CARTA DE BRAGA – “de pintores e poetas” por António Oliveira

Hoje apetece-me escrever de coisas diferentes, talvez por ter lido, de uma página tirada do ‘Diario’ da pintora mexicana Frida Kahlo, conhecida pelos muitos autorretratos onde pretendia exprimir a sua própria realidade, Para que preciso de pés quando tenho asas para voar?’.

Teria escrito esta frase quando, depois de um acidente de autocarro, ter ficado internada durante muito tempo. A sua pintura e a fotografia que também praticou, levaram a que tivesse conhecido e casado com o pintor Diego Rivera e, mais tarde conhecido e contactado com Picasso e Kandinsky. Foi professora de artes na cidade do México, e uma defensora acérrima do feminismo e dos direitos humanos, até à sua morte em 1954, mas tem trabalhos espalhados pelos museus de todo o mundo.

Não muitos dias depois, li uma entrevista de um pintor, desenhador, ceramista e escultor, nascido em Barcelona, mas a viver em Nova Iorque, há quarenta anos. Órfão, os pais morreram numa inundação, foi criado por um casal que cedo descobriu o que ele poderia fazer; ‘Levaram-me para um colégio onde respeitaram as minhas pulsões -levantava-me da carteira e saía da aula para andar. Noutro colégio teria sido expulso, e ali nunca fiz um exame. Quando era de História, diziam “desenha-o” e, até por causa disso, costumo dizer que pinto com erros ortográficos’.

Tem obra espalhada por muitos museus e colecções privadas, mas agradece tudo ao pai, ‘Um estudioso de teologia, que sempre apontou e potenciou o meu dom e gosto muito desse termo, dom encerra humildade e implica um Deus que doa’.

O cronista Emílio Jurado, em artigo recente, com o título ‘Os prazeres roubados’, parece apontar para esta liberdade, por termos sempre penado a lamentável ‘Obsessão dos poderosos em restringir as fontes de prazer dos que não fazem parte do grupo dos eleitos e, embora tenham a consciência de porque o fazem, sabem o suficiente para não deixarem de o fazer’.

E Jurado acrescenta, ‘Roubam-nos a fonte material do prazer e procuram anular as nossas defesas, condenando as aportações de poetas, pintores, cineastas e músicos, suspeitos todos de disporem de um mundo alternativo’, com medo de eles tornarem público aquilo que esperam que nunca o venha a ser e, qualquer poder sempre produz o seu próprio e cínico suporte de segredo, como vimos e vamos vendo em qualquer lado, mesmo nas mais modestas varandas.

Aliás, numa das crónicas que publica no DN, o professor de Direito em Lisboa, Miguel Romão, afirma a este propósito, ‘O cinismo original visava melhorar o mundo e as pessoas, exercendo uma forte critica sobre modos de vida abusivos. O actual visa apenas alicerçar ou prolongar um poder, nomeadamente através da diluição de fronteiras, éticas, legais e físicas, entre instituições e aqueles que as dominam’.

Comecei esta Carta com uma pintora, vou acabar com uns versos do poeta gaditano Rafael Alberti, autor da ‘Balada para los poetas’, versos que aqui deixo na língua original ‘…hacer que el canto ascienda a más profundo cuando, abierto en el aire, sea de todos los hombres’

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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