Vivemos Tempos Difíceis – A Avenida dos Ignorantes e a Avenida dos Acomodados.  Por Júlio Marques Mota

 

As pessoas inteligentes tiveram a sua opinião

Chegou a hora dos loucos mostrarem o caminho

Demos a este mundo uma dança alegre, demos à estupidez uma oportunidade

Já temos bastante com os peritos e as suas manigâncias

Porquê enfrentar os factos quando podes simplesmente sentir os sentimentos

Demos a este mundo uma dança alegre, demos à estupidez uma oportunidade

Esquece o politicamente correcto, quero dizer wtf (foda-se)

Não quero pensar sobre o mundo, quero falar sobre mim mesmo

Em vez de governar com uma sensibilidade refletida

Choquemos e espantemos o mundo com um fanatismo idiota

Demos a este mundo uma dança alegre, demos à estupidez uma oportunidade

Tu dizes corrupção, eu digo recompensa merecida

Mantém os compinchas fiéis presidentes do conselho de administração

Demos a este mundo uma dança alegre, demos à estupidez uma oportunidade

Esquece o politicamente correcto, falemos de homem para homem

As miúdas estão sempre dispostas a isso, tens que agarrar o mais que possas

Necessitamos um líder que saiba que o dinheiro significa ter classe

Com o olho posto num pedaço de cu perfeito como um pêssego

Não é um perfeito cretino mas apenas um dos rapazes

Demos à estupidez um preço

Demos a este mundo uma dança alegre, demos à estupidez uma oportunidade

Pet Shop Boys, “Give stupidity a chance”

 

 

13 m de leitura

Vivemos Tempos Difíceis – A Avenida dos Ignorantes e a Avenida dos Acomodados

 Por Júlio Marques Mota

Faro, em 1 de Setembro de 2022

 

Vivemos tempos difíceis, muitíssimo difíceis mesmo. Um tempo em que nos faltam líderes de qualidade e os trapaceiros em política abundam, ignorantes, como Liz Truss, possivelmente a próxima primeira-ministra da Inglaterra, cínicos, como Boris Johnson, malabaristas como António Costa, gananciosos como Mario Draghi, ou puros oportunistas e ignorantes como Trump ou Bolsonaro, e isto para alem de outras tipologias possíveis que a estas são equivalentes,

Há dias enviei-vos um texto onde se descrevia o estado clamoroso em que está a Inglaterra (publicado em A Viagem dos Argonautas, ver aqui). Em qualquer sociedade entre os vários pilares fundamentais para uma vida condigna estão os setores de ensino, de saúde e as estruturas de mercado de trabalho se funcionarem no respeito das regras e dos objetivos democráticos. De acordo com o artigo de Vctor Hill nenhum destes pilares está funcional na Inglaterra, nenhum está em condições de servir os ideais da Democracia.

E em Portugal nada parece ser diferente. O serviço de saúde é o que se sabe, o ensino não estará em melhores condições como estou cansado de repetir e ainda se irá degradar mais, e quanto aos mercados de trabalho, como dizia um jurista meu conhecido, o Direito do Trabalho em Portugal, foi, já não é, já não existe. Dentro em breve, as coisas irão estalar como estão a estalar na Inglaterra, como irão estalar na Itália, nos Estados Unidos ou algures. Os sinais das próximas greves laborais começam a ser vistos num horizonte já próximo.

Na semana passada organizei uma série de textos que bem poderia ser intitulada “Da digitalização do ensino à sua cretinização, da sua cretinização à sua fascização- de um lado ao outro está-se à distância de um curto passo”. Uma grande avenida, a que chamamos Avenida dos Ignorantes, tem estado a ser construída pelos nossos reformadores do ensino nestas duas últimas décadas, depois de Bolonha, para que este caminho seja mais rápido de percorrer. Tudo isto é feito em nome dos grandes chavões de agora, modernidade, competitividade, internacionalização do ensino. E esta avenida já tem muita gente a chegar a meio do caminho, a chegar à situação de cretinização em massa. E os nossos reformadores oficiais garantidamente sabem o que estão a fazer, sabem bem para que serve a avenida que estão a construir e a ocupar.

Não estará esta temática ligada ao que se passa agora, ao silêncio com que se assiste perante os perigos que se vive e que se estão a desencadear sob os nossos olhos e com o nosso silêncio? Pessoalmente, acho que sim, são décadas de discurso neoliberal que nos têm vindo a enviesar a visão que cada um de nós pode ter da realidade, dispensando a análise crítica sobre essa mesma realidade. No limite, pretendem até que deixemos de pensar, e isto para aqueles que se orientam pela verdade oficial concebida e produzida pelos think tanks ao serviço dessa verdade e, depois, difundida até à exaustão pelos media à escala planetária.

