O MEMORANDO MERKEL. De The Economist.

Enviado por Domenico Mario Nuti. Tradução e introdução de Júlio Marques Mota.

Nota Introdutória

Deixem-me contar uma pequena história à volta deste texto. Foi-me enviado por Mário Nuti como um texto a ler, em férias, em Agosto.

Li-o, achei-o com muito interesse, mas no final colocou-se-me a pergunta mais inesperada: mas o que é este texto, afinal? Um relatório enviado a Merkel, por ela solicitado? Nem pensar. Mas publicado pelo The Economist, que representa ele então?

Questionei imediatamente o Mário Nuti que  na resposta passou ao lado da questão. Voltei mais tarde a colocar-lhe a questão e aquilo que para mim era quase uma certeza transformou-me em certeza absoluta: tratava-se de um  exercício de estilo, de alta qualidade, tratava-se de uma análise em que se  estudam  os limites possíveis dentro deste esquema para se sair da crise. E simplesmente não há nenhuma saída, conforme o próprio memorandum  conclui.  Foi assim que o percebi e neste   contexto tanto pode ter sido escrito por um economista à esquerda como por um economista à direita mas provido de bom senso.

A resposta final de Mário Nuti foi a seguinte :

“The Economist “Merkel Memorandum” was undoubtedly a spoof, though very well constructed; paradoxically it demonstrated conclusively the very high cost to Germany of a eurozone break-up, even though such cost was surely under-estimated, because of the under-estimate of trade disruption (à la Comecon), German currency re-valuation, and the loss of most of the euro-seigniorage present value.”

Um texto a ler, diria mesmo de leitura obrigatória, um texto a relembrar mais uma vez a letra da canção Hotel Califórnia que aqui vos deixo. De resto, o memorandum faz ele próprio referência a esta mesma letra de que aqui deixamos um longo excerto:

Mirrors on the ceiling, the pink champagne  on ice

And she said ‘We are all just prisoners here,of our own device’

And in the master’s chambers,

They gathered for the feast

The stab it with their steely knives,

But they just can’t kill the beast

Last thing I remember, I was

Running for the door

I had to find the passage back

To the place I was before

‘Relax,’ said the night man,

We are programmed to receive.

You can checkout any time you like,

but you can never leave

Espelhos no teto, o champanhe rosa no gelo,

E ela disse: “Todos nós somos  apenas prisioneiros aqui, do nosso próprio mecanismo”.

E nas salas dos chefes,

Eles reuniam-se para o banquete.

Eles apunhalam com suas facas de aço,

Mas simplesmente não conseguem matar a fera.

A última coisa que me lembro, eu estava

A fugir  para a porta.

Eu tinha de encontrar a passagem de volta

Para o lugar onde estava  antes.

“Relaxe”, disse o homem da noite,

“Nós estamos preparados  para os receber:

Pode fazer  o checkout em  qualquer altura  que desejar,

Mas nunca pode  saír “

.

Deste texto, do memorandum de Merkel é também esta a lição que se tira, ou seja que dentro do sistema, dentro do Hotel Califórnia, dentro da zona euro, não há saída para a crise, não se pode sair sozinho. Só há saída se alterarmos as regras, se alterarmos o mecanismo que nos condiciona, our  own device, e esta alteração  quem sabe, talvez passe, se nada mais mudar, por todos os países da zona sul da Europa com a França incluída  abandonarem em conjunto a zona  euro, ou seja, se os países que estão a ser esmagados  fizeram saltar ou o próprio Hotel refazendo-o completamente ou, alternativamente, fazendo sair o porteiro que tudo condiciona, a Alemanha, e reformulando o que neste Hotel deve ser reformulado.

E boa leitura, para um texto espantoso.

Júlio Marques Mota

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