Se no início não conseguir encontrar-me, não desanime
Se não me encontrar num lugar, procure noutro,
Eu pararei em algum lugar à sua espera
“Song of Myself” de Walt Whitman
Parte I – Morte da cultura e o regresso à barbárie e ao pensamento mágico
“Sem a palavra, sem a escrita dos livros, não há história, não há conceito de humanidade”
Hermen Hesse
Nota de editor:
Este décimo quinto texto da parte I – Morte da Cultura e o Regresso à Barbárie e ao Pensamento Mágico é composto por oito textos sujeitos ao tema Degradação Mental sem Fronteiras, do sítio The Bafler. Hoje publicamos o oitavo texto da autoria de Annette Hug.
FT
Seleção e tradução de Júlio Marques Mota
6 min de leitura
Texto 15. Degradação mental sem fronteiras (8/8): De regresso da Floresta
Publicado por
Baffler Symposium no. 81, em Novembro de 2025 (original aqui)

Enquanto lia o Financial Times de 4 de julho, os futuros entrecruzavam-se. Não me refiro a futuros de trigo ou de especulação sobre a morte e ganhos de seguros de vida ou sobre a próxima colheita na Ucrânia. Os meus pensamentos sobre desenvolvimentos futuros divergiram quando li primeiro um artigo sobre a onda de calor na Europa naquela época e depois sobre a empresa Meta a competir com os seus maiores rivais para “garantir capacidade de computação para alimentar os seus modelos de IA”; o projeto da Oracle de construir novos centros de dados, aumentando a capacidade em um quarto do nível atual dos EUA, é um desses empreendimentos. Como as necessidades energéticas tendem a disparar, a Meta garantiu uma central nuclear no Illinois por duas décadas inteiras. Entretanto, os operadores de tais instalações em França e na Suíça foram obrigados a suspender ou reduzir a atividade à medida que as temperaturas subiram, noticiou o Financial Times. Com os rios a correr com baixos caudais, é impossível arrefecer os reatores e o combustível usado: a água aquecida, devolvida aos rios, mataria a vida vegetal e animal. Comparado com isto, a lei da UE sobre IA parece uma ameaça menor para o GPT, o Gemini, o Llama ou o Behemoth. Uma das muitas razões para a discórdia e a difamação transatlânticas, foi que a lei entrou em vigor em agosto de 2024. Ainda assim, os fundadores de empresas emergentes europeias de IA chamaram-lhe “uma bomba-relógio precipitada.” Querem competir, sem restrições de privacidade, transparência e direitos de autor.
Pertenço a um campo diferente, aquele que conta com os Estados para regular as novas tecnologias e agir contra o desastre ecológico. Juntamente com tradutores afins, formámos a célula de língua alemã da “En Chair et en Os” (“Em Carne e Osso”), o coletivo francês pela tradução humana. (O seu manifesto, acessível em inglês e em outras dezassete línguas, foi assinado por mais de dezoito mil escritores e tradutores, entre os quais os laureados com o Nobel Annie Ernaux, Olga Tokarczuk e J. M. G. Le Clézio.) Nos países de língua alemã, os subsídios governamentais para a tradução literária são substanciais. A exigência de limitar esses subsídios aos humanos, excluindo as editoras que produzem textos com modelos de linguagem digital de grande escala, afigura-se crucial para o futuro da profissão.
Recentemente, numa festa de casamento em Genebra, um colaborador de uma empresa emergente suíça de IA tentou convencer-me de que somos aliados. Prometeu LLMs verdadeiramente inteligentes, desenvolvidas por cientistas, e não por grandes empresas com adolescentes de testosterona tardia. Tais ferramentas poderiam melhorar muito a compreensão de textos históricos, por exemplo, recorrendo a um vasto corpus de textos escritos num período específico e deste modo propiciar traduções.
Ele inspirou-me ideias sobre a utilização produtiva de ferramentas de IA na investigação, mas mantive-me cética quanto à sua visão de a IA poder eliminar qualquer enviesamento individual na tradução. Como me interessam as vozes pessoais na literatura, ele não conseguiu atrair-me para fora da minha ZAD — a minha “zone à défendre”, como os franceses chamam aos locais ocupados por contestatários que defendem as florestas do ataque do betão (às vezes sinto que trabalho numa daquelas barracas improvisadas de uma ZAD). O objetivo da nossa célula é defender livros escritos e traduzidos por pessoas. A maioria de nós está a defender o próprio sustento, mas gostaríamos de pensar que isto tem a ver com o cérebro humano num sentido mais amplo: com a linguagem, as emoções e as mentes; com a capacidade das pessoas de encontrarem as suas próprias palavras para aquilo que vivem e sonham; com o facto de as pessoas falarem verdadeiramente umas com as outras, aprenderem as línguas umas das outras. Preocupamo-nos com a cidadania e as democracias, porque estas dependem de trocas inteligentes entre seres humanos.
