ocidentais ajudarem a Rússia tecnologicamente é um beco sem saída geopolítico. Em segundo lugar, pouco pode ser feito que acelere imediatamente a transição dos combustíveis fósseis … O funcionamento das redes eléctricas em cargas de base solar e eólica exigirá avanços tecnológicos no armazenamento. É impossível planear com alguma confiança o progresso que se terá concretizado em 10 anos – quanto mais no próximo ano.

A mensagem geoestratégica desta mensagem é tão clara como água: É um aviso contundente de que os interesses da UE não se coadunam com os de uns EUA determinados a atravessar os próximos meses até às eleições de meio mandato – com sanções reforçadas impostas à Rússia pela Europa (as “sanções tecnológicas acabarão por ter impacto sobre a economia russa”) – e também com a Europa, continuando a “manter-se firme” com o seu apoio militar e financeiro a Kiev.

Como a Professora Thomson comenta de forma categórica, “a compreensão das realidades geopolíticas é também essencial … Os governos ocidentais devem ou expor-se à miséria económica a uma tal escala que teste o tecido da política democrática em qualquer país – ou enfrentar o facto de que o fornecimento de energia limita os meios pelos quais a Ucrânia pode ser defendida“. Por outras palavras, ou é salvar a pele da classe política europeia através do retorno ao gás russo barato, ou manter-se alinhado com Washington e submeter os seus eleitores à miséria – e os seus líderes a um ajuste de contas político que já se está a desenrolar.

Isto coloca a Rússia numa posição que lhe permite jogar as suas “grandes cartas”: Assim, tal como os EUA. jogaram plenamente a sua dominação do dólar, apoiado militarmente, nos anos que se seguiram à implosão da União Soviética, para encurralar grande parte do mundo na sua esfera de regras, hoje, a Rússia e a China estão a oferecer ao Sul Global, à África e à Ásia uma libertação destas “Regras” ocidentais. Estão agora a encorajar o ‘Resto do Mundo’ a afirmar a sua autonomia e independência através dos BRICS e da Comunidade Económica Eurasiática.

A Rússia, em parceria com a China, está a construir relações políticas generalizadas através da Ásia, África e do Sul global, com base no seu papel dominante como fornecedor de combustíveis fósseis e de grande parte dos alimentos e matérias-primas do mundo. Para aumentar ainda mais a influência da Rússia sobre as fontes de energia de que dependem os beligerantes ocidentais, a Rússia está a coser uma “OPEP” de gás com o Irão e o Qatar, e fez também receptivas aberturas à Arábia Saudita e aos Emirados Árabes Unidos para se juntarem na tomada de maior controlo de todos os principais produtos energéticos.

Além disso, estes grandes produtores estão a juntar-se aos grandes consumidores de energia para tirar das mãos de Londres e da América os mercados de metais preciosos e mercadorias – com vista a acabar com a manipulação ocidental dos preços das mercadorias, através dos mercados de papel derivado.

O argumento apresentado por responsáveis russos a outros estados é ao mesmo tempo extremamente apelativo e simples: O Ocidente virou as costas aos combustíveis fósseis e planeia eliminá-los por fases – dentro de cerca de uma década. A mensagem é que não tem de se juntar a esta “política masoquista de sacrifício”. Pode ter petróleo e gás natural – e com um desconto em relação ao que a Europa tem de pagar, ajudando a vantagem competitiva das suas indústrias.

Os “Biliões de Ouro” [as abastadas elites ocidentais] desfrutaram dos benefícios da modernidade, e agora querem que renuncie a tudo, e exponha os seus eleitorados às extremas dificuldades de uma Agenda Verde radical. Pode-se ,no entanto, defender que o mundo não-alinhado necessita ao menos das bases da modernidade. No entanto, os rigores da ideologia Verde ocidental não podem ser simplesmente impostos ao resto do mundo – contra a sua vontade.

Este argumento convincente representa o caminho para que a Rússia e a China façam pender grande parte do globo para o seu campo.