Quando os nossos políticos são o que são, quando são movidos pelos interesses mais espúrios, quando estes são bem embalados pelos criadores da verdade oficial e pelos profissionais da mistificação dessa mesma verdade oficial, tudo se pode transfigurar e cairmos assim em comportamentos coletivamente privados de racionalidade que pouco ou nada têm a ver com as pessoas singularmente consideradas. Com esse objetivo são criadas verdadeiras máquinas de propaganda, em que os Estados tudo investem para impor a sua verdade e com tal intensidade que nos dão a ilusão de que estamos a chegar ao fim da cadeia de causalidades acima referida, o que pode ser condensado numa única fórmula bem simples: quem não é por nós é contra nós, e quem é contra nós é então a favor de Putin. A partir daqui, a máquina regressiva e repressiva ganha perigosamente embalagem e os custos para quem não está com a verdade oficial podem começar a ser elevados (o exemplo da Festa do Avante é esclarecedor do clima de ódio que assim se cria). Esta situação é claramente exemplificada com a situação atual quer no que se refere à guerra na Ucrânia quer no que se refere à crise económica que ameaça brutalmente as sociedades ocidentais ainda não refeitas, nem de longe nem de perto, da crise financeira global de 2008, da crise da dívida pública na Europa de 2010 e da crise do Covid – só se pode estar de acordo com a corrente oficial.

 

Em paralelo à dinâmica social e consequente trajetória criada no interior da Avenida dos Ignorantes temos uma outra dinâmica social, criada por gente que nada tem a ver com a gente que ocupa a dita avenida que acabámos de referir, e que está, portanto, fora dela. Trata-se de gente que ocupa uma outra avenida, a Avenida dos Acomodados, gente que tem como prática política colar-se ao sistema para o defender. Esta segunda dinâmica é estabelecida por gente que tem uma visão própria do mundo e que, independentemente da verdade oficial produzida, se adapta relativamente bem às políticas neoliberais seguidas desde que estas lhes pareçam devidamente adequadas, bem embaladas. Duas dinâmicas diferentes, uma criada numa base da emoção e, porque não, de ignorância também, assente e sustentada numa sofisticada e intensa manipulação da informação, e a segunda dinâmica criada e sustentada em quadros conceptuais próprios, ou seja, por uma cultura solidamente estabelecida, sejam eles de direita como de esquerda, como é o caso dos partidários de Bernie Sanders. Podemos discordar dos neoliberais, de direita ou assumidos como de esquerda, mas não os podemos chamar de incultos ou ignorantes. Isso, nunca!

São assim duas populações diferentes, a. que ocupa a da Avenida dos Ignorantes e a que ocupa a Avenida dos Acomodados, são duas dinâmicas diferentes, com bases de partida também elas muito diferentes mas que no que diz respeito à situação de perigosa crise derivada da guerra da Ucrânia e dos fortíssimos efeitos colaterais a que estamos a assistir se confundem por completo, e porquê? Porque há entre elas um elemento comum: “quaisquer que sejam as suas causas longínquas ou próximas, o que nos importa aqui é que houve uma invasão; há um país invadido e um país invasor. Neste contexto só há uma posição a tomar, a de defender o país invadido, a de ignorar todos os argumentos que possam favorecer o país invasor”. Isto é o que dizem uns e outros dos dois grupos que estão alinhados com as políticas seguidas nesta guerra e com as medidas de contenção que começam a ser praticadas contra os elevados custos colaterais que esta guerra está a gerar. E que eram previsíveis, acrescente-se.

Não é por acaso que, contrariamente ao que acontecia nas décadas de 70, 80, 90 do século passado, para situações equivalentes ou mesmo menos perigosas que a situação de agora, em que vieram em protesto para a rua milhões e milhões de pessoas em unidade, agora, assiste-se a um silêncio sepulcral tanto mais sepulcral quanto mais se intensifica a escalada da guerra. E quanto ao desarmamento das armas de destruição em massa nada se diz, quanto aos refazer dos tratados de controlo de armas de destruição em massa desfeitos pelo Ocidente nestes últimos anos, também nada se diz. Quanto às tentativas de desmilitarização da zona em guerra, os ditos acordos de Minsky, começa a ser proibido falar. Parece que o silêncio é de ouro.

E esse silêncio significa o quê? A nossa ignorância? A nossa ingenuidade? A nossa indiferença, o nosso sentimento de discordância? Neste último caso, o nosso silêncio significará ele um sentimento de oposição e de impotência face ao que decidem os políticos sem nos perguntarem nada e face à massificação da verdade oficial que nos é imposta? Ou, alternativamente, o nosso silêncio significa a nossa concordância? Sinceramente, para ser concordância nunca vi esta manifestar-se pelo silêncio perante os graves perigos que a Humanidade está a correr.