Mas prometi a mim mesma que este texto não seria distópico; não falta distopia nas notícias. Talvez o convidado da festa de casamento tivesse razão, e eu devesse permitir-me imaginar novas possibilidades para a minha própria profissão. E houve momentos recentemente que me fizeram sentir esperançosa. Em julho de 2024, por exemplo, nas encostas do Monte Banahaw, na ilha filipina de Luzon, um grupo de voluntários construía uma biblioteca móvel. Fora das suas tarefas habituais, uma professora vestia-se de palhaça e carregava um cesto até às aldeias mais remotas do seu município, Rizal. Por uma vez, a leitura não seria uma obrigação, mas uma diversão. Sendo uma das poucas pessoas a traduzir literatura do tagalo para o alemão, os amantes locais dos livros tratavam-me como uma nerd da mesma estirpe. Eu pretendia escrever sobre o seu Book Nook para uma revista alemã. O que mais me surpreendeu, neste país onde 80 a 90 por cento da população tem acesso à internet (embora lenta e maioritariamente através de telemóveis), foi que, após o encerramento das escolas durante dois anos por causa da pandemia de Covid-19, a novidade empolgante parecia ser as interações presenciais e os livros escritos e impressos no próprio país — em oposição aos livros em segunda mão em inglês, doados por familiares emigrados ou por visitantes.
Há alguns dias, quatro escritoras sentaram-se em fila diante de um clube decadente sob um viaduto na cidade de Zurique. Faziam barulho com máquinas de escrever mecânicas. Um pequeno festival celebrava o aniversário de uma livraria local chamada Paranoia City. Os convidados podiam encomendar uma carta de amor, um conto, um poema ou um manifesto, e uma das nossas escritoras datilografava-o e vendia-o por um preço módico. O dinheiro revertia para a expansão da livraria. Para algumas crianças, a nossa datilografia era algo exótica. As pessoas debruçavam-se sobre nós para observar os caracteres tipográficos a baterem na fita de tinta e deixando as marcas no papel. Havia uma excitação em escrever lado a lado com as outras enquanto uma banda tocava; os textos pareciam emergir da música, dos olhares das crianças e do ritmo das máquinas de escrever.
Estes momentos geram um cenário de difração do mundo pós-letrado, que não é unificado. Como sempre, a inovação tecnológica não se distribui de forma igualitária. Enquanto alguns avançam a toda a velocidade, outros são alimentados com versões de quinta categoria, com sobras e ferramentas em segunda mão. E alguns ficam completamente excluídos. Deve ser maravilhoso superar os aspetos enfadonhos da escrita — especialmente quando se escreve numa língua estrangeira, como estou agora a fazer. O que aparece no ecrã nunca corresponde à densidade, à cor e à melodia dos meus pensamentos. De forma mais fundamental, a palavra pensamento não capta minimamente o que ocorre antes de se digitar. Por um momento, imaginamo-nos a passar das interfaces cérebro-máquina do presente para conectores cérebro-máquina-cérebro muito mais elaborados, capazes de transmitir a qualquer pessoa uma impressão das minhas memórias: a evocação tridimensional de uma montanha filipina, por exemplo. Um pátio de escola atingido por um aguaceiro repentino. Será que a interface transportaria cheiros? Essa coagulação de vapor frio, putrefação e bruma florida? O tamborilar da chuva? Um staccato de palavras escritas no Financial Times serve agora de âncora para as memórias, intercalado com o rosto e a voz de um estudante de escrita criativa na Universidade das Filipinas a falar de “caixas secas”. Como a casa onde vive fica inundada várias vezes por ano, ele substituiu as suas estantes por caixas de plástico duro e impermeável que podem ser seladas. Assim, os seus livros ficam em segurança na nova época dos tufões — a nova normalidade de um clima em mudança.
Mas no melhor dos mundos pós-letrados, não nos afogaríamos uns aos outros em memórias brutas e confusão cerebral da vida real. Aprenderíamos a trabalhar o fluxo de imagens e sons, a não nos embriagarmos com a intensidade das impressões enquanto percorremos os mundos interiores uns dos outros. Arquivos perenes de música e artes visuais ajudariam a estruturar o que “pensamos” para, e em direção, aos outros. E quando cada ato de comunicação se torna uma Gesamtkunstwerk, (obra de arte total) legiões de artistas são necessários como professores. E alguém para nos proteger de trolls, de invasões hostis de imagens, do roubo de dados bancários e de falsificações políticas.
Mesmo assim, os abastecimentos de energia provavelmente não se terão multiplicado, e as pessoas ainda serão obrigadas a trabalhar na realidade material, a cortar o cabelo e a limpar cozinhas. Talvez sejamos nós. Os nossos salários são baixos demais para conseguirmos obter o implante da “Interface Wagneriana” — tudo o que temos é a versão básica, que permite a transmissão de comandos limitados e alguns fluxos prontos para “alegria”, “tristeza” ou “sexo na mesa da cozinha”. Ainda assim, alguém certamente vai transformar a pista sonora motivacional fornecida pelos empregadores em batidas verdadeiramente emocionantes, despertando emoções disfuncionais; vão trabalhar nos glitches, transformar sinais em código Morse. Se não estivermos excessivamente convencidos de nós mesmos, talvez tenhamos tempo de aprender algumas ferramentas simples para comunicarmo-nos. Código antigo transformado em língua secreta. “Falando sobre uma revolução… soa como um sussurro.”
