Selecção, tradução e introdução por Júlio Marques Mota
Parte III
(CONCLUSÃO)
As taxas de juro dos títulos de dívida pública
A oferta do BCE para comprar títulos do governo espanhol e italiano – se esses países pedissem ajuda financeira e concordassem com os termos impostos em troca do apoio – iria fazer baixar as taxas dos empréstimos obrigacionistas, as quais aliás baixaram na expectativa de tal vir a acontecer. Ainda assim, estas compras pelo BCE não irão fazer baixar os custos do crédito concedido às empresas e aos consumidores nesses países porque os respectivos bancos continuarão a pagar taxas de juro mais elevadas para se financiarem, segundo afirma Gallo do RBS.
De modo diferente do que aconteceu nos Estados Unidos, em que as compras de títulos pelo Federal Reserve, em 2009 e 2010, fizeram imediatamente baixar as taxas de juro do crédito hipotecário, não há na Europa uma conexão tão forte entre as taxas de juro das obrigações e as taxas de juro dos empréstimos bancários, disse Gallo.
O aumento dos custos de financiamento para os bancos italianos é puramente um reflexo dos custos da dívida soberana nacional e não uma qualquer fragilidade do sistema bancário, segundo o Vice-Director Geral do Banco da Itália, Salvatore Rossi. Quando as taxas de juro dos títulos da dívida pública baixam, os custos de financiamento para os bancos também devem baixar, afirmou.
Círculo vicioso
“O nosso sistema bancário estava em boa forma antes da crise”, disse Rossi numa entrevista em Nova York. “Se o spread baixar, as condições do mercado de crédito tornar-se-ão mais fáceis, contribuindo assim para travar um círculo vicioso, que está a penalizar a actividade económica.”
Tal spread, a diferença entre as taxas de juro dos títulos da dívida pública italiana e as taxas dos bunds da Alemanha, caiu ontem para 342 pontos base, de um pico de 536 pontos base registado em Julho. Um ponto-base corresponde a 0,01 ponto percentual.
Embora os bancos italianos sejam afectados pelo excesso de dívida pública nacional, algum aumento do custo de financiamento bancário resulta de um nível crescente de crédito malparado, disse Gallo. O rácio do crédito malparado relativamente ao crédito total na Itália quase triplicou desde 2008, atingindo 5,6 por cento em Maio, refere a Associação Italiana de Bancos.
Os dirigentes da União Europeia reconheceram os perigos de um sistema bancário a dois níveis, que são ainda mais acentuados pelos fluxos de depósitos dos países do Sul para os países do Norte e pela divergência de custos dos empréstimos.
“Nós não podemos estar agora preocupados com estabilidade dos preços quando temos uma zona euro a fragmentar-se”, disse o presidente do BCE, Mario Draghi, aos dirigentes europeus, em 3 de Setembro.
União Bancária
Draghi disse que o plano do banco central para comprar dívida soberana responde às divisões apontadas. Os líderes da zona euro também responderam com a tentativa de estabelecer uma união bancária. Garantias de depósitos partilhadas em comum, um regulador central e um mecanismo de solução para os bancos insolventes que seriam apoiados por um fundo comum dos Estados membros, fariam reduzir as preocupações dos clientes dos bancos de perderem o seu dinheiro no caso de os bancos irem à falência, fazendo assim estancar a hemorragia dos depósitos bancários dos países do Sul para o Norte.
A Comissão Europeia explicitou a proposta desta união bancária na semana passada, tal como acordado pelos dirigentes europeus em Junho. A Comissão, nesta fase inicial, está centrada na questão da supervisão centralizada, deixando os restantes elementos, tais como a garantia de depósitos, para abordagem posterior.
Mesmo a proposta de supervisão gerou muita controvérsia. Embora haja acordo de que o BCE deva desempenhar um papel fundamental na fiscalização dos bancos, os Estados membros da UE estão divididos sobre a interacção entre o BCE e a supervisão bancária a nível nacional, bem como sobre o âmbito das suas competências.
Um caminho difícil
A Alemanha, que gastou, em 2008, cerca de 50 mil milhões de euros para resgatar as suas instituições financeiras em crise, opôs-se a colocar todos os bancos sob a supervisão do BCE. Na reunião dos Ministros das Finanças em Chipre, na semana passada, a Alemanha foi secundada pela Holanda nos avisos contra uma transição precipitada para a supervisão central, ao mesmo tempo que países que não pertencem à zona euro, como a Suécia, criticaram o plano por não proteger aqueles que estão fora da moeda comum.
Embora uma união bancária seja vista como um primeiro passo para uma zona euro mais integrada no domínio fiscal, conseguir isso será politicamente um grande desafio e demorará muito mais tempo do que se possa pensar inicialmente, de acordo com Alexander White, analista de política europeia do JPMorgan Chase & Co, em Londres. Os dirigentes da zona euro tinham pretendido que a criação de um supervisor central europeu tivesse lugar em Janeiro, uma data que agora parece claramente improvável, disse White.
‘Ficaram ainda por esclarecer questões políticas muito importantes sobre quem paga por tudo isso, como é que funcionam os mecanismos de protecção e assim por diante,” disse White durante uma teleconferência com clientes na semana passada. “As propostas vão ser muito difíceis de aceitar por muitos dos Estados-membros. Irá ser um caminho muito difícil de trilhar.”