Também alguns Estados – embora simpatizantes da necessidade de atender às alterações climáticas – verão espreitar no seio do ESG (Ambiente, Social e Governação) o regime claro de um novo colonialismo ocidental financeirizado – com finanças e créditos racionados apenas para aqueles que estão em plena conformidade com o Projecto Verde gerido pelo Ocidente. Em suma, suspeitam de um novo elefante branco, enriquecendo principalmente os interesses financeiros ocidentais.

A Rússia diz simplesmente: “Não é preciso ser assim”. Sim, o clima deve ser uma consideração, mas os combustíveis fósseis estão a sofrer uma falta aguda de investimento, em parte por razões ideológicas ecológicas, em vez de tais recursos estarem, per se, a esgotar-se. E, por muito desagradável que seja para alguns, o facto é que o crescimento económico mundial ainda requer a produção de combustíveis fósseis. Sem mais investimento e exploração, é pouco provável que haja oferta suficiente a médio prazo para satisfazer a procura provável. O que não está disponível em parte alguma, é um meio rápido para aumentar o fornecimento de energia física alternativa.

Onde estamos agora? A Rússia tem uma grande ofensiva em curso na Ucrânia. E a Europa espera poder escapar-se do seu imbróglio ucraniano quase sem ser notada, sem o ar de romper abertamente com Biden, uma vez que Kiev implode de forma incremental. Já se vê isso. Quantos cabeçalhos de notícias sobre a Ucrânia na Europa? Quantas notícias nas redes? “A Europa pode simplesmente ficar calada, e afastar-se do desastre”, é sugerido.

Mas é aqui que está o problema: Antes de que Putin abdique da pressão sobre as nações da UE, ainda é provável que ele insista que a influência americana sobre a Europa Ocidental seja retirada, ou pelo menos que a Europa comece a agir com total autonomia no seu próprio interesse.

Há poucas dúvidas de que isto estava na mente de Putin quando ele lançou a “operação militar especial” na Ucrânia. Ele deve ter antecipado a reacção da NATO ao impor as suas sanções à Rússia – das quais esta última (muito inesperadamente para o Ocidente), lucrou muito. É a UE que foi gravemente esmagada, com um aperto que Putin pode intensificar à vontade.

O drama ainda está a decorrer. Putin precisa de manter alguma pressão sobre a Ucrânia para manter o aperto. Provavelmente, não está pronto a comprometer-se. O Inverno na UE será ainda mais rigoroso, com escassez de energia e alimentos susceptíveis de levar a tumultos sociais. Putin só parará quando os europeus tiverem experimentado dor suficiente para traçar um rumo estratégico diferente – e para romper com os EUA e a NATO.

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O autor: Alastair Crooke [1949-] Ex-diplomata britânico, fundador e diretor do Fórum de Conflitos, uma organização que advoga o compromisso entre o Islão político e o Ocidente. Anteriormente, era uma figura de destaque tanto na inteligência britânica (MI6) como na diplomacia da União Europeia. Era espião do Governo britânico, mas reformou-se pouco depois de se casar. Crooke foi conselheiro para o Médio Oriente de Javier Solana, Alto Representante para a Política Externa e de Segurança Comum da União Europeia (PESC) de 1997 a 2003, facilitou uma série de desescaladas da violência e de retiradas militares nos Territórios Palestinianos com movimentos islamistas de 2000 a 2003 e esteve envolvido nos esforços diplomáticos no Cerco da Igreja da Natividade em Belém. Foi membro do Comité Mitchell para as causas da Segunda Intifada em 2000. Realizou reuniões clandestinas com a liderança do Hamas em Junho de 2002. É um defensor activo do envolvimento com o Hamas, ao qual se referiu como “Resistentes ou Combatentes da Resistência”. É autor do livro Resistance: The Essence of the Islamist Revolution. Tem um Master of Arts em Política e Economia pela Universidade de St. Andrews (Escócia).

 

 

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