Estamos numa situação extremamente perigoso e tudo se passa como se nada se passe: a guerra da Ucrânia que, pelo lado ocidental, ninguém quer parar, está claramente a apontar para o perigo da ameaça global. Tudo isto só é possível se o estado de fascização das sociedades modernas estiver já em fase adiantada. E tudo aponta que sim, embora nuns países mais do que noutros. Nos países Mais contam-se os EUA, a Grã-Bretanha, a Ucrânia, os países bálticos. Os outros ao segui-los comportam-se como membros de um rebanho, o típico dos mercados financeiros, como é o caso de Portugal, Espanha e outros.

Da inconsciência dos nossos políticos à irresponsabilidade moral também assumida quer pelos thinks tanks (centros de reflexão muitas vezes pagos a peso de ouro) quer pelos media na difusão da verdade oficial quanto às razões que estão subjacentes às suas decisões aqui vos deixo três exemplos:

  1. Sobre as declarações de Joe Biden veja-se o que nos diz David North:

“Afirmação de Biden: “Não estamos a encorajar ou a permitir que a Ucrânia ataque para além das suas fronteiras”. Mas os Estados Unidos estão a enviar à Ucrânia “sistemas de mísseis avançados” que, de facto, encorajam e permitem à Ucrânia atacar a Rússia.

Biden está a dar à Ucrânia uma carta-branca para utilizar estas armas da forma que considerar necessária. A Ucrânia tomará medidas para provocar o confronto militar entre a NATO e a Rússia. Atacar a Rússia com mísseis fornecidos pelos EUA permitirá atingir esse objetivo. A Rússia irá retaliar.

De passagem, Biden afirma: “Sei que muitas pessoas em todo o mundo estão preocupadas com a utilização de armas nucleares”. Depois, prossegue para afastar tais preocupações, absurdamente tranquilizando os leitores:

Atualmente não vemos qualquer indicação de que a Rússia tenha intenção de utilizar armas nucleares na Ucrânia, embora a retórica ocasional da Rússia para agitar o sabre nuclear seja em si mesma perigosa e extremamente irresponsável.

Mas o que é “a retórica ocasional da Rússia para ameaçar com o cutelo nuclear” senão “indicação” extremamente séria de uma “intenção de utilizar armas nucleares”? E se não é uma tal indicação, porque é que Biden a descreve como “perigosa e extremamente irresponsável”? Fim de citação.

 

  1. Declarações de Lyz Truss atual Ministra dos Negócios Estrangeiros do Reino Unido e provavelmente próxima-primeira ministra deste país relatadas por alguns media (ver aqui e aqui):

“Liz Truss está preparada para nos aniquilar a todos porque é uma “parte importante” do seu trabalho.

Harry Fletcher

Indy

Liz Truss emergiu como a favorita na corrida de liderança Tory, e disse agora que estava “pronta” para carregar no botão nuclear, se necessário.

A Ministra dos Negócios Estrangeiros estava a falar no evento do Partido Tory, em Birmingham, na terça-feira à noite, quando foi questionada sobre esta perspetiva pelo seu anfitrião John Pienaar.

Pienaar disse que a ideia de carregar no botão o deixaria “fisicamente doente”, mas Truss disse que se tratava de um “dever importante”.

“Uma das primeiras coisas que irão acontecer quando e se se tornar Primeira-Ministra, será ser introduzida numa sala, uma verdadeira sala privada no número 10, e haverá à sua frente aquilo a que se chama as cartas de último recurso”, disse Pienaar.

“As suas ordens ao nosso capitão do submarino Trident sobre se a senhora Primeira-Ministra Liz Truss, está a dar a ordem para libertar armas nucleares”, acrescentou ele.

A Ministra dos Negócios Estrangeiros disse que estava “pronta” para premir o botão vermelho. Getty/iStock

“Isto significaria aniquilação global”. Não lhe perguntarei se carregaria no botão, dirá que sim, mas face a essa tarefa eu sentir-me-ia fisicamente doente. Como é que esse pensamento a faz sentir?”

Truss respondeu dizendo: “Penso que é um dever importante do primeiro-ministro e estou pronto a cumpri-lo.”. Fim de citação

 

3. Numa entrevista dada pelo escritor ucraniano Vladimir Rafeenko a Marci Shore, professora associada americana de história intelectual na Universidade de Yale, e publicada pelo importante sítio eletrónico Syndicate, diz-nos Vladimir Rafeenko:

“O Ocidente precisa de compreender que na guerra, não é Putin que é culpado. Não foi ele que criou os russos. Os russos criaram Putin. Ele é o seu instrumento, o seu alter ego. Ele é a carne da cultura russa tal como ela é, sem ilusões nem sentimentalismos. E esta besta deve ser detida.” Fim de citação.