É provável que certas regiões sejam completamente excluídas da nova rede de conexões, os BookNooks apoiados pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento do Livro nas zonas remotas das Filipinas são os únicos pontos de acesso à literatura para famílias sem internet. De acordo com a União Internacional de Telecomunicações, 33 por cento da população mundial ainda não estava conectada em 2023. Por duas vezes em seis meses li ou ouvi falar da possibilidade de regiões devastadas por catástrofes naturais serem abandonadas pelos governos, uma vez que a manutenção de infraestruturas modernas poderá ser demasiado dispendiosa. Após a aldeia suíça de Blatten ter sido soterrada pelo colapso de uma montanha de gelo em maio, um grande jornal de Zurique colocou a questão: Devemos abandonar as aldeias alpinas vulneráveis? Tais dúvidas foram mais implícitas depois de o ciclone Chido ter atingido a ilha de Maiote, um departamento francês no Oceano Índico, em dezembro de 2024. Em ambos os casos, as dúvidas foram rapidamente postas de lado e prometeram-se milhões em fundos governamentais para a reconstrução. Mas por quanto tempo isso continuará a ser possível e em que países?
Se regiões regularmente devastadas por desastres forem abandonadas e os Estados-nação mais seguros se recusarem a acolher refugiados, cada vez mais pessoas serão deixadas à própria sorte. E podemos encontrar-nos num cenário que lembra a “Trilogia da Fundação”, de Isaac Asimov: nas franjas de um império galáctico, onde o verdadeiro conhecimento sobrevive. Uma tradição secreta. Exceto que os descendentes dos amantes de livros nas ilhas exteriores das Filipinas, onde os tufões tocam a terra, não precisam de guardar segredo sobre as suas capacidades de leitura e de escrita. Num mundo criado e conectado por esplêndidos conectores e Interfaces Wagnerianas, eles serão esquecidos de qualquer forma. Tirando o melhor proveito de informações limitadas, podem ser os únicos que saberão o que fazer quando os suprimentos de energia se esgotarem na Europa superaquecida, na América do Norte e na China. (A sua pequena biblioteca pode incluir anotações deixadas por antigos trabalhadores contratados no exterior em Riad, Seul e Hong Kong — descrições de diferentes sistemas de escrita, normas de circuitos elétricos, receitas para as cozinhas de navios de cruzeiro e cartas a cônjuges. E alguns épicos pré-coloniais das Filipinas que foram transformados em banda desenhada no século XXI).
Mas — sem estar ligada a nenhum dispositivo — penso na objeção de uma amiga filipina de que tudo isso soa como um discurso governamental sobre “resiliência”, objeto de memes engraçados, quando o que os críticos realmente pedem é ação concreta. Ela pertence ao campo que quer que os Estados ajam contra os desastres. Talvez eu me tenha desviado, querendo contar a mim mesma um final feliz depois de ler o Financial Times e me deixar levar por um conto apocalíptico. Este género pode ser parte do problema, pois toma como dado o colapso das estruturas estatais atuais. Manter viva a visão de “En Chair et en Os” implica a esperança de que a maré vire e que políticas estatais razoáveis em matéria de literacia, educação esclarecida e ecologia ganhem força. Para os momentos de desespero, guardo a esperança menor, mas sólida, de que algumas pessoas vão querer sempre continuar a treinar o cérebro o suficiente para encontrar prazer na leitura. Podem assemelhar-se a avós de convicção confuciana a praticar caligrafia, ou a artistas de graffiti a aperfeiçoar o seu ofício até tarde na noite. Cultivar competências inalienáveis — aquelas ancoradas no corpo — não pode ser inútil, independentemente do que venha a seguir.
Quando me perguntam por que não uso LLMs para tradução, a resposta mais honesta é que estes modelos simplesmente não me atraem. Tendo a sorte de trabalhar num ambiente cultural subsidiado por governos locais e federais, posso dar-me ao luxo de me perder em etimologias e melodias, desfrutando da tradução como prática artística e filológica. É um bom trabalho. Encontrar uma voz em alemão para um texto escrito numa língua completamente diferente exige um salto para o desconhecido. Por que razão haveria eu de querer deixar a parte mais emocionante — escrever o primeiro rascunho — a uma máquina?
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A autora: Annette Hug [1970 – ] é uma escritora suíça. Hug licenciou-se em História na Universidade de Zurique e obteve um Mestrado em Mulheres e estudos de desenvolvimento na Universidade das Filipinas Diliman, na Região Metropolitana de Manila. Trabalhou como conferencista e secretária sindical do VPOD. Hug viveu nas Filipinas por um longo tempo e foi ativa no movimento local de mulheres. Actualmente, trabalha como autora freelance em Z7rich e é membro do Conselho de administração da Associação de autores suíços.