VR: The West needs to understand that in the war, it is not Putin who is guilty. He did not create the Russians. The Russians created Putin. He is their instrument, their alter ego. He is the flesh of Russian culture as it is, without illusions or sentimentality. And this beast must be stopped.

 

Mais à frente também podemos ler:

MS : Acredita que agora há uma forma de atingir os russos?

VR: Penso que só uma derrota esmagadora – uma derrota terrível e sem precedentes – e um arrependimento amargo podem colocar os russos no seu lugar e trazê-los à realidade – se eles forem capazes de o fazer” Fim de citação.

MS: Do you believe there’s a way to reach the Russians now?

VR: I think that only a crushing defeat – a terrible and unprecedented defeat – and bitter repentance can sober the Russians and bring them to reality – if they are capable of that.

Sublinhemos ainda que esta longa entrevista foi depois publicitada no Tweeter por Timothy Snyder, historiador e professor americano na Universidade de Yale, especializado em história da Europa Central e Oriental. Escreve entre outros sítios, no New York Times. Faça-se um esforço intelectual e substitua-se russos por judeus e estamos a ver até onde é que esta lógica nos pode levar: à década hedionda dos anos 30, substituindo-se apenas os mártires.

Neste exemplo, estamos a ver até onde os think tanks e os media nos podem levar e com o argumento de que se está a defender a Democracia! Com este exemplo, estamos pois a ver os meios envolvidos na campanha a favor da guerra e da diabolização extrema mesmo que se corra o perigo sério da destruição do mundo e vê-se igualmente a vontade de se ir até ao fim, até à destruição total. De paz é que é proibido falar. E esta pode vir a ser a situação criada pelas duas dinâmicas sociais acima referidas, ao virarem as costas à diplomacia, à procura da paz. É contra a ignorância da primeira delas, os habitantes da Avenida dos Ignorantes, é contra o vício de lógica da segunda, a Avenida dos Acomodados, em situarem-se apenas no presente, com exclusão quer do passado quer das consequências futuras das decisões tomadas no presente a que nos temos sucessivamente oposto, privilegiando a necessidade de procura de caminhos que nos levem à paz. Estamos pois longe do discurso oficial e tão longe quanto estamos da defesa da lógica de Putin, um autocrata num sistema autocrático.

 

Contra o discurso oficial reproduzido em Londres, Paris, Kiev, Washington ou outras cidades europeias, a justificar a guerra que se quer continuar a intensificar em nome da democracia, dos altos valores do Ocidente, aqui vos deixo dois textos:

  1. O regresso do Rei, de Wolfgang Streeck
  2. Uma lista negra da Ucrânia, de Wolfgang Bittner (publicado na Viagem dos Argonautas em 19/08/2022, ver aqui)

em que se relatam factos que estão nas antípodas do discurso oficial, dos artigos da nossa imprensa ou dos programas das nossas televisões, com factos que estão em oposição ao massacre a que diariamente estamos sujeitos a propósito da guerra, da inflação, da crise económica que está já à frente dos nossos olhos, factos que nos deveriam levar todos a uma profunda reflexão sobre o que se está a passar.

A que adiciono três outros textos sobre os Estados Unidos: um onde se perspetiva o que poderá ser a luta de classes nos Estados Unidos até Novembro de 2022, eleições intercalares, e depois, até 2024-eleições presidenciais; um sobre greves e sindicatos nos USA, um texto que é a sequência do anterior; e um quinto texto, com a assinatura de Robert Reich em que se apela a movimentações de consciencialização política para que os fascistas não ganhem o poder nos Estados Unidos e há esse perigo:

  1. Decisão do Conselho de Emergência Presidencial sobre os caminhos-de-ferro: A administração Biden declara guerra à classe trabalhadora
  2. Os sindicatos ferroviários dos EUA estão a tentar conter a contestação enquanto os ferroviários pressionam para uma ação de greve após a intervenção federal a favor das empresas de caminhos-de-ferro.
  3. A batalha mais importante da nossa vida-Robert Reich

E face à leitura dos dois textos que vos apresento, uma pergunta aqui vos deixo: com estes nossos líderes, e o discurso de Truss não difere na prática do que os outros possam estar a pensar, tendo em conta o que fazem ou o que dizem, para onde acham que nos estão a levar os nossos dirigentes políticos, se não ganharmos forças para lhes barrar o caminho? Leiam-se com atenção os dois textos e pense-se bem na minha pergunta, dê-se uma possibilidade * à paz em vez de procurarmos utilizar cada vez mais armas, de criarmos cada vez mais diabolização, mais ódios.

Boa leitura

 

Nota. Sublinho que o texto O Regresso do Rei tem a assinatura de WOLFGANG STREECK, diretor emérito do Instituto Max Planck, e é um dos mais importantes intelectuais alemães da atualidade.

 

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